Conte comigo
10 Capítulo 9
Essa semana foi um desafio e tanto para mim. Eu que já lidei com tanta coisa nunca pensei que algum dia seria obrigada a morar com a minha inimiga. Eu sei, inimiga é uma palavra muito forte. Mas não me vem na mente nenhuma outra palavra capaz de definir a puta que ficou com o meu namorado.
O fato é que eu ainda não consegui aceitar essas mudanças que ocorreram de repente na minha vida nos últimos tempos. Minha mãe casada novamente, os filhos do meu padrasto, o termino do meu relacionamento e o fato desses dois últimos motivos estarem ligados.
Hoje era quinta feira, acordei dois minutos antes do despertador tocar. Ao checar o horário percebi pelas notificações na tela bloqueada que tinha uma mensagem do Thomy “Bom dia flor do dia” sorri. Eu amava mesmo esse meu amigo. Ele sabia que essa semana estava sendo difícil e não perdia oportunidade de demonstrar apoio.
Após responder, fiz minha higiene matinal e desci para tomar café. Como estava só eu e a Janessa a mesa de café não estava sendo posta. Até porque Aimee estava sobrecarregada com todas as tarefas da casa por conta dela. Então o que aconteceu durante os últimos quatro dias foi eu e a Janessa preparando nosso próprio café na cozinha e comendo juntas. Sem conversar claro. Ela pegou pão de misto e estava montando seu sanduiche de presunto na bancada. Fui pegar o leite na geladeira e o celular dela que estava no balcão ao lado acendeu com uma notificação. A mensagem era do Liam “Bom diaaa p ti também”.
Respirei fundo e fingi que não tinha lido. Mas eu mentiria se dissesse que não doeu saber que os dois ainda tinham contato. Imagina só se eles começam a namorar e eu em vez de ser apenas uma ex viraria cunhada. Deus que me livre.
Depois da aula de duas aulas de português e duas de física eu terminaria a manhã com o professor gato de inglês. Ele se chamava Augusto e era recém formado, tinha 22 anos, mas conseguiu dar aula aqui pelas experiências que já teve. Inclusive de intercâmbio.
Quando ele entrou na sala as gurias já começaram a cochichar. Toda aula dele era isso. Hoje ele estava com uma camiseta azul marinho, essa cor realmente combinou com ele.
—Good morning everyone! – Professor Augusto iniciou a aula e pediu que traduzíssemos um texto.
Terminei rapidamente. Meu inglês era bom e eu não precisava procurar as palavras no dicionário. Peguei o celular para passar o tempo até a aula acabar.
—Não é permitido a utilização de aparelhos eletrônicos durante a aula, Martinelli. – Usando o meu sobrenome o professor me repreendeu.
—I already finished the exercise. – respondi dizendo que já tinha terminado e exercício.
—Então faça os exercícios complementares!
“Pra que?” pensei. Só quem fazia esses exercícios extras da apostila era quem tinha dificuldade.
—Depois eu vou conferir. – disse sério me olhando.
Eu juro para mim mesmo que no próximo texto para traduzir eu vou enrolar o máximo que puder. Que professor chato. Comecei a fazer aquelas atividades solicitadas, mas o iphone continuou em cima da minha carteira e eu recebendo notificações do whatsapp e do instagram.
—Me entrega o celular. – cinco minutos depois o querido estava ao meu lado com a mão estendida.
—Ata. – falei irônica e o pessoal q estava ao redor viu e riu.
—Eu não estou brincando, Martinelli. Melhor você entregar o celular do que ir para a diretoria. — revirei os olhos e entreguei. Pelo visto o professor estava num mal dia e procurava alguém em quem pudesse descontar isso. Ou seja, eu.
Quinze minutos depois a aula acabou e eu estava sem meu celular. Que só poderia ser retirado pela minha mãe. Ou seja, ferrada estou já que mamis poderosa estava na praia com a family dela.
Resumindo perdi meu tempo e minha carona tentando explicar para a diretora a situação. Não tive celular para chamar uber e tive que ir a pé para casa. A sorte que não é longe.
No meio do caminho despertei dos meus pensamentos ao ouvir um chorinho de cachorro. Ou melhor, um não. Vários gemidinhos de cachorros. Olhei ao redor e não encontrei de onde vinha. Fui seguindo o barulho e me deparei um buraco, cheio de coisas e galhos, juntamente com cinco filhotinhos e uma cachorra branca imóvel. A cachorra não mexia nem a barriga com a respiração e demorou pouco tempo para eu perceber que ela estava morta. Enquanto isso, os filhotes tentavam se aconchegar uns nos outros e choravam provavelmente de fome. Eu não podia deixar eles ali. Eu não iria.
