Constelações Cruzadas
3 A reunião
Notas iniciais
– Não acredito que já é hoje — disse Bia na mesa de café da manhã — não está nervosa?
Nervosa? Se ela estava nervosa? Mal havia pregado os olhos durante a noite, pensando em como seria o futuro depois que tudo se concretizasse.
Jannet passara a manhã inteira olhando seu reflexo no espelho. Analisou sua aparência de cabo a rabo, para que até isso estivesse impecável.
Olhando seu reflexo, Jannet não podia deixar de reparar em seus defeitos. Era muito baixinha, tinha um pouco de acne no rosto, nariz de batatinha e peitos pequenos. Apesar disso, não se achava feia. Gostava de pensar que tinha uma beleza que só os melhores tipos de meninos sabiam apreciar.
– Estou de boassa — mentiu a garota friamente enquanto mastigava seu muffin de abóbora — estou com um pressentimento bom.
– Eu também. Mas não consigo deixar de pensar no que pode acontecer se alguém espalhar por aí, ou se alguém ouvir, sei lá. Vai que dá alguma merda.
Bia deixava Jannet cada vez mais nervosa.
– Bom dia, gente — as duas viraram pra trás e se depararam com a corvina loira aparentando um bom humor exagerado.
– Bom dia, Felícia — respondeu Jannet educadamente — quanta animação, hein?
– Claro! Estou com plena certeza que tudo vai funcionar.
– Só pra confirmar pela milionésima vez — diz Jannet — você enviou todos os convites direitinho, né?
– Pela milionésima vez — respondeu a corvina impacientemente — sim, há uma semana atrás. Vai dar tudo certo, se acalme!
– Ah, assim eu espero. Mas estou confiante.
– Obrigada. Jo e eu já estamos nos preparando ali, se quiserem encontrar a gente podem ir pro campo de uma vez.
– Vamos terminar de comer e vamos.
– Ok. — nisso, Felícia se virou e andou em direção à porta, onde estava Jo mexendo impacientemente em sua gravata vermelha e dourada.
As duas amigas acabaram empolgando numa conversa sobre quadribol e demoraram a comer. Quando perceberam o horário, se levantaram apressadas em direção ao campo.
Ao irem se aproximando, Jannet foi observando os grupinhos no pátio do colégio. Num sábado de manhã ensolarado, quase todos estavam do lado de fora do castelo. Um casal de grifinórios do 5º ano se abraçava embaixo de uma árvore, um grupo de sonserinas do 4º ano conversavam parecendo se divertir enquanto falava mal dos outros, alguns corvinos liam embaixo de árvores e outros apenas conversavam animadamente. O que mais lhe chamou atenção foram alguns lufanos do primeiro ano correndo atrás de uma bola de couro que parecia ser de futebol.
Isso a fez lembrar de quando conheceu Jo pela primeira vez. Ela estava no primeiro ano e até então só tinha como companheiras no castelo as meninas com quem ela dividia o quarto. Era outono na Inglaterra, e, como de costume, Jannet estava deitada sobre uma pilha de folhas secas caídas debaixo de uma árvore. Enquanto pensava em sua família, subitamente sentiu sobre sua face uma bola que parecia ser de futebol. Quando se levantou, se deparou com um menino vestindo um cachecol vermelho e dourado correndo desesperadamente na direção da garota. Jo ajudou-a a se levantar e, após pedir um milhão de desculpas, começaram a conversar sobre o esporte e diversas coisas do mundo trouxa. Foi amizade instantânea.
Saindo de seus devaneios, Jannet entrou no campo de quadribol cheia de expectativas. O lugar estava vazio, fora dois garotos do 2º ano da Lufa-Lufa trocando figurinhas de sapos de chocolate nas arquibancadas. Foi quando ela viu: na lateral do campo, um grupo de alunos misturando Corvinal, Grifinória e Lufa-Lufa sentados sussurrando entre si, enquanto Jo e Felícia pareciam inquietos lá na frente. Sem brincadeira, devia ter uns 15 ali. Podia-se perceber que alguns convidados não apareceram, mas Jannet estava tão animada com as pessoas que estavam que nem se preocupou em descobrir quem não foi.
– Oi — disse Jannet com um sorriso de orelha a orelha.
– Finalmente! — Jo gritou, mas parecendo mais aliviado que bravo.
– Podemos começar, então? — disse Felícia com um tom impaciente.
– Sim. — respondeu Jannet. — Antes de começarmos a explicar, alguém tem uma pergunta?
– Eu tenho — respondeu um garoto Corvino que se chamava Robert — a ideia que estava no papel era séria? Vocês pretendem derrubar Você-Sabe-Quem?
– Mais ou menos — Jo tomou a palavra — não exatamente, eu diria. Não somos ingênuos o bastante pra pensar que podemos derrotar ele e seus discípulos sozinhos. Mas achamos que com muito treino podemos pelo menos ajudar a proteger os nascidos trouxas. Extrair informações de comensais aqui na escola, talvez. Achar saídas do território do colégio... Bem, ainda não sabemos direito, mas se todos trabalharmos juntos...
