Conto adiado

1 A máquina encadiada


Notas iniciais
O conto adiado, foi meu primeiro Conto. E, também foi fruto de um bloqueio. Trata-se de um desatual porém, brilhante escritor. Dividido entre o medo de ser morto e a redenção da carreira. Numa trama de assassinato e perspicácia. Um belo conto Novaiorquino.

Queens.

Cai a noite, no asfalto suado. Goteiras caem, como notas-gotas de jazz. Ao longe, um metrô furtivo... E prevalecente; uma máquina de escrever. A cadência é fluente. Até o espreguiçar de mais um domingo.

À dedos da meia noite, o escritor em bocejos, pensa num café; indo a cozinha decidido. O café é forte e espesso. Frente a janela, ele o prova; e de pé acende um cigarro. Alonga-se e espreguiça...

Um estampido alveja a madrugada.

Agacha-se bruscamente e desliga a iluminaria. Havendo após, só fumaça à luz ida de um furgão. E na calçada um corpo de mulher.

Um corpo branco de mulher.

Da janela do quarto, olhava os praxes fumando na escuridão.

Não havia gritos de parentesco ou se quer de amigos:

Mídias, moradores, viaturas; cordão de isolamento e flashes de perícia.

E, abstêmio até então; temia ter sido visto e apegou-se ao melhor vinho, assentando-se à cama de molas, à luz janelar que o projetava em sombra, da parede ao teto a partir do chão. — e bebia.

Todavia, maior que o teto; de sua mente para cima, era a estatura da sombra que a ele viria.

Depois disso, suas horas e dias, assim melhor se resumiam:

Não chegava-se a janela, não comia, não dormia, cigarros, café... –sofria sua impotência. Temia sair. Não criava, não escrevia.

E seu olhar de presa à máquina predadora. Vetado e impotente a algo que tão comumente lhe nascia aos dedos.

Dois dias se passaram, e crescia-lhe ainda a barba lixa, até que toca a campainha, e arrastando os chinelos abre-se a porta num médio e cortês: ___Pois não...

–Agentes da polícia depararam-se com a figura branca ainda de pijama:

Homem grisalho, sobrancelhas a idas grossas, nariz pronunciado, vista apertada, porém franca. ___Podemos entrar? –Disseram os agentes.

Os tiras procuravam algo que melhor explicasse o ocorrido da madrugada de segunda.

Mas puxando um cigarro: ___Se importam? -ele traga pensativo, diz que não viu nada.___O senhor não está cooperando – disse Dhamar o agente.

Enquanto conversavam, a agente Morgan ganhava os demais cômodos, observava o entorno; seu fascínio era inevitável, porém, inacessível. Sempre ajeitando o óculos. E via na parede, sua foto bem mais moço. E ao lado, figuras outras; cultas e atípicas, a que expressava certo magnetismo.

___Escritores. — disse ele, esquivando olhares. Ela, porém, em sinal de positivo:

...Guimbas de cigarro, papéis no chão, uma média de café provado.Garrafas de vinho ao lixo. E na máquina um texto ainda não terminado.

___Sou aposentado. Times, redação. Atualmente sou colunista do Audio-post na WKF, todos os sábados. – E se distrai...

___Estava a alguns meses escrevendo algo que me daria uma certa dignidade, um ótimo conto! Tudo ia bem até que...

Morgan tinha franjas e um “que” de mistério, mas nada comparado a seu faro detetivesco. Logo notara que o ocorrido, tirara-lhe todo o sossego para escrever.

Preferindo então, dar-lhe o devido chão de sobriedade...

___Ja que diz não ter visto nada, é bom que esteja a par de algumas coisas:___O chefe apreendeu o vídeo de uma entrevista com moradores locais à polícia; onde ao fundo, consta uma testemunha ocular, exatamente aqui. Da sua janela. ___E pior... ___O senhor não viu. Mas pode ter sido visto. E caso não tenha notado... Pode estar correndo perigo.

E vetando-lhe a reação, diz Dahmar: ___A testemunha fumava exatamente de sua janela senhor, tragando várias vezes.

E acrescentou: ___O senhor não viu. Mas pode ter sido visto. E caso não tenha notado... Pode estar em apuros.

E em cônscia gravidade, fora acometido de um misto de horror e casca de machismo.

___Tome o nosso cartão. – disse a agente. __ Ao lembrar-se de qualquer coisa, fale conosco.

E ajeitando o roupão pareou-se a porta: ___Agora, se me dão licença...

E mais tarde... Então chovia.

Embaça o vidro da janela estaqueado... E sob a luz de um poste em brasa, há poças em chapisco. O medo enche toda a sala, – liga o som... — é jazz vintage.

–Olhava a máquina; velha amiga encadeada.

–Pensava na distinta e necessária matemática das causas. –via-se, produto de uma catarse. Como um mal necessário, a dar alma e carne à sua obra.

