A chuva começava a cair quando o Corolla desacelerou numa rua deserta e sem iluminação. O som do motor parecia engolido pelo vento que batia nos para-brisas, e o limpador cortava a água em movimentos lentos, produzindo um ritmo quase hipnótico, quebrado apenas pelo barulho ocasional da chuva atingindo o teto do carro. Cada gota parecia pesar sobre o ar, e a sensação de isolamento era completa, como se o mundo lá fora tivesse desaparecido.

Nicolas olhou pela janela. A respiração ainda vinha entrecortada, a pele pálida iluminada pelas luzes intermitentes da rua. O corpo tremia involuntariamente, tenso, como se o simples ato de sentar-se no banco fosse uma batalha. Suas mãos, firmes no tecido do assento, apertavam-no com força, deixando marcas temporárias no couro. Cada batida do coração parecia acelerar o pânico, cada reflexo no vidro da janela multiplicava o caos dentro dele.

Marco, sentado ao lado, permanecia rígido, os músculos do maxilar tensos, os olhos fixos na estrada, mas sempre atentos a Nicolas. Havia algo na postura dele que passava segurança e, ao mesmo tempo, um alerta silencioso: cada movimento era calculado, cada gesto contido.

— Estão bem? — A voz baixa do motorista soou firme, mas não agressiva, apenas tentando cortar o silêncio que se espalhava como um manto frio pelo carro.

Marco virou-se levemente, como se estivesse testando a confiança que podia depositar naquele homem misterioso, e respondeu com cuidado:

— Aparentemente, sim.

Nicolas não disse nada. A presença daquele homem de jaqueta de couro e olhos verdes intensos tinha algo ambíguo: segurança e ameaça ao mesmo tempo. Sua mente, ainda imersa em imagens do pai, do incêndio e dos tiros, não conseguia processar por completo o que via ou sentia. Mas sentia: sabia que precisava daquilo, mesmo sem querer admitir.

O homem quebrou o silêncio outra vez:

— Eu sei que estão assustados. Mas precisam confiar em mim agora.

Marco franziu o cenho, com os olhos escaneando o retrovisor para avaliar qualquer ameaça.

— E por que faríamos isso? Quem é você?

— Meu nome é Gael Santiago. Sou jornalista freelancer. Investigo casos que o governo prefere que continuem enterrados. — Respondeu, a voz firme, quase serena demais para aquele ambiente. — E sou alguém que pode mantê-los vivos.

Marco não se deixou enganar.

— E qual a sua ligação com os homens dos jipes?

— Nenhuma — Respondeu Gael, com firmeza, encarando Marco pelo canto do olho. — Mas sei quem eles são. E posso explicar por que estão atrás de vocês.

Houve um momento de silêncio. Nicolas sentiu o coração bater mais rápido, o cérebro funcionando em um loop que não conseguia desligar. Marco olhou para ele, como buscando permissão silenciosa. Nicolas apenas assentiu, incapaz de falar, mas desesperadamente querendo alguma explicação.

— Tudo bem. Explique — Emendou Marco, a voz firme, controlada, quase um comando.

— Não aqui. — Gael deu partida no carro novamente, e a água da chuva parecia se multiplicar contra o para-brisa. — Vamos para um lugar seguro.

O Corolla se moveu, cortando a chuva e as curvas escuras da estrada. Durante quase quarenta minutos, o único som era o motor e o ruído constante da água, ritmando a ansiedade crescente dentro de Nicolas. Cada gota parecia sussurrar lembranças dos últimos acontecimentos: o sangue, os tiros, a violência que chegara até a porta da sua vida. A cidade, com seu caos urbano e luzes artificiais, desapareceu atrás deles, substituída por terrenos baldios, cercas enferrujadas e sítios silenciosos que pareciam suspensos no tempo.

Quando finalmente entraram pelo portão de ferro sem identificação de uma chácara, Nicolas sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. O Corolla subiu por uma estrada de terra, enlameada pela chuva, e parou diante de uma casa simples, térrea, com janelas cobertas por grades grossas e silenciosas. O cheiro da terra molhada se misturava com algo indefinível — um perfume metálico, talvez da umidade misturada com o concreto, um cheiro que evocava alerta e segredo.

