Notas iniciais
Mais um. E esse me deu muito trabalho. Espero que esteja bom e se alguém estiver mesmo lendo e quiser comentar...

Laura rolou de um lado para o outro na cama. O quarto estava sendo invadido por uma música que ela sabia muito bem o que significava. Era hora de se levantar. Puxou o cobertor até cobrir a cabeça e se encolheu. Depois, de um jeito súbito, empurrou as cobertas com pressa. O teste de espanhol era naquela manhã.

***

Skylar estava estático. Tudo se resumia em um vazio assombroso, o que era extremamente conflitante, visto que agora ele tinha algumas lembranças concretas retornando-lhe à mente. Mas era exatamente esse o problema. As informações das quais se lembrara ainda não eram claras, mas ele tinha a certeza de que algo ruim tinha acontecido. Algo ruim parecia ser um modo simplório para resumir a profundidade da situação. Esfregou os olhos e suspirou frustrado. Colocou as mãos do lado da cabeça, e ficou com os braços apoiados nos joelhos, tentando processar tudo.

Escutou batidas leves na porta. Despertou de seu estado inerte e foi até ela. Lá estava Laura. A garota, como em todas as manhãs anteriores, equilibrava o café da manhã de Skylar. A presença dela o fez se sentir melhor. A garota parecia um pouco nervosa, e ele se lembrou do teste de espanhol. Na noite anterior ela tinha comentado sobre isso. E tinha falado também que o levaria para passear. A ideia de passeio fez com que o garoto se sentisse significativamente mais animado.

***

Laura estava com o rosto apoiado no vidro da janela do carro. Estava absorta no conteúdo que tinha estudado, enquanto Catarina, que estava observando a rua pela janela oposta, cantava uma música que a garota achava familiar. Laura começou a prestar atenção na letra e se deu conta de que a conhecia e se preparou para ouvir a amiga cantar o refrão com toda a força de vontade, mesmo que de forma estridente.

Catarina cantou as duas primeiras palavras, mas parou de repente. Laura desencostou o rosto do vidro e olhou para amiga sem entender, e Catarina por sua vez, estava com a cara amarrada. Pouco depois percebeu que Henrique cantava a música, não de forma tão desafinada e alta como Catarina, e Laura o encarou pelo espelho retrovisor. O garoto cruzou o olhar de Laura, desviou rapidamente, parecendo constrangido e abaixou significativamente o volume do rádio.

– Você é tão chato Henrique. Catarina resmungou, aparentemente irritada pelo fato de que o irmão abaixara o volume. Depois se dirigiu à Laura.- Amiga, eu estava pensado... você ainda não escolheu o seu vestido pra festa...

– ¡Ay Cat! ¿De nuevo con esta conversación?- Laura tapou a boca.

Catarina piscou duas vezes e depois segurou o riso. O que foi pior, porque depois começou a gargalhar até quase perder o ar.

– Você ficou parecendo uma atriz de novela mexicana.- Catarina ainda tentava se controlar para não rir mais.

– A culpa é sua!- Laura sentiu o rosto esquentar.- Eu aqui preocupada com o teste de espanhol e você me falando em vestido e de festas.

***

O teste não fora ruim, e Laura pode respirar aliviada na hora do intervalo. Catarina ainda falava em vestidos e Laura estava defendendo sua opinião a respeito do uso de moletom em ocasiões especiais.

– Aí Laurie, como uma pessoa pode usar moletom numa festa?

– Usando oras. Já pensou? Moletons são confortáveis, quentinhos e versáteis. Quem iria se incomodar? E além do mais, se usarmos moletom não corremos o risco de cair e pagar um mico. Com vestido a situação fica bem complicada. Já mencionei o vento?

Catarina gargalhou, mas não respondeu Laura. Por alguns segundos as duas ficaram caladas.

– Amiga, como está o Skylar?- Catarina perguntou.

– Bem. Ele adorou o cinema, é claro.

As duas deram risinhos cúmplices.

– Eu vou levar ele pra dar uma voltinha hoje, quer ir?- Laura perguntou despreocupadamente.

Catarina fez uma expressão um pouco chateada.

–Não vou poder amiga. Eu e o Henrique vamos passar no escritório da minha mãe pra pegar umas caixas lotadas de documentos.

Laura assentiu. Depois acrescentou:

– Não destruam o lugar.

