Conserte isso

1 Tente consertar isso (mas você está quebrada)


Notas iniciais
Esta é uma história muito importante para mim.
Não só por ter ficado realmente boa - ao menos a meu ver - mas também por refletir um período um tanto sombrio da minha vida.
A escrevi no ano passado, quando não estava aguentando mais a pressão, as risadas. Embora algumas partes reflitam-me realmente, outras não. Se um dia quebrei alguém, foi sem querer.
Acabei me consertando de lá pra cá, e descobri que não preciso que alguém me estenda a mão. Eu mesma fiz isso.
Sem mais, divirtam-se.

Pessoas podem ser quebradas, você sabe.

Na verdade, pessoas quebradas são encontradas mais facilmente do que deveriam: você as vê no mercado, sorri para elas na esquina e as convida para a ceia de Natal. Você se pergunta se é assim tão fácil manter esse tipo de máscara. Por que você pode ver suas rachaduras?

É fácil quebrar uma pessoa, você sabe: é apenas descobrir seu ponto fraco. Em geral, é fácil descobrir. Elas foram abandonadas por alguém, sentem-se feias ou inúteis. Elas odeiam o próprio reflexo. É fácil demais perceber.

Você seria bom em quebrar pessoas se quisesse, e sabe disso. É fácil demais. Você não quer ferí-las; quer fazer amigos. Quer conhecer alguém que goste realmente de você e de quem possa gostar com quem possa ser você mesma. Como dizem? Ame alguém com quem possa ser quem é quando está sozinho.

Deus, isso é tudo o que você quer. E é tudo que não consegue encontrar. Por que as pessoas são más; elas são cruéis, te odeiam (elas estão rindo de você, e não com você) e nunca agem da forma certa.

São como brinquedos que machucam facilmente. E o que se faz com brinquedos perigosos? As pessoas os quebram. O amor que você quis, sabe que nunca o encontrará. Odeia isso, mas ainda não é ódio o suficiente.

Então quebre as pessoas. Destrua a paz. Quebre-as em pedacinhos, em fragmentos impossíveis de serem sequer juntos de novo, quanto mais consertados. Quebre-as, porque elas são más e merecem ser quebradas.

Mas sabe, chegará o dia do acerto de contas. Quando você vai perceber que, de tanto quebrar brinquedos maus, você acabou quebrando. Ou talvez você quebre tantos porque já estava quebrada. Já não sabe mais.

No entanto, a essa altura, você já sabe – com um sorriso perverso – que não fará nada a esse respeito. Só pessoas podem consertar pessoas, e se houvesse alguém para te consertar, você não teria quebrado para início de conversa.

E você se enfurece. Por que vê as pessoas que quebrou sendo consertadas, mas parece que você é invisível, porque ninguém conserta você. Talvez não seja mais uma pessoa. Talvez tenha perdido o direito de ser consertada.

E a fúria cresce. Você aprende a esconder que está quebrada atrás de um sorriso ou uma expressão vazia, e as pessoas te veem no mercado, sorriem para você na esquina e te convidam para a ceia da Natal. E agora você entende o quão difícil é manter a máscara. Você torce para que alguém veja suas rachaduras.

Você já sabe que monstros, que fragmentos se escondem por detrás daqueles sorrisos e expressões vazias. E você sabe que está furiosa, que se pudesse destruiria o mundo só para tudo quebrar como você.

E você ri. E você acha graça em tudo isso. Você se isola. Nega o presente, nega o futuro. De alguma forma, o passado parece importante demais para esses seres engraçados chamados humanos. É apenas a isso que não renega, e se encolhe ao redor de seus cacos.

Você também só não nega a si mesma, porque isso parece ser mais importante até que o seu passado. E você continua recolhendo seus fragmentos e os juntando à espera de que alguma pessoa apareça para te consertar. Você sabe que não mereceria isso.

E aquele buraco em seu peito arde e dói. É onde você está mais quebrada. E você chora, mas isso não ajuda como as histórias dizem. Você só quer uma pessoa para você, a quem pertença, alguém para consertar esse buraco. E você sabe que é patética.

Somente por causa de sua esperança, você continua respirando apesar de tudo isso. Mesmo que arda, mesmo que doa. Você vai continuar, porque é tudo o que pode fazer, e vai suportar isso, porque é tudo o que você faz.

Quebrar as pessoas não tem mais graça. Mas as pessoas quebram muito facilmente, como brinquedos frágeis, você já sabia disso, e continua quebrando-as sem querer. E você quer parar. Mas não sabe como e não consegue.

Por que as pessoas não acreditam que você está quebrada. E, pouco a pouco (de riso em riso), você vai quebrando cada vez mais. Sua fúria vai aumentando. “Eu preparei cuidadosamente a minha explosão”, escreve na borda do caderno. Até que explode e quebra pessoas nisso também.

Isso só as faz te odiarem mais e mais até que a palavra “perdão” não tenha mais sentido. Você não sabe perdoar, e as pessoas não percebem que você quebra como todo mundo, que você quebrou como um brinquedo perigoso nas mãos de uma criança cruel.

E você percebe agora que não deveria ter sido aquela criança tantas vezes, porque você também é má. Você também é cruel. Você quebra as pessoas muito facilmente. Não deveria ser capaz de fazer isso.

Mas você continua esperando. E, um dia, você deseja ser capaz de encontrar aquela pessoa. E você sabe que existem pessoas que não precisam de outras para se consertar, porém não acha que seja uma delas, e apenas continua a respirar um dia por vez.

Você só precisa continuar esperando.

Afinal, o que há a se perder?

De qualquer forma, você está quebrada.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!