Conte as Estrelas
20 Capítulo 18
O táxi deslizava pela estrada molhada de Nova Lima, o som dos pneus misturando-se à respiração contida de Nicolas. No banco de trás, ele e Marco estavam lado a lado, mas separados por um abismo invisível. Nenhum dos dois falava. O silêncio era uma corda esticada entre eles, vibrando com uma tensão que nenhum ousava romper.
O vidro da janela refletia o rosto de Nicolas: olhos fixos, respiração curta, o nó da gravata apertando-lhe o pescoço como se o impedisse de pensar. O perfume de Marco — uma mistura discreta de couro e algo amadeirado — pairava no ar abafado. Nicolas virou o rosto, tentando afastar o pensamento, mas cada vez que o fazia, a lembrança da festa voltava. O olhar de Marco na varanda. O quase toque. O quase beijo.
No banco da frente, o motorista ouvia rádio em volume baixo. As vozes de um noticiário distante narravam o trânsito em Belo Horizonte, os acidentes da madrugada. A voz metálica parecia vir de outro mundo. Tudo o que existia agora era o som do motor e o coração batendo rápido no peito de Nicolas.
Marco, ao lado, observava a estrada. O retrovisor devolvia o brilho fixo de faróis que não se afastavam. Ele franziu o cenho. Olhou novamente. As luzes permaneciam ali, a uma distância calculada, como predadores acompanhando a presa. Um jipe. Verde-escuro. As mesmas luzes que ele havia visto antes.
Disfarçando, Marco moveu a cabeça devagar. Confirmou.
Eles estavam sendo seguidos.
Cutucou discretamente o braço de Nicolas.
— Não olhe agora, mas há um carro atrás de nós — murmurou. — Um Renegade.
Nicolas travou, mas obedeceu. O reflexo da luz piscou no vidro, e ele sentiu o estômago revirar. O medo veio rápido, como um espasmo.
— O que a gente faz? — perguntou, quase num sussurro.
— Nada ainda — respondeu Marco, firme. — Só confie em mim.
Ele se inclinou para frente.
— Mude o destino — disse ao motorista. — Vá para a Savassi. Agora.
O homem o olhou pelo retrovisor, confuso.
— A Savassi? Mas vocês pediram pra ir pra…
— Mude. — A voz de Marco soou como uma ordem militar.
O motorista, intimidado, obedeceu. O carro acelerou.
Atrás, o jipe acompanhou.
A tensão dentro do táxi tornou-se quase física. Nicolas sentia o corpo inteiro tenso, os dedos trêmulos, o coração acelerado. Marco parecia uma estátua. Os olhos fixos, a mandíbula contraída. A cidade começava a aparecer no horizonte — as luzes distantes de Belo Horizonte, o brilho úmido do asfalto refletindo os postes.
Marco olhou mais uma vez pelo retrovisor. O jipe ainda estava lá.
— Eles estão nos seguindo, não há dúvida — disse.
Nicolas respirou fundo, tentando parecer calmo, mas o suor escorria pelas têmporas.
— Por quê? Por que agora?
— Talvez saibam que estivemos na festa. Talvez saibam quem você é.
As palavras ecoaram como um soco.
Meia hora depois, o táxi descia pela Avenida Getúlio Vargas em direção à Savassi. O som distante da multidão já se ouvia — uma batida eletrônica misturada a gritos e risadas. O motorista reduziu a velocidade, espantado com o cenário.
Era madrugada, mas a região estava tomada por um bloquinho de carnaval fora de época. Centenas de pessoas ocupavam as ruas, dançando entre confetes, espuma e copos plásticos. As luzes dos bares piscavam em tons de vermelho e azul, refletindo nos carros parados. O trânsito estava completamente bloqueado.
O motorista olhou pelo retrovisor.
— Acho que não tem como seguir, senhores.
Marco olhou rapidamente para trás. O jipe havia parado no fim da rua. Duas silhuetas desceram.
