Conte-me seus segredos
2 Capítulo 2 - Missão: Perseguir James H.
Notas iniciais
Sarah Collins.
Eram apenas 8 horas da manhã, e meu celular apitava insistentemente mostrando que era hora de acordar. Ah, segunda-feira. Tem dia pior que esse? É aquele dia em que você acorda com preguiça de fazer qualquer coisa por mais interessante que seja, o dia em que você acorda com preguiça de viver. Me espreguicei em minha cama e rolei para o lado tentando alcançar meu celular para desligar aquele som irritante.
Ao olhar para a tela percebi a grande quantidade de notificações e esbocei um sorriso ao imaginar que talvez fosse o Dave. Estávamos juntos há muito tempo, e eu sentia que ele era o cara certo, que com ele passaria o resto da minha vida. Dave me fazia rir, um bom namorado, às vezes discutíamos por coisas bobas ou por sua forma prática demais e pouco sensível de ver as coisas, mas eu sinceramente queria fazê-lo feliz.
Não era Dave que havia deixado todas aquelas ligações e mensagens, mas sim o desagradável meu chefe. Anthony Brom era um cara invasivo, e cada vez mais ele passava dos limites. Ele havia ligado e mandado mensagens a madrugada toda, mas meu celular estava no silencioso então apenas o alarme emitia algum som. Obviamente meu chefe não iria querer levar isso em consideração, sabia que naquele momento ele com certeza estava com vontade de cortar minha cabeça por não ter respondido ainda.
A tensão daquelas mensagens me despertou e eu ignorei o sono substituindo-o por um estresse prévio, já me preparava para o esporro que levaria quando chegasse na redação de Daily Magazine. Por sorte meu pai já havia levado Ian para a escola e então corri rumo à estação do metro.
Morar em Upper West Side não era tão ruim. Devo confessar que na verdade era maravilhoso. Estar tão perto de onde as coisas acontecem era uma necessidade para mim, e ter o Central Park como meu vizinho não era nada desagradável. Morava à beira do rio Hudson, um local mais reservado e um pouco mais afastado do barulho da cidade. Aquele bairro arborizado e quase que totalmente residencial de arquitetura pre-war ainda conseguia me fascinar mesmo com o passar dos anos.
O custo de vida de UWS é relativamente elevado o que contribuía para que eu me afundasse mais ainda em minhas dívidas. Mas nem sempre as coisas foram assim. Lembro-me de bons temos antes da morte da minha mãe, quando Ian era apenas uma criança e eu uma “recém-adulta”. Vivíamos uma vida com todo conforto nesse mesmo apartamento em que ainda habito. Minha mãe uma grande designer de interiores e meu pai um excelente contador.
Estávamos tentando nos reerguer após a perda daquela mulher que era simplesmente tudo para nós. Era doloroso, mas estávamos juntos, Ian estava crescendo, deixando de ser aquela criança introvertida e tentando realizar seus sonhos até aquele terrível acidente que o deixou paraplégico. Foi a gota d’água. Nunca, nunca mesmo eu poderia imaginar que a minha vida se tornaria o caos que se tornou. Meu pai sem emprego e totalmente apático, se afundando cada vez mais em jogos e bebida.
Nunca, nem nos meus pesadelos mais terríveis imaginei que passaríamos necessidade e que eu teria de ser a provedora da família aos 24 anos. A “filhinha de mamãe”, garota de vida fácil, teve de amadurecer e tornar-se o pilar de uma família abalada por tantos traumas.
Daily Magazine localizava-se em uma rua muito próxima a Times Square, em um grande prédio comercial. Era um local de muita circulação, onde trabalhavam diversas pessoas, sempre correndo de um lado para o outro, apressadas para cumprir suas tarefas diárias. Confesso que cheguei na sala de Sr. Brom com as pernas um pouco bambas e a camisa suja por ter derrubado o café que havia acabado de comprar antes de entrar no elevador.
– Deve ter tido uma noite de sono incrível. – Disse ele num tom debochado, olhando para o grande relógio preso na parede de sua sala. – E pelo visto você apreciou seu café da manhã, não é senhorita Sarah?
– Desculpe por não ter atendido suas ligações, meu celular estava no silencioso... Mas vim o mais rápido que eu pude! – Eu disse envergonhada, com as maçãs do rosto já vermelhas. – Mas... Aconteceu alguma coisa!?
– O que você acha? – Anthony falou com rispidez coçando os cabelos grisalhos. – Enfim, precisei de você durante a madrugada e como sempre, você estava inacessível.
– Me desculpe, eu vou ser mais cuidadosa da próxima vez com o meu celular. – Disse ainda um pouco sem graça. – Mas o que houve?
