Conte as Estrelas
28 Capítulo 26
Os dias passaram com a mesma indiferença com que passam para todos, como se o tempo, cansado de se importar com o destino de cada ser humano, seguisse seu curso automático, frio, impessoal.
Belo Horizonte acordava e adormecia sem que ninguém — motorista, balconista, estudante ou médico — soubesse que, em algum ponto de seus arredores, um segredo colossal havia sido silenciado para sempre sob as fundações de um aeroporto. O mundo seguia com sua rotina: buzinas, cafés quentes, relógios apressados e amores que começavam ou acabavam, enquanto a vida, disfarçada de normalidade, escorria pelas frestas dos dias.
Mas para Marco Severo, o tempo não corria — ele apenas pairava, suspenso entre a escuridão e a consciência.
Tudo que ele sabia, no primeiro instante em que a mente começou a tentar reconstruir um sentido, era que doía. Doía como se seu corpo inteiro fosse um só músculo em espasmo, um peso frio, uma lembrança distante de si mesmo.
Sons e imagens se misturavam num mesmo nevoeiro: o estrondo metálico do hangar, o eco dos tiros, o clarão alaranjado da explosão, o rugido abafado dos motores, e então o silêncio espesso debaixo d’água. E, acima de tudo isso, uma imagem persistia, imóvel, flutuando em meio às sombras — o rosto de Nicolas.
O contorno do queixo firme, o topete levemente desalinhado, o olhar castanho que parecia sempre carregar perguntas demais e respostas de menos. Marco tentou respirar fundo, mas o ar lhe veio em soluços.
Entre um lampejo e outro da memória, ele se viu de volta à estrada, ao interior do carro, às fugas noturnas e aos momentos em que sentiu que perderia tudo.
E lembrou-se do beijo.
O instante em que Nicolas o puxara de surpresa, as mãos firmes em seu rosto, o toque úmido dos lábios que pareciam vibrar de vida. Lembrou-se de como o corpo de Nicolas colado ao seu era quente, elétrico, latejante — uma força que o arrastava para um abismo que ele jamais imaginara desejar.
Por um instante, ele sentiu novamente o calor daquele momento e o som distante das sirenes se dissolveu.
Mas o cansaço o venceu.
O corpo pesado afundou na cama, e a consciência se apagou outra vez.
—X—X—X—
Quando os olhos se abriram novamente, o dia já estava alto. A luz entrava suave pela cortina translúcida, e o ar cheirava a éter e flores plásticas. Marco piscou algumas vezes até distinguir o teto branco e o ruído grave dos aparelhos. O som intermitente de um monitor cardíaco marcava o tempo.
Tentou mover a cabeça, mas uma fisgada atravessou seu ombro. Um gemido escapou-lhe sem controle.
A enfermeira ao lado da cama levantou o olhar, com um sobressalto.
— Senhor Severo... — ela sussurrou, aproximando-se. — O senhor está acordando.
Ela pousou a mão fria sobre sua testa, num gesto quase maternal.
— Não se esforce, por favor. — O tom dela era suave, porém firme. — Vou chamar o doutor Sousa. Ele vai explicar tudo direitinho.
Ela se afastou, e o som dos passos dela se dissolveu no corredor.
Marco virou o rosto lentamente, os olhos buscando o outro lado do quarto. A cadeira ao lado da cama estava vazia.
Vazia.
Por um segundo, ele pensou que fosse engano — talvez Nicolas tivesse saído apenas por alguns minutos, talvez estivesse dormindo em alguma sala de espera, talvez…
Mas o quarto devolvia-lhe apenas o zumbido frio das máquinas.
O desamparo veio como um peso físico no peito.
O doutor Sousa entrou minutos depois, com o mesmo semblante contido de sempre, o jaleco impecável e uma prancheta sob o braço.
— Bom te ver acordado, Severo — disse, com um leve sorriso. — Você deu um bom susto em todos nós.
Marco o observou em silêncio por um momento, até que as memórias começaram a se alinhar.
— O tiro... — murmurou, a voz rouca.