— Vamos descer — disse ele, já abrindo a porta.
Nicolas hesitou.
— O quê? Aqui?
— Agora. — Marco o puxou pelo braço. — Confie em mim.
O ar da rua era quente, saturado de música e suor. O chão estava coberto de confetes grudados na água da chuva. A multidão os engoliu imediatamente.
Marco o segurou pelos ombros, aproximando o rosto para falar por cima do som:
— A gente vai se separar. Fica mais fácil despistar.
— Separar?! Marco, e se eu…
— Ei. — Marco o interrompeu, firme, olhando-o nos olhos. — Você é um cara esperto. E mais forte do que pensa. Eu confio em você.
Por um instante, o barulho ao redor pareceu se dissolver.
Nicolas o olhou — de perto demais. Os rostos a poucos centímetros. O ar entre eles parecia vibrar. Aquele seria o momento perfeito para um beijo, o desfecho inevitável de toda a tensão acumulada.
— A gente se encontra na Praça da Liberdade — Marco orientou, a voz rouca —. Vou te esperar no coreto, ok?
O rapaz conseguiu assentir, mas o grito de um dos homens cortou o ar:
— Aí! São eles!
A magia quebrou.
— Vai! Agora!
Marco empurrou Nicolas para o meio da multidão, seguindo depressa na direção oposta. Os dois homens que haviam descido do Renegade se separaram também, cada um indo para um lado.
O ex-agente avançou pela multidão como um fantasma. O treinamento militar falava mais alto: ele se abaixava, mudava de direção, usava grupos de foliões como barreiras. Mas o homem do jipe era persistente. O seguia com a precisão de um predador.
Marco virou numa esquina lateral e se viu numa rua quase vazia. A música vinha distante, abafada. Ele acelerou o passo, sem correr — o instinto lhe dizia que correr chamaria atenção. Mais adiante, luzes de hotel brilhavam de forma chamativa. Um concierge recebia um carro na portaria. Um sedã preto de luxo.
Marco teve um estalo.
Enquanto o motorista do sedã entregava as chaves, ele caminhou até lá, abotoando a camisa rapidamente, tentando assumir uma expressão de funcionário.
— Boa noite, senhor — disse ao homem com a voz mais natural que conseguiu. — Posso estacionar o veículo pra você?
O dono do sedã, distraído, assentiu e lhe entregou a chave.
Marco deu a volta e entrou no carro, ligando o motor com naturalidade. Assim que o veículo se moveu, ele sentiu o olhar do perseguidor fixo nele.
Merda.
Engatou a marcha e acelerou, dobrando a esquina. O homem correu atrás, mas Marco já desaparecia, contornando o quarteirão. Os pneus chiavam sobre o asfalto molhado, e o retrovisor devolvia apenas sombras borradas.
Ajeitando-se no banco, Marco respirou fundo. Vivo. Por enquanto.
Enquanto isso, Nicolas lutava para se mover pela multidão. O som ensurdecedor, os corpos colados, a luz colorida piscando. O ar era pesado, quase irrespirável.
Ele se virou — um dos homens do jipe estava vindo, abrindo caminho com os ombros. O desespero subiu como um fogo pelo peito. Nicolas arrancou o paletó e a gravata e os jogou numa lixeira. Arregaçou as mangas, o suor colando o tecido à pele.
O homem se aproximava.
Nicolas olhou em volta. Um folião deixava um copo de bebida sobre um hidrante. Ele o pegou e levou aos lábios — amargo, ardido. E então começou a dançar. Balançava o corpo como se estivesse bêbado, gritando palavras sem sentido, fingindo ser parte da multidão. Um grupo de rapazes fantasiados de anjos e diabos o cercou, jogando confete.
Nicolas riu, fingindo alegria. A adrenalina pulsava. O perseguidor hesitou, confuso. Uma garota de vestido vermelho o puxou.
— Dança comigo, gato! — gritou, rindo.