– Eu só não corto a sua cabeça, porque espero que ela ainda sirva para algo. – Ele falou sério, sério até demais. – Vou direto ao ponto. – Seu olhar transbordava psicopatia, como se estivesse prestes a realizar algum ritual macabro. – Quero que você vá atrás de uma pessoa para mim.
– Que pessoa? – Perguntei um pouco surpresa. – E por que eu? Geralmente quem faz esse tipo de trabalho não sou eu... – Me preocupei, pois sabia do caráter do meu chefe.
– Primeiro porque sou eu quem manda e você é quem obedece. – Respondeu ele naquele tom desagradável de sempre. – Mas a história é a seguinte... Bruce estava ontem de noite em um bar atrás de uma das nossas fontes. – Sr. Brom andava de um lado para o outro, o que me deixava ainda mais nervosa. – E nossa fonte apontou para um homem alegando que aquele homem era como se fosse um “recreador” das celebridades... Incumbido de tornar possível o acesso dos famosos às diversões mais variadas com toda descrição do mundo... – Ele soltou uma gargalhada irônica. – Ou pelo menos ele achava que era capaz de passar despercebido...
– Diversões variadas? – Questionei entendendo o teor daquela conversa. – Como por exemplo, drogas? Prostitutas?
– Talvez coisas ainda mais obscuras do que isso... – Anthony sorriu de canto. – Bruce seguiu o tal cara até os arredores da University of Columbia... Pararam na Amsterdam Avenue, e ele recebeu uma mochila de um homem mal-encarado... –Sr. Brom me mostrou a imagem enviada por Bruce pelo celular. – Aqui está a foto.
– E o que que tem esse tal homem mal-encarado?
– O que tem que eu andei observando meus arquivos, e ele é nada mais nada menos do que um dos funcionários mais antigos do apresentador de TV James H. – Ele pôs a mão aguardando que eu falasse algo, mas não sabia o que concluir a partir daquilo e após alguns segundos de silêncio Anthony continuou. – Depois de me enviar essa foto, Bruce disse coisas estranhas, desconexas, como se estivesse amedrontado, a ligação caiu e imediatamente o celular ficou fora da área ou desligado. E até agora ele ninguém sabe notícias dele.
– Mas não acha que está exagerando? Me desculpe dizer, mas o Bruce é um pouco evasivo... Talvez ele estivesse b... – Antes que eu pudesse completar a frase ele me interrompeu esmurrando a mesa.
– O Bruce pode ser um sem noção, um bêbado, mas ele me traz notícias pertinentes. E você Sarah Collins? – Anthony cruzou os braços, ergueu uma das sobrancelhas me encarando de uma forma amedrontadora. – O que têm feito além de falar sobre coisas desinteressantes, coisas que ninguém quer saber? Quanto é que você me traz de lucro?
– Eu só achei que era um pouco precipitado ligar James Herrera a alguma coisa ilegal... Estamos falando da vida de uma pessoa e... – Ao perceber que ele sentia desprezo por todos os meus argumentos, preferi não continuar.
– Deixa de bancar a inocente Sarah, os ricos têm dinheiro para comprar tudo e as celebridades adoram bizarrices, excentricidades... Além do mais, você sabe que tudo que é ilegal nos EUA vai parar no México!
– Ah... – Naquele momento eu queria vomitar na cara de Anthony ao perceber como ele destilava seu preconceito contra latinos tão descaradamente. – E por que eu sou a pessoa mais indicada para descobrir isso!?
– Eu pensei em você porque conhece os arredores de Columbia como ninguém, afinal fez Jornalismo lá... Assim como o seu amiguinho Brent... – Sr. Brom se sentou em sua enorme cadeira de couro e estirou seus pés em cima de sua mesa de escritório. – E você pode ser um pouco fresca e sentimental, mas eu sei que não é burra e é muito mais experiente do que o Brent.
– Eu realmente preferia que outra pessoa...
– Ah, você não vai fazer!? – Ele me olhou furioso. – Então pode assinar isso aqui! – Puxou a gaveta, pegou um papel ofício e apontou para uma caneta. – Comece a redigir imediatamente a sua carta de demissão.
– Não, eu não estava querendo dizer que quero me demitir... – Me apavorei ao pensar em todas as responsabilidades que pousavam em minhas costas. – Eu juro, eu... – Tentei conter a vontade de chorar e foi por pouco, muito pouco mesmo que não desabei ali.
