Conto De Fada

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Espero não decepcionar. Criei uma coisa um tanto diferente. Não me inspirei em nenhum "Conto de Fada" existente - que eu conheça. Foi totalmente criado por mim. Espero que gostem.
–– Conto de Fada ––

Capítulo Único

“Todo conto de fadas precisa
de um vilão à moda antiga.
Estranho pensar que
neste conto, ele é inocente
e culpado.”



Os pequenos detalhes da vida são os que constroem nosso futuro. Nosso destino. Portanto o destino não se constroe sozinho, mas sim com base em acontecimentos reais. Talvez seja loucura sonhar e imaginar, porque o que acreditamos ser real pode ser uma mera ilusão. E o que acreditamos ser ilusão, pode ser real. Não sabemos o que é a realidade. Isso é um fato. Então, quem nunca parou para pensar o quão belo é o poder da ilusão? O poder dos contos de fada?



†



Nathan Neroh. Um simples professor de Faculdade de História dava sua aula matinal. O tema era sua especialidade. Atrair a atenção de mais de cem jovens era raro, mas Neroh era especializado em Heráldica e Vexilologia, portanto o interesse era comum para os estudantes de História presentes no seminário. As palavras eram articuladas e completas. O maxilar se movimentava decifrando a história no decorrer de uma aula, e os alunos pareciam interessados. Então o professor continuou seu discurso.

–– Heráldica e Vexilologia são duas matérias irmãs. — Explicava o professor. –– Afinal, elas estudam a mesma coisa, mas sobre áreas diferentes. Brasões. A Heráldica refere-se simultaneamente à ciência e à arte de descrever os brasões de armas ou escudos. Já a Vexilologia é o estudo dos estandartes e insígnias e de suas simbologias e usos. Muitas vezes vemos pela história que o uso desses símbolos nos remete à guerras tanto quanto símbolos de paz! Mas pensem bem. A paz é necessária, somente quando uma guerra já foi feita, e outra está para vir. É um período de transição, então não pensem nesses símbolos como a verdadeira “paz”. — O professor voltou à sua mesa e bebeu um gole de sua garrafa d'água.

Quando pouso-a novamente na mesa algo chamou sua atenção. Acima de alguns papeis seus, Nathan se surpreendeu ao ter ali um livro. Não era seu, e não acreditara ser de um aluno, pois em sua rápida análise, o livro se achava em condições terríveis. A capa parecia ter cem anos, tanto quanto as bordas do mesmo que lembravam um papel carmim, não branco.

Se debateu olhando o livro estranho, mas logo reiniciou seu debate, porém por alguns segundos antes de se virar olhou atentamente o livro que parecia antigo demais.

Ao final da aula, os últimos alunos ja saíam pela porta quando Nathan se aproximou da mesa para pegar o estranho livro. Quando seus dedos tocaram a capa envelhecida sentiu uma tontura. A última coisa que teve consciência foi de uma ardência atroz que subia pelo seu braço e incandescia seu corpo.



†



Nathan caiu de joelhos, o estômago embrulhado e o corpo sacudido por espasmos. Vomitou dolorosamente. Levantou-se vacilante. Tatetou as paredes do pequeno corredor e sentiu como estavam frias, com a ajuda delas pôs-se de pé. Divisou a presença de uma luz dourada que irradiava de um dos lados do túnel. Tentou caminhar até ela. Os pés pisavam em falso, o túnel era escuro. Pelo trecho, Nathan tentava lembrar o que lhe acontecera. Seus extintos lhe diziam para caminhar até a luz, mas como fora parar ali? Uma forte dor de cabeça o empedia de lembrar. Procurou se acalmar se concentrando na tarefa que delegava aos pés. Estava sendo difícil. Seu coração acelerado pulsava como um aviso.

