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3 As pessoas não prestam mesmo


–- Eu tenho... Uma pergunta importante para fazer à você. O sr. D. já havia me dito isso antes, mas sinceramente achei que fosse só uma brincadeira e deixei de lado... Só que estive sentindo uma presença estranha por aqui e só você pode nos esclarecer isso. Bom, indo direto ao ponto: Você tem visto algum fantasma andando pelo acampamento ultimamente?

Olhei para Mike com uma expressão de "Eu te disse". Ele estava com os olhos arregalados, e a amiguinha parecia simplesmente achar que era uma piada. Isso sempre acontece. Ninguém acredita nos filhos de Hades na primeira vez.

-- Sim, sr. Quíron. Ele costuma ficar mais na floresta, mas tenho visto ele andando por entre os chalés nesses últimos dias. — respondi.

Quíron suspirou.

-- Bom, é melhor do que se fosse um monstro. Você acha que ele representa algum perigo?

-- Acho que não... É só um adolescente, da nossa idade. E não me pareceu que estivesse perseguindo alguém. Ele parecia, sei lá, perdido.

-- Você tem observado esse cara bastante, não é? — Mike sussurrou no meu ouvido. Respondi com uma cotovelada.

-- De qualquer jeito, talvez seja melhor pedir para que ele fosse embora. Aparentemente, fora você, ninguém consegue vê-lo, porém, caso ele se torne visível, poderia causar um pequeno pânico.

-- Se eu encontrar com ele, vou passar o recado — murmurei. Não me sentia bem com isso. Estávamos expulsando alguém só porque era diferente. Eu me sentia como se fossem me expulsar depois disso, eu também era invisível para os outros e quando alguém me notava sempre levava um susto.

"Você estava aí?" "Quem é esse menino estranho?" "Santo Zeus, esse moleque quase me matou de susto". Isso fazia parte do meu dia-a-dia. Já estava me virando para voltar para o meu chalé quando vi aquele cara estranho parado logo atrás de Quíron.

-- Você... Pode me ver? — ele perguntou.

Aturdido, confirmei com a cabeça. Não esperava que ele viesse falar comigo. Estive espreitando-o nesses últimos dias, torcendo para que ele não percebesse. Era a primeira vez que eu conhecia um fantasma mesmo, daqueles que já estão no mundo dos vivos perdidos e não foram invocados.

-- O que você está fazendo? — Mike riu.

Apontei para o fantasma.

-- Ele está aqui? — Quíron perguntou.

Novamente, confirmei com a cabeça.

-- Err... É... Então... Aaah... O-oi? — o fantasma gaguejou, abrindo um sorriso desconfortável. Ele parecia estar com medo de que estivéssemos falando sério de o expulsar daqui.

-- O que ele está fazendo?

-- Ele disse oi.

Um minuto de silêncio desconfortável. Eu simplesmente não sabia o que dizer. A amiguinha parecia não estar convencida ainda. Mike ainda estava perplexo.

-- E-eu... Se estiver atrapalhando, eu vou embora... — o fantasma murmurou.

-- Não! — eu disse.

-- Ninguém falou nada, por que você disse não? — Mike perguntou.

-- Ele disse que estava atrapalhando. — respondi. Que saco. Se todos pudessem vê-lo, eu não teria que ficar transmitindo as mensagens.

-- Hum... Diga para ele que ele não está atrapalhando, então.

-- Ele pode te ouvir. Você que não pode ouví-lo.

-- Isso é meio estranho.

-- Eu não acho.

Mais um momento de silêncio. De repente, Quíron decidiu:

-- Pelo jeito que você está agindo, ele não deve ser uma ameaça. Vou reportar ao sr. D. Mas, por favor, tomem cuidado. E não espalhem isso para os outros campistas.

Ele se virou e foi trotando em direção à casa grande.

-- Ha-ha. Então até Quíron caiu nessa? Eu não acredito! Mike, você sabe muito bem que isso é pegadinha, não é? — a amiguinha falou, rindo.

-- Não sei... Se até Quíron acredita...

-- Não dê ouvidos a esses caras estranhos. Eles são tã-ão sozinhos que começam a ver coisas. — ela debochou.

-- Você está bem? — o fantasma me perguntou, vendo que eu cerrara o punho. Nunca liguei de me chamarem de estranho ou de falarem que vejo coisas. Mas uma pessoa falar isso para o seu melhor amigo e ele não responder nada é... Difícil. Além do mais, eu não estava vendo coisas. O fantasma estava ali, caramba! Vocês vão ignorá-lo, assim como me ignoram?

-- Sim... Não se preocupe — respondi.

-- Hum... Nick, nós vamos dar uma volta aí, tá certo? Nos vemos depois — Mike disse, e saiu com a amiguinha.

-- Não me chame de Nick! — gritei para as costas dele.

-- E-eu sinto muito... Eu fiz seus amigos ficarem bravos..?

-- Não. Eles só são idiotas. E ela não é minha amiga.

-- Ah...

Ele parecia estar confuso. Eu também estaria, numa situação como essa. Imagine que você fique anos e anos andando por aí, sem ninguém poder te ver ou ouvir. Então, aparece outra pessoa que consegue conversar com você. Não deve ser fácil.

-- Qual é o seu nome? — perguntei.

-- Leon... Bom, na verdade eu não me lembro do meu nome de quando estava vivo. Eu uso esse nome porque... Acho legal.

