A única coisa que eu conseguia fazer era ouvir as vozes ao meu redor. Meu corpo não se mexia e, por mais que eu tentasse gritar, nenhum som saía da minha boca. Minha mãe chorava no canto da sala condenando Deus de todas as maneiras possíveis. Ela jamais faria isso. Tento dizer que estou ali, que estou bem e que ela pode me levar pra casa. Meu pai, um pouco menos religioso, resolveu prestar as contas com o médico que me atendeu. Nunca vi meu pai tão bravo quanto naquele dia. Uma manhã fria com muita chuva. Da vista da janela, nada além de um borrão. Meu irmão, sendo sempre o mais calmo, estava pensando em mil soluções para a situação. Como tranquilizar minha mãe, como evitar que meu pai fosse preso e como evitar que ele surtasse com os dois. Ainda havia mais alguém. Ele. Ajoelhado ao lado da cama em que eu estava deitada descansando. Segurando minha mão. Dizendo que não me deixaria ir embora porque ainda tínhamos muito que viver. Ele ainda não tinha me levado pra ver girafas no zoológico e nem pra ver os golfinhos no aquário. Ele prometeu que iria comigo. Ele chorava, dizia que me amava e que precisava de mim ali com ele, pra vivermos juntos e nos amarmos como sempre nos amamos. Enquanto isso eu estava ali. Já tinha desistido de gritar, tentar fazer qualquer um deles que fosse me notar. Em breve eu não conseguiria nem mais tentar. Todos ali já haviam perdido as esperanças de que eu voltasse a sorrir. Que eu voltasse a cantar. Que eu voltasse a brigar. Mas a cada minuto que passava, o cenário ficava pior. E conforme ele ia ficando pior, eu ia me desgastando mais. O que restava de mim ali naquela cama ainda ouvia, ainda sentia, mas ninguém sabia disso. Ninguém nunca soube e talvez nem saiba. Talvez isso que você, leitor, esteja lendo seja só um relato inserido na minha memória. Talvez você, leitor, seja uma das minhas emoções (como em Divertidamente) lideradas, respectivamente, pela Srta. Nojinho, Sr. Raiva, Srta. Alegria, Sr. Medo e Sra. Tristeza. Agora a única coisa que posso fazer é lembrar todos os bons momentos que passei durante meus longos, porém nem tão longos assim anos de vida. Pude lembrar do meu primeiro dia de aula com minha mãe, das fotos do meu pai, do meu irmão quase sendo deserdado e do toque dele. Do carinho, da atenção e de como ele lutou pra estar ali. Mas então eu não podia deixar de perceber que todas essas memórias estavam se tornando tristes. Eu não podia deixar de perceber que dentro de mim eu estava chorando desesperada. Eu não sentia que era minha hora. Eu precisava lutar contra tudo aquilo. Eu ainda precisava cuidar dele e deixar ser cuidada, eu precisava sair daquela situação. Eu precisava, mais do que nunca, de determinação. Eu precisava ser aquela que contaria a história de como é o sentimento de gritar e ao mesmo tempo nunca ser ouvida. Eu precisava contar a todos como eu consegui escapar de um mundo horrendo.

Eu precisava contar a todos que um simples susto pode te acordar de um pesadelo.

Notas finais
Espero que tenham gostado (e chorado rs) ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!