Conte as Estrelas
2 Prólogo II
>— CNFA [GMT-3 | 22:52:03]
Tudo o que se ouvia ecoar pelo vasto corredor era o ressoar baixinho do ar condicionado, um zunido leve que vinha das lâmpadas fluorescentes e o andar apressado e a respiração ofegante cuidadosamente controlada de um homem vestido de verde-escuro de cima a baixo que trazia uma mochila preta nas costas. Todos estavam ocupados com o lançamento do jato, e ele concluiu que aquela era a oportunidade perfeita para agir. Com todos os olhos voltados para o hangar e ninguém realmente preocupado em verificar as câmeras de segurança pelos próximos minutos, ele se pôs em movimento.
Não correu, pois não queria chamar a atenção. Também não cometeu o erro de olhar em volta, pois sabia que tal ato despertaria suspeitas. Ele sabia muito bem como as coisas funcionavam por ali. Mas sabia também que ninguém o vigiava naquele instante e sabia onde queria chegar. Dobrando à direita no final do corredor, deu mais alguns passos e parou diante de uma enorme porta de metal sem identificação.
Ao lado do batente havia um keyboard touchscreen de controle de acesso com uma única luz vermelha acesa. Uma placa discreta logo acima dizia “Apenas pessoal autorizado”. Ele se aproximou e posicionou o dedo indicador sobre a tela, e logo a luz se tornou verde.
Acesso permitido.
Ele abriu a porta e fechou-a com cuidado atrás de si. A enorme sala diante dele era fantástica, algo que parecia saído diretamente da mente de James Cameron para os filmes da franquia Avatar, mas ele não estava com tempo para contemplá-la como sempre fazia ao entrar ali. Adiantando-se, contornou o display central de imagens de radar em 3D e foi em direção a uma série de pastas dispostas em um escaninho junto à parede do fundo. Pegou as sete primeiras, fazendo uma conta rápida de cabeça e percebendo que só ali devia haver entre duas e três mil páginas, e enfiou-as na mochila. Em seguida, escolheu cuidadosamente alguns CDs e pen drives numerados que estavam no mesmo escaninho e colocou-os na mochila também.
No fundo de sua mente, algo lhe dizia que o que ele estava prestes a fazer assemelhava-se – e muito – ao que o ex-analista de sistemas Edward Snowden havia feito em 2013 ao vazar documentos secretos da Agência de Segurança Nacional americana que detalhavam esquemas de vigilância global em massa dos Estados Unidos. A diferença, porém, é que ninguém lhe concederia asilo político quando seus atos viessem à tona. Ninguém sairia em sua defesa. Todos iriam querê-lo morto. Além do fato de o Brasil praticamente não ter inimigos políticos que pudessem auxiliá-lo, as verdades transcritas naqueles documentos causariam comoção mundial quando divulgadas. E se os militares brasileiros não se encarregassem de neutralizá-lo, os Estados Unidos, a Rússia ou qualquer um dos governos europeus o faria, com certeza.
Mas ele não hesitou em momento algum. Ele iria fazer aquilo, independente do que lhe custasse. O Projeto Death Star tinha potencial para incitar uma nova guerra mundial e precisava ser impedido. Fechando a mochila e pondo-a nas costas, deu uma última olhada ao espetáculo visual da sala à sua volta e, por fim, saiu.
Fechou a porta de metal com cuidado e pôs-se a andar cautelosamente de volta pelo corredor, sem se dar ao luxo de se incomodar com o peso descomunal da mochila que carregava. Com a realidade alcançando-o cada vez mais, pela primeira vez pôde sentir um suor frio brotar na raiz de seus cabelos. Sua pele parecia mais fria e, ele tinha certeza, devia estar razoavelmente mais pálida.
Ele deu uma rápida conferida no relógio.
22:56:24
Quase ao mesmo tempo, ouviu ecoar pelos corredores o som distante de turbinas sendo ligadas. O jato estaria no ar em uma questão de poucos minutos e logo todos estariam de volta às suas atividades normais. Ele tinha pouquíssimo tempo para sair dali.
Dobrou na primeira esquina à direita e seguiu em direção a uma porta de folha dupla que dava para um corredor ainda mais largo. Percebeu alguns dos Trailhawks estacionados por ali, mas não pegaria nenhum deles. Eles eram cartas marcadas. Seguiu para a esquerda e logo saiu no estacionamento interno do hangar. Além de mais alguns Trailhawks, o único outro veículo parado ali era um enorme Dodger, o modelo utilizado por Cygnus e os demais líderes envolvidos no projeto Death Star.
Ele suou de verdade pela primeira vez naquela noite. Não era possível apenas aqueles veículos estarem disponíveis. Os Trailhawks eram monitorados por satélite e, mesmo que o sistema de rastreamento fosse inutilizado, cada um deles enviava um sinal único diretamente para o Prima por um canal fechado de comunicação. Não tinha como se esconder com um deles. E o Dodger, apesar de tão blindado e armado quanto um tanque de guerra preparado pela equipe de Velozes e Furiosos, também possuía um canal de comunicação fechado com o Prima e poderia ser facilmente localizado.
Droga, foi tudo que ele conseguiu pensar.
Ao longe, ele pôde ouvir o som das turbinas aumentando de intensidade. O jato devia estar sendo conduzido para fora do hangar naquele momento. Ele tinha uma brecha de segundos para escapar.
E enquanto ele pensava numa solução, uma buzina estridente soou por trás dele. Ele se assustou e se virou com um sobressalto, dando de cara com um dos trabalhadores do hangar em cima de um dos golf carts de serviço.
— Boa noite. – O funcionário cumprimentou, com um semblante cansado e apático de quem quer apenas que o dia chegue ao fim.
Ele devolveu com um “boa noite” entre os dentes e se afastou para o canto do corredor, dando passagem ao carrinho elétrico. E enquanto o funcionário ia embora em seu golf cart, a solução brilhou na mente dele como um flash.
É isso! Os carros de serviço!, ele pensou.
Conferindo os arredores e certificando-se de que não estava sendo observado, atravessou o estacionamento correndo pelos cantos e cruzou uma porta que dava para o estacionamento externo, onde alguns dos veículos que a equipe de serviço externo utilizava estavam estacionados. O primeiro deles era um horroroso Toyota Etios branco, mas ele nem se deu ao trabalho de escolher. Entrou no carro, ligou-o e saiu o mais discretamente possível.
Assim que ele se passou pela guarita e ganhou a rodovia, acelerando então o máximo que aquele medíocre motor 1.3 lhe permitia, ele escutou do lado direito da via o rugido potente do jato levantando vôo. Ele olhou para a direita e tentou visualizar a aeronave, mas àquela hora da noite tudo que ele divisou foi um enorme e esguio vulto negro fazendo uma rápida curva à esquerda e sumindo por trás de algumas serras.
Voltando sua atenção para a rodovia à sua frente, ele suspirou e segurou o volante com mais força. Seria uma questão de minutos até descobrirem o que ele havia feito e virem atrás dele, mas agora não havia mais volta. Ele iria até o fim.
E o mundo inteiro saberia a verdade, afinal.
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