— Chegamos — Informou Gael, a voz baixa, mas carregada de autoridade. — É o nosso QG.

Marco e Nicolas desceram. O ar fresco da chuva molhava seus rostos, mas não lavava a tensão que sentiam. Ao longe, o som de um cachorro quebrava o silêncio pesado, ecoando entre árvores e muros. Cada passo parecia reverberar, ampliando a consciência de que estavam em um território desconhecido, e que cada movimento poderia ser observado, ou pior, calculado.

Gael abriu a porta e os guiou para dentro. O interior era uma desordem organizada, um labirinto de papel, fios e telas. Pilhas de revistas antigas e jornais amarelados ocupavam o espaço, fotografias presas em painéis de cortiça, mapas espalhados, todos com marcações em vermelho, diagramas, como se o tempo tivesse sido comprimido ali dentro, mostrando décadas de algum tipo de observação e registros.

— Que lugar é esse? — Perguntou Marco, com a voz cautelosa, tentando entender se estavam entrando em uma armadilha.

— O coração de uma coisa que chamamos de Vigília — Respondeu Gael, firme, sem espaço para ironia.

Eles atravessaram um corredor estreito até chegarem a uma sala iluminada por dezenas de monitores. Um homem musculoso de pele morena, braços cobertos de tatuagens e barba cerrada digitava rápido em um teclado, fones pendurados no pescoço. A energia no lugar era palpável, quase elétrica. Cada tela emitia luz azulada, cada clique do teclado ecoava como um alerta.

— Big Boy — Chamou Gael. — Temos visita.

O homem se virou, acenando com um meio sorriso.

— Achei que vocês nunca iam chegar.

Nicolas observava, os olhos absorvendo cada detalhe. A quantidade de informação, o zumbido constante dos computadores, a desordem organizada do lugar deixava sua cabeça girando. Era como se tivesse caído em um pesadelo onde a lógica humana se misturava à conspiração e à paranoia.

Marco se adiantou.

— Vocês dois trabalham com o quê, exatamente?

— Com informação. E com sobrevivência — Respondeu Gael, cruzando os braços, como se cada palavra fosse medida e precisa.

— E são Vigília a quê? — Perguntou Marco, a desconfiança ainda presente na voz.

Gael fitou-o por um momento antes de responder.

— Vigília a um projeto que o governo brasileiro tenta esconder há mais de quarenta anos.

Ele andou até uma mesa coberta por pastas e fotografias e começou a espalhar o conteúdo sobre o tampo. Imagens granuladas de objetos luminosos no céu, cópias de documentos carimbados com tarjas pretas, diagramas de estruturas subterrâneas.

— O nome oficial — Disse Gael — é Projeto Death Star.

Nicolas franziu o cenho, sentindo o estômago se revirar.

— Isso é uma piada?

— Gostaria que fosse — Respondeu Gael, a voz grave. — Mas não é.

Ele começou a andar pela sala enquanto falava, o tom de voz quase didático, como se estivesse apresentando um dossiê a uma plateia imaginária, mas cada gesto carregava a gravidade do que dizia.

— O Projeto Death Star nasceu em 1977, quando a Força Aérea Brasileira lançou a Operação Prato. Oficialmente, a missão investigava “fenômenos aéreos não identificados” no Pará. Extraoficialmente, era o início de um programa de vigilância sistemática dos céus.

Gael pegou uma pasta e a abriu diante deles. Dentro, cópias de relatórios com carimbos da Aeronáutica. Cada folha parecia exalar um peso histórico, um segredo que nunca deveria ter saído do papel.

— Desde então, o Brasil mantém registros de avistamentos, contatos e incidentes envolvendo OVNIs. O objetivo inicial era científico: analisar, catalogar, entender. Mas algo mudou depois de 1996, durante o Caso Varginha.

Marco e Nicolas se entreolharam, a tensão crescendo.

— Você está dizendo… — Começou Marco.

— Que o governo confirmou o caso, sim — Interrompeu Gael, com firmeza. — Mas não publicamente. Houve captura de criaturas, análise de material biológico e… mortes. — Ele fez uma pausa, e o ar parecia se comprimir. — Um dos policiais envolvidos, Marco Eli Chereze, morreu dias depois. Oficialmente, infecção generalizada. Mas, internamente, foi tratado como exposição a agente desconhecido.

