Notas iniciais
Agradeço-te por doar-me um pouco de seu precioso tempo.

Conto: Uma viajem de lucidez

— Olá, bom dia. Sente-se por favor.

— Olá doutor.

— Olá. Vamos dar continuidade com o seu tratamento. Eu gostaria de saber sobre aquele sonho que o senhor estava falando, mas eu preciso saber dos detalhes.

— Não era sonho. Realmente aconteceu.

— Tudo bem, tudo bem, continue, por favor.

— Eu estava na minha casa, fazendo meus afazeres de sempre. Naquela manhã o dia estava tranquilo, fresco e céu limpo. Quando que comecei a sentir uma sonolência fora do comum. Fui me deitar na esperança de que fosse apenas uma queda de pressão ou desidratação. Pouco tempo após me deitar eu já estava me sentindo mais disposto, ergui meu corpo e sentei na cama, fitei meus pés por alguns segundos e instintivamente olhei meu lado direito, para fazer diminuir o esforço das pernas com ajuda do meu braço. Eu me vi, eu estava sentado, mas vi meu corpo ali que estava deitado. Eu não consegui entender o que estava acontecendo. Dei um salto de susto da cama e olhei pras minhas mãos e olhava pra mim na cama, toquei meu rosto ali apoiado no travesseiro e esfreguei meus olhos para ter certeza que eu não estava tendo alucinações. Eu pensei que estava sonhando, mas hoje tenho certeza que eu não estava. Eu não tive muito tempo para processar o que estava acontecendo quando me senti sendo puxado por uma força incrivelmente forte. Eu estava sendo erguido, meu corpo na cama, eu o vi quando estava passando por dentro do teto de minha casa, o segundo piso, o teto, o quarteirão, o estado, o país, o logo me vi olhando o globo azul que nesse momento parecia tão pequeno na imensidão do espaço sideral. Eu estava próximo ao nosso satélite natural, a lua, e a força desacelerou a puxada, senti que eu deveria observar bem e guardar essas imagens no coração. Acredito que com um minuto de lentidão a força voltou e repetiu o processo quando passei perto de Júpiter e do cinturão de asteroides externo. E num piscar de olhos eu estava admirando a via Láctea, me senti inundado com o brilho que ela exalava. Sendo puxado um pouco mais, eu me deparei com um pulsar, uma estrela de nêutrons magnífica, o famoso farol espacial. Após isso a velocidade não diminuiu até que eu me aproximei de uma galáxia bem parecida com a via Láctea, mas ela girava de lado oposto. Pisquei e me vi diante de uma VY Canis Majoris, uma estrela de dimensões inimagináveis, na minha frente ela se encontrava imensamente grande, e mesmo sendo puxado a luz ficava ainda mais forte, e mais e mais a estrela aumentava seu tamanho, o brilho era tão intenso que mal conseguia manter os olhos abertos. Eu imaginei que seria aquele momento que eu iria ser apagado, mas eu senti algo tocar meus pés, para todo o lado que eu olhasse apenas havia luz. Eu não escutava nada, o único estímulo sensorial que foi ativado. Foi o toque nos meus pés. Eu estava descalço e o chão me trazia o sentimento de eu estar tocando a grama. Mas eu não via nada nos meus pés além de luz, tentei andar como se anda no escuro, mas a insegurança me tomou conta, eu não dei mais que cinco passos bambos, estiquei os braços procurando contado com alguma parede ou algo que eu pudesse tocar, mas eu não conseguia. Desisti e me ajoelhei, senti o pânico tomar conta de mim coloquei as mãos no rosto para chorar e para minha infelicidade eu não conseguia ver minhas mãos. Eu sentia elas, sentia meus rosto e corpo, mas não via nada apenas uma luz forte.