– Não vamos destruir o lugar! Quer dizer, eu acho. — Catarina ajeitou a fita que prendia os fios loiros e curtos.- O Henrique está meio estranho nos últimos dias, acho que deve ser alguma coisa da faculdade. Estamos numa espécie de trégua.

– E isso não é bom?

– Não. Somos irmãos... se eu digo alguma coisa ele tem que retrucar. E vice-versa. Quer dizer, é bom, mas também não é.

Laura balançou a cabeça negativamente e começou a rir.

– Não é engraçado.- Catarina retrucou.

– Bom, mas e amanhã? Você podia passar lá em casa, quem sabe a gente não assiste um filme?

– Que tal a gente ir procurar um vestido pra você? O Skylar ia gostar de voltar ao shopping.

– Eu não tenho tanta certeza. Ele é um garoto. Quer dizer... ah você entendeu. Não acho que ele vá ter paciência pra esperar enquanto você me obriga a provar um milhão de vestidos.

– Não vai ser um milhão de vestidos. Ah amiga, por favor! Por favorzinho. É uma festa! Vai ser legal e você precisa estar bonita!

Laura revirou os olhos, e ignorou a amiga. O fato de ela ter que ir na tal festa e usar vestido já estava definido. Era uma batalha perdida.

***

Skylar estava sentado na mesa, encarando o lado de fora pela janela enquanto Dom estava em seu colo. Ele estava tentando organizar os pensamentos e trabalhando na melhor forma de contar o que tinha lembrado para Laura. Ele precisava contar para ela. Ele sentia que, de alguma forma, Laura poderia ajudá-lo. Sentia que ela poderia fazer com que as coisas, pelo menos naquele momento, voltassem ao seu ponto de equilíbrio.

O garoto observou Dom, que se esticou todo e saltou de seu colo, e acabou saindo pela porta do porão. Ele sabia que pelo horário, Laura logo estaria de volta. E ela tinha prometido que iriam visitar algum lugar sobre o qual ela não quis revelar nada. Sentiu a ansiedade tomar o lugar de todas as suas preocupações anteriores.

***

Laura caminhava com Skylar pelas ruas movimentadas da cidade. Ela tinha telefonado para a administração do lugar e perguntado se estariam abertos para a visitação. O garoto parecia um pouco confuso e frustrado, e Laura se divertia com as tentativas dele de arrancar informações dela.

– E então? Não acertei?

– Não. Calma, nós vamos chegar em poucos minutos.

– Isso não é... justo.

– É uma surpresa. Pare de tentar adivinhar.

Laura e o garoto pararam em frente de um portão. A entrada era de um colégio. Um grande colégio que ficava bem no centro da cidade, e que era o maior colégio público do estado. Laura fez um sinal com a cabeça, dando a entender que ela e Skylar iriam entrar lá. O garoto se deixou impressionar com o tamanho do local. O grande prédio era rodeado por algumas árvores, e possuía uma grande escadaria. Laura e ele contornaram o pavilhão, e encontraram um prédio com um formato de um tronco de pirâmide.

– E aqui estamos. Bem vindo ao Planetário!- Laura exclamou.

– Planetário... — Skylar desviou a atenção do prédio e sorriu abertamente para Laura.

Os dois adentraram o prédio. Encontraram um rapaz sentado na recepção. Ele estava distraído com um jornal. Laura teve de fazer um barulho para que o jovem desviasse os olhos do caderno de esportes.

– Você deve ser a moça que ligou mais cedo.

– É, sou eu mesma. Podemos entrar?

– É claro, no final do corredor. A projeção dura em média uma meia hora.- O rapaz disse parecendo um pouco entediado.

Laura e Skylar se dirigiram para o final do corredor e adentraram numa sala que continha uma cúpula. Os dois se sentaram em cadeiras que estavam dispostas em um circulo no centro da sala. O rapaz da recepção reapareceu na sala, e passou algumas instruções.

– Hoje, como não tínhamos nada programado na agenda, não terão um especialista para explicar cada uma das constelações. Mas vocês podem dar uma olhada nesses folhetos, tem tudo explicado. A primeira exibição é sobre o céu de antigamente, depois passa para os dias atuais e por fim para o céu do futuro. Se você puderem responder a pesquisa no final da exibição, meu TCC ficaria muito agradecido. Alguma dúvida?

– Não, muito obrigada. — Laura sorriu. — Nós adoraríamos responder a pesquisa.

O rapaz entregou os folhetos e se demorou um pouco enquanto observava Laura e Skylar de um jeito meio estranho. Depois saiu da sala e fechou a porta.

