Conto das Marés
3 Seguindo Luzes
Notas iniciais
— Não é possível! — a pirata estava pasma – Este lugar...O que aconteceu aqui?
Ainda assustada com a situação que estava o templo, Nami se aproximou da tapeçaria e seguiu por toda a extensão do corte, chegando ao altar. A estrutura de mármore estava partida ao meio até base. Ela fitou a rachadura mais de perto e observou que uma pequena fagulha de luz brilhava fracamente, quase se apagando. A sereia já havia escutado falar daquela singela presença e não pensou duas vezes em aproximar o cajado. Instantaneamente o bastão brilhou forte e absorveu fagulha para dentro de si.
— A pedra! – exclamou Nami, com os olhos alaranjados brilhando em surpresa.
— O que disse? – perguntou Sarah, confusa.
— A Pedra da Lua deixa um rastro por onde passa. Uma coisa que nós os Marai, chamamos de Essência Lunar. – explicou a sereia nadando de um lado para o outro, inquieta. — O báculo foi feito para absorver o poder da pedra e assim libertar sua luz. Se ele reagiu só pode significar uma coisa.
— Quem fez isso com os Solari estava usando o poder da Pedra da Lua – completou Fortune cruzando os braços e mudando para uma expressão mais séria.
Nami olhou a sua volta mais uma vez. Apesar de estar tão perto de concluir sua missão, seu coração estava aflito. Se aquilo era obra da Guerreira Lunar, a missão era bem mais perigosa do que ela pensava. A mulher não só fez com que um povo de guerreiros desaparecesse, como conseguiu controlar o poder do artefato para fortalecer o próprio. Ela encarou a capitã a sua frente. Apesar de ouvir falar das incríveis habilidades da ruiva, ela não conseguia sentir-se segura da vitória. Mas ela não podia hesitar, seu povo contava consigo e ela cumpriria com seu dever.
— Sarah – a voz da sereia reverberou séria no ambiente.
— Sim?
— Se foi a Guerreira da Lua que deixou este templo assim, há uma grande possibilitada de sermos derrotadas. Mortas, provavelmente. Posso te dar a informação que tenho aqui e agora, e então poderá partir. Ou pode ir até o fim e me ajudar. Esta é a minha missão e não sua, decida-se.
Miss ajeitou o corsário sobre os fios vermelhos. Seus longos cabelos estavam presos em uma trança que lhe caía sobre o ombro direito. Estava usando suas roupas de capitã e suas armas, Shock e Awe, estavam presas em seu cinto. A mulher pegou uma delas e a girou no ar, alisando logo em seguida o metal bem trabalhado, enquanto falava:
— Nami, você acha que eu cheguei até onde estou sem correr... riscos? – ela começou a andar até a sereia. Seu olhar estava frio e sombrio, como o mar impuro das Águas de Sentina – Enfrentei tripulações inteiras, afundei navios, mandei centenas de homens para as portas da morte, acha mesmo que uma vadia louca de armadura pode me assustar?
A ruiva encarava a criatura face a face, tão perto que Nami podia sentir a respiração da outra contra a pele do seu rosto levemente esverdeado. Ela se atreveu a mergulhar nos orbes cinzentos da pirata e pode sentir o medo que eles impunham àqueles que entravam em seu caminho. Agora não era difícil de imaginar as atrocidades nos rumores sobre a famosa Caçadora de Recompensas. Homens presos em caixões ou barris, sendo lançados ao mar para morrerem afogados e alimentarem os peixes, bandidos mortos friamente à queima roupa. A beleza da mulher escondia uma assassina vil.
— Se esta é a sua decisão, então devemos seguir. – Nami recuou e nadou até ficar ombro a ombro. – O brilho do cajado nos guiará até a Pedra, não temos muito tempo até que a centelha seja absorvida por completo.
A sereia ergueu o báculo e a luz se intensificou na direção da quarta câmara ao noroeste do centro do templo. Ambas seguiram o sinal em passos apressados e firmes, com uma nova determinação em seus olhares e em suas mentes. Caminharam durante alguns minutos desviando os olhares de vez em quando para admirar a beleza do túnel repleto de imagens esculpidas nas paredes de argila. O teto baixo e o espaço estreito,era um tanto quanto claustrofóbico para Nami, que sempre nadou pela grande extensão azul do oceano. Já para Fortune, era tão confortável quanto o porão do seu navio, onde guardava seus prisioneiros. Não demorou muito para que a claridade do sol invadisse a galeria e a saída se mostrasse.
