O silêncio vinha acompanhado de um zumbido constante — o da chuva caindo sobre o barro seco da estrada. Cada gota soava como um toque isolado no interior da cabeça de Nicolas, ecoando contra o peso de seus pensamentos. Caminhava sem destino certo, os sapatos encharcados, o jeans colado à pele. O frio parecia subir das solas dos pés até o estômago.

A escuridão à sua volta era quase absoluta, interrompida apenas pela luz amarelada de um poste solitário alguns metros adiante. O mundo parecia ter encolhido até caber naquela estrada estreita, cercada de árvores, e o som distante de um trovão foi o único sinal de que ainda existia algo além do que ele via.

O rosto de Leonel surgia e desaparecia em flashes na mente dele — não o rosto do pai sorridente de um retrato antigo, mas o corpo imóvel, coberto de sangue, dentro de um carro crivado de balas. O som dos tiros ainda vibrava em seus ouvidos, entremeado ao grito de Marco mandando que ele corresse, ao estilhaçar do vidro, ao cheiro de pólvora.

Mas o que o corroía não era apenas a lembrança. Era o vazio. O vazio de não saber o que sentir.

Eu deveria estar arrasado, pensava. Mas por quê sinto só... raiva?

Leonel sempre fora uma sombra. Um homem ocupado demais, distante demais. Nicolas se lembrava de aniversários esquecidos, de almoços cancelados, de promessas adiadas sem explicação. Agora, o pai morrera de forma brutal, e o luto vinha misturado à revolta — uma revolta que queimava por dentro e o deixava exausto.

A imagem de Marco surgiu, inesperada. O ex-motorista. O ex-agente. O homem que o arrastara para fora do carro em chamas, que o empurrara ao chão no meio do tiroteio.

Nicolas lembrou-se do olhar dele, firme, racional, quase frio — mas ao mesmo tempo protetor, humano. Havia algo ali que ele não compreendia. Algo que o fazia querer confiar, mesmo sem saber se devia.

Ele é só... o motorista, tentou pensar. Mas o pensamento soou falso, frágil.

Um calor estranho percorreu-lhe o peito, um arrepio subindo pela nuca. Tentou afastar a sensação como quem espanta um mosquito. Marco era apenas o elo restante com o pai. Nada mais.

Mas então, uma voz sussurrou em sua mente:

E se for mais do que isso?

O céu se abriu em um trovão, e Nicolas ergueu o rosto, deixando a chuva bater-lhe direto na pele. Estava cansado demais para correr, mas não queria parar.

Precisava se mover, nem que fosse em círculos.

Enfiou a mão no bolso e tirou o celular. A tela preta. Sem bateria.

Suspirou. Não havia lugar algum para onde ir — e mesmo que houvesse, não sabia quem o receberia.

Por um instante, pensou em Marco outra vez. O homem devia estar o procurando agora, preocupado. Mas agora a ideia de voltar o enchia de vergonha. Não queria parecer fraco. Não queria precisar de ninguém.

Continuou andando, e só parou quando os faróis amarelados de um táxi cortaram a escuridão. O carro vinha devagar, os limpadores riscando o para-brisa. Nicolas levantou o braço instintivamente. O táxi parou ao lado dele, e o motorista — um homem de meia-idade, cabelo grisalho, olhar curioso — baixou o vidro.

— Tá tudo bem com o senhor? — Perguntou, a voz misturada ao som da chuva.

Nicolas hesitou. Não estava bem, mas não tinha energia para fingir o contrário.

— Pode me levar pra... — ele parou. Onde? — Vila Alpina.

Era o único lugar em que ele conseguia pensar.

O motorista acenou e destravou a porta. Nicolas entrou, sentindo o estofado quente do carro contrastar com o frio da roupa molhada.

Durante alguns segundos, ninguém falou nada. O barulho da chuva e o som abafado do motor preencheram o silêncio. O motorista olhou pelo retrovisor.

— É longe, viu? Chuva assim, estrada ruim... o senhor tá indo pra casa?

Nicolas demorou a responder.

— Pra casa de uma amiga. — As palavras saíram automáticas, como se pertencessem a outra pessoa.

O motorista apenas assentiu, respeitando o silêncio.

Nicolas olhou pela janela, observando os reflexos das luzes da cidade se desfazendo na película de água. A cabeça latejava. Ele não conseguia deixar de pensar nas palavras de Gael: “Um projeto secreto para desenvolver armas contra alienígenas.”

