A sirene cortava a madrugada como um grito humano de desespero, um som agudo e contínuo que parecia atravessar o próprio coração da cidade. As luzes vermelhas piscavam num ritmo frenético, refletindo em fachadas de prédios, janelas fechadas, postes, vidros molhados de orvalho.

Belo Horizonte passava diante da ambulância como um borrão de cores frias, cinza e vermelho, e o mundo, naquele instante, parecia resumido àquele veículo que abria caminho por entre as ruas com urgência e terror.

Dentro da ambulância, o ar era denso, saturado pelo cheiro metálico do sangue, pelo toque áspero do álcool e pela frieza impessoal do aço.

Marco estava deitado sobre a maca, o corpo imóvel, a pele azulada como porcelana sob as luzes brancas do teto. Um dos paramédicos abriu a camisa dele com violência, expondo o peito que já não subia nem descia. Outro segurava um desfibrilador, preparando as pás metálicas.

— Afasta! — gritou ele.

O som do choque ecoou como uma explosão surda, e o corpo de Marco se arqueou, convulsionando-se sobre a maca antes de cair de novo, inerte. O monitor ao lado manteve a linha reta, insistente, como se zombasse de qualquer esperança.

— De novo! — ordenou o paramédico.

— Aumenta a carga! — respondeu o outro, já suando.

— Afasta!

O segundo choque fez o corpo de Marco saltar mais alto, e um cheiro de ozônio misturado ao suor preencheu o espaço estreito. Nada.

— Prepara a intubação!

O terceiro paramédico pegou o equipamento.

— Vamos, reage! — murmurou o primeiro, agora com a voz falhando. — Não quero perder ninguém essa noite, ouviu?

No canto da ambulância, enrolado numa manta térmica, Nicolas observava tudo em silêncio, as mãos trêmulas escondidas sob o tecido aluminizado. As lágrimas escorriam sem força, num fluxo contínuo que já não parecia controlável.

Ele se sentia anestesiado, como se não estivesse de fato ali. Os sons lhe chegavam distantes, deformados, como se viessem de um outro mundo. Queria acreditar que tudo era apenas um pesadelo — um sonho ruim do qual acordaria em breve, com Marco ao seu lado, preparando café e sorrindo.

Mas o grito — “Afasta!” — veio outra vez, e o som seco do choque o arrancou de qualquer ilusão. O corpo de Marco saltou uma terceira vez, e dessa vez, o monitor vibrou, emitindo um bip fraco, hesitante, mas real.

— Temos pulso! — gritou o paramédico. — Temos pulso!

Nicolas levou as mãos ao rosto e deixou escapar um soluço abafado. O som das sirenes o envolveu, misturando-se ao ritmo acelerado de seu coração.

A ambulância freou bruscamente, e os portões do hospital se abriram com um rangido metálico. A luz fria da emergência os engoliu.

O mundo se tornou um borrão de jalecos, vozes e metal.

As portas traseiras se abriram e, num instante, Marco foi levado. As rodas da maca batiam no piso, produzindo um som metálico que parecia um tambor batendo dentro do peito de Nicolas.

Ele tentou segui-los, mas uma mão firme o conteve.

— Senhor, o senhor precisa ser atendido — disse uma voz masculina.

— Eu preciso ir com ele! — gritou Nicolas, tentando se soltar.

— Ele está em boas mãos. Agora o senhor precisa respirar, entendeu? Respira comigo.

Nicolas olhou o enfermeiro com os olhos arregalados, como se não compreendesse as palavras. Por um instante, pareceu querer lutar, mas logo o corpo cedeu. A força simplesmente se foi, e ele se deixou guiar pelos corredores, com o olhar perdido e o coração pesado.

Sentou-se numa maca e deixou que o enfermeiro o examinasse. A voz do homem era suave, técnica, distante.

— Pressão normal... temperatura baixa... sem ferimentos aparentes. — Nicolas mal ouvia. Apenas assentia.

O enfermeiro perguntou se ele queria algo — água, cobertor, calmante — e ele respondeu que não. O homem suspirou e disse que o levaria até a recepção da UTI.

As luzes brancas dos corredores pareciam ainda mais violentas agora. O som do ar-condicionado se misturava ao estalar dos passos e ao ruído constante de portas automáticas. Tudo parecia uma cena fora do tempo.

Quando chegaram à recepção da UTI, a enfermeira de plantão levantou os olhos do computador.

— O senhor é acompanhante do paciente Marco Severo?

— Sim — respondeu Nicolas, a voz rouca.

— Ele está no bloco cirúrgico neste momento. Assim que tivermos informações, chamaremos o senhor.

A palavra “cirúrgico” fez o coração de Nicolas disparar.

Cirurgia significava vida.

Significava chance.

Ele sentou-se numa poltrona desconfortável e ficou ali, imóvel, olhando fixamente para as portas duplas que se abriam e fechavam. O som dos passos ecoava. O tempo parecia se diluir em uma névoa espessa.

