Ao invés de ir direto para o hospital, Lola decide que, uma vez que a porta foi aberta e aparentemente alguém declarou o dia de hoje como dia nacional do exorcismo de seus fantasmas pessoais, ela pode muito bem aproveitar o embalo e enfrentar mais um desafio. Assim, ela pega um táxi até o bar onde deixou seu carro na noite anterior, para em seguida se dirigir a um endereço que há muito ela tem evitado.

O retorno à sua casa é exatamente tudo aquilo que ela esperava e evitou até então.

Ao abrir a porta, a primeira coisa que vem ao seu encontro é o perfume de Grace. Uma fragrância floral que Lalo sempre apreciou embora nunca tenha adotado para si mesmo, achando a essência feminina e adocicada demais mesmo depois de meses sendo Lola.

O aroma oferece uma ilusão de presença desconcertante e igualmente confortadora. Por um instante, ainda parada junto à porta, Lola se permite fechar os olhos e imaginar que ao entrar em casa irá se deparar com a amiga preparando uma refeição na cozinha, assistindo à Sex and The City na televisão acompanhada por uma xícara de chá e seu conjunto de moletom favorito, ou ainda, limpando algum cômodo da casa compulsivamente, o que não é incomum dada sua fixação por limpeza.

A ilusão dura pouco e tão logo abre os olhos, Lola é forçada a se deparar com uma casa insuportavelmente vazia e silenciosa.

Resignadamente Lola se dirige ao seu quarto e em seguida ao seu banheiro, aonde pela primeira vez em muitos dias se permite usufruir a um longo e demorado banho escaldante. Debaixo do chuveiro, enquanto a água escorre pelas pontas de seus cabelos e o azulejo frio marca sua testa, no local onde Lola tem sua cabeça recostada, não lhe passa despercebida a ironia de que uma casa tão vazia encontre-se ao mesmo tempo tão cheia.

As lembranças se escondem em cada canto, cada quina, e a presença de Grace é quase uma sombra para Lola, acompanhando a cada um de seus passos. Com um fechar de olhos e um pingo de concentração ela é capaz de ouvir a voz da amiga atravessando paredes e lhe oferecendo mais um conselho sobre sua vida amorosa ou uma bronca pelas coisas que Lola disse a Facundo. Nesse momento, Lola receberia qualquer um dos dois com alegria.

Após sair do banho, Lola propositalmente evita todas as roupas que Grace comprou para ela, e encontra algum conforto na calça de moletom e camiseta que pertenceram a Lalo. Seu estômago se manifesta em seguida e como é de se esperar, ela não encontra nada que tenha resistido às ações do tempo dentro ou fora de sua geladeira.

Lola está prestes a sair, decidida a comer qualquer coisa no caminho para o hospital, as chaves do carro em mãos e os cabelos ainda úmidos, quando a luz piscando da secretária eletrônica captura sua atenção. Ela não precisa ouvi-las para saber do que se tratam. Júlia pedindo notícias e sondando seu possível retorno à Editora, seus pais pedindo notícias de Grace, Aguirre querendo saber exatamente quando ela volta – Lola está prestes a sair quando lembra que deixou o celular sobre o criado-mudo ao lado de sua cama.

Ao pegar o aparelho Lola percebe que havia esquecido o mesmo no modo silencioso – o único permitido dentro do hospital – e se depara com uma série de chamadas perdidas no visor do aparelho. Muitas das ligações são do dia anterior. O número de Facundo aparece inúmeras vezes, seguido apenas pelo número da Editora e o telefone pessoal de Aguirre.

De hoje, constam doze ligações perdidas, oito pertencentes a um número que Lola não reconhece e quatro pertencentes à Facundo. Os registros de suas chamadas indicam que estas foram feitas depois que Lola saiu de sua casa, de modo que ela não tem qualquer desejo ou intenção em retorná-las. Já o número desconhecido desperta sua curiosidade. Decidida a não perder mais tempo, com a bolsa pendurada em volta do pescoço e o aparelho celular preso entre seu ombro e sua orelha, Lola se prepara para sair e está prestes a retornar o número desconhecido quando abre a porta de casa e se depara com a última pessoa que esperava encontrar do outro lado.

Facundo.

.::.

“Você realmente deveria começar a atender seu celular.” Facundo fala, embora seu tom seja desprovido de qualquer censura. Por diversos instantes Lola apenas pisca, incapaz de registrar os motivos que o tenham trazido até sua porta.

“O que você está fazendo aqui?” É a primeira pergunta que ela consegue formular e a única que realmente importa.

“Posso entrar?” Facundo ignora sua pergunta e apesar da resposta parecer clara e óbvia, ainda mais em vista dos mais recentes acontecimentos, para a surpresa de ambos, Lola dá um passo para trás oferecendo passagem.

Passando as mãos pelos cabelos, um hábito que indica seu nervosismo, Facundo passa por Lola parando em algum lugar perto do sofá da sala. Lola não acompanha seus movimentos. Pelo contrário. Por alguns instantes ela sequer se move, o olhar fixo no ponto há pouco ocupado junto à entrada de sua casa, enquanto tenta assimilar o que de fato está acontecendo. Ao se voltar em sua direção Lola se depara com Facundo parado em pé, no meio da sala de estar, obviamente tão desconfortável com essa situação quanto ela, o que é ligeiramente reconfortante, embora explique muito pouco ou quase nada.

“Lola, eu sei que eu sou a última pessoa que você deseja ver nesse momento...” Facundo começa a explicar, mas Lola o interrompe, recuperando seus sentidos.