Haviam saído em cima de um pequeno morro, adiante delas a cidade do Sol lhes dava as boas vindas. Casas eram perfeitamente esculpidas e construídas em cadeias. Caminhos de pedra compunham as ruas que tricotavam entre si, criando grandes quarteirões. Era possível notar a presença de pontos de comércio e até mesmo um porto bem no final do alcance da visão. Mas a construção que mais chamava a atenção era um imenso coliseu no centro da cidade. Com quatro andares e arcadas delicadamente decoradas, o centro de entretenimento era todo esculpido em mármore opaco. Não era possível afirmar sua altura na distância que estavam, mas Fortune arriscaria que media uns cem metros no mínimo.
— Incrível! – exclamou Nami sem conseguir conter a admiração.
— Os malditos sabem mesmo construir uma bela cidade. – disse Sarah. – Porém há algo estranho.
— Como? – perguntou a sereia se virando em sua pequena poça de água enfeitiçada.
— Somente o templo foi degradado, a cidade ainda está intacta. Não há nenhum arranhão sequer.
— Os moradores também não estão aqui. – observou a conjuradora voltando para sua faceta séria. – Vamos descer e investigar.
E assim fizeram, ao lado de onde estavam havia uma escadaria que levava à entrada da cidade. M. F. seguia Nami sempre com os olhos abertos e perscrutando cada casa vazia, mesmo que estas parecessem abandonadas, a ruiva não abaixava a guarda. Uma coisa que havia aprendido em Águas de Sentina. O silêncio é o melhor aliado da morte.
Nami parou de supetão, fazendo com que a pirata tropeçasse em sua cauda e quase caísse. Ela soltou o báculo de forma urgente, a luz então soltou um ultimo brilho intenso e então se apagou.
— O que houve?
— A pedra está aqui, a essência tentou se libertar sobrecarregando o cajado, mas estava fraca demais e se dissipou.
— Tem certeza?
— Absoluta. – ela meneou a cabeça em uma concordância firme. – A pedra está em algum lugar dentro deste coliseu.
Fortune olhou para trás da sereia. O coliseu erguia-se majestoso, tão grande como qualquer coisa que a pirata já havia visto e tão alto que seus olhos se encontravam incapaz de enxergar o topo.
Abaixo de vários metros de terra, em uma câmara secreta, uma mulher lutava contra fortes correntes. Seus pulsos brancos apresentavam manchas arroxeadas devido à agitação da jovem. Arfante e cansada, a prisioneira deixou-se sustentar-se pelas correntes, relaxando os braços e a cabeça, fazendo com que seu cabelo vermelho caísse sobre a armadura pesada. Seus olhos castanhos encaravam o chão, buscando desesperadamente uma forma de sair dali.
O barulho das botas de metal sobre o chão de pedra retirou a ruiva de seus devaneios. A parede a sua frente se moveu para o lado e uma mulher de cabelos e olhos brancos entrou com um sorriso confiante e sombrio no rosto. Trajava uma armadura completa e cinzenta em forma crescente. Em sua mão uma espada curva parecida com um khopesh, balançava com o seu andar. A postura altiva e arrogante refletia toda sua confiança sem precedentes. A guerreira chegou bem perto da prisioneira e ergueu seu rosto com os dedos finos, apertando-lhe as bochechas com as unhas opacas.
— Logo, logo o ritual estará completo. – as duas se encaravam cara a cara, e o olhar da mulher de cabelos cor de neve era mortal, assim como a voz firme. – A Lua irá ascender e tomará o seu lugar de direito.
— Você está cega Diana! Olhe para si! – gritou a jovem acorrentada.Tentando inutilmente impedir a outra.
— Cega pela verdade! – respondeu Diana apertando ainda mais o rosto da mulher e levando sua espada ao pescoço da mesma. – E quando a Lua nascer e sua essência, a ultima dos Solari, for absorvida pela pedra, todos estarão!
Ela soltou a garota de cabelos rubros e lhe deu às costas, próximo a porta Diana lhe deixou uma ultima frase:
— Aproveite suas ultimas horas de heresia, Leona. O crepúsculo se aproxima!
E saiu, deixando Leona encarando o imenso cristal prateado que iluminava todo o recinto.
— Grande Sol, me dê forças. – rezou à jovem fechando os olhos.
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