O empresário Leonel Machado Galvão foi encontrado morto nas primeiras horas da manhã de hoje. Segundo informações da Polícia Civil, a principal suspeita é de latrocínio...

A voz feminina ecoava da televisão com aquela neutralidade meticulosa dos telejornais. Cada palavra era limpa, impessoal, cortante — como se o nome pronunciado fosse apenas mais um dado estatístico, não um homem, não uma vida.

As imagens mostravam uma estrada estreita cercada de mata, o breu quebrado apenas pelas luzes das viaturas. Fitas amarelas balançavam ao vento, o som de folhas roçando se misturava às sirenes, e o brilho azulado fazia o cenário parecer irreal, como um palco montado para uma tragédia que ninguém ousava interpretar.

O corpo coberto por um lençol branco era uma forma silenciosa e imóvel sob a claridade intermitente. Policiais cruzavam de um lado a outro, repórteres falavam apressados ao telefone, curiosos erguiam celulares em busca do melhor ângulo da morte alheia.

Leonel Galvão era proprietário da construtora Machado Galvão, uma das maiores de Minas Gerais, com empreendimentos em todo o estado. Conhecido pelo temperamento reservado, era figura constante em eventos da elite mineira e mantinha relações com políticos influentes.”

O repórter fez uma pausa, e o vento pareceu atravessar o microfone.

A investigação trabalha com a hipótese de um assalto seguido de morte, mas não descarta outras possibilidades. Até o momento, ninguém foi preso.”

A imagem cortou para o estúdio. O apresentador leu o texto no teleprompter com a mesma serenidade com que alguém recita uma previsão do tempo.

A construtora emitiu nota lamentando o falecimento e informando que a empresa continuará suas atividades normalmente.

O som foi cortado. A tela ficou preta.

Marco abaixou o controle remoto lentamente e desligou a televisão.

O silêncio que se seguiu parecia espesso, vivo. Um tipo de silêncio que não preenchia o ar — o devorava.

Nicolas estava no sofá, o corpo curvado, os cotovelos apoiados nos joelhos. Não piscava. O rosto parecia uma máscara pálida iluminada pelo último reflexo da tela.

Aquela era a primeira vez que ele via o nome do pai pronunciado assim, com aquele distanciamento de notícia, sem alma, sem peso humano. Leonel Machado Galvão — o empresário. Não o homem que ele esperara tantas vezes numa calçada de colégio, nem aquele que sempre prometia “talvez no próximo fim de semana”. O pai que nunca chegava, que nunca dizia “meu filho”, mas que, mesmo assim, ainda era o eixo invisível de tudo o que ele era.

A garganta doía como se tivesse engolido cacos de vidro. O corpo, leve demais — quase oco. Queria chorar, mas o choro parecia impróprio, quase uma traição. Por alguns segundos, ele pensou em desligar a mente, sumir. Mas só havia o silêncio, o peso da ausência e a respiração contida de Marco, ali, ao lado.

Sem conseguir pensar no que fazer, eles dormiram o resto do dia — se é que aquilo podia ser chamado de sono.

O descanso veio como um colapso. Nicolas apagou no colchão sem tirar o tênis, e o mundo se apagou junto. Quando despertou, a luz do sol já atravessava as cortinas como lâminas douradas. O ar tinha cheiro de madeira úmida e poeira antiga, e o silêncio da casa rural onde se escondiam soava anormal demais.

Por alguns segundos, ele não sabia onde estava. O corpo pesava como se o chão o puxasse. Então as lembranças voltaram com a nitidez cruel de um soco: a fuga, os tiros, o pai, o sangue, Marco.

Levantou-se devagar. O chão frio sob os pés descalços devolvia uma sensação de realidade. Lá fora, ouviu um som metálico — o eco ritmado de uma ferramenta batendo em algo de ferro. Saiu do quarto em silêncio, atravessando a sala empoeirada até a garagem.

Marco estava lá, curvado sobre o capô do Kia Opirus que haviam usado para fugir. As luzes fracas deixavam o rosto dele meio na sombra, e a lataria do carro parecia uma ferida aberta — o para-brisa trincado, a pintura marcada por furos e arranhões.

Marco girava uma chave inglesa sem real intenção de consertar nada. Era mais um gesto de resistência, como quem tenta recuperar o controle sobre algo num mundo que já não responde.

