Conte as Estrelas
9 Capítulo 7
O relógio digital piscava no criado-mudo, projetando um brilho azul frio sobre as paredes nuas do quarto. Três e vinte e sete da madrugada. Nicolas não conseguia dormir. Nem por um minuto.
O ar parecia pesado, o colchão duro demais, o travesseiro úmido de lágrimas. A cada vez que fechava os olhos, o mesmo filme voltava: os faróis na estrada, o som dos tiros, o vidro estilhaçado, o grito que ele não conseguiu soltar. Tudo se repetia em espirais intermináveis, como se sua mente não soubesse desligar. O som dos pneus derrapando ainda ecoava em algum ponto de sua memória, junto com o cheiro metálico de sangue que parecia impregnar o ar.
Ele estava trancado no quarto desde que Marco o deixara ali algumas horas antes. Dissera que era melhor descansar, que o corpo precisava de sono para lidar com o choque. Mas o corpo de Nicolas não queria descanso. Queria respostas. Queria voltar no tempo. Queria um mundo onde o pai ainda estivesse vivo.
Sentou-se na cama, os cotovelos sobre os joelhos, o rosto enterrado nas mãos. O sal das lágrimas secas repuxava-lhe a pele. O peito ardia, como se o ar que respirava estivesse repleto de cacos invisíveis. O relógio fazia um som baixo, quase imperceptível, mas que de algum modo o irritava profundamente. Cada segundo parecia zombar dele, marcando o tempo que o separava do que havia perdido.
Pensava no pai. No homem distante que sempre falava ao telefone com voz firme, sempre “em reunião”, sempre “ocupado”. Pensava nos aniversários esquecidos, nos fins de semana cancelados, nas promessas vazias ditas com pressa. E, ainda assim, havia uma parte dele que o esperava — um resto de esperança infantil que se recusava a morrer.
Agora ele estava morto.
E, paradoxalmente, a ausência do pai nunca fora tão presente.
As lágrimas voltaram, mas eram diferentes. No início, fora tristeza pura, quase infantil. Agora, era raiva. Raiva dele, de si mesmo, de tudo.
— Droga… — Sussurrou, apertando os olhos com as mãos até ver manchas coloridas no escuro.
Levantou-se, andou em círculos pelo quarto. Cada passo ecoava como um tambor lento. O som das tábuas de madeira rangendo sob os pés se misturava ao ritmo descompassado da respiração. As lembranças se sobrepunham — o sangue no asfalto, o som dos motores, o cheiro de pólvora. As imagens vinham em flashes: o corpo do pai sendo puxado para fora do carro, os olhos arregalados pela dor e pela surpresa.
Por que aquilo tinha acontecido? Por que homens armados, os jipes verdes, tiros? E por que Marco? Por que o motorista sabia o que fazer?
A revelação dele — “sou ex-agente da ABIN” — ecoava na mente de Nicolas como uma frase sem contexto, absurda, impossível de processar. Ele se lembrava do modo como Marco o tirara da festa, a voz firme dizendo “fica abaixado”, o olhar que não tremia. Era como se aquele homem já soubesse lidar com aquilo. E isso o deixava ainda mais confuso.
Sentou-se outra vez. Passou as mãos pelos cabelos, respirando com dificuldade. A raiva se dissolveu em confusão. E a confusão, em medo. Pela primeira vez desde que tudo começara, Nicolas se deu conta de que não tinha ninguém além de Marco. Nenhum amigo confiável, nenhum parente próximo. Só aquele homem que ele mal conhecia, e que agora dormia — ou talvez estivesse acordado — do outro lado da porta.
Olhou para a janela. Do lado de fora, o breu absoluto. A casa parecia isolada do mundo, como se estivesse suspensa em outro tempo. A lembrança da fuga voltou com força: o carro em alta velocidade, as luzes do painel refletindo o pânico em seu rosto, o som do coração batendo mais alto que o motor. O cheiro de gasolina, o frio cortando o rosto pela janela quebrada, o gosto amargo do medo. Por um instante, ele sentiu novamente o impacto das mãos de Marco no volante, firmes, controlando o caos. E aquilo o perturbou.
Havia algo no modo como Marco agia — a frieza, a calma — que o atraía e o assustava ao mesmo tempo. Era como observar alguém que já viveu o inferno e aprendeu a conversar com ele.