A cada lembrança, uma dor diferente o atravessava.

Recordou o primeiro olhar que trocara com Marco — aquele olhar distante, de quem carregava o peso de um passado pesado demais. Lembrou-se das primeiras conversas truncadas, dos silêncios incômodos, das respostas curtas. E depois, das pequenas brechas: o gesto de Marco ao lhe desejar feliz aniversário, o café improvisado, a maneira como o observava sem que ele percebesse.

Lembrou-se de tudo o que vieram a enfrentar juntos: a fuga, os tiros, o medo, o som ensurdecedor das explosões. Marco sempre o protegendo, colocando o próprio corpo entre ele e o perigo.

Sempre Marco.

As lágrimas voltaram.

E então, veio a lembrança mais viva, mais intensa, mais cruelmente doce: o beijo.

Aquela descarga de energia pura, o instante em que o mundo inteiro desapareceu e só existiam eles dois. A boca de Marco, quente e urgente. O toque de suas mãos fortes segurando sua cintura, puxando-o para mais perto, como se pudesse protegê-lo de tudo. O sabor agridoce de alívio, de desejo, de medo.

Nicolas fechou os olhos e respirou fundo, tentando conter o choro.

Por um instante, deixou-se imaginar outra vida: ele e Marco num lugar distante, sem segredos, sem fugas. Um lugar simples, talvez perto do mar. Onde as manhãs seriam silenciosas e as noites cheirariam a brisa e liberdade. Imaginou-se acordando ao lado dele, sentindo o calor de seu corpo, o toque de seus dedos percorrendo sua pele.

Imaginou o mundo reduzido àquilo — dois corpos, duas existências finalmente em paz.

O pensamento era tão vívido que o fez sorrir, mas logo o sorriso se desfez.

O som de uma porta se abrindo o despertou. Um médico apareceu na entrada da recepção, com o semblante cansado e a máscara pendendo sob o queixo.

— Acompanhante de Marco Severo? — perguntou, a voz ecoando pelo ambiente.

Nicolas se levantou de imediato.

— Sou eu! — disse, num tom mais alto do que pretendia.

O médico o olhou por um momento e assentiu.

— Venha comigo, por favor.

Eles se afastaram para um canto do corredor, e o médico começou, com voz calma:

— O paciente perdeu muito sangue devido ao ferimento e entrou em estado de hipotermia. Foi um milagre os socorristas o manterem vivo até a chegada ao hospital.

As palavras soaram distantes, pesadas, quase irreais. Nicolas sentiu as pernas fraquejarem.

— A bala não atingiu órgãos vitais — continuou o médico — e conseguimos removê-la com sucesso. No entanto, o corpo dele sofreu um colapso sistêmico devido ao frio e à perda de sangue. Ele está sedado e em observação.

— Ele vai sobreviver? — perguntou Nicolas, a voz vacilante.

O médico o observou com um olhar cansado, porém humano.

— É cedo para dizer. Mas ele é forte. E já venceu a parte mais difícil.

A esperança, ainda que mínima, foi como um sopro.

O médico ajeitou o jaleco e mexeu distraidamente num anel de prata com uma pedra azul no dedo mindinho. Nicolas reconheceu de imediato — era idêntico ao que Marco usava. O médico percebeu o olhar dele e sorriu de leve.

— Servimos juntos na ABIN — explicou. — Ele é um homem bom. Um soldado exemplar. Sofreu mais do que merecia.

As palavras o atingiram em cheio.

— Foi uma injustiça — continuou o médico, num tom baixo. — Expulso por quem era, não pelo que fez. Ele merecia coisa melhor. — Fez uma pausa e ergueu os olhos. — Mas parece que, ao menos, encontrou alguém que ficou ao lado dele.

Nicolas sentiu o rosto arder. O coração, antes pesado, bateu com força.

O médico colocou a mão em seu ombro.

— Cuide dele. Poucos têm coragem de amar alguém até o fim.

Nicolas não respondeu. As palavras ecoaram dentro dele com uma força que não esperava.

Quando o médico se afastou, Nicolas voltou à poltrona e ficou ali, imóvel, observando as portas da UTI. O silêncio do hospital parecia ter se tornado o som de uma promessa.

Ele respirou fundo e fechou os olhos.

Sim, o médico tinha razão. Ele estava ali. E enquanto Marco respirasse, ainda que por aparelhos, ele continuaria ao lado dele — até o fim, se fosse preciso.

O relógio na parede marcava 3h47 quando Nicolas sentiu, pela primeira vez desde o início de tudo, um leve alívio dentro do peito. Lá fora, a madrugada começava a ceder espaço ao primeiro traço pálido do amanhecer.

E Nicolas, envolto na luz fria do hospital, percebeu que aquele novo dia trazia algo que não sentia há muito tempo — uma segunda chance.