Ele dançou. Deixou-se levar. A garota tirou um colete de paetês rosa e colocou nele.
— Assim tá lindo!
Ele riu nervosamente, mas percebeu que o disfarce funcionava. Pegou um óculos de plástico e um boné de um dos rapazes, fingindo flertar com todos. O homem do jipe girava o pescoço, sem saber onde olhar.
Nicolas aproveitou.
Deslizou ainda mais para o meio da multidão, dançando, fingindo estar completamente entregue à música. A batida ecoava no peito, o suor escorria pelo rosto. Por um momento, esqueceu o medo.
Até que olhou para trás — e percebeu que o homem havia desaparecido.
O alívio veio em ondas.
Saiu devagar, fingindo ainda estar no ritmo da música, mas seus olhos procuravam uma rota de fuga. Quando encontrou uma rua lateral, se afastou. Tirou o colete de paetês, jogando-o sobre uma mureta.
E correu.
Nicolas corria pela avenida Cristóvão Colombo, o coração martelando no peito. As luzes da cidade pareciam girar à sua volta, borradas pela pressa. Quando alcançou a Praça da Liberdade, o silêncio o envolveu — um silêncio impossível depois do caos da Savassi.
O vento soprava leve entre as árvores. O coreto, no centro, parecia uma ilha de calma.
E ali, à sombra de uma figueira, ele o viu.
Marco.
O motorista estava de pé, as mãos nos bolsos, o olhar tenso varrendo o entorno. A luz amarelada dos postes delineava o contorno de seu rosto, o brilho úmido na pele.
Nicolas sentiu o corpo inteiro reagir antes mesmo de pensar.
Correu até ele.
Marco deu um passo à frente, surpreso, e, num impulso, Nicolas o abraçou.
Por um instante, o mundo sumiu. Só existia o calor do corpo dele, o cheiro familiar, o alívio esmagador. Marco hesitou, mas retribuiu o abraço, firme, intenso.
— Achei que… — Nicolas começou, mas a voz falhou.
— Eu também. — Marco respondeu baixo. — Mas conseguimos.
O silêncio voltou.
Eles se olharam.
Havia algo nos olhos de Nicolas que Marco não sabia decifrar. Algo entre medo, gratidão e desejo.
Mas ele desviou o olhar, tenso.
— A gente precisa sair daqui — disse. — Agora.
— Como eles nos encontraram, Marco?
— Seu celular. — Ele estendeu a mão. — Me dá.
Nicolas o tirou do bolso e o olhou, constrangido.
— Big Boy estava certo — disse Marco. — Eles rastrearam o sinal.
Nicolas desligou o aparelho e assentiu.
— Pronto.
— Espero que ainda dê tempo — respondeu Marco, chamando um táxi que vinha pela avenida.
Entraram. O carro se afastou, e atrás deles a praça mergulhou novamente no silêncio.
O táxi cruzava a avenida Afonso Pena sob o brilho laranja dos postes. A chuva fina caía de lado, riscando o vidro. O motorista, um senhor calado de olhar cansado, mantinha os olhos fixos na pista, alheio à tensão que pairava no banco de trás.
Marco e Nicolas estavam sentados lado a lado, mas o silêncio entre eles parecia um muro. Cada respiração, cada leve movimento, ecoava como um trovão dentro do carro. Havia o cheiro de suor, de rua molhada e de medo.
Nicolas olhava pela janela, vendo os reflexos distorcidos das luzes. Seu peito ainda subia e descia rápido. Por mais que tentasse relaxar, o corpo não obedecia. Ainda sentia o toque de Marco — o abraço firme, o calor dele, o cheiro de seu perfume misturado à chuva.
E aquilo o perturbava mais do que o próprio perigo.
Marco, ao lado, fingia tranquilidade. Mas seus punhos fechados traíam a tensão. As veias saltavam sob a pele. Ele não podia deixar transparecer, mas algo nele havia mudado. A imagem de Nicolas o abraçando o perseguia, insistente. A sensação de tê-lo entre os braços — tão frágil, tão vivo — havia despertado um tipo de medo diferente, mais íntimo, mais perigoso.