– A questão é que — interrompeu Jannet — nós não chamamos todo mundo. Escolhemos aqueles que correm qualquer tipo de perigo, ou tem alguém próximo que corre. Ou pelo menos tenha alguma coisa pela qual valha a pena lutar. Entendemos se vocês não quiserem se meter em confusão, mas isso vai ajudar inclusive na segurança de cada um. Podemos conseguir coisas que podem salvar as pessoas, vocês não vêem? E essas pessoas podem estar na sua família. — nisso, todos murmúrios se calaram. Alguns dos convidados se entreolharam.
– Então? Vão nos ouvir agora? — falou a morena incisivamente.
O silêncio reinou por uns instantes. Logo, Felícia tomou a palavra:
– Estávamos pensando em começar nos encontrando apenas uma vez por semana. Podíamos treinar e no final pensar em alguns esquemas, compartilhar informações.
Algumas pessoas pareciam empolgadas, outras indecisas e algumas ainda pareciam não levar muito a sério.
– Só deixando claro — disse Jannet, indiretamente falando para Felícia — que não temos um líder. Todos aqui tem a mesma voz e estamos abertos a aceitar qualquer...
Jannet se interrompeu subitamente e começou a olhar fixamente para frente. Alguns seguiram seu olhar e automaticamente perceberam porque ela parou: tinha alguém se aproximando.
Anthony Crawley caminhava calmamente em direção ao grupo. Ao ver todos o encarando, hesitou por um momento, mas continuou andando na mesma direção.
– Oi — disse ele quando chegou ao local.
Jannet não conseguia entender o que as pessoas viam de tão especial nele. Tá, ele era loiro de olhos azuis piscina, mas não passava disso. Não era um menino bonito. Pelo menos não muito. Era baixo pra homens, media por volta de 1,70. Tinha o nariz muito reto, olhos pequenos e, se reparar, era possível perceber seus dentes da frente levemente encavalados. Além de sempre estar com cara de cansado: pálido e com olheiras. E mesmo se fosse o cara mais bonito do mundo bruxo, não valeria à pena. Era o "líder" dos sonserinos, daqueles que todos pagavam pau. Arrogante e nojentinho. Devia ser por isso que estava ali, se revoltou porque teve um grupo para qual não foi chamado para participar.
As pessoas permaneceram o encarando em silêncio, com a mesma expressão de incredulidade.
– Por que você está aqui? — Jo decidiu se pronunciar.
Anthony não disse uma palavra, apenas levantou a mão e balançou um pequeno pedaço de pergaminho contendo seu sobrenome. Era o convite.
– Isso... Era pro seu irmão. — Jo disse praticamente cuspindo as palavras — Felícia! Você tinha dito que sua coruja era inteligente.
Felícia parecia extremamente constrangida com a situação. Não só pela confusão ter sido culpa dela, mas principalmente pela pessoa que entrou na confusão. Ela e Anthony tinham tido um lance ano passado, mas que aparentemente pra ela era namoro, e pra ele não era nada além de pegação. Quando terminou ela ficou muito pra baixo e mal conseguia passar perto dele. Não queria nunca estar na pele dela agora.
– Er... Ah, eu... Estava pelo sobrenome, ela confundiu. Deve ter achado que era ele que... Sei lá, que serviria pra cá. Geralmente ela acerta essas coisas, mas...
– Mas ela errou — respondeu Jo de uma maneira bastante rude.
Felícia não conseguiu responder. Parecia a ponto de explodir em lágrimas. Anthony a encarava com um certo olhar de pena, o que a deixava ainda mais constrangida. O silêncio dominou novamente o grupo até que ele decidiu quebrá-lo:
– Olha — começou ele calmamente — se a coruja ou alguém errou aqui não faz diferença, tá legal? Eu estou aqui porque eu li a proposta e achei interessante.
– Não importa — Jannet decidiu interferir — nós queríamos seu irmão e não confiamos em você.
– Então vocês pensaram em chamar pra porradaria um moleque esquelético de 14 anos que tem 1,50 que ainda não aprendeu nem sobre as maldições imperdoáveis pensando que ele seria super útil?
Com ele falando, realmente parecia ridículo.
– O pau tá quebrando lá fora. Eu sei que ele tem potencial, mas ele é muito novo e precisa de mais proteção do que proteger os outros. Vocês precisam de gente que saiba lutar e não tenha medo de machucar, também.
Ele estava certo. Jannet odiava admitir isso.
– E eu fico puto — recomeçou ele mais firmemente — que vocês falam que os sonserinos são os mais preconceituosos e arrogantes, mas eu tenho certeza que se eu tivesse com uniforme vermelho e dourado estaria sendo recebido de braços abertos aqui, junto com meu irmão. Mas eu to aqui recebendo voadoras mentais só porque sou da sonserina. Acho sacanagem, muita sa ca na gem.
