Contato

2 Primeiro contato


Notas iniciais
Oe o/

Nos dias seguintes eu não falava nada, nem fazia nada, não saia da sala, não batia em ninguém, nem bagunçava. Os professores ficaram surpresos e a diretora saia pelos corredores se gabando, isso porque todo mundo dizia que ela tinha me hipnotizado ou algo assim.

Eu não falava com ninguém, e ninguém falava comigo, mas sempre que tinha uma oportunidade eu encarava alguém por dois, três, no máximo cinco minutos. A minha primeira vitima, ao contrario das outras, eu não esqueci.

Era a única garota que não me achava o máximo, e não, eu não era perdidamente apaixonado por ela por causa disso, eu a odiava. Ela sempre me olhava com ódio, e eu nunca entendi o porquê, até aquele dia. Ela sentou bem ao meu lado no fundo da sala e eu aproveitei pra olhar bem fundo nos olhos dela.

Idiota..

Foi a única coisa que eu ouvi, mas não a única que eu descobri. Tudo ficou claro, ela era a irmã do nerd que andava comigo sob ameaça.

_Desculpe Anna.._ eu disse

Ela não respondeu, só que seu olhar mudou, eu não sentia mais ódio, ela ficou surpresa. Então eu percebi o que estava na cara o tempo todo, ninguém me achava o máximo, todo mundo me odiava. E o que me fez pensar assim?

Além da falsidade da diretora no dia anterior, foi como os meus colegas que ouviram aquilo reagiram. Eles estavam me encarando surpresos. O antigo eu perguntaria qual é o problema e os ameaçaria, o novo eu só sorriu de canto e abaixou a cabeça.

_Bom dia alunos!_ disse Suzana entrando na sala

Todos se ajeitaram nas carteiras e ela começou a anotar uma atividade no quadro.

_Onde está o seu irmão?_ perguntei em baixo tom, tenho certeza que disse o nome dele ao invés de ‘seu irmão’, mas realmente não me lembro o nome dele.

_No hospital Alister... Graças à você._ respondeu

_Me desculpe.._ sussurrei

_Qual é o seu problema ein?_ ela perguntou, o problema é que perguntou tão alto que a sala toda, não, a escola toda ouviu.

_Se acalma..

_NÃO! Você é o pesadelo do meu irmão e agora está se desculpando por ter batido nele?!

_Eu não bati-

_Mas mandou que batessem! Você é um monstro, todo mundo te odeia!_ ela levantou da cadeira e seu rosto ficava cada vez mais vermelho_ Era pra você estar no lugar dele! Pelo menos você merece isso.

O choque não foi saber que ela pensava tudo aquilo de mim, o choque foi tudo mundo concordar depois, e a professora? A professora cobriu a boca com a mão pra que eu não percebesse que ela ria.

Não importava, todo mundo me encarava, e um por um eu fui lendo os pensamentos deles.

Idiota!

Menino chato.

Bem feito, finalmente alguém disse isso.

Monstro!

Eu corri dali, não queria saber o que eles pensavam sobre mim. E o que uma criança normal faria?

“Acho que correria pra diretoria.”

Não, a diretora me odeia.

“Fugiria pra casa”

Não mesmo, eu só queria ficar sozinho naquele dia.

“Procuraria um lago pra jogar pedras e chorar?”

Boa ideia, mas eu não era um garoto que tinha sido chutado pela namorada. Eu precisava de alguma coisa que me fizesse esquecer tudo aquilo, e cá entre nós... Já sabemos o que poderia resolver meu problema.

Sim, álcool, drogas e mulheres, mas eu só tinha 12 anos então uma tarde no fliperama era o suficiente. O problema era que eu não tinha dinheiro, nem um pouco, não precisava afinal tinha gente que conseguia pra mim, não mais por que aparentemente toda essa gente me odiava secretamente.

Eu estava pronto pra desistir dos meus planos e ir pra casa, até perceber um malandro oferecendo dinheiro.

_Por cinco reais você pode tentar encontrar o anel e se der sorte sair com o dobro do seu dinheiro!_ o homem se anunciava

Em pouco tempo um grupo de pessoas se acumulava próximo a ele e eu, não tinha nada a perder, arrisquei ir também.

_Tudo que você tem que fazer é encontrar o anel..._ ele dizia

Eram três copos, acho que você sabe bem como esse jogo funciona, ele coloca o anel debaixo de um dos copos, os move algumas vezes e você tenta adivinhar onde está.

_Adivinhe três vezes e ganhe!

