Conte as Estrelas
26 Capítulo 24
O estampido do tiro ainda ecoava pelo escritório, misturado ao som do vidro que se partira em algum canto distante e ao ressoar metálico da cápsula vazia rolando pelo chão.
O cheiro da pólvora ainda estava no ar.
Marco estava caído de lado, o corpo curvado, o sangue escorrendo do ombro em filetes densos, quentes. Ele respirava com dificuldade, cada inspiração um gemido sufocado.
Nicolas olhava para ele, mas não se movia. O corpo inteiro parecia ter se tornado pedra — os músculos rígidos, o coração batendo tão rápido que doía.
Verônica continuava parada onde estava, uma mão segurando a pistola com elegância cirúrgica, a outra apoiada na cintura, como se tivesse acabado de corrigir um gesto banal. A frieza com que ela mantinha o olhar era insuportável. A luz branca e fria do escritório refletia-se em seus olhos castanhos, transformando-os em duas superfícies de vidro.
— Por quê? — a voz de Nicolas saiu fraca, rouca, quase infantil.
Ele não sabia o que perguntar, nem o que pensar. Só aquilo. Por quê?
Verônica suspirou, recostando um pouco o corpo sobre o calcanhar, como quem se resigna a uma conversa inevitável.
— Eu não queria que chegasse a esse ponto — respondeu, num tom baixo, quase terno. — Sinceramente, Nicolas, eu não queria. — Ela baixou os olhos para o chão, depois voltou a erguer o olhar para ele. — Eu gostava de você. De verdade. Mas seu pai… — ela suspirou novamente — Leonel me obrigou a tomar decisões que nem mesmo eu queria tomar.
O nome do pai fez o sangue de Nicolas ferver e gelar ao mesmo tempo. Ele respirou com dificuldade, os olhos marejando. O som dos gemidos de Marco no chão o feria por dentro.
— Então era você. — Ele deu um passo vacilante à frente, as mãos trêmulas. — Você é Cygnus.
Verônica não respondeu. Apenas o olhou — e nesse olhar não havia surpresa nem culpa, apenas a serenidade de quem já carregava aquele segredo há tempo demais.
Nicolas engoliu em seco. A mente embaralhada tentava juntar as peças, mas nada fazia sentido. Tudo se misturava: o pai, a base, os aviões, os alienígenas, a mulher à sua frente com a arma ainda erguida.
— Você… — ele tentou falar, mas a voz quebrou. — Vai matá-lo?
Verônica virou o rosto lentamente para Marco, que gemia no chão. O sangue dele manchava o piso como tinta viva. Ela voltou o olhar para Nicolas e assentiu uma única vez.
— Sim. — A palavra soou seca, precisa. Ela ergueu a pistola, o cano negro apontando agora para o peito de Nicolas. — E você também.
Nicolas deu uma risada curta, tremida, quase um soluço disfarçado.
— Então é isso? — murmurou. — Matando uns aos outros pra esconder que eles existem? — A voz dele foi subindo, tomada por uma mistura de raiva e desespero. — Meu pai morreu, você atirou no Marco, e tudo isso pra quê? Pra manter um segredo que já devia estar no mundo há décadas? — Ele balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo. — Talvez eles estejam certos. Talvez seja exatamente por isso que nos vigiam. Porque somos cruéis. Somos uma praga.
Verônica estreitou os olhos.
Aquela acusação, dita daquele jeito, a feriu.
Ela deu um passo à frente.
— Você não faz ideia do que está dizendo. — O tom da voz dela era firme, autoritário, mas havia uma nota de emoção ali, escondida. — Desde o início da civilização, há registros de abduções. De pessoas levadas, mutiladas, devolvidas como carcaças.
Ela começou a andar pelo escritório, o salto de seus sapatos ecoando no piso de mármore.
— Os sobreviventes, Nicolas, quando há algum, contam histórias que fariam você implorar pra que nunca tivesse nascido. — Ela se virou de repente, o cabelo curto balançando, e fixou o olhar nele. — O que fizeram com Travis Walton foi uma brincadeira de criança.
Nicolas respirava com dificuldade.
Verônica aproximou-se da janela, apoiando uma das mãos na borda da mesa de vidro, a arma ainda firme na outra.
— Você conhece o Caso Guarapiranga, de 1988? — perguntou, sem esperar resposta. — Um homem encontrado sem sangue, sem olhos, sem língua, sem órgãos. As bordas dos ferimentos queimadas, como se tivessem usado um bisturi de luz. Aquilo, Nicolas, não foi obra de ser humano.