Ele se aproximou do quadro de cortiça e apontou para um mapa do Brasil, marcado com inúmeros pontos vermelhos. Cada ponto era um registro de avistamento militar não explicado, de eventos que oficialmente jamais haviam existido. Nicolas sentiu um arrepio percorrer a espinha; a extensão da operação era maior do que qualquer coisa que pudesse imaginar.

— Depois disso, o Projeto Death Star tomou outro rumo — Continuou Gael. — Os militares começaram a ver os fenômenos não como curiosidades científicas, mas como potenciais ameaças. E decidiram responder do único jeito que sabem: com armas.

Nicolas recuou um passo, a sensação de incredulidade crescendo a cada frase.

Armas? Contra… o quê? Alienígenas?

— Exato — Respondeu Gael. — O projeto começou a desenvolver tecnologias baseadas em materiais recuperados de supostos destroços. Fontes de energia novas, sistemas de propulsão, e… armamentos experimentais. A justificativa, como sempre, era “defesa da soberania nacional”.

Marco cruzou os braços, visivelmente cético.

— E você espera que a gente acredite nisso?

— Não espero nada — Respondeu Gael, sério. — Só estou mostrando fatos.

Big Boy girou a cadeira, rindo baixo.

— Acham que é coincidência o Brasil testar radares novos toda vez que tem “chuva de meteoros”?

Nicolas olhou para Marco, procurando alguma âncora em meio à avalanche de informações. Mas Marco estava tão tenso quanto ele, os olhos atentos a cada detalhe, o corpo pronto para reagir, como se já soubesse que o que viam não era apenas teoria.

— Como você sabe disso tudo? — Perguntou Marco, a voz baixa, firme. — Nenhum jornalista conseguiria acesso a esse tipo de informação.

— Nenhum jornalista comum — Corrigiu Gael. — Mas eu tenho minhas fontes.

Ele foi até uma gaveta e retirou uma pasta cheia de recortes de jornal, anotações e documentos aparentemente banais, mas que, colocados em contexto, ganhavam um peso quase insuportável.

— Durante anos, eu ouvi rumores. Conversas truncadas em corredores, sumiços de testemunhas, relatórios que desapareciam. Tudo sempre terminava igual: silêncio. Até que, há alguns meses, alguém me procurou. Um homem com medo, cansado, disposto a falar.

Gael fitou Nicolas com firmeza.

— Seu pai.

O ar pareceu sair do peito de Nicolas.

— O quê…?

— Leonel Galvão — Disse Gael, pousando a pasta sobre a mesa. — Ele fazia parte do círculo interno do Projeto Death Star. O grupo é composto por oficiais do governo e empresários de áreas estratégicas do setor privado — construção, aviação, energia, transporte. Pessoas com recursos e influência. Seu pai ajudou a erguer a base de operações principal, um complexo subterrâneo ao lado do aeroporto de Confins.

Nicolas sentiu a cabeça girar.

— Base… subterrânea?

— Abaixo da torre de controle. — Confirmou Gael. — É de lá que eles coordenam tudo: rastreamento de fenômenos aéreos, testes de armamento, comunicações sigilosas. O seu pai participou da construção, mas quando percebeu o que realmente estava sendo feito ali… tentou sair.

Marco apertou os punhos, a tensão transbordando.

— E por que não conseguiu?

— Porque ninguém sai de algo assim. — Disse Gael. — Leonel começou a me procurar quando percebeu que estavam usando as tecnologias que desenvolveram para criar sistemas de ataque. Ele temia que o projeto provocasse uma guerra, não entre países, mas entre mundos.

O silêncio que se seguiu parecia engolir o ar. Nicolas sentiu o corpo estremecer. Seu pai. O homem que ele mal conhecia. Envolvido em uma guerra secreta com seres de outro planeta. Era informação demais, demais para processar de uma vez só.

— Isso é loucura. — Murmurou. — É absurdo.

— É exatamente o que eu pensei no início — Disse Gael. — Mas os indícios são claros demais para ignorar.

Ele acendeu uma pequena luz sobre um mapa do Brasil, destacando vários pontos em vermelho.

— Cada ponto aqui é um registro de avistamento militar não explicado. No início, eram observações. Depois, interceptações. E, mais recentemente, abates.