Parecia loucura. Uma daquelas teorias conspiratórias que a gente lê e ri. E, no entanto, tudo o que tinha visto — o tiroteio, o avião negro, a explosão — não deixava espaço para explicações simples.

Talvez Marco acreditasse naquilo. Talvez Gael também. Mas ele…

Ele só queria dormir e acordar em um mundo que fizesse sentido.

Quando o táxi passou pelo portal do condomínio, Nicolas reconheceu o caminho. A rua subia em curvas suaves até o topo de uma antiga pedreira desativada. Na parte baixa do terreno, cintilava uma belíssima e profunda lagoa azul-escura. E lá no alto, projetando-se à beira do paredão de pedra como um monolito modernista, estava a casa de Verônica Roche — fachada branca, grandes janelas de vidro, e o som distante da chuva caindo sobre o espelho d’água junto à entrada.

A mansão parecia uma fortaleza silenciosa, um pedaço isolado do mundo. Nicolas sentiu uma pontada de culpa ao pedir que o motorista parasse ali, mas pagou a corrida e desceu, o vento frio o atingindo de imediato.

Subiu os degraus da frente correndo até o alpendre coberto e tocou a campainha. Por alguns segundos, nada. Então, a luz acendeu dentro da casa e passos se aproximaram.

Verônica apareceu à porta com um robe de seda azul-marinho. Tinha expressão de espanto — e de cansaço.

— Nicolas? — A voz dela saiu entre o susto e o alívio. — O que faz aqui, a essa hora?

Ele tentou responder, mas as palavras se dissolveram. Tudo o que conseguiu foi um soluço contido, o rosto contraído, e então as lágrimas vieram — silenciosas, primeiro; depois, desordenadas. Os soluços se intensificaram e seus ombros começaram a tremer no mesmo ritmo de seu choro.

Verônica não hesitou. Abriu a porta e o acolheu num abraço firme, o perfume de jasmim e a maciez do tecido misturando-se ao cheiro de chuva que ele trazia.

— Ei, ei... calma, rapaz. — Ela o guiou para dentro, uma das mãos em suas costas. — Vem, você está encharcado.

A sala era ampla, iluminada por abajures de luz morna. O piso de madeira refletia o brilho suave das lâmpadas. Nicolas sentou-se num banco da cozinha americana, tremendo, enquanto Verônica se movia de um lado para o outro com naturalidade serena.

— Vem, vou preparar um chocolate quente. — Ela falava como quem lida com uma criança assustada, mas sem condescendência, apenas afeto. — Sempre ajuda.

Ele observou-a pegar o leite, o cacau, o açúcar. O som do fogo acendendo no fogão. O vapor subindo em espirais finas. A rotina simples e doméstica parecia absurda diante do caos dos últimos dias, e justamente por isso reconfortava.

Nicolas apenas observou Verônica se movimentando pela cozinha. Com quase 60 anos, ela era uma mulher esbelta que ainda demonstrava gozar de muita vitalidade. Tinha o cabelo cortado em um long bob elegante e mesmo em casa usava pulseiras e anéis de prata nas mãos, emanando uma aura old money de pura sofisticação.

Verônica era presidente de um grupo imobiliário fundado por sua família quase 100 anos antes, e era o mais perto de uma amiga próxima que Leonel havia tido. Nicolas convivera bastante com ela desde a infância.

— Eu soube do seu pai. — Ela disse de forma suave e carinhosa depois de um tempo, virando-se com a panela nas mãos. — Sinto muito, Nicolas. De verdade. Leonel era um homem admirável.

Ele assentiu, o rosto ainda úmido, mas sem conseguir olhar para ela. Admirável? O homem que o deixara crescer sozinho? E que aparentemente guardara segredos sobre armas e extraterrestres?

Verônica colocou uma caneca diante dele e sentou-se ao lado.

— Sei que nada que eu diga vai aliviar, mas... você não devia estar sozinho agora.

Nicolas levou a caneca aos lábios, o calor do líquido aquecendo-lhe o corpo. O doce amargo do chocolate lhe subiu pela garganta, trazendo um mínimo de conforto.

— Eu não queria te incomodar, mas… não sabia pra onde ir. — Murmurou, quase sem voz. — Não tenho mais ninguém.