Sobre a máquina; o corte em linha faca e simetria, propunham um duelo; parte luz, e sombria.

Roía os dedos, olhando a meia lua. Tomava pílulas. Sentia da morte, um raspar de foice. E na mesa, ao vão do lado; cuspia a lasca foice de uma unha. Tudo lhe era: vírgula. Pensava em queima de arquivo. Pensava seu conto adiado...Outrora forte e rijo, agora mutilado. E atira a garrafa à parede.

Que em sua mente, processa como um tiro.

E no silêncio seguido de outro; na vítima parede, ha sangria de vinho. Sentía-se um cagarolas. E por capricho, demorou-se nisso.

...Até ser acometido por um transe ou estagio de elevação.

Não seria exagero vê-lo como uma criatura, talvez do próprio hábito, rompendo o seu farpado. Derramava-se, exaustivamente.

Até que o sono, o rouba sobre a máquina.

... Sonhava — Um furgão frente a janela... Que aos poucos, em seu vidro lento; encolhia o olhar de um homem frio. Quando um estouro-clarão, ao fundo, o despertara num imaginário estampido.

Paranóia, pensara ter alguém forçando a maçaneta.

E se estica favorável à janela. Estava a deriva de um opala, em ronda. Coincidência ? -ele transpira... E o sono em peso vence-o profundo.

E desperta. A mil pardais amplificados, não antes de o sol, teimar-lhe um bronze. -Toca a campainha.

Porém, estava feliz. Olhara a produção de dias numa só sentada. Um verdadeiro calhamaço, e de boa qualidade, faltando-lhe apenas o final. Isso lhe introjetara um momento de paz em meio a todo o seu tormento.

– E ja à porta: Era a agente Morgan, Dhamar a esperava no carro.

Dizia: terem sido procurados pelo suposto pai da garota, um exêntrico político de New Jersey. O furgão era de uso pessoal, por isso monitorado via satélite. Já a sua filha...Chamava-a de "perdida", por ter se envolvido com um figurão do tráfico local. Que "O atrapalhava" na vitrine dos negócios. — e ajeitando o óculos disse:___Estamos fazendo progresso, o caso segue em processo de investigação então... Não saia de casa e nem se exponha muito...

Ele a ouvia como um, que após todo o caos; pensava-se perdido em seu hálito de menta, beijando-a lentamente — Senhor... — concluía ela, num tom quase professoral; buscando-lhe ouvir o nome...Mas toca o telefone.

Morgan então aparelha-se a descer ...

___ " Não vá ! " — dirigindo-se a sala à atender a chamada. – de lá, tampa o telefone e grita:___Hoje é quinta. Vão postar uma tradução minha na coluna de amanhã, na WKF! Todo o sábado eles a reprisam às cinco da tarde.Quero que ouça.

__Ok! Cinco da tarde. — e assentindo, Morgan desse as escadas. ___Fique bem!

E agora, renovado; senta-se à máquina. Busca o vento a favor das velas de um grande final. -quando de arrasto um envelope é jogado por baixo da porta.

Achara estranho, pois indo a janela não havia ninguém dos correios; aliás, não havia ninguém.

No envelope: o timbre da Buterfly, uma Editora de renome. Por dentro, a marca de um horário com um contato da empresa, na Staten Island. Seria no jardim de pedra da Estátua da Liberdade.

A exigência única era de que trouxesse sua obra mais recente; terminada ou não, à fins de contrato. – O bilhete cartão, despedia-se: o parabenizando. Minutos depois... E esquecera-se das tensões e clausura.

Ja apertava ao braço, o seu “conto adiado”.

Havia nele; Outonal beleza. Sorria do ônibus às árvores idas, de galhos secos e pulmonares do Queens.

–horas depois e descendo em Manhattan, ia em direção a plataforma... Ja se via "o famigerado Escritor".

Aceso o charuto, completava o tipo.

Enfim, estava em festa. Um brilho lhe saltava aos olhos...

À luz retórica da agente: rosto pálido e beleza alongada.

Na balsa, sobre o rasgo da Bahia, desfolhava sua obra, relia as partes de conflito — pensando ainda num final. E também em: Morgan.

Subitamente; deixa a orla, um desatento clarão seguido de estampido.Sentira no peito, uma pressão. Suas pernas falharam e debruçou-se ao parapeito. E na mão à barba, em pasmo praxe... Ouvia a menina do algodão doce: "__Está sangrando".

Estáva atravessado, e se vendo; escurecido... Borrifando às folhas idas... Uma a uma...aos sulcos das espumas.

( ... )

–Logo após: A central chamava todas as unidades...

Cinco da tarde de um sábado e num carro patrulha; ao retrovisor... Alguém ajeita os óculos, tendo ao fundo a Estátua da Liberdade.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!