— Esse carro deu o que tinha pra dar — Disse, sem levantar o olhar. — Suspensão quebrada, motor estourado. Se andar mais dois quilômetros, desmonta no meio da rua.

Nicolas cruzou os braços, encostando-se na parede.

— E o que a gente faz?

Marco limpou as mãos num pano sujo. O olhar era prático, mas os ombros denunciavam o cansaço.

— Precisamos de outro carro. Um que não chame atenção.

Nicolas pensou, a voz saindo rouca:

— Podemos pegar um dos carros do meu pai. Estão todos na garagem da casa

Marco levantou o olhar. Havia algo de calculado e protetor naquele gesto.

— Faz sentido.

— E o advogado dele — Continuou Nicolas, hesitante. — Eu sei onde fica o escritório. Talvez ele saiba o que eu devo fazer agora.

Marco assentiu.

— Então vamos até lá. Mas antes… — Ele se aproximou um passo, o tom suavizando. — Toma um banho e troca de roupa. Você parece que saiu de uma guerra.

Nicolas deu um meio sorriso cansado.

— A sensação é essa.

— No armário do quarto tem roupas limpas. Devem servir.

Nicolas apenas assentiu e foi para o banheiro.

O banheiro era pequeno, com azulejos brancos manchados de umidade. A água quente saiu com um ruído metálico, espalhando vapor no ar. Quando a corrente tocou sua pele, ele sentiu algo ceder — um nó de tensão, de medo, de culpa.

Lavou o rosto com força, como se pudesse apagar as lembranças. Mas as imagens vinham mesmo assim: o pai caindo, o sangue no asfalto, o som seco dos tiros, o olhar de Marco iluminado pelos faróis.

Fechou os olhos. Deixou a água cair sobre a cabeça até o mundo se tornar só ruído.

Quando finalmente fechou o registro, o vapor cobria o espelho. Passou a toalha no rosto, e o reflexo que surgiu parecia o de um estranho: olhos fundos, barba desgrenhada, o semblante exausto de alguém que envelheceu numa noite. Por um instante, ficou ali, observando-se — tentando encontrar traços do pai, de si mesmo, de qualquer coisa que fizesse sentido.

E pensou em Marco.

No modo como ele o olhara mais cedo, na calma firme de quem sempre parece saber o que fazer, mesmo quando o mundo desaba. Aquilo o atingiu de forma inesperada, como uma descarga elétrica — uma sensação sem nome, incômoda e familiar ao mesmo tempo.

Balançou a cabeça, tentando afastar o pensamento.

Abriu a porta ainda enrolado na toalha — e deu de cara com Marco no corredor, segurando um conjunto de roupas dobradas.

O tempo pareceu se contrair.

O olhar de Marco percorreu-o rápido demais para ser intencional, mas não rápido o suficiente para que Nicolas não o percebesse. A pele queimou, não pela água quente, mas por algo mais.

— Achei que poderia servir — Disse Marco, com a voz rouca, evitando prolongar o momento.

Nicolas pegou as roupas, sentindo o pulso acelerar.

— Obrigado.

Entrou no quarto e encostou as costas na porta, respirando fundo. O som do coração era alto demais.

Vergonha. Era isso que deveria estar sentindo. Mas havia outra coisa — algo mais denso, que não se encaixava em palavras.

Vestiu-se rápido, respirando em arfadas curtas, tentando recuperar o controle.

Pouco depois, já estavam prontos. Marco vestia uma camisa escura e um terno limpo encontrado no quarto ao lado. O cabelo ainda úmido caía sobre a testa, e havia uma firmeza contida no modo como ele ajeitava as mangas, como se preparar-se fosse também uma forma de resistência.

Saíram da casa discretamente e caminharam até a avenida principal do bairro. O bairro era silencioso, ladeado por muros altos e jardins bem cuidados — o tipo de lugar onde o tempo parecia andar em outro ritmo.

Um táxi parou quando Marco levantou a mão.

— Rua Bernardo Mascarenhas, número 712 — Disse Nicolas ao taxista.

O carro arrancou.

Belo Horizonte despertava sob um sol pálido, indiferente. O trânsito era o mesmo de sempre: buzinas, ônibus lotados, pedestres apressados. Para Nicolas, aquilo tudo parecia um filme distante — um mundo que continuava girando, ignorando o fato de que o dele tinha parado.