Quando enfim chegou ao final do túnel, a luz o cegou por alguns instantes, depois sentiu uma mão em suas costas e num grio de puro terror, caiu. Gritou tão alto que suas voz falhou. Alguns segundos depois, foi perceber que não estava caindo e sim flutuando num líquido dourado e semi-transparente. Em pura adrenalina, viu a entrada escura por onde havia sido arremessado se fechando.

Estava ficando enjoado, o lugar em que flutuava se movimentava muito. Um terremoto? Um maremoto? Acreditou que não poderia comparar aquilo com coisas “normais”. Sentiu-se envolto de preocupações. Em seu braço direito, havia uma queimadura que ia da palma de sua mão subindo até seu cotovelo. Havia acontecido tão rápido, estava acontecendo rápido. Logo lembrou que havia conseguido a queimadura quando encostara no estranho livro em cima de sua mesa.

Instantaneamente os movimentos bruscos pararam e seu corpo foi sendo levado para baixo. Quando aterrizou no fundo do lugar pode analisar melhor sua situação. Se viu preso em uma cúpula de vidro ou algo parecido. Não ousou se mover. Logo, um senhor de manto prateado se aproximou do professor. O manto fazia contraste com o líquido dourado. De pronto, ele começou a falar num idioma estranho que não identificou a princípio. Os lábios eram grandes e disformes, os olhos eram de um dourado escuro e malígno. Nathan tentou ler suas expressões e tudo ficou claro, embora suas palavras não fossem compreensíveis. Ficou evidente que aquilo não era uma alucinação. Ficou claro, que aquilo era o começo de algo pior.

-- Perdoe-me. — Dizia o ancião enquanto estalava os dedos. -- Esqueci-me que não fala em meu dialeto. Agora deve estar melhor. Está aqui porque preciso de sua ajuda Sir Nathan Neroh. — Eloquente o ancião falava com uma voz arcáica e rouca.

-- Perdão? Quem é você? Onde eu estou? — O professor achou forças para superar o terror e pronunciar uma frase.

-- Agora você está preso nesta ampulheta temporal. O líquido que você está vendo é areia turkg. Uma areia mágica, e faz de você meu prisioneiro até que tenha comprido com meu pedido.

-- Olha, a brincadeira já acabou? Por favor, eu quero voltar para casa. Essa areia que você falou? Eu não me importo, eu só... — De repente Nathan sentiu seu pescoço apertar e sufocá-lo. Era a areia.

-- Não ofenda a areia. Ela ouve suas palavras. Faça o que peço e depois você sera libertado. — O aperto cessou e Neroh pode respirar outra vez.

-- O que você quer de um simples professor de história?

-- História, e conhecimento. É tudo o que peço. Concorda em cumprir minha requisição?

-- E se eu não quiser?

-- Você morrerá.

-- Parece que não tenho escolha. — Suspirou resignado. — O que quer de mim, senhor...?

-- Me chame por Nyx. Sir Nathan, antes de de qualquer coisa, preciso lhe contar uma história. Uma história antiga, de tempos em que nem mesmo a história falada se lembra. De Lenda, ela se tornou Mito, de Mito ela se tornou um Conto de Fada, e depois foi esquecida. Preste atenção, e não se engane. Irei lhe contar um “Conto de Fada” Sir Nathan e lhe digo, não é um com final feliz.

Nyx, se aproximou e segurou Nathan pelo braço queimado e os dois foram transportados para outro lugar. Continuavam em uma ampulheta, se deu conta, mas agora eram minúsculos perto do tamanho do homem próximo a eles. Pareciam invísiveis flutuando ao lado da cabeça do mesmo.

Nyx começou a história. Parecia ele próprio o personagem. Nathan parou e escutou, não havia nada mais que pudesse fazer. A medida que a história era contada Nathan foi forçado por Nyx — desconfiou — a entrar no corpo do guerreiro e vivenciar a história como sua. A voz de Nyx era calma e muito silenciosa, um exemplo de narrador para uma tragédia, pensava Nathan.