Tirei minha mochila e coloquei no chão. Me agachei próximo ao buraco e tentei alcançar minha mão em algum filhote, mas tava difícil, porque não encontrava equilíbrio naquela posição. A única maneira seria me deitar no chão. Meu corpo serviria de apoio e meu braço alcançaria o fundo do buraco. Mesmo sabendo que eu me sujaria todinha fazendo isso, eu fui em frente. Peguei um deles. Marronzinho. Tinha bafinho de leite. Devia ter poucos dias que a cachorra tinha parido. Coloquei ele perto da minha mochila e me deitei para pegar o próximo quando um carro parou ao meu lado.
—Martinelli? – não podia ser. Aquele professor já me deu prejuízo demais essa manhã. Virei meu rosto pro lado contrário esperando q o carro continuasse o trajeto e não me reconhecesse. Mas aconteceu o oposto. Ele desligou o carro, saltou e veio na minha direção. O universo só podia estar zoando com a minha cara mesmo para me colocar numa situação dessa.
Virei pra ele e com o rosto colado no chão e uma mão dentro do buraco dei o meu melhor sorriso amarelo.
—O que você está fazendo ai? – ele perguntou.
—Encontrando ouro sabe. – Falei na mais pura ironia.
—Você não precisa ser grossa. – ele falou com um tom de voz diferente enquanto se aproximava do buraco e tentava enxergar o que tinha lá dentro.
—Eu não estou sendo grossa. Apenas irônica. Você que está sendo grosseiro a manhã toda comigo.
—Eu me dediquei muito para ter aquele emprego e devo seguir as regras impostas pela escola, os alunos gostando ou não. – isso soou quase como uma desculpa, como se ele estivesse tentando se explicar para mim.
Ele se abaixou ao meu lado e com uma facilidade incrível tirou mais outro cachorrinho lá de dentro. Se sentou no chão e colocou o cachorro junto ao seu peito, fazendo carinho. E eu lá lutando para alcançar os demais filhotes.
—Caso você não está vendo tem mais três aqui.
—Ora ora, Martinelli. Você está pedindo minha ajuda? – ele disse sorrindo. PQP que sorriso lindo.
—Eu prefiro que me chame de Jasminne.
—Ta bom, Martinelli. – Ele falou zoando dessa vez.
Tiramos os outros três filhotinhos e agora eu não sabia qual o próximo passo. Parei três segundos, olhando o corpo desfalecido daquela cachorra dentro do buraco. Ela ficaria. Quão triste deixar os filhos no mundo sem proteção. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.
—Não fica triste! Se você não os encontrasse poderiam morrer todos. – Professor augusto tentou me consolar e depois perguntou — Você vai levar eles para sua casa?
—Você está louco? No meu condomínio não é permitido ter animal. Tem câmera para todo lado, eles perceberiam eu entrando com cinco filhotes.
—Bem, no meu é permitido.
—Então você deixa eles ficarem na sua casa? – meus olhos se iluminaram e eu sorri verdadeiramente pela primeira vez naquele dia.
—Apenas se você me prometer que também vai cuidar deles e posteriormente me ajudar a arrumar um lar para essas cliancinhas. – ele falou a última palavra com voz de cachorro, brincando com um deles no seu colo.
—Sim. Claro! Eu ajudo.
—Venha, vamos colocar eles no carro. Você pode entrar na frente no banco do caroneiro e eu coloco eles no seu pé, para que não caiam caso eu freie. Se bem que meu apartamento é pertinho. Lá é meio pequeno ta? Eu financiei pelo programa minha casa minha vida. Desse ser bem diferente do seu padrão e dos seus amigos. Não tem luxo, nem nada. Na verdade quase não tem móveis também. Eu me mudei faz pouco tempo.
“Quem é esse professor que eu não conheço” pensei vendo a pessoa falante na minha frente.
—Você está me convidando para ir para o seu apartamento, professor Augusto? – perguntei zoando amigavelmente.
Acabei passando a tarde toda com ele, parece que conheci outra pessoa, porque esse não é o mesmo rabugento que retirou meu celular de manhã. Aliás, até já perdoei ele por isso. Fomos num pet e compramos algumas coisas para os bebês. Eles ainda não comiam ração, então tivemos que dar leite na mamadeira.
—Eu nunca ia esperar que você fosse assim. — Augusto disse.
—Assim como? – perguntei.
—Eu te encontrei deitada no chão com a cara num buraco tentando resgatar vidas. Você tem um bom coração, Jasmine!
Essa frase ficou na minha cabeça até eu chegar em casa. Eu tinha adorado essa tarde. Foi o melhor dia que eu tive nessas últimas semanas. No entanto, foi só eu ligar o computador que vi que a fofoca já rolava solta.
Na rede social, estava uma foto minha e do Augusto hoje a tarde dentro do carro, juntamente com a frase: “Se diz bilíngue, mas para sair com o professor deve estar precisando de ponto em inglês. Ou será que ela só quer aproveitar esse pedaço de mal caminho? Segurem essa Jasmine solteira.”
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