— Atingiu o ombro, acima do pulmão, nada vital — respondeu o médico. — Você perdeu muito sangue, entrou em hipotermia, mas se manteve forte. Passou três dias desacordado. É um milagre estar aqui conversando comigo.
Marco fechou os olhos e deixou escapar um suspiro lento, como quem tenta agradecer sem palavras.
— É bom... é bom ver um rosto conhecido — conseguiu dizer. — Desde o exército, não é?
Sousa sorriu, nostálgico.
— Muito tempo. Eu não esperava te reencontrar assim, confesso. Mas fico feliz que tenha sobrevivido.
Seguiu-se um breve silêncio. O médico consultou a prancheta, fez anotações rápidas.
Marco, porém, não conseguia se concentrar em nada daquilo. Seus olhos fixaram-se na cadeira vazia ao lado da cama — um vazio simbólico, como se condensasse ali todo o silêncio dos últimos dias.
— Doutor... — disse ele, num fio de voz. — E o Nicolas?
Sousa hesitou.
A pergunta parecia tê-lo atingido de surpresa. Ele pousou a prancheta sobre o balcão e cruzou os braços, respirando fundo antes de responder.
— Ele ficou aqui — disse, devagar. — Nos primeiros dois dias, praticamente não saiu da sala de espera. Dormia sentado, perguntava por você a cada hora.
— E... depois? — perguntou Marco, o olhar ansioso.
Sousa abaixou a cabeça.
— Quando dissemos que você podia acordar a qualquer momento, ele simplesmente... foi embora. Sem avisar. Não deixou recado, nem destino.
As palavras vieram como uma lâmina fria.
Marco sentiu o ar lhe faltar, como se algo dentro dele tivesse se quebrado de novo — algo que ainda não tivera tempo de cicatrizar. Tentou manter o semblante firme, mas a garganta apertou. Um nó subiu até os olhos, quente, quase insuportável.
Ele virou o rosto para a janela, fingindo se distrair com o movimento das nuvens.
— Entendo... — murmurou.
Sousa percebeu, mas não insistiu.
— Eu sei que não é fácil — disse, num tom paternal. — Às vezes, as pessoas precisam ir embora pra encontrar o próprio rumo. E às vezes voltam, quando a gente menos espera.
Marco assentiu com um leve movimento da cabeça, sem tirar os olhos do vidro.
— Posso... ficar sozinho por um tempo?
O médico fez que sim.
— Claro. Mas se precisar de algo, me chame.
E saiu, fechando a porta com cuidado.
O silêncio voltou a preencher o quarto.
Marco ficou ali, olhando a cortina balançar levemente com o ar-condicionado.
Dentro de si, as lembranças voltavam uma a uma: o som das sirenes, o clarão da explosão, o rosto de Nicolas molhado pela chuva, o beijo quente e urgente debaixo da noite, o toque breve e reconfortante de uma promessa: “Eu volto.”
E ele havia voltado.
Mas Nicolas, agora, era o ausente.
—X—X—X—
A tarde arrastou-se como um animal ferido.
Marco manteve os olhos abertos por horas, observando o padrão hipnótico das sombras nas paredes, o desenho dos galhos lá fora, o bater mecânico do monitor. O corpo doía, mas era uma dor suportável — nada comparado à sensação de vazio que o corroía por dentro.
Ele pensava em Nicolas como se pensasse num horizonte distante: uma linha tênue entre o que foi e o que poderia ser.
Mais de uma vez, imaginou-se levantando, arrancando o soro do braço e saindo pelos corredores até encontrá-lo em alguma sala, como um reencontro possível. Mas a realidade era outra: Nicolas havia ido embora, e ele estava sozinho.
Fechou os olhos e, sem perceber, deixou que o cansaço o arrastasse de novo.
Quando o dia seguinte nasceu, Marco já estava acordado, observando o quadrado de luz que o sol desenhava no lençol. A enfermeira entrou com o mesmo sorriso gentil de sempre, ajustando o soro e o travesseiro. Logo atrás veio o doutor Sousa, acompanhado de um fisioterapeuta.