†



Dentro de eras, pessoas comuns caçoam do secreto mundo que as envolve. Inventam pretextos, articulam histórias para não enlouquecerem. Comigo não era assim. Sir Mareak Tulik, terceiro de seu nome e senhor dos cavalos sangrentos de Tulik. Um guerreiro que não possuia amor, senão amor próprio e pelo dinheiro.

Naquele dia tínhamos saqueado uma pequena aldeia nas redondezas e resolvi parar minha comitiva para descansarmos naquele local por alguns dias. Estávamos exaustos. Ali perto havia uma clareira. Talvez houvessem frutas e alguns animais estranhos com que eu pudesse treinar minha espada. Adentrei, avisando à meus oficiais para não me esperarem. Mais tarde me dei conta, que um dia pode trazer mais alegria e espanto do que milhões deles.

Andei alguns minutos floresta adento, era estranhamente clara e fechada. Foi quando à avistei perto do lago.

A garota era aparentemente normal tirando-se alguns detalhes perceptíveis. O mais chocante deles era que ela possuía três asas translúcidas e com tonalidades rosadas e brilhantes. Estava de pés nus e sua vestimenta se compunha de um tecido leve e quase tão transparente quantos as asas, mas eram de um tom arroxeado.

Não consegui identificar qual era o tecido. O vestido fazia contato com um ombro e deixava o outro descoberto. Correntes de ouro eram trançadas em suas pernas e broches cheios de detalhes irreconhecíveis a mim seguravam o vestido aos ombros.

Mas o que mais me intrigou, foram os cabelos negros e revoltos que caíam em cachos terminando no meio de suas costas e a cor diferenciada de seus olhos: um lindo e incomum tom de lilás quando me foram direcionados em espanto. Não eram falsos, então poderiam ser a única coisa que separava-a do mundo normal ao qual a Igreja condicionava todos a acreditar? A misteriosa garota de estranhos olhos lilás guardava segredos? Se possuía-os, eles corriam riscos.

A visão começou a rarear, tudo ficou estranho e disforme, incolor. Instantes depois, voltei a ser Nathan.



†



O mago tinha lhe mostrado. A fada se apaixonara pelo guerreiro, mas o mesmo só tinha interesse para o ouro que ganhava em suas vitórias. De volta a ampulheta, Nathan estava ofegante. Uma das mãos estava em seu peito que subia e descia rapidamente.

-- Como pode ver, a fada era mágica e encantadora. E era apaixonada por Mareak.

-- Isso eu entendi. — Respondeu cortando Nyx.

-- A fada decidira. Disse que estava apaixonada e se o guerreiro se apaixonasse por ela também, ela lhe daria quanto ouro pudesse carregar em três escudos. Um de Bronze, um de Prata e um de Rubis. Mareak concordou, e combinaram de se encontrar no dia seguinte no mesmo lugar. Ele foi-se.

-- Interessante.

-- Deixe eu terminar rapaz. — Nyx disse carrancudo. -- O guerreiro não sabia que era proibido para fadas se intrometerem no assunto dos homens. A fadinha apaixonada vai até seu Rei. Um jovem belíssimo. Ele lhe dá permissão para dar “Ouro Mágico” ao guerreiro, mas em troca, teria que dar algo de mesmo valor. Então cruelmente o rei se levantou e com as próprias mãos arrancou uma das três asas da fada. Os gritos seguidos de dor, enquanto a asa era arrancada, eram tensos e cruéis. O rei chorou.

-- O rei era pai ou algo parecido?!

-- Sim. No dia seguinte a fada perdera seu brilho e no meio da clareira que se encontraria com o guerreiro, viu um escudo de Bronze com uma Cruz Grega na mão do homem. Depositou um saco de ouro no escudo e o guerreiro foi embora, marcando de se encontrar no dia seguinte. Ele nem notou uma asa faltando. Na manhã seguinte foi o mesmo processo. A fada gritara de dor e o rei chorou. Mais uma asa fora arrancada. O guerreiro se apresentou a fada com um escudo de Prata e uma Cruz Moline e levou o ouro. No terceiro dia, o rei mandou o ouro antes de arrancar a última asa da fada. A fada encontrou o guerreiro, e o mesmo estava com o último escudo. Um escudo de Rubis com uma Cruz Florenciada.