– O que exatamente é um TCC?- Skylar perguntou.

– É um trabalho de conclusão de curso. Esse cara deve estar se formando em algum curso superior.

As luzes se apagaram. E a cúpula se iluminou. As silhuetas de uma cidade se tornaram nítidas e de repente, um céu iluminado por diversos pontinhos brilhantes tomaram conta da projeção.

Laura sabia algumas constelações. Ela identificou o Cinturão de Órion, graças às “Três Marias”.

– Ei, Sky. — Laura disse baixinho.- Aquele ali em cima é Órion. E seu cinturão. — Ela não enxergava o rosto de Skylar com nitidez, mas via os contornos de sua face iluminados pela luz bruxuleante da projeção. Ele parecia maravilhado. — Tem uma história para quase todas as constelações que podemos ver aqui na Terra.

– E qual é a história de Órion?- Ele quis saber.

Laura se esforçou para se lembrar. Depois deu uma risadinha... ela era um pouco ruim com essa coisa de constelações e a analogia com as mitologias.

– Acho que ele era um guerreiro na mitologia grega. É um pouco trágico. Mas enfim... Acho que ele foi morto por uma garota. Sem querer é claro. Foi o irmão dela que fez com que ela o atingisse sem saber com uma flechada. Ela ficou desolada e o transformou nessa constelação.

Skylar não respondeu de imediato.

– É trágico, realmente. Você acha que isso aconteceu mesmo?

– Não sei, mas acho que não. — Ela respondeu um pouco atônita. – Tem outras histórias é claro. Sobre essa mesma constelação. Eu sei que existem algumas dos povos indígenas e também dos nórdicos. Mas a mais famosa é essa.

– Ah, olha!- A menina exclamou novamente. — Aquela é a Via Láctea. E sim, quer dizer Caminho do Leite. Não me pergunte o porquê, eu realmente não sei.

A projeção deslizava acima da cabeça deles. Laura fazia pequenas observações e Skylar também falava em alguns termos de astronomia que pareciam vagamente conhecidas para a garota. Em resumo, os dois estavam se divertindo.

– Constelação em latim é constellātiō. – Skylar disse para Laura, que assentiu.- O que significa aglomerado de estrelas.

Laura lembrou-se de um curta de animação que assistiu uma vez. Era sobre uma lenda indígena norte-americana sobre as estrelas. Ela teria que mostrar para Skylar depois que chegassem em casa. O “céu” acima deles se moveu mais uma vez.

Skylar se mexeu de uma forma que parecia desconfortável. Laura viu seu rosto se contorcer e esperou que ele falasse alguma coisa.

– Essa área. Essa região. Tem uma... uma... Anomalia nela. Eu acho que...

Laura começou a se sentir um pouco aflita.

– Laura, eu acho que passei por ela antes de chegar até aqui.

Os dois ficaram calados. Laura estava lutando contra a euforia que estava a deixando inquieta, e para ela, Skylar também passava por um conflito interno. Assim que a sessão terminou, os dois se encararam por alguns segundos. Saíram da sala e apanharam as folhas com a pesquisa que teriam que responder, como tinham prometido. Sentaram-se numa mesa afastada da recepção e assinalaram o questionário com apenas dez perguntas referentes ao que pensavam sobre o estudo da astrologia. Quando entregaram os papéis o rapaz da recepção pareceu tão alegre que poderia sair pulando pelo corredor a qualquer minuto.

Laura e Skylar saíram do prédio e estavam passando pelo pátio do colégio, de onde avistaram alguns poucos alunos do lado de fora do pavilhão, que estavam ocupados demais com suas conversas para prestar atenção nos dois adolescentes que não eram de sua escola e que estavam, saindo do planetário.

Laura colocou as mãos nos bolsos do casaco, enquanto pensava no que Skylar tinha dito dentro do planetário. Foi despertada de suas divagações pelo garoto ao seu lado.

– Laura, eu comecei a me lembrar.

Notas finais
Eu nunca comentei, mas todas as coisas que eu descrevo na história com relação à lugares e algumas referências sutis existem mesmo. Até o exoplaneta Gliesse! Nesse capítulo, o planetário existe mesmo em Curitiba e essa anomalia se trata do Cinturão de Van Allen, que fica sobre o Atlântico Sul, e a anomalia realmente está lá! Qualquer dúvida, é só dar uma "googlada" ou até mesmo me perguntar! Até o próximo! :)