Consequências

2 Um encontro suicida


Os olhos felizes de Taila se transformaram em duas piscinas cheias de água, ela não conseguia controlar aquelas lágrimas que teimavam em escorrer pelo seu rosto. Um ódio já conhecido começou a tomar conta de seu coração. Olhava fixo para o pai, sorriu mostrando sua indignação, tentando de alguma forma incomodá-lo.

–Você disse que passado era passado e vocês vinham morar comigo. Por isso você ia me trazer pra cá.

–Taila, você não entendeu até hoje, não é? Eu não tenho tempo pra perder com seus problemas emocionais. O senhor Kim e eu chegamos a essa conclusão porque se você é amiga do Kim Tan, você pode parar de ter esses seus surtos se estiver aqui com ele...

–Eu te odeio! — ela chutou uma de suas malas, o barulho foi tão alto que alguns seguranças correram para ver o que era. — Você sempre foi assim. Não sei porque eu ainda perco meu tempo...

–Você é uma mocinha muito mal educada — começou o pai de Kim Tan olhando para longe, irritado com a reação da menina — tratar seu pai dessa forma prova que você não está pronta pra estar à frente dos negócios.

–Se o senhor soubesse a metade das coisas que ele já fez, nem iria ter coragem de olhar na cara dele.

Ela não pode conter o ódio que sentia, seus olhos a denunciava. Foi em direção a suas malas, ergueu a que estava caída no chão e começou a arrastá-las com dificuldade. Kim Tan foi ajudá-la, mas o pai dela mandou com que o segurança o segurasse, ele embora estivesse calado, estava nervoso também. Seu pai apenas avisou com a voz firme:

–Fique aqui e eu prometo que você vai ter uma vida muito feliz e calma, mas se você passar por aquela porta, eu não vou mais responder pelos meus atos.

–É incrível como você nem sequer disfarça... ah é, isso é o mínimo que você tem a esconder...

–Taila!

Ele nem sequer moveu-se ou mandou alguém pará-la. Mandou com que soltassem Kim Tan. Ele preparou para ir atrás dela, quando seu pai começou:

–Se você for atrás dela, eu esqueço a permissão que te dei para namorar a Chan Eun Sang.

Ele congelou no mesmo instante. Ele não sabia o que fazer e não podia nem sequer pensar em colocar a namorada em perigo novamente. Ela entrou em seu carro e mandou com que o motorista guardasse as malas no porta-malas.

Chegaram ao hotel mais luxuoso de Seul. Pela primeira vez naquele dia, ela não estava feliz por ter viajado para ali. Sentiu como se seu passado pudesse estar voltando à tona, mas ela ia fugir o máximo possível daquilo. Seu passado era doloroso.

Jogou-se sobre a cama do hotel e o motivo pelo qual não conseguiria morar com Kim Tan era muito forte para ela e doía em seu coração.

Seu celular vibrou. Levantou-se imediatamente e pegou-o sobre o criado-mudo. Conferiu de quem era a chamada e ficou indignada. Ele estava a ligando provavelmente para saber aonde ela estava. Resolveu atender.

–O que você pensa que está fazendo sua irresponsável?! — ele começou a gritar em português, sua língua nativa. — Quer que o senhor Kim se recuse a assinar comigo? Você não gostava tanto do Kim Tan, por que não quer ir morar com ele?

–Isso não diz respeito a você.

–Aonde você está?! Vamos resolver isso do jeito certo— ela se assustou pelo grito que ele deu.

–Eu não quero resolver isso, por favor, me deixa pensar um pouco.

–Não, fique aonde você está.

Ela não queria ter aquela conversa com ele. Taila sempre teve surtos de raiva que a fazia dizer coisas que deveria manter em segredo. Não queria brigar de verdade com ele, sua raiva momentânea estava passando e tudo o que queria fazer era fugir daquela situação. Daquele mundo onde só haviam pessoas grandes e importantes. Teve a ideia brilhante de esconder suas malas debaixo da cama, ficar com apenas sua bolsa e seus cartões de crédito e um pouco de dinheiro.