Nesse momento o terror tomou conta de meu ser. Respiração pesada, coração descontrolado gritei de desespero, me surpreendi, pois eu não escutava minha voz, conseguia sentir minha garganta vibrar , mas nem um som, berrei o quando o mais forte que conseguia, senti que minhas cordas vocais iriam se quebrar com tanto esforço mas nada de som eu estava enlouquecendo. Parei para tentar me acalmar, pensei em tudo que vi, tudo que aconteceu a alguns minutos atrás. Sim! Minutos! Isso se deu trinta minutos, mas o que eu acredito ser impossível. Meus pensamentos foram interrompidos com um toque no meu ombro seguido de um sacode. Pensei comigo que alguém estava tentando me acordar, era a prova que eu precisava que estava sonhando, fechei os olhos, mas entendi que não era sonho. A luz continuava intensa mesmo com os olhos fechados. Berrei desesperado para que alguém me ajudasse, alguém pudesse me socorrer. Senti meu braço sendo puxado me forçando a andar. Senti a cocheirinha que a lágrima causa no rosto ao escorregar pela pele uma após a outra, tornaram-se contínuas, eu estava em prantos de desespero. Meu braço deixou de ser puxado, eu estava soluçando, fiquei parado tentando me livrar das lágrimas, senti um toque suave no meu rosto limpando minhas lágrimas, nesse momento meu braço voltou a ser puxado e fui colocado a correr, eu não sabia pra onde eu estava indo ou com o que eu estava indo, mas senti que precisava. Era a única coisa que eu me agarrava, como se minha vida dependesse disso. Parei de correr, fiquei em pé parado por alguns instantes, por algum momento senti algo como uma brisa suave no rosto. Afinal, onde eu estava. Senti duas mãos sobre meu peito me empurrando. Um abismo? Essa correria todo para eu ser apagado? Então acreditei minha vida em algo que no final teria o mesmo fim...

Macio, sentei em algo macio. Apalpei com a mão, macio. Minha mente só tinha a palavra, macio, macio, macio. Minha felicidade momentânea foi interrompida com uma dor intensa e aguda no braço esquerdo. Eu estava perdendo o sentido, minha visão estava escurecendo, nunca me senti tão bem sendo envolto por algo como a escuridão, perdi os sentidos.

— Então deixa eu recapitular. Você estava em casa quando desmaiou, devido ao calor e sonhou com isso, certo?

— Não doutor. Realmente aconteceu, deixa-me continuar te contando. Depois daquela dor que senti no braço eu acordei ainda estava tudo em luz, mas eu senti meu corpo deitado, no que puder sentir era uma cama. Mas eu já podia escutar os sons, eu fiquei feliz, mas preocupado. Tentei levantar, meu corpo estava extremante pesado, uma mão me impediu e disse narknafrest, um dialeto que um não compreendia, mas entendi que eu deveria ficar deitado. Curioso, eu perguntei onde eu estava e ao invés de me responder a voz disse Who brought you here? e foi a única coisa audível que escutei. Me orientando pela audição percebi que a pessoa se levantou e saiu de onde eu estava.

Notei que eu escutava pássaros e pessoas conversando ao fundo, tudo parecia tão comum, como se eu estivesse em um país estrangeiro.

Escutei passos novamente, parecia ser de duas pessoas. Notei que uma delas se manteve na porta e a outra se aproximou bem perto de meu ouvido e disse Do you hear me? Eu sei que aquela língua que eles estavam falando era o inglês, mas eu não sei falar a língua. Eu não tive outra escolha além de falar a verdade. Nesse momento senti outra dor aguda no braço e voltei a dormir.

— Você está acordado?

Por incrível que parece, eu escutei bem claro o que aquela mulher disse. Ainda meio tonto devia ao meu recente despertar. Eu não disse nada, mas notei que estava tudo escuro. Eu não vi a luz ofuscante, levei minhas mãos aos meus olhos e senti ataduras. Minha primeira reação foi entrar em pânico, mas me acalmei quando percebi que desde aquele estranho encontro meus sentidos estavam voltando finalmente eu a perguntei:

— Onde eu estou e o que aconteceu?

— Onde você está? Pois bem, você não deveria estar aqui, vamos punir severamente que te trouxe aqui.

— Como assim quem me trouxe? Ninguém me trouxe aqui. Nem um momento eu estava em casa e no outro eu apareci nesse lugar estranho.

