Consequências
8 O escravo do escravo
Ela nunca havia ficado tão encurralada em toda a sua vida. Eles fitava-a fixamente como se apenas com o olhar ele estivesse mantendo-a ali, como se ela não tivesse para onde fugir. Ela acabou cortando a sua mão com um dos cacos de vidro enquanto tentava pegá-lo sem olhar para baixo. E mesmo com o sangue escorrendo ferozmente pela sua mão, seus olhares não se desviavam. Era como se houvesse um imã que fazia com que eles olhassem fixamente um para o outro.
–Você não vai me dizer?
–Por que você quer saber? — ela ficou séria na mesma hora. — Eu não disse para você esquecer essa história? Eu não pedi para você me tratar como uma estranha? — ela gritava desesperadamente, buscando na mente uma saída para aquela situação. Sua mão continuava escorrendo sangue.
–Eu não consigo mais ignorar essa história — o olhar dele era sério e ele estava convicto do que dizia. — Seu pai é mesmo mal? Por que você está fugindo dele? O que são esses testes? Por que você passa por eles se são perigosos? E por último, por que eu não posso saber quem você é de verdade?
–Porque se você souber quem sou eu, você vai ter que lidar com as consequências.
O olhar dela era tão sério quanto o dele. Eles encaravam-se fixamente como se pudessem avançar um no outro a qualquer instante. Mas algo além do olhar dela chamou a atenção dele, a mão dela estava sangrando muito mais do que o normal de um simples corte com vidro. No chão já havia uma grande poça de sangue. Ela parecia não se importar com o corte, parecia nem sequer estar sentido dor alguma.
Ele sentiu no dever de se levantar e apenas ignorar a situação, mas percebeu que ela continuava parada no mesmo lugar olhando para a mesma direção. Taila estava pensando em como lidar com a situação, se estava pronta para dizer a ele a verdade. Se deveria transformá-lo em alguém próximo e não um estranho, como insistia em categorizá-lo.
A mão dela foi envolvida de repente por um pano trazido por Choi Young Do. Que estava focado somente em parar o sangramento. Ele olhava somente para a mão dela e ter sucesso no que estava fazendo. Ela ainda estava com o olhar distante. Mas passou a admirar aquela figura atenciosa dele, ele nunca havia agido daquela forma.
–Choi Young Do... você quer que eu vá embora?
Ele fingiu não ouvir a pergunta. Continuava apertando firme até que o sangue começou a diminuir aos poucos.
–Como você conseguiu se cortar tão fundo?
–Eu não sei — ela tocou levemente sobre as mãos dele como um aviso para que ele parasse imediatamente. — Não se preocupe, eu cuido disso.
–Só fique quieta! — ele ajudou-a a se levantar e praticamente puxou-a em direção a pia para lavar o ferimento.
–Choi Young Do você não precisa fazer isso —Ela estava ficando sem graça com a reação dele. A única coisa que passava na sua mente era que ele estava agindo daquela forma para que ela enfraquecesse e contasse a verdade. Ela já havia passado por um teste parecido e estava pronta para não amolecer. — Eu já estou bem.
Ele insistia. Pegou a caixa de primeiro-socorros e começou ele mesmo a fazer o curativo. A expressão dele era séria. Ele estava bastante concentrado no que estava fazendo. Ele nunca havia se preocupado com o ferimento de alguém antes, a única pessoa que havia o feito agir daquela forma foi Chan Eun Sang. Choi Young Do não entendia, mas percebia que ele estava diferente desde que havia perdido seu primeiro amor.
–Você está mesmo focado em cuidar desse machucado. Você não vai olhar a sua redação, eu tive tanto trabalho pra escrever. Eu nem sabia de que assunto vocês estavam falando. Além de ser uma série a mais que a minha, eu ainda tenho problemas com o alfabeto de vocês...
–À partir de hoje... — começou ele de repente, interrompendo-a. — Nós não seremos mais desconhecidos.
–Hã?! — ela realmente não esperava por aquelas palavras. Por mais que tentasse mudar de assunto, não estava conseguindo. — Choi Young Do, você está bem? Ah, francamente, parece que eu estou conversando sozinha.
–Eu quero fazer um novo trato com você. Um trato muito interessante — ele enfatizou.
–Que trato? Espera, então você vai cancelar o primeiro...?
–Claro que não. Eu não sou idiota também. Mas eu também não quero viver com uma desconhecida. Isso pode ser perigoso. Então eu pensei, para cada boa ação que eu fizer a você e for bem reconhecida, como recompensa você me responde a uma pergunta, independente da pergunta que for.
–Quem disse que eu quero aceitar esse tipo de coisa? Eu nunca disse que queria ser sua amiga — ela tentou fugir, mas a mão dele foi mais forte agarrando seu braço e puxando-a para si. O movimento acabou deixando-a a míseros centímetros de distância dele. O rosto dele estava bem próximo do dela, ela sentia-se desconfortável com a situação porque seu coração se acelerou na mesma hora.
–Você me quer como seu amigo ou como seu inimigo?
Ela nem sequer conseguiu pensar na pergunta dele, aquela situação estava fora de controle. Sabia que tinha que conseguir mais distância para refletir sobre a situação.
–Você é completamente maluco mesmo! — arriscou. E aproximando mais ainda o seu rosto do dele, disse convicta: — Já que é isso que você quer. Eu vou responder a todas as suas perguntas sempre que eu achar que você merece.