Passou pelo saguão, elegantemente e tentou se disfarçar quando passou pela entrada. Várias pessoas estavam entrando e saindo do hotel, pensou que dessa forma seu segurança não a notaria, mas era tarde demais. Ele já havia sido avisado para mantê-la no hotel e assim que a viu começou a persegui-la, mas ela não queria ser pega. Não queria ter aquela conversa de novo. Ela corria pela calçada com pressa, por pouco não deixou sua bolsa cair no chão.

Sua adrenalina aumentou tanto que ela correu de uma forma que nunca havia antes corrido. Ele estava há uns três metros de distância dela, quando ela parou na frente a faixa de pedestres. O sinal estava quase abrindo e se ela conseguisse atravessar a tempo, ele nunca a alcançaria, mas se ela não chegasse a tempo, provavelmente morreria atropelada.

Sem pensar direito ela correu. Eram apenas cinco segundos para uma distância de oito metros, correu o mais rápido que pode. Mas como previsto o contador chegou ao zero, ela pensou em nada, simplesmente parou no meio da rua. Como se aqueles fossem seus últimos minutos. Ela estava preparada para ser atropelada ali mesmo. Não seria a primeira vez.

Uma moto em alta velocidade veio em sua direção, foi tão rápido que nem teve tempo de fechar os olhos, ele se aproximou cada vez mais. Ela já pode sentir seu coração batendo rápido. Ao perceber a moça à sua frente, apertou o freio de uma vez. A moto derrapou e ele quase caiu dela, mas para a sua sorte conseguiu manter o equilíbrio da moto. Ela olhou no fundo dos olhos dele assustada, não sabia quem ele era, mas teve a ideia brilhante de correr em direção a ele e subir em sua moto. Ele também estava assustado, nem sequer pensou, apenas ligou novamente a moto, acelerou-a novamente e seguiram o caminho que ele sabia melhor.

Ela passou os braços em volta da cintura dele para se segurar. Não sabia se deveria ou não fazer aquilo, mas estava apertando seus olhos. Lembrava-se da primeira vez que havia sido atropelada, aquilo havia sido traumatizante.

Ela não sabia quem era aquele homem e o que ele poderia fazer com ela, mas também sequer conseguia pensar nisso. Ele havia salvado sua vida.

–Você está bem? — perguntou o homem de repente.

–O quê?

–Você está bem?

–Sim.

–Você não devia fazer isso. Será que você não percebeu que eu podia ter te matado?

Ela abaixou sua cabeça e começou a chorar no mesmo instante. Ele estava a lembrando do que já havia acontecido no passado.

–Me desculpe, eu...

Ele preocupou-se. Detestava garotas chorando perto dele e não queria ser um motivo para isso. Parou a moto imediatamente, em uma vaga que encontrou perto de uma loja. Ela desceu da moto e sentou-se na calçada. Só naquele instante percebeu que estava tremendo.

O homem retirou o capacete e puxou-a pelo braço, ela teve dificuldade para ficar de pé. Assim que olhou em seu rosto com calma, ela pode reconhecê-lo.

–Choi Young Do!

Ela passou a mão em volta da cintura dele e abraçou-o aliviada. Ele puxou-a desfazendo o abraço repentino. E puxou-a pelo braço para um restaurante ao lado da loja. Ela sentou-se, ainda em choque. Entrou no estabelecimento e comprou uma garrafa d’água para ela.

–Pega! — ela pegou, abriu-a com dificuldade e bebeu um pouco. Já estava conseguindo voltar ao seu estado normal. — Quem era aquele que estava te perseguindo?

–Meu segurança.

–Seu segurança? Por que você estava fugindo dele?

–Porque eu não quero morrer.

–Hã? Por que ele faria isso?

–Você não entenderia.

Ele respirou fundo. Sabia que iria se meter em grandes problemas se mantivesse contato com ela.

–Eu estou começando a ficar curioso.

–Se eu fosse você nem ia querer saber o que é isso. Apesar que de que certa forma as coisas que acontecem também são culpa minha.

Ela já estava bem mais calma e já conseguia fitá-lo e manter um contato visual:

–Choi Young Do, você me ajudaria se eu fizesse um trato com você?

–Que tipo de trato?

–Me deixa ficar morando com você na sua casa, até eu resolver alguns problemas que eu tenho com o meu pai. E em troca disso, eu faço o que você quiser que eu faça.

–Sério?

–Sim. Por favor.