— Estranho? Estranho eram suas ações lá no parque. Gritando e chorando, parecia um louco. Essa é a primeira reação desse tipo que recebemos. Quem te trouxe devia ter informado para ficar parado que iríamos a seu encontro.

— Mas é o que eu estou dizendo, ninguém me trouxe.

— É impossível encontrar esse lugar sem que seja chamado. Há uma explicação ainda, só que não sei. Você está em Kiasalahr, um planeta artificial camuflado e bem localizado em uma super gigante. Somos a primeira civilização humanoide existente.

— Depois de tudo que vi... Você não mentiria pra mim. Quanto tempo eu estou aqui?

— Puxamos seu Taksulu e apontou para o que vocês chamam de Planeta Terra. Você está aqui a trinta dias na contagem do seu planeta natal. Precisamos te operar, muita coisa em você teve que ser removida e acrescentada. Você é um ser tridimensional, somos seres de doze dimensões. Muita coisa teve que ser aproximada no seu cérebro, mas os seus olhos foram removidos completamente.

— Então... Eu estou permanentemente cego?

— Não, tivemos que implantar olhos novos.

“Você não é capaz de ver o que sua mente não pode interpretar."

— Entendo, mas quanto tempo ainda devo permanecer assim?

— Somente mais alguns minutos, a câmara está sendo preparada nesse instante. Mas por enquanto descanse, eu não vou sair daqui.

— Tudo bem. Qual é o seu nome?

— Kithualash

— Kitu... Kitu o quê?

— Kithualash.

— Kithu... alash...

— Isso mesmo. Descanse.

— Aproposito, sou Miguel.

Eu peguei no sono novamente, aquilo tudo que meu corpo sofreu muito estresse com as cirurgias. É certo que me levaram para a câmara reparadora de tecido.

No dia seguinte eu acordei.

— Está na hora Miguel, levante.

Uma explosão de cores e formas invadiram meus olhos. Pode ver o quão belo era o lugar e finalmente o rosto da pessoa que esteve ao meu lado.

— Não me olhe desse jeito. Nosso povo não tem forma, não tem características. Nós não nos alimentamos, não bebemos, não nos reproduzimos. Apenas existimos, e quando precisamos aumentar a população, recrutamos novos membros.

— Vocês... O que são vocês?

— Somos luz. E agora você é um de nós.

"Você teve que renascer. Deixar de ser o que foi ensinado a ser. Você teve que negar sua existência para ter a real existência. Você teve que deixar de sentir para descobrir o verdadeiro sentimento."

"Você teve que se esvaziar para aprender o novo"

— Eu tive que negar a mim mesmo. Para ser melhor.

— Levante Miguel, vamos caminhar um pouco.

Eu estava numa sala pequena, mas não reconheci nada tudo tinha forma diferenciada. A cama não existia, eram fios que criavam um campo de força. Eu estava em uma espécie de hospital. O exterior ainda era mais belo, tudo bem verde, bem cuidado, todos viviam em harmonia com a natureza.

— Olhe em sua volta Miguel, você concorda que aqueles que não entendem o motivo de nossa existência não podem cuidar disso da mesma forma que nós?

— Acredito que mudamos o que nos envolve por interesses individuais.

— Também, mas a verdade é porque não evoluíram a mente, o pensar.

— Como assim Kithualash?

— A mente não é numa máquina replicadora, ela está em constante criação. Esse é o verdadeiro funcionamento dela. Poder de criar tudo do nada.

— Se eu não estivesse por aqui eu diria que é impossível, mas por alguma razão eu sei que é possível. Por quê?

— Porque sua mente não é a mesma. Ela sabe, pois é una com o Drusus.

— Universo... Quando eu aprendi seu dialeto?

— No seu renascimento.

— Então quando cheguei aqui o motivo de eu não conseguir escutar, falar e ver foi porque meu corpo não estava apropriadamente pronto?

— Em partes sim, mas o real motivo disso foi porque estamos em um ambiente de 12 dimensões e você compreendia apenas até a 3 e a mente humana infelizmente só consegue até a décima primeira.

— Você poderia me explicar o que são essas 12 dimensões?

— Sim, eu posso. Mas você ainda não conseguirá entender. Mesmo você ter sido forçado à evolução, você ainda não aprendeu a usar os seus novos sentidos.