— Claro que tem. — O tom dela era firme, gentil. — Você tem a mim.

Ele ergueu o olhar. Verônica sorriu, e o gesto pareceu genuíno — um sorriso que dizia “Estou aqui”, sem precisar de mais palavras. Por um instante, Nicolas quis acreditar naquilo, mas algo dentro dele continuava inquieto, como se houvesse olhos invisíveis observando do lado de fora das janelas de vidro.

Ele respirou fundo, tentando afastar o pensamento. O relógio digital sobre o balcão marcava quase meia-noite. Lá fora, a chuva engrossava e o som do vento ecoava pelos corredores, um som constante que se misturava à respiração de Nicolas e ao tilintar suave da colher na caneca. O vapor do chocolate subia devagar, como se o tempo tivesse perdido o ritmo.

Verônica estava sentada de frente para ele, apoiando os cotovelos sobre a bancada de mármore. A luz âmbar do abajur do canto deixava a cozinha em tons dourados, transformando o ambiente em um refúgio. Tudo ali parecia cuidadosamente pensado para acolher: as plantas pequenas na janela, o cheiro de canela, a chama do fogão ainda acesa em brasas.

— Você ainda vai precisar de um tempo pra entender tudo, eu sei. — Ela começou, com voz calma. — A perda de um pai... não é algo que a gente processa de um dia pro outro.

Nicolas não respondeu. Mexia o líquido na caneca, o olhar perdido no movimento circular.

— Já pensou no que vai fazer agora? — Ela continuou, pegando seu celular em cima da bancada e digitando alguma coisa. — Tem alguém te ajudando?

Ele ergueu o olhar devagar.

— Não sei.

— Não sabe?

— Eu… Descobri coisas que... — Respirou fundo, a voz vacilando. — Coisas que fazem parecer que meu pai se meteu com gente perigosa.

Verônica inclinou levemente a cabeça, surpresa.

— Gente perigosa? Do que está falando?

— Eu também não entendo direito — Respondeu, com um riso curto, nervoso. — Só sei que nada faz sentido.

Ela se aproximou um pouco mais, tentando ler seu rosto.

— Nicolas, seu pai provavelmente era o homem mais correto que eu conheci. Ético, meticuloso, reservado, sim, mas nunca alguém que eu imaginasse envolvido em algo... ilegal.

Nicolas soltou um suspiro amargo.

— É, aparentemente ninguém conhecia quem ele realmente era.

Um silêncio pairou entre os dois. O som da chuva parecia mais forte, batendo nas vidraças com insistência.

— Quer conversar sobre isso? — Perguntou Verônica, num tom mais baixo. — Às vezes colocar pra fora ajuda.

Ele balançou a cabeça.

— Eu... ainda não sei o que pensar. — Ficou alguns segundos em silêncio, olhando para o reflexo dela na superfície da caneca. — Preciso organizar as ideias antes de abrir a boca.

Ela assentiu, compreensiva.

— Claro. Não vou insistir.

Nicolas pousou a caneca e apoiou os cotovelos na bancada, massageando a têmpora. O calor do chocolate parecia ter se dissipado, e uma fadiga pesada tomou conta do corpo.

— Sabe, eu sempre tive um carinho enorme por você. — Disse Verônica, quebrando o silêncio com um tom suave, quase maternal. — De certa forma, vi você crescer. Leonel falava de você o tempo todo, mesmo quando fingia não ter tempo pra nada.

Ele arqueou uma sobrancelha, descrente.

— Falava de mim?

— Muito. — Ela sorriu. — Dizia que você tinha o mesmo olhar curioso da mãe, a mesma teimosia. Que só precisava encontrar o próprio caminho.

Nicolas desviou o olhar. O coração apertou. Não sabia se queria acreditar naquilo. A lembrança da mãe, morta há muitos anos, misturava-se agora à figura de um pai que se tornava cada vez mais distante, quase um estranho.

— Eu só... — Começou, mas a voz falhou. — Eu só não sei quem ele era.

Verônica inclinou-se um pouco.

— Talvez ninguém saiba, Nicolas. Às vezes, as pessoas carregam mais segredos do que a gente imagina.

Ele assentiu vagamente. A mente rodava, cansada demais para seguir qualquer linha de raciocínio coerente.

Verônica se levantou, pegou uma toalha e começou a secar as canecas, um gesto simples que, por algum motivo, o acalmou.