Encostou-se à parede e deslizou até o chão, abraçando os joelhos. Chorou de novo. Chorou até não saber mais se chorava pelo pai, por si mesmo, ou pela sensação insuportável de estar à deriva. Em meio ao choro, percebeu um som distante — talvez o vento, talvez algo movendo-se lá fora. Por um momento, imaginou que voltavam para buscá-lo. O coração disparou, e ele prendeu a respiração, ouvindo o silêncio como quem escuta uma sentença. Mas nada aconteceu.
A madrugada passou assim: entre soluços, lembranças fragmentadas e o som distante do vento. Quando a luz começou a se infiltrar pelas frestas da janela, Nicolas percebeu que não havia dormido. O relógio marcava seis e quarenta e cinco. Os olhos ardiam, a garganta estava seca. A exaustão dava à realidade um aspecto enevoado, quase irreal.
Levantou-se devagar, cambaleando até a porta. Do outro lado, um cheiro suave de café recém-passado preenchia o corredor. Saiu do quarto e foi até a sala com passos hesitantes. A sala estava iluminada pela claridade pálida da manhã. Marco estava ali, sentado à mesa, ainda vestindo a mesma calça social da noite anterior. A camisa estava aberta até o peito, e o tecido branco deixava ver a pele levemente bronzeada e o colar simples que trazia no pescoço. Ele olhou para Nicolas, e por um instante os dois apenas se encararam.
— Não conseguiu dormir — Disse Marco, mais como constatação do que pergunta.
— Não. — A voz de Nicolas saiu rouca. — Você também não?
Marco balançou a cabeça, afastando uma xícara vazia.
— Velhos hábitos. — Tentou sorrir, sem sucesso. — Quer que eu prepare algo pra você? Um café, talvez.
Nicolas deu de ombros.
— Pode ser. — Sentou-se devagar na cadeira oposta, como quem teme quebrar o silêncio.
Marco moveu-se pela cozinha com naturalidade, pegando a garrafa térmica, abrindo armários, procurando algo que pudesse servir de café da manhã. Nicolas o observava. Havia algo hipnótico na forma como ele se movia — segura, precisa, quase mecânica. O tipo de postura que se aprende depois de anos de rotina militar. Mas o que mais o desconcertava era a tranquilidade. Marco parecia sempre saber o que fazer, mesmo no meio do caos.
Nicolas desviou o olhar, tentando se concentrar no som da chaleira. O ruído da água fervendo soava quase reconfortante.
— Conseguiu pelo menos descansar um pouco? — Perguntou Marco, de costas.
— Não. — Nicolas passou a mão no rosto. — Passei a noite pensando em tudo… e não entendi nada.
Marco colocou a xícara à frente dele e sentou-se de volta.
— Quer conversar? — Perguntou, com voz calma.
Nicolas hesitou.
— Eu… não sei o que eu quero. — Os olhos se encheram novamente. — Acho que nunca soube.
Marco apenas assentiu, sem pressionar. O silêncio entre os dois era denso, mas não hostil. Nicolas olhou ao redor: a mesa simples, o relógio de parede marcando sete em ponto, o vapor subindo do café. Aquela normalidade repentina parecia cruel. Como se o mundo tivesse seguido em frente e esquecido que a vida dele acabara algumas horas atrás. Bebeu um gole. O gosto amargo o despertou um pouco. Por um momento, imaginou o pai sentado à mesa, lendo o jornal. A imagem era tão vívida que doeu. Sentiu a garganta fechar.
— Sabe… — Começou, hesitante — É estranho. Eu devia estar com raiva do meu pai, mas tudo o que sinto agora é… vazio.
Marco o observou, atento.
— É normal. — A voz dele era firme, mas carregava um peso próprio. — A raiva vem e vai. Depois vem o cansaço.
— É isso que eu sou agora — Respondeu Nicolas, amargo. — Cansaço.
Marco não respondeu de imediato. Pegou outra caneca, serviu-se de café e ficou olhando o líquido escuro antes de beber.
— Vai passar — Disse, por fim.
— Como você sabe?
— Porque já vi isso antes.
Nicolas o olhou, curioso, mas o homem desviou o olhar para a janela. A luz da manhã refletiu em seu rosto, destacando as olheiras e a barba por fazer. E, sem saber por quê, Nicolas sentiu um aperto estranho no peito. Algo que não era tristeza — era outra coisa, algo indefinível.