Ela voltou-se para ele.
— Eles nos estudam. Como cobaias. Como moscas. — Os olhos dela brilharam, cheios de uma convicção gélida. — E é por isso que o Projeto Death Star existe. Porque alguém precisa reagir.
Nicolas balançou a cabeça, sentindo o peito queimar de raiva.
— E é assim que vamos nos defender? Matando pessoas, mentindo, escondendo tudo? É isso que você chama de humanidade? — A voz dele subiu. — É isso que você quer mostrar pra eles, que somos uma raça de paranoicos e assassinos?
Verônica deu uma risadinha curta, sem humor.
— Eles já sabem disso. — Ela endireitou o corpo. — Desde o Programa Guerra nas Estrelas, nos anos oitenta. Ronald Reagan sabia o que estava fazendo. — Um leve brilho de orgulho cruzou seus olhos. — Vários OVNIs foram abatidos desde então. Você acha que tecnologias como o F-117 Nighthawk ou o SR-71 Blackbird nasceram do nada? — Ela fez um gesto com a mão livre, desdenhoso. — Tudo vem deles.
Nicolas sentiu um arrepio.
— Meu Deus… — murmurou. — Vocês estão desmontando destroços extraterrestres pra fazer armas.
— Não armas — corrigiu Verônica, calma. — Defesa. Progresso. Avanço científico. — Ela deu um passo mais perto, a pistola agora apontando diretamente para ele. — O Brasil não conseguiu lançar satélites armados como os americanos, mas desenvolvemos o Night Fury. Nosso primeiro interceptador. E você o destruiu.
As palavras da última frase foram cuspidas com veneno.
Nicolas recuou um passo, o coração martelando no peito.
— O que meu pai tinha a ver com isso?
Verônica deu um suspiro lento.
— Leonel começou a questionar o propósito do projeto. Disse que estávamos indo longe demais. Depois, descobriu sobre as naves imensas cruzando o sistema solar. — Ela arqueou uma sobrancelha, a voz baixando num tom quase reverente. — Oumuamua. 3/I Atlas. Ele acreditava que era um sinal de paz. Que precisávamos tentar contato. — O olhar dela se endureceu. — Eu não podia permitir isso. Quando eu neguei, algo nele mudou. Ele achou que as pessoas do mundo todo deveriam saber sobre isso.
Nicolas sentiu o estômago virar. A confirmação da morte do pai era uma lâmina que o atravessava de novo.
— Então foi você… — sussurrou, a voz falhando. — Você mandou matá-lo.
— Eu mandei proteger a Terra — respondeu Verônica, fria. — E ele se tornou uma ameaça.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Nicolas respirava com dificuldade, o peito arfando. Marco ainda gemia baixo ao fundo, e cada som dele era uma punhalada em Nicolas.
— Deixa ele ir. — Nicolas ergueu as mãos, os olhos marejados. — Por favor, Verônica. Deixa o Marco ir. Ele não tem nada a ver com isso.
Ela inclinou a cabeça, observando-o com um misto de ternura e ironia.
— Você percebe o que está dizendo, Nicolas? — perguntou, num sussurro quase doce. — Olha pra você. — Ela deu um passo em direção a ele, baixando um pouco a arma. — Está tremendo por causa dele. Está implorando por ele. — Um leve sorriso se desenhou em seus lábios. — Eu notei, sabe? No dia da festa. O jeito como você o olhava.
Nicolas ficou imóvel, como se ela tivesse rasgado um véu que ele tentava manter intacto.
Verônica continuou:
— Você o desejava, mas não sabia o que fazer com isso. Ficava confuso, dividido entre o medo e o fascínio. — Ela abaixou a voz. — Está apaixonado por ele.
As lágrimas escorreram pelos olhos de Nicolas sem que ele tentasse esconder. Ele olhou para Marco, quase imóvel no chão, e sentiu o coração partir em pedaços.
— Eu… — tentou dizer, mas a voz se perdeu num soluço.
Verônica suspirou.
— É uma pena — disse com sinceridade. — Eu realmente gostava de você. — Ela ergueu a pistola novamente, mirando o peito dele. — Mas não posso deixar pontas soltas.
Nicolas fechou os olhos, o corpo inteiro tremendo, sentindo o frio metálico da morte se aproximar.
O clique da arma sendo engatilhada ecoou como um trovão.
E então, antes que o som do disparo viesse, houve um ruído surdo.
Um movimento rápido.