-- Meu nome é Nicholas. Prazer. Você não se lembra de quando estava vivo?

-- Não... Não lembro de nada. A lembrança mais antiga que eu tenho é a de uma mulher estranha me mandar do mundo dos mortos para cá.

-- Que estranho... Normalmente, os fantasmas vêm porque deixaram algo a se fazer. Mas como fazer o que foi deixado se você não se lembra do que era?

-- Sei lá. Só sei que esse lugar me dá uma nostalgia... Eu sinto que essa coisa de deuses gregos e tudo mais tem alguma relação com a minha vida. Você é filho de Hades?

-- Sou. Você deduziu isso porque consigo vê-lo?

Leon confirmou com um aceno de cabeça. Que estranho. Eu estava conversando com um fantasma, e isso não mer surpreendia nem um pouco. Talvez eu já tenha passado do ponto de que possa ser surpreendido.

-- Você já pensou que pode ser um semideus? — perguntei, depois de um certo tempo.

-- Já. Acho bem provável.

-- Tem alguma teoria de por que não se lembra de nada?

-- Talvez para o que eu precise fazer precise não me lembrar do passado. Ou talvez eu tenha me matado desejando não me lembrar de nada após a morte, e alguém atendeu meu pedido.

-- Espero que seja a primeira opção.

-- Nunca se sabe. Mas... Eu não ligo. Antes, eu queria muito me lembrar de quando estava vivo... Só que com o tempo, a vontade foi passando. Agora eu só ando por aí.

-- Faz quanto tempo desde que falou com alguém?

Ele levantou uma sobrancelha. Tinha olhos estranhamente prateados.

-- Desde que eu morri.

-- Ah. É verdade.

-- Eu não sabia que era legal conversar... — murmurmou, distraído.

-- Deve ser difícil não ter nenhum amigo. — comentei, apesar de que eu não podia falar muito.

-- As coisas parecem meio inúteis quando você simplesmente não pode tê-las... Nicholas.

-- Que foi?

-- Nós somos amigos?

Não respondi. Não conseguia. Eu tinha acabado de conhecer aquele cara. Não podia considerá-lo um amigo. Mas, para ele, o simples fato de ter conversado comigo nos tornava muito mais próximos do que ele era com qualquer outro ser do mundo. Eu não queria mentir. Mas também não queria magoá-lo.

-- Acho que... Ainda é um pouco cedo para dizer isso... — respondi, hesitando.

-- Entendo. Não é assim que os vivos fazem, não é? — Leon riu. Pela maneira que ele fez isso, percebi que era algo que ele não fazia há muito tempo. Talvez até mais tempo do que estava morto.

Ele podia não estar interessado no próprio passado, mas eu estava curioso. Vivo ou morto, era estranho alguém se aproximar tanto assim de mim. E ele agia simplesmente como se não se importasse de eu ser do jeito que sou.

Sorri também. Era diferente de quando eu estava com Mike. Ele era legal, mas sempre aparecia aquela maldita para levá-lo embora. Leon não iria embora se eu não pedisse. Ele não tinha para onde ir.

-- Você pode vir comigo para o chalé de Hades — convidei — Sei que não dorme e tudo mais, mas passar a noite na floresta não deve ser muito divertido.

-- Eu não passei as últimas noites na floresta — ele comentou.

-- Vou tentar não levar isso para um lado ruim.

-- Ei! No que você está pensando? E-eu não... Quer dizer, ãhn... — Leon ficou vermelho, se é que um fantasma podia ficar vermelho.

-- Não se preocupe. Eu estava brincando.

-- Você é legal, Nicholas. Não sei porquê, sempre tive essa impressão de que as pessoas não prestam.

-- Não é uma impressão. Elas não prestam mesmo.

Ele riu de novo. Os olhos dele brilharam. Eram incrivelmente prateados. Eu já tinha ouvido falar sobre um deus que tinha olhos prateados, mas não me lembrava de qual era. Podia perguntar para Mike, mas ele provavelmente ia responder "Hein? Tem um deus que tem olhos prateados? Que legal!".

-- Só espero que aquele... Quíron, não é? Só espero que ele me deixe ficar aqui.

-- Ele não é o problema. O problema é o sr. D.

-- O deus do vinho? Nem imagino o porquê de ele ser o diretor desse lugar.

-- Eu não tenho certeza, e ele não gosta de falar sobre isso. Mas é melhor irmos, antes que a galera do chalé 3 volte da aula de canoagem. Seríamos atropelados.

-- Imagino. Já dei uma conferida nos chalés. Realmente, alguns estão tão cheios que deviam fazer outro.

-- Eu já disse isso para Quíron milhares de vezes, mas ele insiste que não tem problema.

Esse não era o único problema. Eu não seria atropelado, a maioria um desvio de 4 metros para não passar perto de mim. O problema era ouvirem eu falando com o ar. Eu já tinha fama de louco o suficiente.

Andamos até o chalé vazio de Hades. Os semideuses veteranos, que já tinham passado dos 25, raramente vinham para o acampamento, então agora eu estava sozinho. Já tinha visto eles uma vez ou outra, mas estavam sempre ocupados demais para dar importância aos irmão mais novos.

Agora, eu ia morar com um fantasma. Não era estranho, só era diferente, disse a mim mesmo. E se alguém pensar que é estranho, tanto faz. Eu não ia mandar Leon embora. Nunca conseguiria.

E eu sabia disso desde a primeira vez que o tinha visto.