As lágrimas escorriam pelo rosto de Louis, deixando-o inchado e vermelho. Suas pernas bambeavam. O peso dos xingamentos finalmente havia o atingido de forma violenta.

“Por quê?”

Horas se passaram com ele chorando no banheiro, suas forças se esvaindo pouco a pouco.

A lágrima se formava, atravessava sua bochecha, caía no chão. A luz da lâmpada do banheiro refletia no espelho do banheiro, criando um pequeno, porém belo, arco-íris. As lágrimas contornando seu rosto, criando um macabro balé, que se sustentava na sua tristeza. O sol se pondo pela janela, deixando os azulejos amarelados do banheiro coloridos e vibrantes.

Todas essas coisas provinham da dor de Louis. Irônico. Trágico, mas irônico.

Uma batida na cabine do banheiro.

— Louis… Abre a porta. — Era a voz do Gabriel.

— Não.

***

Depois de muitas ameaças de ligações para os pais de Louis, Gabriel finalmente resolveu fazer das suas palavras ações.

— Senhor Marcos. Oi, aqui é o Gabriel. — Pausa pequena. — Sim, eu fui jantar sexta na sua casa. — Outra pausa pequena. — Sim, o senhor Otávio cozinha muito bem. Ainda sinto o gosto da comida dele. — Uma risadinha ao fundo do telefone; outra risadinha por parte do Gabriel. — Então, senhor, te liguei pra falar que o Louis-

Louis saltou da cabine do banheiro, pulando na direção do Gabriel, e arrancando o telefone da sua mão. — Eu tô ótimo, pai. O Gabriel só ligou pra avisar que eu vou posar na casa dele hoje.

— Que bom que você tá ótimo, filho. — “Ai, eu não devia ter falado que tava ótimo! Ele nem perguntou. Agora tá desconfiando…” — Posar na casa dele? Os pais dele sabem disso?

— Claro! Foram eles, inclusive, que me convidaram. Pra retribuir o jantar. Essas coisas de gente educada, você sabe.

— Ok. Mas e suas roupas? E escova de dente? Você vai passar aqui em casa pra buscar, não vai? E vocês vão ir sozinhos pra casa do Gabriel?

— Hum, pai, eu já tinha colocado essas coisas na minha mochila antes de vir pra escola de tarde. O Gabriel me convidou hoje de manhã, na escola, mas eu esqueci de avisar. Foi mal. Ahn, e sim, vamos sozinhos pra casa dele. É aqui pertinho. Algumas quadras, pelo o que ele me disse.

— Tudo bem, filho. Se divirta! Vou avisar ao Otávio, tá?

— Aham, valeu , pai!

— Que horas eu te busco amanhã?

— Amanhã? Umas seis horas da tarde.

— Seis horas? Não vai incomodar muito a família do Gabriel?

— Ele falou que não. Aliás, ele mesmo sugeriu esse horário. E, pai, amanhã é sábado mesmo. Que mal tem? — Louis percebeu o pai deveras receoso com o posão dele. Algo na voz do Marcos o fazia imaginá-lo com as sobrancelhas arqueadas e a mão direita na cintura — como sempre ficava quando estava desconfiado. — Tudo bem, então. Até mais!

— Tchau, até! — Louis encerrou a ligação. Ficou olhando para o telefone por algum tempo, até olhar de canto para Gabriel. — Eu vou te matar!

— Ca-calma, cara. Eu só estava tentando te ajudar. — Ele colocou as mãos na frente do corpo, como fosse se defender. E estava até gaguejando. Parecia realmente assustado. Mas assustado por quê?

Louis se virou e se olhou no espelho. Mesmo com todo o encardido, dava para ver: ele estava de dar medo. Olheiras profundas e negras; um ninho de ratos no lugar do cabelo; pele inchada e vermelha, como se um enxame de vespas o tivesse picado. Parecia um monstro.

As lágrimas brotaram novamente. Ele era um monstro.

Gabriel se sentou ao seu lado e esperou.

Eles ficaram um tempo ali no chão do banheiro, observando o recinto escurecer pouco a pouco, a luz do sol deixando o banheiro da escola.— É muito injusto. Eu não quero passar por isso. — “E quem quer? O universo só sabe brincar comigo.”

— Eu não sei o que é passar pelo que você está passando, Louis, mas, bem, todos tem seus problemas. — Cada problema na vida de Gabriel era como um saco de areia em cima de seu peito.

— Duvido que sejam maiores que os meus. — E ele duvidava mesmo. Com todas as suas forças.

— Todos me olham como se eu fosse um merda pobre que só arranja confusão, mas, por um milagre divino, consegue passar de ano com notas altas. Cara, você não faz ideia do quanto eu estudo em casa. Minha vida não é só diversão. — Louis sentiu vontade de rir na cara do amigo, contudo, ao notar sua expressão triste, percebeu que as palavras eram sinceras. — Minha família é muito pobre. Meus irmãos mais velhos trabalham dia e noite para que eu possa estudar. Eu passei boa parte da minha vida só estudando, até que comecei a pensar “mano, eu só estudo, tô farto disso, dane-se a faculdade!”. E a minha família só me cobra, também… É frustrante!

Louis começou a rir. Não sabia por qual motivo, mas estava rindo, um riso meio chorado. Talvez fosse de nervoso. Gabriel seguiu o embalo e começou a rir junto.

— A vida pode ser uma droga mesmo, não é?

Eles encararam o espelho.

— Parece que vamos ter que fazer que nem a Dory: “continue a nadar, continue a nadar, nadar, nadar”.

— Gabriel… Não tô acreditando nisso…

— No quê?

— Você cantando a música da Dory. — Eles se encararam e começaram a rir de novo.

— Ok, chega, vamos pra casa, mano. — Ele se levantou, ajudou Louis a se levantar e os dois juntos começaram a caminhar para fora da escola, que, a essa hora, já estava fechada. Eles pularam o portão e foram correndo para a casa de Gabriel.

Notas finais
Espero que tenha ficado do seu agrado, Escapist. ♥ Se não ficou, me desculpe. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!