Conto de Fadas
1 Conto de Fadas
Estávamos em uma aula de biologia numa quinta-feira qualquer. Mais da metade da nossa turma estava fora de sala, organizando a escola para o evento que teríamos no dia seguinte. Alguns alunos gostavam de participar desses eventos, mas a maioria estava lá apenas como uma desculpa para não assistir a aula, era a escola afinal, queríamos sempre fugir das coisas chatas. Mas estava confortável naquela sala quase vazia, havia tão pouca gente que nos sentíamos livres, sentados quase em um círculo perto da professora que estava tão à vontade quanto nós. E nós aproveitamos isso, tiramos os sapatos e apoiamos os pés nas mesas vazias. A aula não era nenhum tipo de matéria importante, era mais alguma discussão sobre assuntos que hoje em dia já nem sei do que se tratam. Mas algo me chamava a atenção. Olhava para o lado e via Camila comendo seus bombons e balançando os pés, esses cobertos por um par de meias brilhantes, o da direita em verde e o da esquerda em rosa, tão vibrantes que pareciam vivos.
— Camila… — Eu sussurrava tentando não chamar a atenção da roda para nós. — Suas meias são meio que… Brilhantes.
— Eu sei. — Ela respondia sem demonstrar nenhum interesse.
— E de cores diferentes.
— Sim?
— E é meio que contra as regras da escola usar alguma meia que não seja branca...
— Ninguém precisa saber que estou com elas.
Não me soou tão cômico na hora, mas agora que penso a respeito, era engraçado ela dizer isso enquanto balançava os pés coloridos em cima da mesa, sem cuidado algum para escondê-las dentro da calça como de costume.
— Mas por que uma de cada cor?
— Ah, é uma história legal. — Camila se virava para mim, finalmente me dando a atenção que eu queria. Eu amava ouvir as histórias de Camila, principalmente quando ela se animava para contar algo inesperado. — Minha irmã está viajando, e ontem eu estava sozinha em casa, morrendo de frio e assistindo filmes na sala, quando uma fada bateu na minha janela. — Ela gesticulava com o punho fechado no ar, imitando uma batida numa porta imaginária.
— Uma fada?
— É, uma fada! — Um dos nossos colegas de sala soltava uma risada abafada, certamente ouvindo a conversa, mas disfarçando para não parecer que estava se intrometendo no assunto. — Ela era um pouco menor que a minha mão, tinha umas asas coloridas que nem de borboleta e o cabelo dela era parecido com o seu, bem grande assim, só que azul.
— Você… Viu uma fada de cabelo azul?
— Não azul azul, era mais como um preto brilhante azulado… O cabelo em si era preto, mas ele refletia a luz em azul.
— Tudo bem… E você estava bebendo o que exatamente?
— Eu não estava bêbada! Era realmente uma fada! Sério, ela tava usando um vestidinho de seda colorido e parecia estar com frio, aí eu abri a janela pra ela entrar.
— Camila, quantos anos você acha que eu tenho pra acreditar nisso?
— Ah, eu sei que é uma história difícil de acreditar, mas eu estou vestindo as provas. — Ela passava a mão nas meias, tão coloridas que pareciam realmente algo tirado de contos de fadas. — Assim que eu abri a janela ela pareceu se assustar, acho que eu não deveria ter visto ela, mas ela entrou e ficou tremendo ainda na janela, então resolvi fazer um chocolate quente pra ela.
— E se ela fosse do mal? Você abriu sua janela pra um ser estranho sem medo nenhum?
— Fadas não são más. E o que ela poderia fazer? Meu chinelo era maior que ela.
— E se ela fosse venenosa?
— Que besteira, desde quando fadas têm veneno?
— Me diga você, desde quando elas existem, talvez?
— Elas existem! Enfim, eu preparei aquele meu chocolate quentinho pra ela, e ela pareceu gostar, e disse que faria algo de presente para mim, uma meia.
— Ela sabia falar?
— Talvez ela falasse alguma língua de fada, não sei, mas estávamos conversando por gestos, acho que nos entendemos bem… Então ela arrumou um carretel mágico e começou a costurar voando ao meu redor, e fez essas meias super legais!
— Meias de fada.
— Sim, se você passar a mão nelas vai sentir como elas são legais. — Camila puxava minha mão e a colocava na meia. O tecido era realmente diferente de qualquer coisa que eu já havia tocado.
— Uau, elas são realmente legais. Mas por que são tão brilhantes? E diferentes?
— A fadinha disse que eu estava precisando animar um pouco meu visual, e que as cores iam me trazer boa sorte.
— Bem, isso certamente não é uma história muito convincente. Mas essas meias não me parecem normais.
— Eu sei, mas você precisa acreditar em mim! foi exatamente isso que aconteceu!
Camila não costumava tentar me enganar, mas ela conseguia distorcer as coisas de formas fantásticas, não era incomum ela contar uma história inacreditável pra depois perceber que não foi tudo exatamente como ela se lembrava, mas nunca chegava a inventar nada tão absurdo. E a vida dela também não era a mais normal de todas, ela sempre passava por situações inusitadas, então tinha as melhores histórias para contar. Mas ter recebido meias de uma fada parecia loucura até para a minha mente inocente da época.
— Olha… — Ela continuava tentando me convencer da história. — Se você quiser provas, ela me disse que se eu deixar uma xícara de chocolate quente na janela, ela vai voltar e me deixar algo em troca. Então talvez você possa vê-la.
— E por que não me disse isso antes? É claro que eu quero ver uma fada.
— Ótimo, então que tal você vir dormir na minha casa hoje?
— Claro, mas eu também vou querer chocolate quente.
Fui para a casa de Camila naquela noite, não era incomum eu dormir por lá, principalmente quando a irmã dela viajava. As duas irmãs moravam sozinhas ali, e quando a mais velha viajava a trabalho, Camila gostava de me chamar para não passar a noite sozinha. Ficávamos vendo filmes, contando segredos e conversando sobre a vida. Ela fazia o melhor chocolate quente que eu já conheci, cremoso e docinho, certamente parecia bebida de fada, e naquela noite deixamos uma xícara perto da janela, esperando a visita do pequeno ser. Eu acabei dormindo em algum dos filmes que assistimos, e acordei apenas no dia seguinte, vendo um par de meias novinho colocado em meus pés. Eu não sabia como eles haviam parado ali sem que eu percebesse, mas eram confortáveis, do mesmo tecido que as meias de Camila, mas menos brilhantes, vermelhas com um desenho em amarelo de uma fadinha no pé direito. Eu levantava e olhava na janela semi-aberta a xícara agora vazia, enquanto Camila ainda dormia no sofá. Eu não sei explicar o que mais teria acontecido ali se não fosse a existência de fadas.
Deixar uma xícara de chocolate na janela virou uma rotina que fazíamos em nossos encontros, e cada vez que fazíamos isso, um desenho novo surgia em meu par de meias. Eu nunca vi uma fada pessoalmente, mas tinha provas o bastante para acreditar nelas. E foi nossa diversão por alguns meses, colecionar desenhos em nossas meias mágicas. Hoje, vivendo no mundo corrido das grandes cidades, com tanto barulho e tão pouco verde, não vejo mais motivos em deixar as xícaras de chocolate na janela, os desenhos já não aparecem mais. A magia parece não existir nos prédios cinzas e ruas iluminadas. Mas eu ainda guardo minhas meias, as deixo penduradas na parede como uma recordação pessoal de que fadas existem, e não deixo que ninguém me convença do contrário.
— Lua Calixto
Fale com o autor