Conte as Estrelas
5 Capítulo 3
A reação inicial de Nicolas foi uma surpresa congelante.
Porque seu motorista estava ali? Porque ele estava pedindo que ele o seguisse? E como diabos ele sabia onde o jovem estava? Perguntas brotaram e se sobrepuseram na mente do rapaz como um terrível engavetamento de veículos sem freio, e seu corpo não soube reagir àquilo tudo. Com os olhos estatalados e a boca entreaberta, ele apenas permaneceu como estava, sem se mover um milímetro sequer.
A moça morena ao lado de Nicolas, que até segundos antes parecia querer engoli-lo, parecia mais confusa do que assustada. Um pouco menos surpresa com a visão daquele homem de terno que parecia ter saído magicamente do chão, ela conseguiu balbuciar:
— Nicolas... está tudo bem?
Um lampejo de preocupação passou pelos olhos do motorista. Ele se adiantou e segurou o rapaz pelo antebraço de forma cautelosa.
— Por favor, senhor. Eu preciso que venha comigo. – Ele insistiu.
O corpo de Nicolas esboçou uma reação estranha ante o toque do outro. Ao sentir a mão do motorista tocá-lo, um calor estranho subiu-lhe pela espinha e, estranhamente, pela virilha. Mas não um calor ruim, desagradável, como o que recendia pelo ambiente ao redor, e sim algo um tanto... estimulante.
Dando-se conta de seus pensamentos e sentindo-se desconcertado, o rapaz empertigou-se e endureceu o olhar.
— Do que se trata? – Ele devolveu, enrijecendo os músculos.
— Seu pai me pediu que... que eu o levasse... – O motorista pareceu se embaralhar com o que estava para dizer e claramente buscou outras palavras – Que eu o levasse embora.
Nicolas franziu o cenho.
— Como você sabia onde eu estava?
O outro estreitou os olhos, e o rapaz sentiu os dedos do motorista se retesando em seu braço.
— Senhor, por favor. – Apesar da cordialidade, havia urgência na voz dele – Venha.
Um alerta soou na mente de Nicolas. Mais alto do que a música que tocava naquele momento. Mais alto que seus próprios pensamentos de pré-adulto confuso. Mais alto que qualquer paranóia ou que o efeito de qualquer bebida. De repente, ele sentiu que havia algo errado.
As mensagens do seu pai na noite anterior, pedindo que ele fosse para casa. Não fazia o estilo dele. Também a ausência e total falta de notícias de Leonel naquele dia. Ok, essa situação não era lá tão incomum, mas somada ao contexto era um tanto preocupante. E agora aquilo. Definitivamente algo não estava certo.
— O que houve? – Nicolas ficou subitamente alarmado.
O motorista fez um ligeiro gesto de negação com a cabeça. Àquela altura, algumas pessoas já olhavam para os dois de forma estranha. O rapaz percebeu os olhares alheios e entendeu o gesto do outro.
— Traz o carro.
— Está parado lá embaixo. Vamos. – O condutor devolveu de pronto, virando-se e seguindo para fora da residência.
Nicolas empertigou-se, tentando não deixar toda a sua confusão emocional transparecer em seu rosto. Apenas balbuciou uma despedida para a menina com quem estava ficando, procurou sua mochila pelos cantos e, assim que a encontrou, seguiu na direção para onde o motorista havia ido com passos apressados. Descendo as escadas da entrada, deu de cara com o enorme Kia Opirus estacionado diante de si. O motorista já estava ao volante e não se deu ao costumeiro trabalho de abrir a porta do sedã para que o jovem entrasse.
Ok, algo está muito errado, ele pensou, aflito.
Nicolas abriu a porta do carona, jogou sua mochila no banco de trás e sentou-se no banco dianteiro do Opirus. Ele mal teve tempo de fechar a porta antes que o motorista colocasse o veículo em movimento. O silencioso motor V6 do sedã teve toda sua potência exigida e rugiu com vontade. Passando o cinto de segurança sobre o peito, o jovem finalmente berrou:
— O que está acontecendo, caralho?