O táxi os deixou diante de um prédio de fachada espelhada, no bairro de Lourdes. As janelas refletiam o céu acinzentado, e uma placa discreta anunciava: Magalhães & Associados – Advocacia Empresarial.

Lá dentro, o ambiente era frio e impecável. Mármore claro, ar-condicionado, cheiro de café recente. Tudo tão controlado que o caos de fora parecia uma invenção. Uma secretária os conduziu até uma sala revestida de madeira escura. O homem que os esperava ali levantou-se com um sorriso ensaiado. Com cabelos e bigode grisalhos e usando um terno sob medida, Donald Magalhães ostentava uma expressão serena no rosto.

— Nicolas! — Disse ele, abrindo os braços. — Que tristeza, meu caro… soube do ocorrido. Meus sentimentos.

Nicolas permitiu o abraço, mas seu corpo permaneceu rígido.

— Obrigado, doutor.

O advogado o guiou até uma poltrona de couro e serviu um copo d’água. O som do gelo tilintando parecia desproporcionalmente alto naquele silêncio de escritório.

— Seu pai confiava muito em mim — Começou Donald. — Deixou tudo organizado, como sempre fazia. Leonel era um homem prático.

Abriu uma pasta de couro e retirou alguns documentos, que colocou sobre a mesa com precisão quase cerimonial.

— No testamento, ele nomeia você como herdeiro universal. A casa, as propriedades rurais, a coleção de carros, as cotas da construtora Machado Galvão e alguns investimentos menores.

Nicolas o ouviu em silêncio. As palavras soavam distantes, abstratas — “herdeiro universal” parecia uma ironia cruel. Ele mal sabia quem o pai fora, e agora herdava o que restara dele.

— E o processo? — Perguntou, a voz baixa. — Quanto tempo leva?

— Poucos dias. Eu cuidarei de tudo. Seu pai confiava que você saberia o que fazer com o legado dele.

Nicolas assentiu, mas seus olhos brilharam de umidade. Donald percebeu e suavizou o tom.

— Lamento muito pela forma como ele se foi — Disse, pausadamente. — Já marcaram o funeral?

Nicolas gaguejou.

— Eu… ainda não.

Marco interveio, firme, o olhar calculado:

— Ainda estamos definindo. Tudo aconteceu muito rápido. A família está cuidando disso.

Donald assentiu, compreensivo.

— Claro. Se precisarem de mim, estarei à disposição.

Eles se levantaram. Donald apertou a mão de ambos, formal.

— O que vão fazer agora?

— Vamos voltar para casa — Respondeu Nicolas. — Quero ver se encontro alguma coisa que explique o que houve.

O advogado assentiu novamente, com o mesmo sorriso profissional.

— Força, meu rapaz.

A porta se fechou atrás deles. Donald permaneceu imóvel por alguns segundos. Depois, pegou o telefone e discou um número.

— Sim — Disse, em voz baixa. — Ele acabou de sair daqui.

Lá fora, o céu já começava a escurecer, e o ar de fim de tarde trazia aquele cheiro metálico de chuva distante misturado ao asfalto quente. O vento soprava fraco, levantando folhas secas nas calçadas.

O táxi seguiu por ruas largas, depois por avenidas mais desertas, até que o trânsito deu lugar a um silêncio de bairro nobre — muros altos, portões automáticos, jardins meticulosamente podados.

Durante o trajeto, Marco manteve o olhar atento pelos retrovisores. As mãos pousadas sobre os joelhos pareciam calmas, mas os dedos, inquietos, denunciavam o contrário. Nicolas percebeu e tentou não demonstrar que o observava.

— Você acha que alguém pode estar nos seguindo? — Perguntou.

— Não sei — Respondeu Marco, sem virar o rosto. — Mas a essa altura, eu não confio em coincidências.

O táxi parou diante da casa de Nicolas — uma mansão moderna, linhas de concreto e vidro refletindo o céu azul-escuro. O portão automático se abriu lentamente, e o som das engrenagens ecoou como um aviso.

Quando o carro se afastou, o silêncio que ficou pareceu ainda mais profundo.

Nicolas hesitou por um segundo antes de dar o primeiro passo. O coração batia pesado no peito, e uma sensação estranha — quase reverência, quase medo — o fez diminuir o ritmo.