Ele falava de uma maneira engraçada; um tom de voz tão calmo e tão natural que faziam o que ele falava parecer cômico. Podia-se perceber algumas pessoas se segurando pra não soltar uma risada.
– Eu tenho o mesmo objetivo que vocês. Quero ver aquele maníaco louco tão derrotado quanto vocês. Não aguento mais ver gente se curvando praquele imbecil, eu... E eu não sou mongol o bastante pra achar que posso fazer alguma diferença sozinho. Eu seria útil pra vocês. Não seria bom ter alguém próximo dos "futuros comensais" aqui dentro? Eu podia conseguir muita coisa.
Ninguém demonstrava reação. Todos estavam em dúvida se deviam acreditar. Todos só sabiam de uma coisa: realmente seria útil ter um sonserino naquele meio.
– Ah, enfim, vou chamar meu irmão, ent...
– Prove — disse um lufano com muitas espinhas na testa. Lufanos, sempre dispostos a acreditar em todos.
Um silêncio mortal se instalou no ambiente. Anthony parecia pensativo.
Jannet decidiu retomar a palavra sem mais interrupções:
– Isso não vai a lugar nenhum. Vamos só continuar com a reunião como se nada tivesse acontecido.
Jannet continuou falando por uns dois minutos enquanto Anthony permanecia em silêncio.
– ... E pretendiamos...
– Eu faço um voto perpétuo.
E mais uma vez, todos se calaram. Depois de uns bons cinco minutos de todos se olhando espantados, ele volta a insistir.
– Seria prova o suficiente? — bufou ele, impacientemente.
– Você sabe o que acontece se você não cumprir, né?
– Sim, eu bato as botas. E como eu não pretendo falecer nos próximos 120 anos, creio que é prova o suficiente.
Ninguém parecia acreditar nas palavras dele. Um voto perpétuo? Para alguém fazer um voto perpétuo é preciso realmente estar muito disposto a cumprir. E mesmo assim, todos pareciam hesitantes em cogitar a proposta dele.
Jannet pensou muito tempo sobre aquela hipótese. Um sonserino não arriscaria o próprio pescoço para algo que não tivesse disposto a cumprir. E mesmo se ele fosse recusado no grupo, ele já sabia pelo menos de parte do plano que tinham. Sabe-se lá o que ele podia fazer com tais informações.
Olhava pra ele analisando cada detalhe, à procura de provas que ele estava sendo sincero. Encarou firmemente seus lábios avermelhados e subiu para os olhos claros que não expressavam nenhum tipo de emoção a não ser a clara impaciência que estava no momento. Quando seus olhares se encontraram, Jannet rapidamente desviou e respondeu num impulso:
– Ok.
Todos os olhares se voltaram pra ela. Tinha ela mesmo dito isso? Aceitado a proposta de um sonserino? Sentiu que havia assinado um pacto com o diabo de lhe vender sua alma. Porém, já era tarde demais para voltar atrás.
– Gente, ele realmente vai ser útil. E se ele está disposto a fazer um voto perpétuo, bom... Não temos muito o que duvidar. Acho que podemos arriscar. — Disse a garota, tentando se convencer junto com os outros.
Um sorrisinho de lado surgiu na boca do garoto, mostrando um princípio de covinhas, que quebravam um pouco sua cara de "bad boy".
– Felícia — Jannet se virou para a loira — você pode vir aqui perpetuar o voto, por favor?
Felícia a encarou com nervosismo. Ao se aproximar, se permitiu pela primeira vez olhar diretamente para Anthony. Ele a encarou de volta, fazendo com que suas maçãs do rosto corassem levemente. Ao desviar, botou as mãos do sonserino e da grifinória entrelaçadas firmemente, conjurou o feitiço e deu abertura para que ele começasse seu juramento:
– Eu, Anthony Crawley juro que entrarei nessa luta contra Voldemort e permanecerei por todo tempo no lado que visa destruir as forças de Lord das Trevas. — ele falava lentamente, claramente escolhendo minuciosamente as palavras usadas — Juro lutar até que a guerra esteja acabada, ou até que eu tenha condições... Ou vida o suficiente pra batalhar.
– Jure não mentir pra nós — sugeriu Alice, uma grifinória cursando o 6o ano. Ele pareceu hesitar, mas prosseguiu o juramento:
– Juro não mentir para o grupo que estou me juntando.
Quando todos pareceram convencidos e satisfeitos com as palavras de Anthony, o voto perpétuo foi concretizado.
– Então, acho que temos que dizer bem vindo à nosso grupo, Tony — disse Bia com um sorriso sincero. Ele sorriu de volta, parecendo levemente envergonhado.
– Obrigado, Bia.
E com isso, continuaram a reunião como se nenhuma interrupção tivesse ocorrido.
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