— Hora do teste — disse o médico, num tom animado. — Vamos ver como estão as pernas desse soldado aposentado.
Marco obedeceu.
Com um esforço concentrado, sentou-se, apoiou os pés no chão e se levantou. O mundo girou brevemente, mas ele manteve o equilíbrio.
Caminhou até o final do quarto, lento, cada passo uma pequena vitória.
O fisioterapeuta anotou algo numa prancheta, trocou um olhar satisfeito com o médico.
— Nenhum sinal de anemia — disse. — O ferimento está cicatrizando bem.
Sousa assentiu.
— Então, sem motivos pra te manter aqui. A alta deve sair ainda hoje.
Marco ouviu tudo em silêncio. A notícia, que deveria soar libertadora, veio vazia.
Ele apenas agradeceu, olhando para fora, para o pátio do hospital onde um canário-da-terra pousava num galho. O pequeno pássaro cantava, livre, e Marco se perguntou se a liberdade era realmente isso: poder ir a qualquer lugar, sem saber pra onde.
O fisioterapeuta saiu primeiro. Sousa ficou por um momento, observando-o.
— Tem alguém pra vir te buscar? — perguntou, por fim.
Marco respirou fundo antes de responder.
— Não.
O médico o avaliou com um olhar demorado, talvez compassivo.
— Entendo — disse apenas. — Vou preparar a papelada.
E se foi, deixando-o outra vez sozinho.
Marco manteve o olhar no canário até ele levantar voo, um traço amarelo sumindo no céu. Ele pensou que talvez fosse isso o que restava: seguir o vento, ir embora sem destino.
Mas o peito doía.
Porque, no fundo, ele não queria voar sozinho.
O fim da tarde chegava envolto num tom melancólico, como se o próprio dia hesitasse em se despedir. As janelas do hospital refletiam o brilho amarelado do sol poente, e dentro da recepção o ar tinha aquele cheiro indefinido de antisséptico, flores artificiais e esperança cansada.
Marco caminhava devagar até o balcão de saída, vestindo roupas simples fornecidas pelo hospital — uma calça esportiva cinza, uma camisa de algodão branca, os curativos ainda visíveis sob a gola. A caneta tremia levemente em seus dedos quando assinou os papéis de alta, e a voz da atendente soava distante, abafada, como se viesse de um outro mundo.
O doutor Sousa estava ao lado, observando-o com aquele mesmo olhar sereno de quem já vira muita dor e, por isso mesmo, aprendera a falar pouco.
— Aqui estão as prescrições — disse, estendendo uma folha com letras firmes e precisas. — Analgésicos, antibiótico, e instruções para manter o curativo limpo. Nada de esforços nas próximas semanas.
Marco assentiu, dobrando o papel e guardando-o no bolso. O médico, então, estendeu a mão, e o aperto foi firme, sincero, como um pacto silencioso entre dois homens que haviam sobrevivido a mais do que podiam contar.
— Cuide-se, Marco — disse Sousa. — E encontre um motivo para continuar. Às vezes é tudo o que precisamos pra ficar vivos.
Marco não respondeu; apenas retribuiu o gesto com um olhar cansado, quase grato. Em seguida, virou-se e caminhou lentamente pelo corredor em direção à saída.
Cada passo parecia ecoar de forma exagerada no piso encerado, misturando-se ao som distante de conversas, macas rolando, portas automáticas se abrindo. Havia algo de simbólico naquele caminhar: como se ele estivesse deixando para trás uma parte de si, uma parte que ficaria para sempre entre aqueles corredores frios — o homem que quase morrera, o soldado que carregava cicatrizes que ninguém via.
Quando atravessou a porta de vidro e sentiu o vento morno da rua tocar-lhe o rosto, Marco parou por um instante. Respirou fundo.
E então o viu.
Do outro lado da avenida, parado como uma visão saída de um sonho impossível, estava um Fiat Coupé azul — reluzente sob a luz do entardecer, o capô refletindo o dourado do céu. Escorado contra ele, numa pose relaxada e provocante, estava Nicolas.