A casa parecia maior, mais fria. Era o mesmo lugar onde passara parte da infância, mas agora cada parede parecia carregada de uma ausência. O ar tinha cheiro de madeira encerada e perfume caro, e o eco dos passos no mármore parecia o som de alguém invadindo um templo.

— Tá tudo tão… vazio — Murmurou.

Marco olhou em volta, avaliando o ambiente como quem mede o terreno de um campo de batalha. Depois pousou uma mão firme no ombro de Nicolas.

— Você consegue seguir?

Nicolas assentiu, respirando fundo.

— Consigo.

O toque de Marco demorou um instante a mais do que o necessário, e Nicolas o sentiu como uma âncora no meio do caos. Quando Marco se afastou, um frio substituiu o calor do contato.

Separaram-se para procurar pistas. Marco desceu para o escritório do térreo, enquanto Nicolas subiu as escadas em direção ao quarto do pai.

As portas ainda estavam entreabertas, como se esperassem que o dono voltasse a qualquer momento. O quarto de Leonel mantinha o mesmo rigor de sempre — cortinas pesadas, móveis escuros, a cama feita com precisão militar. Havia um leve perfume de colônia e papel envelhecido no ar, e Nicolas teve a impressão de que o tempo ali não corria na mesma velocidade.

Abriu as gavetas, revistou pastas, papéis, agendas. Nada além de contratos, relatórios, recortes de jornais. Nenhuma pista de algo que explicasse por que o pai fora morto. Até que encontrou, dentro da mesa de cabeceira, uma pasta cinza com o logotipo discreto da construtora. Dentro, havia documentos técnicos — plantas, diagramas, termos de sigilo. No cabeçalho, lia-se: Aeroporto Internacional de Confins – Setor D – Obra de Expansão Estrutural.

— Confins? — Murmurou. — Eu nunca ouvi falar disso.

Marco surgiu na porta, segurando uma lanterna pequena e uma pasta de anotações.

— Encontrei uns papéis também, mas nada muito revelador. E você?

Nicolas levantou a pasta.

— Só isso. Meu pai nunca mencionou nenhuma obra em Confins.

Marco franziu o cenho, aproximando-se para olhar o documento.

— Isso parece confidencial. Talvez seja isso que estavam tentando esconder.

Mas antes que pudesse terminar a frase, o olhar dele se congelou. Por um instante, o mundo pareceu desacelerar. O reflexo de algo vermelho tremeluzia no papel de parede atrás de Nicolas — um ponto pequeno, instável, movendo-se em direção ao peito dele.

— Abaixa! — Gritou Marco.

O som do tiro veio no mesmo segundo — um estalo seco seguido do estilhaçar da janela. O impacto foi brutal, e Nicolas sentiu o corpo ser jogado para o chão pelo peso de Marco sobre ele.

O ar se encheu de estalos, estilhaços de vidro e poeira. Tiros atravessavam o cômodo, rachando móveis, explodindo pedaços de parede. O barulho era ensurdecedor, e o cheiro de pólvora queimava o ar.

— Fica abaixado! — Rugiu Marco, arrastando Nicolas para trás da cama.

O coração de Nicolas batia tão rápido que ele mal respirava. O som de respingos de vidro caindo misturava-se ao farfalhar das cortinas agitadas pelo vento que entrava.

De repente, um ruído grave cortou o caos — um ronco metálico que fazia o chão vibrar.

Nicolas ergueu o olhar. O som vinha do alto, pesado, ritmado, como o de uma máquina pairando sobre o telhado.

— O que é isso? — Perguntou, a voz trêmula.

— Não sei — Respondeu Marco, os olhos fixos na janela quebrada. — Mas não parece um helicóptero.

Um novo disparo. Fragmentos de reboco explodiram ao lado deles.

— Corre! — Gritou Marco.

Agarrando Nicolas pelo braço, puxou-o em direção à porta. Desceram as escadas tropeçando, escorregando em meio à fumaça e ao pó. O som dos tiros os acompanhava como uma tempestade.

No hall, o vidro das portas explodiu em estilhaços luminosos. O ar estava tomado por um cheiro de fogo e metal quente.

— Porta dos fundos! — Gritou Marco.

Correram pela cozinha. Nicolas sentia o coração rasgar o peito. Cada passo soava como um trovão. Marco arrombou a tranca com o ombro, empurrou a porta e gritou:

— Corre! Mata dos fundos! Agora!