— Seu pai me pediu que levasse você para um local seguro. – O motorista respondeu de pronto, com uma feição sisuda.
Nicolas ia emendar outra pergunta, mas o motorista desviou o veículo de alguns carros à frente e o jovem desequilibrou-se, balançando no banco. Apesar do peso absurdo do sedã, seus pneus mal chiaram contra o asfalto. Chegando à esquina da Rua Juventino Dias, o Opirus virou com tudo à direita e começou a descer no sentido do Centro de Belo Horizonte.
Ajeitando-se no banco e passando a mão pelo cabelo, Nicolas sentiu-se nauseado.
— Onde está meu pai? – Ele perguntou.
— Vamos encontrá-lo logo, logo. – O motorista devolveu, atento ao trânsito.
O hodômetro já marcava incríveis 120 quilômetros por hora enquanto o sedã parecia voar baixo pela Avenida Agulhas Negras, seus quatro faróis dianteiros varrendo a noite como um limpa-trilhos luminoso.
— Eu quero saber o que está acontecendo! — Nicolas exigiu.
Antes que obtivesse sua resposta, o motorista virou o volante com força para a direita e contornou a Praça da Bandeira sem sequer tocar o freio. A traseira do Opirus deslizou de lado e Nicolas achou por um momento que iriam capotar. Agarrou-se à porta e tudo que conseguiu fazer foi fechar os olhos e gritar.
O capotamento não veio e agora o veículo descia velozmente pela Avenida Afonso Pena. O vento zumbia contra a lataria do elegante sedã como o silvo de um maquinário industrial, e as luzes dos postes e faróis traseiros dos outros veículos que transitavam pela via passavam pelas janelas como borrões coloridos. Ainda agarrado à porta e à alça do teto, assustado e preocupado, Nicolas tentou mais uma vez:
— Por favor, me diz o que está acontecendo. – A voz dele saiu murcha e quase inaudível.
O motorista permaneceu sério por alguns segundos, desviando de mais alguns veículos à frente, mas acabou suspirando e pondo-se a falar.
— Eu não sei muito mais do que já te falei. – Ele confessou – Seu pai me mandou uma mensagem pedindo que eu te buscasse com urgência e te levasse para um lugar seguro. Estou apenas fazendo meu trabalho.
Não adiantou nada. Nicolas permaneceu tão confuso quanto estava antes. Seu pai era empresário do ramo de construção. Porque ele pediria ao motorista que o levasse para um lugar seguro? Para se esconder? Fugir? De quem? Perguntas e mais perguntas, e o jovem de repente queria se embebedar loucamente para esquecer tudo aquilo.
É um sonho, ele pensou. Tenho certeza que é. Ainda estou de ressaca da noite no bar e vou acordar na minha cama e ter um dia péssimo na faculdade, ele ficou repetindo para si como um mantra, querendo acreditar naquela possibilidade.
Um bipe começou a ecoar pelo carro, e Nicolas viu um ícone piscando na tela da central multimídia do veículo. Era uma chamada telefônica chegando, e o motorista logo tratou de atendê-la.
— Fala. – Ele disparou.
— Onde você está? — Alguém perguntou do outro lado da linha.
— Descendo a Afonso Pena. Acabei de passar o cruzamento da Avenida Brasil.
— Estamos descendo a Carandaí. Você vai nos avistar logo.
Nicolas não reconheceu a voz do outro interlocutor, mas imaginou que fosse um dos seguranças ou o motorista particular de seu pai. Viu quando seu próprio motorista agradeceu e encerrou a ligação. Estavam chegando depressa ao entroncamento das avenidas Afonso Pena e Carandaí, e logo um imenso SUV preto surgiu à frente do Opirus. Era o Kia Sorento particular de Leonel. Os dois veículos logo se alinharam e passaram a correr em comboio. Dobraram à direita na Rua Espírito Santo e à esquerda na larga Avenida Amazonas, acelerando com toda a força que os motores permitiam. Já passava das dez, então não teriam muitos problemas com o trânsito àquela hora da noite.