-- Esses eram símbolos germânicos. Eu sou descendente de germânicos.

-- Bem observado Sir Nathan. A pele da fada estava pálida como um fraco feixe de luz de lua e a última asa, negra como o manto da noite. Seus olhos estavam frios e inexpressivos. Não havia mais o tom lilás de antes, somente um resquício de sorriso em sua face. Mareak não tocou-a, e não era necessário. Sem tocá-la o guerreiro sabia que sua pele estava fria. Aos olhos de outrem poderia parecer irônico se soubessem que o guerreiro pensava em dissipar a frieza da fada abrançando-a com seu calor. Se pegou pensando se aqueles braços frios como a noite, eram os mesmos que no primeiro dia que a virá. Frios como a noite, como sua alma que anciava por riquezas. A fada depositou o ouro restante no escudo e o guerreiro (como numa passe de mágica) se encantou pela moça. Fora paixão. Fizeram juras de amor. Embalados pela magia do céu obscurecido e pela lua, declararam silenciosamente o desejo dos corações. A fada disse que iria ter com seu rei e voltaria. O guerreiro não foi para casa. Esperou ali, sentado em uma rocha e o escudo ao chão. Quando a fada chegou ao salão de seu rei, esperava dor e felicidade. O rei chorava e a cada gota derramada se faziam videiras no chão que se tranformavam em rosas e depois murchavam. Parou na frente da fada e arrancou a última asa que lhe pertencia. Quando o rei arrancou a última asa, a fada desvaneceu ao chão totalmente fraca. Voltou cambaleante a clareira. Diante de Mareak, foi envolvida por uma grande bolha de água. Brilhante e translúcida. Estava morrendo.

-- O que aconteceu?

-- A fadinha não sabia, que ao serem retiradas suas asas ela morreria. A tristeza se instalou no rei que se fechou para o mundo numa semente, a fada era sua filha. Antes de desvanecer por completo, a fada beijou o guerreiro e depois sumiu num clarão. Quanto ao guerreiro, morreu de tristeza, esperando sua fadinha, sentado nas rochas onde a encontrara e a vira desaparecer. O escudo de rúbis ficou ali para sempre. Um símbolo.

-- E com esse conto, o que quer de mim?

-- Eu queria que ouvisse minha história. Estou velho Sir Nathan e logo deixarei de existir. Você morrerá, mas antes quero que passe este “conto” a frente. Não pense que foi um pesadelo. Isto é real Sir Nathan. Eu não brinco com realidade.

-- Eu nem sei por onde começar.

-- Sabe sim Sir Nathan. Porque um dia você foi chamado de Sir Mareak e fez eu passar pela pior das dores que eu enfrentei.

A voz de Nyx ecoou e foi abaixando seu tom. Em um instante Nathan foi levado a sua sala de aula. Surpreso, caiu ao chão. A mão ainda tocava o livro. E a sensação de tristeza se apoderou tão profundamente, que não pode deixar de pensar: seria mesmo uma advertência, ou seria real?

A sensação era de que morreria ali naquele momento. Seria a última vez que Nathan brincaria com os seus sentimentos. Uma dor profunda e precisa atingiu seu peito. Uma de suas mãos se dirigiu ao local, mas era tarde. Agora jazia ao chão, os olhos desfocados. Em seu pescoço, um colar carregava um pingente com formato de uma gota de água. Lá dentro, pequeno e escondido, um rubi brilhava intensamente até desvanecer em seguida, numa bolha, como a fada.



†FIM†
Notas finais
Tive que pesquisar para escrever a fanfiction. Se alguém se interessar pelas fontes e curiosidades:
LÍDERES PARA PESQUISA
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cruz
http://pt.wikipedia.org/wiki/Vexilologia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Heráldica
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!