“Eu me pergunto o que te deu essa impressão.” Ela colabora ironicamente ao que Facundo lhe lança um olhar com a resposta.

“Você realmente deveria atender seu celular. O hospital tem tentado entrar em contato com você há duas horas.” As palavras de Facundo são o suficiente para desarmar Lola por completo.

“O hospital? O que aconteceu?” Lola pergunta visivelmente alterada.

“Eu queria te dar a notícia pessoalmente.” É tudo o que Facundo consegue dizer antes que Lola lhe dê as costas e escape correndo, se trancando no banheiro em seguida. Imediatamente ele vai atrás dela, mas se depara apenas com a porta fechada em sua cara e o som de Lola colocando para fora qualquer conteúdo ainda existente em seu estômago vazio. Com urgência, Facundo bate na porta repetidamente. “Lola, não! Você entendeu tudo errado!”

Seus apelos não obtém qualquer resposta. O som da descarga sendo dada chega aos seus ouvidos. Facundo insiste.

“Lola, por favor abra a porta.” Ele bate novamente, impacientemente. “Lola!”

Ele escuta a torneira da pia sendo aberta, a água escorrendo. Sua paciência também escapa pelo ralo.

“Lola, se você não abrir essa porta imediatamente eu juro que vou arrombá-la. Eu vou contar até três.”

Não há qualquer manifestação de que ele sequer tenha sido ouvido.

“Um.”

Nada.

“Dois.”

O mais absoluto silêncio.

“Três!”

Ele hesita apenas por um segundo.

Click.

Facundo jamais imaginou que poderia ver tanto temor aonde antes apenas encontrou bravura. Lola está chorando feito uma criança. Seus olhos vermelhos, o rosto banhado em lágrimas. Ela o recebe com um soluço.

“Não, não...” Ele repete baixinho e fecha a distância entre os dois, segurando seu rosto com ambas as mãos. “Não chore.” Ele a toma em seus braços e com os lábios afogados em seus cabelos repete com um misto de alegria e mortificação. “Ela acordou, meu amor. Foi só o que aconteceu. A Grace acordou.”

Ainda em seus braços, o rosto enterrado em seu peito, Lola deixa escapar mais um soluço que se converte em uma risada quase histérica que acaba por contagiar a ambos. Quando ela ousa olhar para cima, seus olhos castanhos estão cheios de alívio e gratidão embora lágrimas continuem a escorrer pelo seu rosto livremente.

“Ela acordou?” Lola repete sem conseguir acreditar, temendo que seja verdade e com um medo maior ainda de que não seja. Mas é Facundo quem lhe assegura que sim, e apesar de tudo o que se passou entre os dois, não há ninguém em quem Lola confie mais.

A não ser Grace, é claro.

“Ela acordou!” Ele declara com um sorriso imenso, um sorriso lindo, um sorriso que é reflexo do seu embora ela não seja capaz de enxergar isso.

Com uma felicidade que ameaça transbordar de seu corpo, Lola se lança mais uma vez sobre Facundo, seus lábios encontrando os dele sem hesitação ou cuidado, sem pensar. Ele tampouco recua, a recebendo de braços abertos e prontos.

Minutos se passam perdidos entre beijos, risadas e lágrimas quando com a testa recostada na de Facundo, Lola é capaz de se expressar com um átimo de coerência. Não que haja qualquer necessidade realmente. Ele lê suas intenções em seus olhos, sabe antes mesmo que ela articule as palavras.

“Eu preciso vê-la.”

Sua fala é mais do que uma declaração, declamação, ou qualquer conotação que se limite pelo presente momento.

É um pedido.

E é também um convite.

Dessa vez, Facundo não tem qualquer intenção de deixar Lola sair pela porta sem estar ao seu lado. As mãos dele abandonam seu rosto, percorrendo pescoço, ombros e braços até encontrar suas mãos.

“Eu vim pra te buscar.”

.::.

No hospital, Lola se depara com um mundo de gente e felicitações. Nada importa. Com a mão de Facundo segurando a sua, ela passa por um, por todos, a ansiedade fazendo com que seu coração quase pule pela boca.

Não acontece como nos filmes.

Ao entrar no quarto, Lola não se depara com Grace xingando os médicos, reclamando de uma terrível ressaca ou rindo das gracinhas de Aguirre que se encontra fiel e devoto ao seu lado.

Os médicos informam a Lola que há um longo caminho pela frente, que eles precisam avaliar a extensão dos danos provocados pelo acidente, e que apesar das indicações de que Grace possa ter uma recuperação completa, nesse momento ela ainda está grogue pela medicação, confusa quanto ao que se passa à sua volta e alternando entre os momentos consciência e sono.

De fato, no momento em que Lola entra no quarto, Grace está dormindo e por um instante é como se nada tivesse mudado. Mas então Lola se aproxima, hesitante a princípio, e toma a mão de Grace entre a sua, delicadamente, gentilmente, e é com um soluço e uma surpresa, que ela sente o movimento de Grace enfiando os dedos entre os seus e apertando muito de leve sua mão em resposta, do mesmo jeito que ela e Lalo costumavam fazer no caminho para escola quando eram crianças e tinham que atravessar a rua juntos.

Ao levantar os olhos cheios de lágrimas, Lola se depara com os olhos de Grace, abertos e alertas ainda que apenas por um breve instante antes ela caia novamente no sono. Isso é, no entanto, só o que Lola precisa para ter certeza de que a ordem se reestabeleceu no mundo.

Tudo vai ficar bem.

fim.

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