Quando o táxi parou em frente à chácara da Vigília, Marco pagou o motorista e desceu primeiro. Olhou para todos os lados, atento a qualquer movimento. Nada além do som distante de cachorros e do vento nas árvores.
— Pode vir — disse.
Nicolas desceu. O barulho da chuva em seu terno encharcado soava como pequenas batidas de tambor.
O portão rangeu quando Marco o empurrou. Os dois atravessaram o terreno escuro, e o cheiro de terra molhada se misturava ao de metal e óleo vindos do interior do galpão.
Lá dentro, Gael e Big Boy estavam acordados.
O brilho das telas de computador iluminava seus rostos com reflexos azulados. A fumaça de cigarro pairava no ar pesado.
Gael ergueu os olhos, percebendo o semblante perturbado de ambos.
— O que houve?
Marco respondeu antes de Nicolas abrir a boca:
— Saímos da festa e pegamos um táxi. Fomos seguidos por um jipe verde. Dois homens desceram e tentaram nos encurralar.
Big Boy se endireitou na cadeira, alarmado.
— Eles rastrearam vocês?
Marco olhou para Nicolas, que hesitou.
— Eu… estava com o celular — confessou.
Big Boy soltou um palavrão e bateu a mão na mesa.
— Eu avisei! É assim que eles rastreiam, cara!
— Eu desliguei — tentou justificar Nicolas, mas a voz saiu baixa. — Assim que percebi.
Gael deu um passo à frente, tentando acalmar os ânimos.
— O que importa é que vocês conseguiram escapar.
— Por pouco — murmurou Marco. — Foi no limite.
Big Boy apagou o cigarro num cinzeiro cheio de pontas.
— Se eles os seguiram até lá, é questão de tempo até encontrarem este lugar.
O silêncio que se seguiu foi denso. Nicolas sentiu um peso no peito — culpa, medo, exaustão. Ele passou a mão no rosto molhado.
— Eu não pensei — murmurou, engasgado. — Eu só...
Gael respirou fundo e voltou ao tom prático:
— De qualquer forma, é bom que vocês tenham voltado. Eu e Big Boy analisamos os arquivos do Leonel. Há coisas grandes ali dentro. Muito grandes.
Marco cruzou os braços.
— Do tipo?
— Do tipo que podem derrubar ministérios inteiros. — Gael abriu uma das pastas sobre a mesa. Havia diagramas, plantas, relatórios carimbados com o brasão da Força Aérea. — Todos os grandes casos ufológicos do país estão documentados aqui. Operação Prato, Noite Oficial dos OVNIs, o voo 169 da Vasp… Tudo.
Nicolas se aproximou, observando os papéis.
— O que é isso?
— Provas. — Gael folheava as páginas. — O governo arquivou tudo. E o Death Star é a continuidade direta dessas operações.
Big Boy, na frente dos monitores, rolava telas com diagramas tridimensionais.
— E tem mais. Leonel deixou plantas completas da base subterrânea. É maior do que imaginávamos. E agora que temos o mapa e a credencial… podemos fazer o que ele não conseguiu.
Marco ergueu a cabeça.
— Entrar na base?
— Exatamente. — Gael sorriu de canto. — Infiltrar alguém lá dentro e destruir o sistema deles por dentro.
O relógio na parede marcava quase três da manhã. A chuva havia cessado, mas o ar ainda cheirava a terra molhada e perigo.
Marco olhou para Nicolas — e viu nele algo novo. Um brilho de determinação, misturado a medo e exaustão. Aquela guerra, que começara com a morte de Leonel, agora estava prestes a se tornar deles também.
— Então vamos derrubar o Death Star — disse Gael, apagando o cigarro e encarando o mapa na parede. — E vamos fazer isso antes que o mundo descubra o preço de olhar para o céu.
Fale com o autor