Vestia uma jaqueta de couro escura, camisa branca justa e calça jeans desbotada. O topete, cuidadosamente desalinhado, parecia brilhar sob a luz suave, e o olhar... aquele olhar castanho, intenso e vulnerável, atravessava a avenida inteira e o alcançava em cheio, como um chamado.
Marco sentiu o peito apertar e o ar fugir dos pulmões. Por um segundo, pensou que estivesse sonhando de novo — que seu corpo ainda estivesse em alguma cama fria, que tudo aquilo fosse apenas uma miragem tardia da mente exausta.
Mas não era.
Era real.
O coração batia forte quando ele começou a atravessar a rua, devagar, sem desviar os olhos de Nicolas. O som dos carros e das buzinas desapareceu, como se o mundo inteiro tivesse se calado para assistir ao reencontro. Cada passo era uma espécie de renascimento, um retorno à vida que ele quase perdera.
Quando chegou ao outro lado, parou a poucos centímetros de Nicolas. Pôde sentir o cheiro leve de perfume amadeirado misturado à fumaça distante dos carros.
O silêncio entre eles era quase físico, denso, cheio de tudo que não fora dito.
Marco engoliu em seco e balançou a cabeça, num gesto contido.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, num tom que oscilava entre o espanto e o alívio.
Nicolas esboçou um sorriso discreto, o tipo de sorriso que vinha carregado de ternura e ironia.
— Vim te buscar, uai — respondeu, sem hesitar. — Você disse que voltaria. E voltou. Agora é minha vez de cumprir a promessa.
As palavras atingiram Marco com a força de um abraço. Ele sentiu um nó na garganta, um tremor leve nas mãos. E antes que pudesse conter o impulso, ergueu a mão e segurou o queixo de Nicolas, puxando-o para perto.
O beijo veio como um reencontro e uma rendição. Lento, profundo, cheio de significados que nenhum dos dois seria capaz de traduzir em palavras. Os lábios se tocaram com urgência e doçura ao mesmo tempo, e por um instante, Marco sentiu o mundo parar.
O toque de Nicolas era quente, o gosto familiar, o perfume reconfortante. Era a prova de que ainda havia vida, desejo e um futuro possível, mesmo depois de tanto caos.
Quando o beijo cessou, Nicolas manteve a testa encostada na de Marco, respirando junto com ele.
— Vamos embora daqui — murmurou.
Marco apenas assentiu.
Entraram no carro. Nicolas ao volante, Marco no banco do passageiro. O interior do Fiat tinha um cheiro de couro novo misturado a maresia — talvez uma lembrança recente de algum lugar costeiro, talvez uma promessa do que ainda viria.
Por alguns momentos, o silêncio reinou. Nicolas ligou o motor, mas não arrancou. O ronco baixo do motor preencheu o espaço entre eles. Marco olhava pela janela, ainda tentando processar o que acontecia.
— Tem uma coisa que eu não entendo — disse, enfim, num tom baixo. — Por que você me deixou sozinho no hospital?
Nicolas manteve o olhar fixo na frente, as mãos firmes no volante.
— Eu não te deixei — respondeu, calmo. — Eu teria ficado lá até o fim, mas quando disseram que você estava reagindo bem... eu precisei resolver o que faltava.
Marco virou o rosto para ele, intrigado.
— Resolver o quê?
Nicolas soltou um suspiro, como quem carrega um segredo há tempo demais.
— Eu voltei à Vigília. Contei ao Gael e ao Big Boy que o sistema da base foi completamente destruído. Que o vírus funcionou. Que o Night Fury e o Prima foram reduzidos a cinzas.
Marco o observava, atônito, o olhar preso às palavras. Nicolas continuou:
— Gael ficou aliviado. Disse que, a partir dali, cuidaria de tudo — das investigações, das denúncias, da limpeza que precisa ser feita. Disse que nós dois já demos mais do que o suficiente. Que agora é hora de sumir, se quisermos. Recomeçar.
