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2 Lugar de gente doida


Meu nome é Mike Narrow.

Eu nunca me dei bem com as outras pessoas.

Desde que era pequeno, onde quer que eu fosse, arrumava briga logo de cara. Estava tudo bem, tudo na paz, aí eu chegava e bum: Caos. Tudo virava o inferno.

Isso era normal para meio-sangues, mas comigo é um pouco exagerado. Só um pouco. Tá, certo. Eu já explodi uma escola. Foi sem querer, eu juro! Mas o que eu posso fazer se sou filho da deusa da discórdia?

Então eu cheguei nesse acampamento e encontrei outros caras doidos. Eu realmente nunca me dei bem com ninguém, e ali eu encontrei outras pessoas que também era assim. Quase.

Tinham meus irmãos, também. Eles sabem lidar com isso. Eu estou aprendendo. Devagar.

É assim que funciona. Por fora, eu pareço despreocupado e relaxado. Um garoto babaca que zoa de tudo e vive arrumando confusão, mas não se importa com nada, contando que possa dar umas risadas no final.

Não tem como perceber que penso bem antes de falar qualquer coisa que seja. Qualquer ação, qualquer resposta... Tudo planejado com antecedência. Aí, eu minto pra caramba. Tudo bem. Contanto que me aceitem, não tenho problema em ficar um pouco ressentido.

Só duas pessoas nesse lugar sabem como eu realmente sou. Eu posso fingir na frente dos outros, mas não teria porquê fingir na frente deles. Eles são meus amigos de verdade. Não são só companheiros de chalé ou membros do acampamento.

É melhor eu parar de ficar tagarelando sobre mim, né? Não consigo evitar. Eu nunca saí para uma missão, então não tenho assunto nenhum. Ultimamente têm acontecido coisas bem estranhas por aqui. Que tal falar sobre elas?

Como, por exemplo, essa doença que surgiu no chalé de Ares. Não sei como começou. Ninguém sabe. Um dia, um dos campistas mais velhos voltou de uma missão mal-sucedida. Ele sobreviveu por pura sorte. Quando chegou, parecia estar muito doente. Mal conseguia respirar. E, quando tinha forças, dizia coisas estranhas e sem sentido. Não que o que os filhos de Ares costumam falar faça algum sentido.

Então a coisa começou a se espalhar. Agora, mais da metade deles estava na enfermaria, sem conseguir fazer porcaria nenhuma que preste. Nenhum filho de outro deus foi afetado. Só filhos de Ares. Tem gente dizendo que é uma maldição.

Todo mundo está totalmente maluco por causa disso, é claro. E o sr. D. não liga, óbvio. Eu também não ligo. Annie disse para eles não se preocuparem, afinal, caso eles morram, Ares se reproduz tão rápido que nem vão fazer falta. Sério, eu não sei o que ela tem na cabeça. Se Quíron não estivesse ali, eles tinham matado ela, com certeza.

Ah, Annie é uma dos meus dois amigos, hum, bem, dos meus dois amigos. Eu acho que ela é uma garota, mas não tenho muita certeza. Cada dia ela se parece mais com um menino. Tem várias coisas faltando para que eu a considere realmente uma menina, inclusive algumas que se ela me visse falando sobre isso me jogaria no Tártaro.

Ela (?) é filha de Nêmesis. Outra excluída, assim como eu, por causa do parente imortal. Nós dois puxamos a parte que dá fama ruim às nossas mães: Eu simplesmente causo o caos só com a minha presença e ela vai se vingar de você por coisas como esbarrar ou pisar no sapato.

Eu juro que ela vai se vingar por terem manchado a calça jeans dela. Vi ela conversando com uns filhos de Hermes outro dia e eu não quero saber o que ela encomendou, porque pode acaber sendo usado contra mim.

Nicholas diz que quando ela morrer, vão mandar ela de volta por encher o saco demais. Ele é filho de Hades. Quando Nicholas diz algum coisa relacionada à morte, acredite. Ou ele vai te apresentar à algum espírito famoso. Digo por experiência própria.

Ele é o meu outro amigo. E acho que sou o único amigo dele. Annie não o considera seu amigo. Ela o chama de "o cara esquisito que fala com mortos". Acho que, fora eu, o acampamento inteiro tem esse mesmo pensamento de todos os filhos de Hades.

Não vou dizer que ele não é estranho. Nicholas é estranho até demais. Parece que ele gosta da fama que tem e faz de tudo para reforçá-la. Mas, sinceramente, dizer que tinha visto um fantasma vagando pela floresta era um pouco de exagero.

-- Cara, eu não consigo acreditar nisso e pronto. Se realmente acha que ninguém perceberia um fantasma zanzando por aí? — respondi, quando ele veio com aquela história pela enésima quarta vez.

-- É sério! Já faz um mês que eu tenho visto um garoto estranho andando no meio das árvores. Uma vez ele até chegou perto de um dos grupos... — Nicholas insistiu.

-- Talvez ele seja seu irmão...

-- Cale a boca! Eu não estou mentindo!

-- Certo, certo. Você está se sentindo tão sozinho qe inventou um fantasma, algo que só um filho de Hades poderia ver, aproveitando que não tem mais nenhum aqui? Se for isso, pode contar comigo, eu te ajudo a superar seu momento de solidão.

-- Você fala umas coisas estranhas de vez em quando.

-- E você fala umas coisas estranhas de vez em sempre.

Ele revirou os olhos.

-- Se você fosse um pouco menos idiota, Mike, as pessoas gostariam de você.

-- Ei, não precisa jogar sal na ferida. As pessoas não gostam de mim por intuição prévia.

-- Não, as pessoas não gostam de voê porque você é um babaca mesmo — uma voz meio aguda falou às minhas costas.

Me virei dando um sorriso debochado.

-- Ora, ora, se não é o ser Annelise!

-- Não me chame de Annelise. Você sabe muito bem que eu não gosto do meu nome. E não me chame de ser! — ela respondeu entredentes.

-- Certo, desculpe, vossa excelência. O que vos trouxeste aqui?

Ela me deu um tapa na orelha.

-- Só fale como uma pessoa normal. Quíron quer falar com... O seu amigo.

-- Você podia falar diretamente comigo — Nicholas resmungou. Annie o ignorou.

-- Certo, vamos. Não temos feito nada de importante ultimamente, não é? — cortei o clima pesado.

-- Você nunca faz droga nenhuma de importante. — ela (?) respondeu, ríspida.

-- Eu estou muito ocupado mantendo tudo no mais perfeito caos.

-- Acho que não precisam de você para isso — Nicholas murmurou.

-- Ele está lá perto dos chalés. — Annie apontou.

Andamos até Quíron calmamente. O que será que ele tinha para falar? Será que descobriram que Nicholas andara invocando espíritos? Se fosse isso, seria um grande problema. Nunca iam acreditar que eu era a vítima.

-- Quíron! Tudo certo? — perguntei.

-- Sim, sim, tudo certo, tente não destruir o acampamento como fez da última vez que perguntou isso. — Quíron respondeu, mas não estava tudo certo. Aquela era uma ilusão que ninguém mais acreditava. — Nicholas, rapaz, tudo bem?

-- Err... Tudo bem, sim... O que o sr. queria? — Nicholas estranhou a proximidade.

-- Eu tenho... Uma pergunta importante para fazer à você. O sr. D. já havia me dito isso antes, mas sinceramente achei que fosse só uma brincadeira e deixei de lado... Só que estive sentindo uma presença estranha por aqui e só você pode nos esclarecer isso. Bom, indo direto ao ponto: Você tem visto algum fantasma andando pelo acampamento ultimamente?