O celular de Nicolas tocou. O jovem demorou a ouvir pois o aparelho estava dentro da mochila, e ele teve certa dificuldade para conseguir pegá-lo, já que a todo instante o motorista desviava o sedã do tráfego à frente. Quando finalmente teve o telefone em mãos, percebeu que era seu pai quem estava ligando.
— Filho? — A voz de Leonel estava esganiçada.
— Pai, o que está acontecendo? – Nicolas devolveu de pronto, sentindo o ar faltar em seus pulmões e os olhos se enchendo d’água.
— Te explico tudo assim que chegarmos. Você está bem?
— Assim que chegarmos aonde? Me explicar o quê? — O jovem tentou gritar, sentindo-se trêmulo, mas não teve fôlego suficiente – Você manda o meu motorista me buscar para me levar para “um lugar seguro” e não me diz sequer o que está havendo? Eu estou com medo, porra!
— Nicolas, se acalme, por favor. – O empresário pediu – Vou te contar tudo o que está acontecendo, mas não por telefone. Só quero saber se você está bem.
— Eu não estou bem! – O jovem começou a chorar, e teve certeza que as cervejas que havia bebido tinham tudo a ver com aquela emoção toda – Sou órfão de mãe, tenho um pai ausente, minha vida é uma droga, estou sendo arrastado como um fugitivo e não faço a menor idéia do que está acontecendo! Eu não estou bem!
— Filho...
— Você pouco se importa comigo ou com o que eu penso! – Nicolas prosseguiu, sentindo um estranho impulso para desabafar aquilo tudo – Seus negócios são sempre a sua prioridade! Aposto que você está devendo o rabo para algum bandido ou político corrupto. Agora você está tendo que fugir e está me levando junto.
— Nicolas!
— Não quero saber! – O rapaz berrou de novo – Converse comigo quando você decidir ser meu pai.
E desligou, jogando o celular de volta para o banco de trás. Uma tonteira enevoada começou a tomar conta de sua cabeça e ele recostou-a contra a janela. Sentia-se um tanto abatido, como se toneladas de fadiga acumulada tivessem de repente caído sobre ele, mas tinha certeza que era apenas o efeito dos becks e das cervejas somado ao estresse que ele vinha sentindo ultimamente. Tentando não pensar em nada, fechou os olhos e tentou relaxar um pouco.
Nicolas logo sentiu quando o veículo fez uma curva forte à direita cantando os pneus e desequilibrou-se no banco de novo. Corrigindo sua postura e olhando em volta, percebeu que o Opirus estava deixando a BR-381 e contornando a alça da via de acesso à refinaria Gabriel Passos, em Betim. Ele havia apagado momentaneamente sem se dar conta. Seus olhos latejavam com o sono que agora se abatia sobre ele, mas, estranhamente, não queria fechá-los outra vez.
— Já sei que estamos indo para um lugar seguro. – Ele disse num tom seco, falando com o motorista – Mas pode me dizer pelo menos onde é esse tal local?
— Seu telefone tocou algumas vezes enquanto você estava dormindo. – O motorista comentou, com os olhos fixos no SUV que corria alguns metros à frente.
— Eu te fiz uma pergunta. – Nicolas endureceu o tom de voz.
O motorista abriu a boca para responder, mas tudo que saiu de sua garganta foi um chiado baixo. Parecendo um tanto contrafeito, acabou respondendo:
— Desde que seu pai me contratou, ele sempre me orientou a levar você para um local que ele chama de “casa segura”, na cidade de Mário Campos, no caso de acontecer alguma emergência. – Ele explicou – Eu não deveria nem estar te dizendo isso, na verdade. Ele sempre disse que não queria te deixar assustado.
Nicolas piscou.