Eu não era tão estupido nem tinha dinheiro então fiquei apenas observando enquanto ele enganava alguns babacas iludidos achando que ele jogaria limpo, lógico que não.

Depois de algumas tentativas falhas de outras pessoas em dobrar seu dinheiro com aquele jogo, eu resolvi jogar.

_Eu quero tentar._ falei

_São cinco reais garoto, você sabe, sem dinheiro sem chance._ ele disse, e essa ultima frase nunca perdeu o sentido.

Eu olhei ao redor e tinha um cara louco pra jogar, mas com medo de perder seu dinheiro.

_Ei, se você me emprestar seu dinheiro eu juro que lhe devolvo em minutos_ eu disse ao homem.

_Ha! Como se eu fosse burro, não vou investir em você guri, sai daqui._ ele respondeu

_Qual é cara? São só cinco reais..._ Disse o homem que controlava o jogo

_É, só cinco reais!_ concordei

_Boa tentativa, mas não vai levar meu dinheiro tão fácil.

Eu não insisti mais, me afastei da mesa pra ir embora, mas o homem lhe ofereceu uma aposta.

_Olha se o garoto acertar eu lhe dou todo o dinheiro que consegui hoje.

_E quanto isso seria?_ perguntou o homem desconfiado.

_Mais de 230 reais..._ respondeu e sorriu

Depois dessa é claro que o homem aceitou, e eu voltei pra frente da mesa. Parecia um movimento desesperado, afinal, quão valioso eram cinco reais para aquele vendedor.

_ Você já sabe como funciona né garoto?_ disse o homem enquanto colocava o anel debaixo de um dos copos.

Na primeira vez ele moveu os copos uma vez.

_Copo da esquerda_ eu disse

Ele levantou o copo devagar e cantando algo pra fazer suspense.

_Acertou!

Era obvio que eu ia acertar a primeira vez, não estava nervoso, nem o cara que me emprestou seu dinheiro, algo me dizia que ele tinha certeza que não teria de volta o seu dinheiro.

Na segunda vez ele moveu os copos três vezes.

_Copo do meio_ falei

_Certo de novo_ ele disse sorrindo_ Agora você tem que prestar bem atenção no anel...

Não, agora eu preciso prestar bem atenção nos seus olhos...

Ele movia os copos bem mais rápido dessa vez, muitas vezes, mais rápido, mais rápido, mais rápido e mais rápido. E quando parou estava ofegante.

_Faça de novo, o garoto nem estava olhando para os copos!_ reclamou o cara que me emprestara seu dinheiro

_Não posso cara, só uma vez e ponto._ respondeu_ E ai rapaz? Onde está o anel?

Os pensamentos dele não estavam claros, ou era isso ou eu simplesmente não sabia como encontrar a informação certa dentro da cabeça dele, e a única ideia que me veio a mente foi:

E se eu faze-lo pensar onde ele colocou o anel, será que funcionará?

_O que disse?_ perguntei

_Você está surdo? Onde está o anel?_ ele disse

Ainda assim eu não captava nada só a raiva dele por enrolação.

_Onde você colocou o anel?_ perguntei, não esperava uma resposta correta claro, mas a intenção era faze-lo pensar sobre isso.

_Garoto, não me faça perder tempo, se não sabe desista de uma vez_ ele começou a rir_ Você nunca vai acertar!

Nunca vou acertar?

Bingo!

E lá estava, alto e claro em seus pensamentos, era a localização do anel.

_O anel não esta de baixo de nenhum dos copos, está?_ perguntei

_Claro que está_ ele riu sem graça

_Não, não está.

Eu me estiquei até o braço do homem e balancei a manga da sua camisa, e lá estava, o anel caiu no chão e parou bem em frente ao dono do dinheiro que usei.

Depois disso... (risos)

Depois disso nada, não consegui meu dinheiro nem devolvi ao homem que me emprestou, ele estava muito ocupado perseguindo o trapaceiro que correu desesperado depois de descoberto, e não foi só uma ou duas pessoas, mas sim todo o grupo que estava por perto, todo mundo que perdeu seu dinheiro para ele de forma desonesta estava perseguindo ele. E mesmo que eu não tivesse conseguido minha tarde tranquila no fliperama aquilo já era o suficiente para me fazer sentir melhor, e eu me sentia muito bem.

Muito bem

Você pode imaginar o que eu fiz nos dias seguintes? Como eu usei meu dom para meu próprio beneficio?

Eu percebi que aquele dia seria só o primeiro dia do resto da minha vida, e eu ia aproveitar bem.

Notas finais
Tchau o/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.