— Fica aqui essa noite. — Disse ela, sem olhar diretamente para ele. — O quarto de hóspedes está pronto. Amanhã, com mais calma, você decide o que fazer.

Nicolas respirou fundo.

— Eu não quero incomodar.

— Deixe disso. — O sorriso dela voltou, leve, acolhedor. — Vai me deixar mais tranquila sabendo que você está seguro.

Ele agradeceu com um aceno quase imperceptível. Por dentro, a sensação de vazio voltava a crescer. A ideia de dormir parecia absurda; ainda assim, a exaustão física ameaçava vencê-lo.

Levantou-se e caminhou até a grande janela que ocupava toda a parede da sala de estar. A chuva caía em diagonais translúcidas sobre o vidro. Lá fora, o jardim refletia os lampejos distantes dos relâmpagos.

Ele apoiou a testa contra o vidro frio. Pela primeira vez em dias, o silêncio não parecia um inimigo — apenas um espaço onde o cansaço podia existir.

Sentiu-se pequeno diante daquela imensidão cinza.

Talvez fosse isso o que meu pai sentia: medo. Talvez não fosse culpa, mas medo de algo que estava além de tudo, pensou.

A respiração se tornou lenta. O som da chaleira na cozinha parou. Atrás dele, Verônica ajeitava as coisas, e o farfalhar dos tecidos misturava-se ao estalar distante do fogo na lareira.

Por um instante, Nicolas quase acreditou que estava seguro.

Mas então, algo se moveu no canto da janela. Uma luz.

Franziu o cenho, inclinando-se para olhar melhor. Através da cortina de chuva, distinguiu um par de faróis descendo a rua do condomínio. O coração deu um pulo. Era um Jeep Renegade — verde-oliva, o mesmo tom das viaturas que haviam cercado o carro do pai.

O ar pareceu desaparecer do ambiente.

Ele piscou, achando que fosse impressão. Mas o som do motor veio logo em seguida, abafado pela chuva, inconfundível.

Verônica percebeu o olhar dele fixo na janela.

— O que foi?

Nicolas não respondeu de imediato. A mente disparou em mil direções.

Como eles me acharam?

Será que estavam rastreando?

Será que alguém seguiu o táxi?

— Nicolas? — Insistiu Verônica, agora apreensiva.

Ele virou-se, o rosto pálido e a respiração ofegante.

— Eu... preciso ir.

— Como assim?

— Eu não posso ficar aqui.

— Do que está falando?

— Eles me acharam.

— Quem?

— Eu não sei! — A voz dele saiu em um tom mais alto, trêmulo. — Mas eu não posso ficar!

Verônica deu um passo à frente, confusa.

— Nicolas, espera. Você está assustado, precisa respirar.

Mas ele já deixava a caneca sobre o balcão, o líquido escuro ainda girando dentro. As mãos tremiam. O peito arfava.

— Obrigado pelo chocolate. — Murmurou, quase sem som, e começou a andar em direção à porta.

— Nicolas! — Chamou ela, correndo atrás. — Me diga o que está acontecendo!

Ele parou apenas por um segundo na soleira, o rosto voltado para ela.

— Eu não quero te colocar em perigo.

E, sem mais, abriu a porta.

O vento frio entrou com força, fazendo as cortinas balançarem. A chuva o atingiu de imediato, encharcando-lhe o cabelo, o rosto, as roupas.

Verônica o viu descer os degraus e desaparecer entre os pingos densos da tempestade. Ficou parada por alguns segundos, perplexa. Depois correu até o portão, os pés descalços batendo no chão úmido. Lá fora, o caminho estava vazio — apenas o barulho da água escorrendo pelos bueiros e o som distante de um motor que se afastava.

Verônica respirava com dificuldade. O robe colava-se ao corpo, a seda escura ganhando o brilho das luzes dos postes.

— Nicolas... — Sussurrou para si mesma, sem saber se de preocupação ou de pressentimento.

Ficou ali, parada sob a chuva, olhando a curva da rua desaparecer entre as árvores. A água escorria pelos cabelos, pelo rosto, pelas mãos trêmulas. Por dentro, algo que ela não sabia nomear — um tipo de ansiedade ou inquietude — começava a despertar.

Voltando para dentro, fechou a porta devagar. O relógio digital agora marcava 00h27.

A chuva continuou.

E a noite engoliu o som de tudo o que ainda estava por vir.