— Como assim? Eu ainda não entendi.

— Por exemplo. Sabe-se que os seres humanos podem se localizar pela eco localização? Você se localizava através desse método?

— Não. Na verdade Eu nem sabia disso.

— Exatamente. Primeiro você precisa praticar, aperfeiçoar e principalmente se adaptar. Como alguns cegos o fazem.

— Existem cegos capazes de "ver" ao seu redor? Estou surpreso.

— Não no sentido de "ver" literal, mas de sentir onde estão, de virtualizar sua posição em relação a algo. No sentido de saber que algo está ao seu redor. Os seres humanos são capazes de fazer muitas coisas surpreendentes, é uma pena que a grande maioria se tornam medíocres.

— Concordo que não temos fé em nosso potencial e sempre achamos fantástico quando ouvimos ou vemos algo que antes era considerado "impossível".

"O impossível só é impossível quando ninguém prova o contrário"

"Algo impossível, em suma, quer dizer que não tens o conhecimento suficiente para aquela Era atual".

— Tudo o que você imaginar pode ser criado, a diferença entre o imaginar e o criar é o conhecimento que você tem sobre esse projeto.

— Mas como assim?

— Pessoas de eras passadas nunca imaginariam que os seres humanos seriam capazes de voar.

— Consigo compreender o que você está dizendo.

— O que eu estou dizendo é que somos capazes de tudo, de tudo o que conseguirmos imaginar e pra isso não há limites. Ou você sabe me dizer até onde vai a imaginação humana?

— Se não conseguir imaginar, não há conceituação, não há formulação e nem ilustração e muito menos a concepção. São os princípios básicos para a criação.

— Agora faz mais sentido o motivo de eu ter me sentindo daquela forma em que cheguei aqui. Mas aqui é lindo, lindo demais de forma que não existe palavras em meu vocabulário para explicar. Mas na língua que eu aprendi há muitas, hamatnanthá, dagnastruslo, zhincgisclo, razamatuzambá, yuoiuntriz... São alguns que vem em minha cabeça agora. Estou maravilhado. Mas estou com uma dúvida, se você não possuem sexo, então como há crianças correndo por aí?

— Nós escolhemos nossa forma física, não possuímos identidade, rosto, ou voz. Somos apenas cargas energéticas, somos luz. Nos apresentamos com forma e vozes apenas para que você possa nos identificar. Você ainda não aprendeu a nos diferenciar em nossa forma natural, estamos apenas facilitando as coisas para você.

— Compreendo. Mas eu vou aprender? Já que agora sou como vocês.

— Lamento em informar, mas não teremos tempo suficiente para te ensinar tudo. Nós nem sabemos como você veio parar aqui.

— Eu me lembro disso mais ou menos, eu estava em um lugar vazio, não havia cor, eu também não tinha uma forma física, nem casa, eu não existia. Mas por alguma razão após um "bum" de informações, meu universo existiu. Passei a ter casa, rosto, sexo e tudo isso em questão de segundos.

— Agora, com essas informações que você me deu eu sei quem te trouxe aqui.

— Sério?! Quem foi esse ser onipotente, onisciente e onipresente?

— Um ser que está aqui, uma pessoa que está fora do nosso plano existencial, ele deu vida a nós, deu existência. Apenas lendo um curto trecho de história. Agora você precisa voltar.

— ... E foi assim que tudo aconteceu.

— Vou receitar uns medicamentos.

— Você não acredita em mim doutor?

— Não cabe a mim dizer isso. Tudo acontece dentro do cérebro de alguém, o que vemos, o que tocamos, o que sentimos, o que imaginamos. Está tudo aí dentro. Quem será capaz de dizer o contrário? Quem dirá que isso não aconteceu? Eu vou te ajudar da forma que posso. Mas eu te agradeço por ter me contado o que aconteceu. Vejo você em um outro dia.

— Tudo bem, obrigado Doutor.

~ Fim ~

Notas finais
Espero que eu tenha conseguido fazer você ver o quanto de potencial você tem, basta apenas você se dedicar.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!