– Então descubra tudo, absolutamente tudo sobre o James Herrera. Vasculhe toda sua vida, a vida de sua família, o seu passado e de todos os seus antepassados também, o seu presente e preveja o seu futuro. Mais do que isso, controle o seu futuro. Saiba o que ele gosta de comer, aliás, quem ele gosta de comer além da patricinha filha do Lowell. – Ele olhava fixamente para mim, sem piscar, parecia até que não respirava. – Saiba seus hobbies, se ele pinta quadros ou se ele prefere assistir pornografia. Descubra se ele já brigou na rua bêbado, se ele tem inimigos... Vamos lá, ele cresceu em East Harlem, tem sangue mexicano correndo em suas veias... Era um miserável durante sua juventude, provavelmente deve conhecer alguém envolvido com o Cartel, algum traficante de drogas, pode ter participado de alguma gangue... Descubra todos os seus passos, todos os pontos fracos e todos os podres de James H. – Após seu discurso Sr. Brom se levantou novamente, andando de forma inquieta por aquele escritório.
– Mas Harlem já não é mais tão perigosa desde que Bill Clinton se instalou por lá as coisas melhoraram muito.
– Eu sei, eu sei óbvio. – Disse ele rejeitando minhas explicações. – Sei que aquilo ali já não é mais um gueto, mas já foi. São apenas suposições do que vai aparecer na capa das revistas daqui há algum tempo.
– Mas e se ele não estiver envolvido com nada? – Questionei para tentar me safar daquela situação. – Nós vamos ter perdido muito tempo vasculhando a vida dele para nada... Não acha arriscado?
– Parece que você não aprendeu o principal da faculdade de Jornalismo querida Sarah. – Anthony disse bufando.
– Qual é o principal? – Perguntei imediatamente, espremendo meus olhos covardemente.
– Usar a criatividade. – Ele e depois sorriu deixando a mostra seus dentes amarelados de fumante. – Se você achar um milésimo do que eu citei já podemos fazer uma manchete bombástica e lucrar bastante.
– Mas o James sempre me pareceu tão correto e tem milhões de fãs... Será que iriam acreditar?
– É aí que tá o truque. A américa vai tremer quando cair a máscara do mais paparicado da TV. Eu vou dar um jeito de ganhar dinheiro, pode ter certeza de que eu nunca perco tempo.
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Semana seguinte – Sábado: 10:00 a.m
Estava eu lá, há uma semana atrás daquele homem. Ignorando meu namorado completamente e sentindo-me culpada por Ian e por toda aquela situação. Nada, absolutamente nada me convencia de que eu não era uma profissional de merda, antiética e sem escrúpulos. Estávamos eu e Brent no carro, na porta do estúdio de gravação do The H’s Show, esperando que algo mirabolante acontecesse e minha má vontade de trabalhar era enorme.
– Levanta esse rosto Sarah, pare de chorar! – Meu amigo implorou erguendo meu rosto.
– Eu fiz a minha faculdade para isso!? – Questionei tentando enxugar as minhas lágrimas. – Pra ficar implantando fofoca sobre os outros!? Pra vender notícia mentirosa pra gente fútil!?
– Eu também me pergunto isso, mas é o seu trabalho... É o nosso trabalho.
– Estamos há uma semana atrás do James e nada... Nada demais acontece. E eu me sinto péssima tentando sabotar a vida de um artista que consegue fazer meu irmão se sentir... Ele é o ídolo do meu irmão, você entende?
– Quem não deve não teme, Sarah. Se ele realmente não faz nada de errado, nós não teremos o que descobrir. – Brent respirou fundo antes de me responder, até porque já deveria estar de saco cheio de mim. – Mas eu não tenho tanta certeza quanto você de que ele é tão perfeito assim. Ele parece correto, metódico demais, e isso é estranho.
– Que mundo é esse em que ter caráter é estranho! – Me exaltei socando o porta-luvas. – É o fim dos tempos mesmo.
– Receio que você esteja um pouco afetada também por essa idolatria do Ian. Ninguém é santo Sarah. Até agora não descobrimos nada, mas você sabe que poderíamos ir mais adiante e investigar de perto. Você sabe que poderíamos virá-lo do avesso, mas prefere ficar vendo tudo de longe.
– Como assim? – Ele parecia indignado com a minha postura e falava como se eu fosse a jornalista mais incompetente do mundo.
– Parece que no fundo você tem receio de descobrir que James faz alguma coisa de errado, porque isso deixaria o seu irmão péssimo. Mas só temos mais uma semana para mostrar o que conseguimos coletar, para apresentar alguma resposta para o Sr. Brom. – Brent tentou falar com jeito e abaixou o tom de voz, mas tudo soava ofensivo pra mim. – Eu sinto dizer isso, mas você está me prejudicando...
– Eu?