O silêncio entre os dois se estendeu por alguns segundos, quebrado apenas pelo som do vento batendo contra as janelas e o estalar do piso de madeira. Nicolas olhava para o café esfriando na xícara, tentando organizar os pensamentos. Ele se sentia como alguém tentando juntar pedaços de um espelho quebrado — cada reflexo mostrava uma versão diferente dele mesmo, e nenhuma parecia real.
— Marco — Começou, a voz baixa —, eu queria entender o que tá acontecendo.
Marco levantou o olhar.
— No momento, o que está acontecendo é que você precisa descansar.
— Eu não tô falando disso. — Nicolas suspirou, os dedos trêmulos na borda da caneca. — Tô falando de você… da ABIN, do meu pai.
Marco apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos. O olhar dele se tornou mais sério, mas também mais humano.
— O que exatamente quer saber?
Nicolas demorou a responder. Não era uma pergunta simples. Ele queria saber tudo — quem era Marco, o que Leonel fazia, por que estavam sendo caçados —, mas também sabia que talvez não estivesse pronto para ouvir. Mesmo assim, perguntou:
— Por que meu pai te contratou?
Marco ficou em silêncio por alguns instantes, observando o vapor que ainda escapava do café.
— Eu… comecei minha carreira no Exército — Disse, por fim. — Era de infantaria, depois entrei para operações especiais. Mais tarde, fui convidado para trabalhar na ABIN. Lá, aprendi a desaparecer. A vigiar. A seguir ordens sem fazer perguntas.
Nicolas ouviu sem interromper, fascinado e ao mesmo tempo intimidado. Marco falava com voz calma, pausada, mas cada palavra parecia carregada de lembranças que ele preferia não revisitar.
— Trabalhei em campo por quase cinco anos. Até que um dia… — Ele parou, apertando o maxilar. — Um dia algo deu muito errado. E desde então, eu nunca mais consegui olhar para um uniforme do mesmo jeito.
— E foi por isso que saiu?
— Digamos que… a saída não foi uma escolha. — Marco desviou o olhar, e por um instante Nicolas achou que viu um brilho úmido nos olhos dele. — Mas algum tempo depois, um contato meu me disse que um empresário influente estava procurando alguém com o meu perfil para um trabalho discreto.
— Meu pai — Completou Nicolas.
Marco assentiu.
— Ele não me deu muitos detalhes. Disse apenas que tinha contratos importantes e precisava de alguém de confiança para cuidar da segurança dele e… da sua.
Nicolas sentiu o estômago revirar.
— Da minha?
— Sim. Ele foi direto: queria que eu te acompanhasse, mas de modo discreto. Que eu fosse o motorista, mas também o guarda-costas invisível. — Marco fez uma pausa. — Suas palavras exatas foram: “Quero alguém que o observe sem que ele perceba. E, se algo acontecer comigo, que o leve para o lugar seguro.”
Nicolas não respondeu. Ficou olhando para o nada, tentando processar aquilo. O pai, aquele homem frio e ausente, havia se preocupado com ele — o suficiente para contratar um ex-agente secreto para protegê-lo. E mesmo assim… nunca dissera uma palavra. Uma parte dele quis sentir gratidão. Outra, só conseguia sentir raiva. Raiva por Leonel ter escondido tudo, por ter feito da própria vida um enigma e deixado o filho com os pedaços soltos.
Nicolas baixou o rosto e sussurrou:
— Ele não me conhecia. Eu também não conhecia ele. É como se a gente tivesse vivido em mundos diferentes.
Marco permaneceu em silêncio, observando-o.
— Às vezes, as pessoas acham que estão protegendo os outros quando, na verdade, estão apenas se afastando — Disse por fim. — É um erro comum.
— Ele podia ter tentado… — Nicolas passou as mãos pelos olhos. — Um jantar, uma ligação, qualquer coisa.
O silêncio se instalou de novo. Um silêncio que não pedia respostas. Marco levantou-se, recolheu as canecas vazias e foi até a pia. A luz da manhã entrava pela janela e desenhava seu perfil com nitidez. Nicolas o observou, e de repente percebeu detalhes que nunca tinha notado antes — o movimento dos ombros, o contorno firme das mãos, a calma quase triste com que ele enxaguava as xícaras. Sentiu algo diferente. Uma espécie de inquietação, um impulso que não sabia nomear. Tentou afastar o pensamento, mas ele ficou.