Marco estreitou os olhos.

— Abates? Você tá dizendo que…?

— Que eles estão testando armas em alvos que não podem explicar — Respondeu Gael. — E que Leonel tentava impedir o próximo passo.

Nicolas apoiou-se na borda da mesa, o rosto pálido.

— E foi por isso que mataram ele.

O silêncio pesou sobre a sala. Ninguém precisou falar. A constatação flutuava no ar.

— Que tipo de armas eles estavam desenvolvendo? — Perguntou Marco, tentando racionalizar o inimaginável.

— Ainda não sabemos todos os detalhes — Disse Gael, abrindo outra pasta cheia de diagramas técnicos de aeronaves e estruturas metálicas. — Leonel mencionou que estavam construindo algo gigantesco, com tecnologia muito além do que qualquer empresa privada teria acesso. Ele chamou de “projeto aéreo de interceptação”.

Ele apontou para duas folhas, cada uma mostrando uma aeronave diferente.

— Duas máquinas, desenvolvidas em paralelo. O primeiro modelo, chamado Prima, é uma aeronave de vigilância adaptada de um cargueiro C-390 da Embraer. O outro, Night Fury, um Boeing 767 modificado para carregar armamentos experimentais. O Prima seria os olhos; o Night Fury, a espada.

Big Boy se aproximou, mexendo em um dos monitores, que agora exibiam imagens borradas de satélites, diagramas e códigos.

— E tudo isso ligado a uma rede de controle que só pode ser acessada de dentro do complexo subterrâneo de Confins. — Explicou o hacker. — É engenharia militar pura. Não é ficção científica.

— Leonel acreditava que eles estavam prestes a colocar as duas aeronaves em operação. Não para defender nosso espaço aéreo, mas para abater qualquer objeto não identificado que entrasse no espaço aéreo brasileiro. — Continuou Gael.

Marco cruzou os braços, tentando manter a racionalidade.

— E ele queria impedir isso.

— Exatamente — O jornalista concordou — Mas quando tentou sair, alguém percebeu. A partir dali, ele passou a ser seguido. Os carros, os jipes, as ameaças veladas. Ele sabia que não tinha muito tempo. Foi quando me procurou.

Nicolas ergueu o olhar lentamente, o coração martelando no peito.

— Você… conheceu meu pai?

— Conheci — Respondeu Gael, a voz grave. — A primeira vez foi num café discreto no centro de Belo Horizonte. Ele parecia exausto, paranoico, mas decidido. Disse que precisava de ajuda para expor o que estava acontecendo. Que não podia confiar em mais ninguém.

— E você acreditou nele? — Perguntou Marco.

— Não de imediato — Disse Gael, suspirando. — Até que ele me mostrou parte dos documentos de construção da base de Confins. Plantas assinadas, contratos com selos oficiais e autorizações da Aeronáutica. Tudo escondido sob empresas de fachada da própria construtora dele.

Nicolas engoliu em seco, o estômago embrulhando.

— A construtora Machado Galvão…

— Era a cortina de fumaça — Completou Gael. — O governo pagava pelos serviços, mas os registros contábeis desapareciam nos labirintos de Brasília. Ninguém nunca ousou investigar.

Big Boy soltou uma risada abafada.

— E qualquer um que tenta, puff, desaparece.

Gael ignorou a ironia.

— Seu pai começou a vazar informações aos poucos, sempre de modo seguro. Nunca me deu tudo, mas me prometeu que, quando tivesse provas suficientes, entregaria os dossiês completos.

O som dos ventiladores dos computadores preenchia o silêncio. Nicolas permanecia imóvel, os olhos fixos no chão, tentando assimilar algo que parecia além de qualquer compreensão: seu pai, aquele homem distante e rigoroso, não apenas tinha segredos… ele lutava para impedir algo catastrófico, uma ameaça inimaginável.

— Então... — A voz de Nicolas era quase um sussurro —, meu pai morreu tentando salvar o planeta?

Ninguém respondeu. O peso da frase pairou no ar. Gael apenas o observou, com um pesar sincero estampado nos olhos.

— Ele morreu tentando evitar uma guerra.

Nicolas deu um passo para trás.