– Você diz que não tem opções, mas todos têm. Uma opção ruins sim, mas têm. Você poderia vender o seu apartamento em Upper West Side que tanto ama, morar em um local mais afastado, viver uma vida mais humilde e tentar arrumar um outro emprego depois... – Jogou na minha cara o que eu tentava negar para mim mesma, deixando-me completamente envergonhada. – Eu admito que prefiro ficar em Daily Magazine do que ir morar em um subúrbio qualquer... Então até eu encontrar alguma outra coisa eu pretendo aturar sim os mandos e desmandos do Anthony. E para isso, eu vou revirar a vida do James H. Me desculpe, eu te amo, mas se você não se sente à vontade para fazer isso, eu vou ter que continuar sozinho... Eu preciso desse emprego.
– Eu só não quero prejudicar o James... Mas também não quero prejudicar você, confesso que não sei se teria coragem de largar tudo em UWS.
– Não fique assim, pelo menos dê uma chance. Vamos ver se ele realmente é inocente, e se ele for, você depois decide o que quer fazer da sua vida. Se vai querer ser sensacionalista e manter seu emprego ou não. Mas e se não for? E se acabarmos descobrindo muita sujeira por trás dessa fama de bom moço? E dependendo da sujeira, a gente vai ser respeitado demais por ter descoberto, poder sair dessa porcaria de tablóide e ir trabalhar em algum lugar decente. – Os olhos de Brent pareciam brilhar, e a última frase que dissera me fez repensar, estava louca para ser reconhecida e me livrar de Daily magazine.
– Você tem razão. Temos que investigar ao menos... Eu tô com você nessa, pelo menos por enquanto.
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Riverside Park: Sábado – 11:00 p.m
Seguimos James Herrera o dia inteiro, e eu realmente estava exausta, mal havia comido ou bebido alguma coisa. No fundo eu sabia que não queria estar ali. Não queria estar investigando a vida de James H., e tudo o que Brent me dissera de manhã era verdade, eu tinha medo de que Ian se decepcionasse. O que mais meu irmão teria de enfrentar? Eu estava com os nervos à flor da pele, mas aquele era o meu trabalho, e eu tinha que ao menos investigar.
Meus sentimentos mudaram um pouco ao o vermos entrando em Riverside Park, ainda mais naquela hora. Ele estava na minha área, tão perto do meu apartamento, em um lugar onde eu costumava passar várias tardes com Dave ou com meu irmão. Confesso que fiquei intrigada, o que ele fazia por lá? A proximidade com a University of Columbia também fez refletir. Novamente visto por aquele lado de Manhattan, mas o motivo poderia ser banal, poderia até ser uma coincidência, mas fiquei muito curiosa para saber o que era.
Riverside Park é um parque público às margens do rio Hudson, uma área estreita, mas bem comprida de vegetação. Lá existem quadras e ocorrem eventos culturais bem diversificados e com certeza é um local mais discreto do que o Central Park. James estava com dois seguranças, mas tentamos caminhar de longe e ser bem cuidadosos, eu conhecia tudo por lá, e não era a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez em que eu seguia alguém. Sempre sonhei em ser jornalista investigativa e achava sim que tinha um certo talento para isso. Estávamos indo bem, mas o parque estava deserto e qualquer barulho chamava muita atenção.
Ele andou bastante por lá, no meio da escuridão, utilizando uma grande lanterna para se localizar e nós íamos atrás. Aqueles seguranças eram bem treinados, olhavam por todos os cantos e comecei a me preocupar, principalmente porque no escuro e em meio a tantas árvores qualquer ponto luminoso chamava atenção, e para os seguirmos precisávamos de um pouco de luz também.
Um dos seguranças apontou sua lanterna para James H., que tirou sua camisa exibindo um corpo atlético e suado. Como se estivesse sendo atraída por um imã extremamente forte, ousei dar alguns passos a mais, me aproximando o máximo possível daquela imagem, sendo totalmente imprudente. O conjunto da obra nem parecia real, James tentava arrumar seus cabelos lisos e negros os quais o vento bagunçava com um sorriso leve e puro. Após desistir, ele deitou em um dos bancos nos quais se pode ter a vista perfeita de Nova Jersey. O mesmo segurança o entregou uma mochila, da qual ele tirou um envelope grosso e lacrado.
Não, eu jamais faria isso em circunstâncias normais, mas algo me fazia querer me aproximar e observar mais de perto. Ao perceber que não era seguro, Brent me puxou para trás repentinamente fazendo um barulho alto demais para passar despercebido por dois seguranças muito bem treinados. Umas das lanternas de lâmpada forte foi em direção aos nossos rostos, juntamente com uma voz grossa e ameaçadora que ordenava que nos identificássemos:
– Quem são vocês!? O que estão fazendo aqui!?
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