Marco terminou de arrumar a cozinha e voltou para a mesa.
— Você já pensou no que vai fazer? — Perguntou. — Sobre o que vem agora?
Nicolas balançou a cabeça.
— Não tenho ideia.
— Nenhum parente, nenhum amigo de confiança?
— Nenhum. — Ele soltou um riso sem humor. — As únicas pessoas que me ligavam eram os colegas de festa, e nem eles lembraram do meu aniversário ontem.
Marco cruzou os braços.
— Então, por enquanto, é melhor não procurar ninguém. Até entender o que aconteceu, você precisa ficar fora do radar.
— Fora do radar — Repetiu Nicolas, com ironia. — Fala como se eu fosse um alvo.
Marco o olhou diretamente nos olhos.
— Talvez seja.
A frase caiu entre eles como uma pedra em um lago. Nicolas sentiu o ar rarear.
— Você acha que aquelas pessoas ainda estão atrás de mim?
— Eu não acho, Nicolas. Eu sei. — Marco manteve o tom firme, sem elevar a voz. — E até descobrir o motivo, qualquer passo em falso pode te colocar em risco.
Nicolas ficou quieto. A mente dele tentava acompanhar o peso daquelas palavras, mas tudo soava distante, quase irreal. Ele estava ali, em uma casa escondida, sendo protegido por um ex-agente secreto, enquanto o pai recém-assassinado carregava segredos que ele talvez nunca entendesse. Era como se sua vida tivesse se partido em duas: antes e depois do sangue no asfalto.
— Você falou em “descobrir o motivo” — Disse, após um longo silêncio. — Você acha que ele… o meu pai… tava envolvido em alguma coisa errada?
Marco hesitou, e isso bastou para Nicolas entender que a resposta não seria simples.
— Eu não sei — respondeu o ex-agente, por fim. — Mas sei reconhecer quando há coisa grande por trás de um assassinato. E o que aconteceu com ele não foi obra do acaso.
Nicolas respirou fundo, tentando conter o tremor das mãos.
— Então a gente vai descobrir.
Marco o olhou, surpreso pela firmeza repentina na voz do rapaz.
— Não agora — Corrigiu. — Primeiro, você precisa se recompor. Amanhã procuramos o advogado do seu pai. Ele pode nos orientar sobre o testamento, ou sobre qualquer contato que Leonel tenha deixado.
Nicolas assentiu, exausto. O café, a conversa, tudo parecia dissolver-se em um torpor crescente. O corpo finalmente cobrava o preço da noite sem sono. Marco se levantou, puxando uma manta do sofá.
— Vá descansar um pouco. Eu fico por aqui.
Nicolas olhou para ele, hesitante.
— E você? Vai dormir?
— Costumo dormir pouco. — Marco deu um meio sorriso. — Velhos hábitos de novo.
O rapaz ficou parado por alguns segundos, observando-o. As palavras pareciam presas na garganta. Queria agradecer. Queria dizer que tinha medo. Queria pedir para não ficar sozinho. Mas nada saiu. Apenas assentiu e voltou para o quarto devagar.
O quarto estava banhado pela luz suave da manhã. Ele se jogou na cama sem trocar de roupa. A mente, exausta, tentava silenciar. Mas, antes que o sono chegasse, imagens voltaram em fragmentos: o pai sendo arrastado do carro, o som dos tiros, Marco o protegendo, o toque firme em seu ombro, o olhar determinado no espelho retrovisor. E então, outra imagem: Marco de manhã, com a camisa aberta, o peito exposto, o rosto sério e cansado.
Nicolas sentiu o coração bater mais rápido.
O corpo reagiu antes que a mente pudesse interferir. Havia algo novo ali, uma espécie de desconforto que não machucava, mas também não o deixava respirar direito — como se o coração, de repente, tivesse mudado de ritmo sem pedir permissão. Era um desconforto que misturava gratidão, curiosidade e uma tensão que ele não queria admitir.
Virou-se de lado, apertando o travesseiro contra o peito. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que não estava totalmente sozinho — e esse pensamento, por mais confuso que fosse, trouxe um breve alívio. O cansaço venceu. E, enquanto o sol subia no horizonte, Nicolas adormeceu, sonhando com a imagem de Marco caminhando em meio ao fogo e ao silêncio — um guardião solitário em um mundo que começava a desmoronar.
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