O ar lá fora era frio e denso. Nicolas tropeçou entre os arbustos, os galhos arranhando-lhe os braços. Marco vinha logo atrás, ofegante, com a arma em punho. Então o som voltou — o rugido grave vindo do céu. Nicolas olhou para cima e viu um vulto escuro e arredondado como uma gigantesca arraia cortando as nuvens. Luzes brancas varriam o terreno, como olhos procurando algo.

A aeronave escura afastou-se rugindo e girou no próprio eixo, fazendo uma curva de 180 graus e se virando de frente para a casa. Na sequência, saiu dela um clarão.

Vindo em direção à casa, um silvo.

E então, a explosão.

A mansão foi engolida por uma bola de fogo, o impacto os lançou ao chão. O calor queimou-lhes a pele mesmo à distância. Nicolas virou-se e viu a mansão se transformar num inferno laranja e preto. Vidros, madeira, ferro — tudo se dissolvia em segundos.

O som era ensurdecedor. Um grito escapou, mudo, preso na garganta.

Marco o agarrou pelos ombros e o sacudiu.

— Vamos antes que achem a gente! Eles não vão parar!

Os olhos de Nicolas estavam vidrados, o rosto coberto de cinzas. Ele só conseguia repetir mentalmente: meu pai, minha casa, tudo…

Marco o puxou, quase carregando-o. Pularam o muro dos fundos, caindo sobre a grama do terreno vizinho. O chão estava frio e úmido, e o ar cheirava a fumaça e pólvora. Correram em direção à rua. De repente, um farol se acendeu adiante — um feixe de luz branca cortando a noite. Um Jeep Renegade verde veio em alta velocidade, derrapando e bloqueando a rua estreita.

Um homem desceu, fuzil nas mãos, voz cortando o ar:

— No chão! Agora!

Marco reagiu instintivamente, empurrando Nicolas para trás de um poste. Antes que conseguisse sacar a arma, um novo som de motor ecoou.

Pneus gritaram no asfalto. Um Toyota Corolla preto surgiu no cruzamento, vindo em disparada. O motorista girou o volante e derrapou de lado — a traseira atingiu o atirador com um impacto seco, lançando o homem contra o portão de ferro.

O sedã parou.

A porta do carona se abriu, e um homem de cavanhaque e jaqueta escura apareceu.

— Entrem logo! — Gritou.

Marco não hesitou. Empurrou Nicolas para dentro, entrou logo atrás e bateu a porta. O Corolla arrancou, os pneus chiando, sumindo na noite.

Nicolas olhou para trás pela janela, o rosto pálido refletindo as chamas à distância. A casa que carregava o nome da família — o último elo com o pai — queimava até virar um esqueleto incandescente.

E acima, entre as nuvens, o vulto negro da aeronave desaparecia, como se jamais tivesse existido.


—X—X—X—


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— Trailhawk-PortCom7 [GMT -3 | 20:37:49]: Hawk Sete para Cygnus.

— Cygnus-PortCom1 [GMT -3 | 20:38:22]: Prossiga.


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— Trailhawk-PortCom7 [GMT -3 | 20:39:07]: A interceptação fracassou. Beta conseguiu escapar.

— Cygnus-PortCom1 [GMT -3 | 20:40:13]: COMO?? É um lugar afastado e vocês estavam de campana a horas! E vocês tinham o Prima para concluir o ataque! Como isso aconteceu?

— Trailhawk-PortCom7 [GMT -3 | 20:40:57]: Ele chegou acompanhado pelo motorista. Não sabemos como eles conseguiram sair a tempo. Eles fugiram pela mata dos fundos da propriedade. Um dos nossos homens conseguiu interceptá-los, mas eles tiveram ajuda de uma terceira pessoa para fugir em um Corolla preto.

— Cygnus-PortCom1 [GMT -3 | 20:42:01]: Conseguiram ver quem era?

— Trailhawk-PortCom7 [GMT -3 | 20:42:34]: Negativo. Os vidros eram muito escuros.


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— Cygnus-PortCom1 [GMT -3 | 20:44:09]: Isso é inaceitável. Não podemos deixar nenhuma ponta solta, ainda mais agora que o Prima e o Night Fury estão em testes finais. Precisamos eliminar Beta e o motorista logo. Já sabemos os locais que eles habitualmente frequentam. Mantenham a vigilância constante e acabem logo com isso.


End transmission