— Você me rastreia, me tira de uma festa sem dar nenhuma explicação, me joga dentro desse carro e sai dirigindo como um louco por aí e meu pai acha que isso tudo não vai me deixar assustado? – Ele inspirou fundo e soltou o ar bem devagar, tentando se acalmar – Tá bom.
Um lampejo de luz branca iluminou o interior do Opirus, e perceberam um veículo se aproximando por trás do sedã. Estavam passando pela portaria da refinaria e virando à direita na Avenida do Contorno, extremamente estreita e escura.
— Me desculpe. Não era minha intenção te assustar ou te deixar preocupado. – O motorista respondeu, acompanhando os faróis brancos pelo retrovisor – Estou apenas seguindo minhas orientações.
Nicolas suspirou, lembrando-se dos pensamentos que havia tido mais cedo naquele mesmo dia. Sobre como seu motorista vinha sendo a pessoa mais presente em sua vida nos últimos tempos e a que o tratava melhor. E esse detalhe chamou-lhe a atenção por um instante. Independente de como o jovem estava, o motorista sempre o tratava com educação e cordialidade.
Fazia com ele ainda se sentisse digno de respeito.
— Tudo bem. – O rapaz falou, olhando para baixo – Isso não tem a ver com você.
O motorista nem chegou a esboçar resposta, pois percebeu que as luzes que vinham logo atrás estavam se aproximando rápido e abrindo para ultrapassá-lo. Encostando o Opirus mais à direita da via, deu passagem ao outro veículo. Nicolas observou a manobra com atenção e ambos viram quando um Jeep Renegade verde passou por eles como um trem-bala. O asfalto da avenida era péssimo, mas o pesado sedã mantinha a faixa dos 100 quilômetros por hora com certa facilidade. O Jeep devia estar pelo menos a 130.
— Mas o que... – Nicolas começou a perguntar, mas deixou a frase pelo meio.
O Jeep estava passando o Sorento de Leonel e parecia querer abrir uma distância à frente, e o rapaz e seu motorista observavam atentamente a movimentação adiante. A estranheza só tomou forma mesmo quando houve uma reação do SUV Kia. Quando o Renegade se emparelhou com o carro onde o empresário estava, a primeira reação do condutor do veículo foi acelerá-lo ao máximo. O Kia Sorento ganhou ainda mais velocidade, mas o Jeep, bem menor e mais leve, acompanhou-o sem muito esforço.
— O que ele está fazendo? – O motorista de Nicolas perguntou, falando consigo mesmo, estranhando a atitude do condutor do Sorento ao ver o Jeep ao seu lado.
Ato contínuo, o celular de Nicolas começou a tocar. Também tentando entender o que se passava com os veículos à frente, o rapaz levou alguns segundos para atinar que era o seu telefone que estava chamando e se virar para tentar pegá-lo. O aparelho havia escorregado pelo banco de couro liso e estava na extremidade esquerda do assento traseiro, quase caindo no vão entre o banco e a porta. O jovem esticou-se o quanto foi possível, mas não alcançou-o. Soltando o cinto de segurança, debruçou-se entre os bancos dianteiros e esticou o braço outra vez, conseguindo pegar o celular e constatando que era uma ligação de seu pai.
Não teve tempo para atender, no entanto. Um ruído alto de pneus cantando se fez ouvir, e Nicolas conseguiu se virar a tempo de ver o Renegade verde entrando à frente do Sorento de Leonel e puxando um cavalo-de-pau. O SUV preto foi freado com força, uma nuvem de fumaça se erguendo dos pneus traseiros, e a reação foi repetida pelo motorista do Opirus. Quando os veículos finalmente pararam, o cheiro de borracha queimada era quase insuportável.
E sob os olhares confusos de Nicolas e seu motorista, movimentando-se entre a fumaça levantada pela frenagem dos carros como fantasmas saídos de algum local assombrado qualquer, vários homens vestidos de preto e armados com fuzis desceram do Jeep e vieram depressa até o Sorento, abrindo as portas e puxando Leonel e seus seguranças para fora.
Ergueram as armas.
E fuzilaram a todos.
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