O silêncio que se seguiu foi carregado de alívio e incredulidade. Marco deixou o corpo afundar no banco e passou a mão pelo rosto, sentindo o calor subir-lhe aos olhos.
— Você pensou em tudo... — disse, num tom rouco. — Até no fim disso.
— Era o que você teria feito — respondeu Nicolas, com um meio sorriso.
Por um momento, ficaram se olhando. A tensão entre eles agora era tranquila, madura, quase serena — como se o mundo finalmente lhes concedesse um instante de paz depois de tanta tormenta.
— Big Boy também ajudou — disse Nicolas, retomando o ar leve. — Ele conseguiu descobrir que hoje seria sua alta no sistema do hospital. Foi assim que eu soube quando estar aqui.
Marco deu uma risada curta, emocionada.
— Então você realmente planejou tudo... — murmurou.
Nicolas virou o rosto e sorriu de canto, provocante.
— Digamos que eu não queria correr o risco de te perder de novo.
O riso de Marco se misturou ao ronco do motor, e o ar pareceu mais leve.
— E agora? — perguntou ele, a voz ainda trêmula.
Nicolas olhou para a avenida à frente com um brilho nos olhos.
— Agora... — disse, com um meio sorriso. — Eu conheço um lugar bonito e tranquilo no litoral do Espírito Santo. Praia deserta, sol o dia inteiro, e ninguém pra nos procurar. Vai ser bom pra você descansar. E pra gente usar menos roupa.
Marco o olhou de lado, com um sorriso surpreso, quase tímido.
— Está me convidando pra fugir com você?
— Estou te convidando pra viver — respondeu Nicolas, sem hesitar. — A gente merece um pouco disso, não acha?
Marco sentiu algo quente dentro do peito, uma mistura de riso e vontade de chorar.
— Acho que sim. — Ele riu baixinho. — E o que vem depois?
Nicolas mordeu o lábio, fingindo pensar.
— Depois? Talvez uma viagem de carro pelo litoral do Nordeste. Estradas longas, calor, música alta... sem planos.
Marco riu, genuinamente. Era um riso limpo, como há tempos não acontecia.
— Parece maravilhoso.
Os dois se entreolharam, e o tempo pareceu se alongar novamente, como uma fotografia prestes a se eternizar.
Antes que Nicolas engatasse a marcha, Marco encostou a mão no ombro dele.
— Espera. — Nicolas virou o rosto. — Só mais uma coisa.
— O quê?
Marco fez um gesto de vai-e-vem com o dedo indicador no espaço entre eles.
— Quais as chances disso aqui… de a gente dar certo?
Nicolas ergueu uma sobrancelha e sorriu.
— Eu não sou bom com estimativas — disse. — Mas se você precisa de um número…
Ele levantou o queixo e apontou com o olhar para o firmamento que escurecia, onde as primeiras estrelas começavam a brilhar.
— Então conte as estrelas.
Marco sorriu, e a lágrima que escorreu de seus olhos foi de pura ternura. Ele encostou a testa na de Nicolas, murmurando:
— Acho que vai demorar uma vida inteira pra contar todas.
— Então temos tempo — respondeu Nicolas, e o motor rugiu como um animal desperto.
O Fiat Coupé azul deslizou pela avenida, cortando a noite que se erguia. O reflexo das luzes da cidade cintilava sobre o capô, e, por um instante, parecia que o carro flutuava entre o asfalto e o céu.
Lá dentro, dois homens respiravam o mesmo ar, o mesmo alívio, a mesma liberdade. Atrás deles, ficavam as ruínas de uma conspiração e as sombras de tudo o que foram.
À frente, apenas a estrada — longa, aberta, infinita.
E quando o som do motor se perdeu na distância, restou apenas o silêncio do vento, levando consigo a certeza de que, apesar de todas as dores e cicatrizes, ainda havia um mundo inteiro esperando por eles.
Um mundo onde poderiam, enfim,abrir as asas e voar.
FIM
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