— Isso é ridículo. — A incredulidade começou a se transformar em fúria, sua mente girando em desespero. — Isso tudo soa como uma história de ficção barata!

Marco tentou acalmá-lo.

— Nicolas, respira.

— Respira? — Ele riu, nervoso, quase histérico. — Você quer que eu respire? Meu pai era um empresário, não um conspirador. Ele construía prédios, não naves! — Passou as mãos pelos cabelos, andando de um lado a outro, cada passo pesado, o coração pulsando. — Isso é uma insanidade…

— Eu sei que é difícil — Disse Gael, calmo, mas firme. — Mas temos provas. E mais gente envolvida.

— Não me interessa! — Gritou Nicolas. — Eu não quero ouvir mais nada!

Marco tentou tocá-lo no ombro, mas Nicolas recuou com um movimento brusco.

— Não me toca!

Gael trocou um olhar rápido com Marco. O jornalista manteve a postura, tentando suavizar a voz.

— Ninguém tá dizendo que você precisa acreditar agora. Mas não pode negar o que viu. Aquela aeronave que destruiu sua casa… aquilo não é tecnologia comum.

— Eu não vi nada! — Nicolas respondeu, ofegante. — Eu só vi a minha vida acabar!

As palavras ecoaram pela sala, engolidas pelo ruído das máquinas. Por um instante, ninguém se moveu. Gael apoiou as mãos na mesa.

— Nicolas, eu entendo o que está sentindo. Mas se não enfrentarmos isso, mais pessoas vão morrer. Seu pai sabia disso. É por isso que nos procurou. Ele acreditava que você era a única pessoa em quem podia confiar se algo acontecesse com ele.

Nicolas o encarou, os olhos marejados.

— O quê?

— Ele deixou seu nome nos arquivos que me enviou. — Gael estendeu uma folha plastificada. — Disse que, se algo acontecesse, você saberia o que fazer.

Nicolas pegou o documento com as mãos trêmulas. Era uma cópia de um contrato. Na margem, havia uma anotação manuscrita: “Se eu cair, procure Nicolas.”

O mundo pareceu girar. Ele deixou o papel cair. As lágrimas vieram de novo, mas agora eram quentes, furiosas.

— Eu não sou ele — Sussurrou. — Eu não quero ser ele!

Marco deu um passo à frente.

— Nicolas…

— Você não entende! — O jovem gritou, a voz embargada e histérica. — Eu não pedi nada disso! Eu não quero nada disso!

Virou-se e correu porta afora, em direção à saída da chácara. Marco tentou segui-lo, mas Gael o segurou pelo braço.

— Deixa ele ir. — A voz dele era baixa, firme. — Ele precisa processar tudo.

Marco hesitou.

— E se ele não voltar?

— Ele vai. — Gael o soltou, com um olhar pesaroso. — Não tem mais pra onde ir.

Marco ficou parado diante da porta, o coração apertado. Lá fora, o som distante da chuva voltava a cair. Ele olhou pela janela e viu a silhueta de Nicolas desaparecendo na escuridão, o corpo curvado, os passos apressados.

Suspirou fundo.

— Você acha que ele vai entender o que está em jogo? — Perguntou.

Gael respondeu sem tirar os olhos da janela.

— Vai. — Fez uma pausa. — Quando perceber que o pai dele não era o vilão, mas o único homem tentando impedir o fim de tudo.

Do lado de fora, Nicolas caminhava pela estrada de terra, a respiração entrecortada. A chuva começava a engrossar. Cada passo parecia mais pesado.

A mente fervilhava — imagens do pai, da casa em chamas, de Marco o puxando, de Gael falando sobre armas e alienígenas. Nada fazia sentido.

No alto do morro, um trovão ribombou, iluminando brevemente o céu. Por um instante, Nicolas jurou ver algo — uma luz que se movia contra o vento, mudando de direção em um ângulo impossível. Mas não quis olhar de novo. Simplesmente continuou andando, com o coração batendo como um tambor.

Atrás dele, a chácara da Vigília se escondia na escuridão, pulsando de energia, segredos e cabos. E Marco, parado à porta, observava o portão aberto, a chuva caindo fina, o olhar perdido em direção à noite — preocupado com o jovem que, sem perceber, já estava preso ao mesmo destino que tentava fugir.