Ele ajeitou-se na cadeira, encostando a mão no queixo e avaliando a proposta. Ele estava morando sozinho, então não teria problema algum em deixá-la ficar. Mas algo o intrigava e ele queria tirar isso a limpo.

–Você tem certeza? Você tem tanto ódio assim do seu pai que prefere morar com um estranho?

Ela sorriu e escondeu o olhar, que não estava tão feliz quanto o sorriso.

–Mesmo sendo um maluco, eu queria morar com ele. Mas eu não quero morar com o Kim Tan. Não quero voltar a gostar dele, quero que ele seja feliz com a Chan Eun Sang.

Ele ficou sério e desviou o olhar do nada. Lembrar-se dela sempre mexia com ele, afinal, mesmo que estivesse tentando, ele ainda não a havia esquecido.

–Eu aceito!

–Quê?

–Você não ouviu? Eu aceito a sua proposta. Vamos!

Eles chegaram à casa dele. Ela era enorme e confortável. Ela não esperava menos do filho do dono de um hotel de luxo. Choi Young Do havia se mudado de sua casa antiga. Não queria lembrar-se do passado e sempre ia ao presídio visitar seu pai. O relacionamento deles estava melhorando, mas ainda não havia se estabilizado. O pai mesmo na cadeia, ainda era duro com o filho.

A primeira coisa que ela fez, ao chegar, foi olhar a decoração da casa, que era luxuosa e neutra. Ela ficou encantada com a forma em que eles usaram as cores. Foram em direção ao quarto de hóspedes.

–Está aí o seu quarto! Pode ficar aqui o quanto você quiser.

–Obrigada. Espera, você mora sozinho aqui?

–Moro. Por quê?

–Não é nada — ela entrou no quarto e jogou-se na cama. Ele permaneceu lá, um pouco curioso.

–E as suas malas, você vai mesmo ficar por aqui sem roupa?

–Claro que não! — gritou ela, espontaneamente. — Eu vou ter que ir pegar lá. Elas ficaram debaixo da minha cama no hotel.

–Que hotel?

–Eu não me lembro bem o nome. Espera! Acho que era o hotel Zeus, você é o herdeiro dele, não é?

–Espere aí. Eu vou lá buscar.

–Choi Young Do! Você vai mesmo fazer isso?

–Vou, por quê? Você não quer?

–Quero sim — ela pegou um cartão no bolso do seu uniforme. — Esse é o meu cartão.

Ele puxou com um pouco de violência, mas nada que a assustasse. E disse desviando o olhar, ela sentiu que ele estava nervoso com aquela situação.

–Eu volto já, só tente não se machucar de novo.

Taila paralisou no mesmo instante. Lembrou-se de um grande momento em sua vida. Choi Young Do saiu do quarto em seguida pisando firme como se aquelas palavras tivessem sido da boca para fora.

Ela permaneceu parada e no fundo, um devaneio surgiu em sua mente. Sentiu novamente a brisa gelada vinda do mar, ela estava novamente jogada sobre a areia da praia, sentiu novamente aquela sensação. Suas pernas estavam machucadas e sangrando, não somente suas pernas, mas também seus braços e havia machucados em seu rosto. Ela ainda sentia o gosto do sangue em sua boca. Aquele forte abraço repentino que a sufocou, muito mais de uma dor interna do que dos machucados que possuía.

–Você está bem? — foi o que ele havia dito a ela no momento em que a abraçou.

–Kim Tan — sua voz estava engasgada. Ela havia chorado muito antes de chegar a aquele lugar.

–Taila me prometa que você nunca mais vai fazer isso. Me prometa que você nunca mais vai se machucar de novo.

Ela chacoalhou a cabeça e deu leves tapas no rosto. Estava na hora de acordar e esquecer o passado. Tudo o que queria era que aquele passado não se repetisse e evitá-lo, seria uma forma de impedir de todos aqueles assuntos fossem levantados novamente.

Notas finais
Bom gente, espero que vocês tenham gostado do novo capitulo. Ele está bem emocionante, não é? Quem será essa garota e de onde ela veio, por que ela quer evitar tanto seu passado? Bom, espero mesmo que vocês tenham gostado e comentem o que acharam e nos vemos no capitulo 3 :D.