Marco, ensanguentado, havia se erguido num impulso desesperado, gritando algo que Nicolas não conseguiu entender.
O impacto veio como um estrondo.
O corpo de Marco se lançou contra Verônica com toda a força que restava. Os dois se chocaram contra a parede de vidro atrás da mesa. O vidro vibrou, estalou e se partiu em mil fragmentos, o som seco e cortante invadindo o ar.
Nicolas só teve tempo de ver os dois caindo, o brilho da lua refletindo nos cacos que flutuavam no ar, o vento frio invadindo o cômodo — e depois, o vazio.
O penhasco.
O grito preso na garganta.
O eco da queda se perdendo na escuridão.
Tudo o que restou foi o vento, o farfalhar distante da água e o som metálico da arma caindo no chão.
E o nome de Marco, escapando dos lábios de Nicolas num sussurro que o próprio vento levou:
— Marco…
O corpo de Nicolas se moveu antes que a mente processasse o que tinha acabado de acontecer. Ele correu até a janela, tropeçando nos pedaços de vidro que cobriam o chão, as solas do sapato deslizando no sangue que Marco deixara para trás.
Quando se inclinou sobre a beirada, o vento soprou forte, gelado, chicoteando seu rosto. Lá embaixo, a antiga pedreira se abria como uma garganta escura — o espelho d’água refletindo apenas uma lua trêmula.
— Marco! — o grito rasgou sua garganta.
A voz dele se perdeu na noite, ecoando pelas paredes de pedra que cercavam a lagoa.
Os olhos de Nicolas varreram o breu até que, enfim, ele viu.
O corpo de Verônica jazia sobre uma laje de pedra, os braços abertos, o rosto virado para o céu. O sangue formava um círculo negro sob a cabeça dela. Um pouco mais adiante, flutuando de bruços sobre a superfície da lagoa, estava Marco.
Inerte.
O corpo balançava levemente nas ondas pequenas formadas pelo vento.
Nicolas sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O ar lhe escapou dos pulmões.
— Não… — foi tudo o que conseguiu dizer.
Ele se virou e correu pela casa, o coração martelando tão alto que abafava todos os outros sons. Desceu as escadas tropeçando, derrubando uma poltrona no caminho. O som de madeira arranhando o piso ecoou como o grito de um animal ferido.
Quando chegou ao hall, a porta de vidro estava aberta, escancarada como uma ferida. Ele atravessou o jardim aos tropeços, escorregando na grama molhada, as folhas cortando seus braços e rosto, mas ele não sentia nada — não sentia o frio, não sentia dor, apenas o peso terrível no peito.
A escada que descia até o deck da lagoa era íngreme, de ferro e madeira antiga. Ele se agarrou ao corrimão, descendo tão rápido que quase caiu. A cada degrau, o eco do nome dele — Marco… Marco… Marco… — se confundia com o bater frenético do seu coração.
Quando chegou ao fim, saltou para o deck sem hesitar e se lançou à água. O choque do frio foi brutal, um corte que o fez gritar. A água o envolveu, pesada e gelada, o som do mundo desaparecendo de uma vez.
Mas ele não parou.
Nadou com força em direção ao corpo imóvel, os músculos queimando.
— Marco! — gritou, quando emergiu. — Marco, me ouve!
O corpo de Marco estava frio, os olhos semicerrados, o sangue do ferimento no ombro dissolvido na água. Nicolas o puxou para si, enlaçando-o pelos ombros, sustentando sua cabeça com a mão trêmula.
— Ei… — ele sussurrou, com a voz falhando. — Sou eu, Nicolas… abre os olhos… por favor…
Nada.
As lágrimas começaram a misturar-se com a água da lagoa.
Nicolas apertou Marco contra o peito, o corpo dele pesado e sem resposta, e sentiu o desespero se transformar em algo ainda mais terrível: a aceitação de que talvez fosse tarde demais.
— Você disse… — ele soluçava — …você disse que voltaria…
O vento uivava entre as pedras, carregando o cheiro metálico do sangue e da chuva.
Nicolas olhou para o céu. A lua estava cercada por nuvens finas, que se moviam como fumaça. Um clarão distante cortou o horizonte — relâmpagos silenciosos sobre as montanhas.
Ele gritou por socorro, com toda a força que ainda tinha.
— SOCORRO!
O som reverberou nas encostas da pedreira, repetindo-se em ecos longos e distorcidos:
Socorro… socorro… socorro…
Mas ninguém respondeu.
O grito de Nicolas ainda ecoava pelas montanhas, transformando-se aos poucos em silêncio.
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