Ela empurrou-o para trás, fazendo-o se afastar. Seguiu seu caminho em direção ao seu quarto, com passos firmes. Havia perdido completamente o seu sono.
Choi Young Do percebeu que ao mesmo tempo em que ela demonstrava ser uma menina sensível e alegre, ela também poderia ser uma menina fria e estrategista. Aquilo o preocupava, pois ele não sabia o que esperar de Taila e a única coisa que se passava na sua mente, era a pergunta que ele faria a ela.
Taila passou a noite toda se contorcendo na cama, ela não sabia o que esperar de Choi Young Do. Ela nunca imaginava que ele pudesse ser tão esperto. Ele estava conseguindo persuadi-la exatamente como ele queria.
Ela levantou-se cedo, não havia conseguido dormir direito e estava incomodada com o fato de ele ter feito seu coração se acelerar daquela forma repentina. Ninguém além de Kim Tan havia conseguido isso. Ela não conseguia imaginar o porquê se ela não sentia nada por ele, somente raiva por ele ser intrometido. E quanto mais ela pensava nele, mais ficava irritada consigo mesma.
Resolveu descer usando um roupão roxo e grosso, ainda estava usando a camisa dele e não pretendia tirá-la, estava muito confortável.
Foi direto para a cozinha preparar o café da manhã dele, ainda estava murmurando irritada, por ser obrigada a fazer isso. Assim que chegou à cozinha, ela parou em frente a pia, e preparou-se para desfazer o curativo na sua mão. Ela sabia que teria problemas para fazer qualquer coisa com aquele corte na mão, mas ela deveria fazer o café da manhã se quisesse continuar morando ali.
–O que você está fazendo? — uma voz rouca vinha detrás dela. Nunca havia visto ninguém na casa àquela hora da manhã. Então ela acabou se assustando, mas sempre que se assustava, ela reagia dando um soco na direção da pessoa. E foi o que aconteceu, ela virou-se para trás para socar o desconhecido e acabou dando um soco no rosto de Choi Young Do. Ele abaixou o rosto espantado e depois levantou-o novamente com os olhos arregalados, estava tão assustado quanto irritado.
–Choi Young Do?! — ficou sem graça ao vê-lo com a mão na bochecha. O canto de seu lábio sangrando, pois havia se cortado com o anel dela. — O que você está fazendo acordado?
–Você é a mulher mais perigosa que eu já conheci na minha vida! — disse com a voz ríspida.
Ela ficou mais sem graça ainda, mas no fundo estava feliz pois toda a sua raiva havia ido embora após aquele soco.
–Você está bem?
–Estou — ele tocou seu lábio que estava ardendo, enquanto tentava afastá-la.
–Eu te machuquei, deixa eu cuidar disso... — ele se afastou novamente. Ela foi atrás de um remédio e uma gaze, na maleta de primeiros-socorros para poder limpar ferimento. Ela notou que o chão estava completamente limpo. Não havia uma macha sequer se sangue, ou vestígio algum de que uma jarra havia se quebrado ali.
Ela se aproximou dele, mas ele ainda insistia que não era preciso e fugia dela de propósito. Ela conseguiu se aproximar dele e empurrou-o para trás, fazendo-o se sentar em uma cadeira. Ele resolveu ficar quieto. Ficou intrigado por uma garota, pouco maior que Chan Eun Sang conseguir acertá-lo tantas vezes seguidas.
–Não foi nada demais, você é forte, vai sobreviver.
–Será que você não pode ser um pouco mais... sensível?
Ela sorriu para ele. Percebeu naquele momento que não conseguiria mais tratá-lo como um desconhecido. Ele havia se tornado uma pessoa importante para ela.
Ela pousou a sua mão sob o seu queixo e com uma voz doce e suave ela disse:
–Você quer um beijinho pra sarar seu dodói?
Ele arregalou seus olhos espantado. Nunca havia ouvido uma frase como aquela. Percebeu que Taila ainda era uma desconhecida para ele e que só agora ele estava conseguindo ver sua verdadeira personalidade.
–Quê?!
–O que é isso? — ela avistou que a mesa estava cheia de comida, como as mesas das novelas brasileiras que assistia bastante, antes de se mudar para o exterior. Havia arroz e diversas outras comidas que para o estômago dela eram pesadas. Mesmo na Coreia, ela ainda só tomava café e comia pão no café da manhã.
–Café da manhã. Eu achei que seria legal da minha parte já que você está com a mão machucada, mas acho que já ganhei o meu pagamento.
–Vocês comem tudo isso no café da manhã? E... você fez tudo isso? Quando?
–Eu não consegui dormir à noite. Estava pensando no que eu gostaria de te perguntar... — ela sentou-se à mesa. Por mais que soubesse que iria passar mal mais tarde, ela sentia-se no dever de comer pelo menos um pouco da comida.
–E eu passei a noite toda pensando se eu realmente iria te falar a verdade sobre tudo. Eu decidi que vou responder tudo abertamente, contanto que você faça o que eu mandar.
–Espera, você está pedindo para eu virar escravo da minha escrava?
–Interessante, não? — ela empurrou o hashi para o lado e pegou a colher para poder começar a comer um pouco de arroz. — Para cada ordem, uma resposta.
Ele apoiou a cabeça sobre as mãos e avaliou a proposta, ele mesmo havia proposto aquilo, mas não se imaginava sendo escravo dela. Queria apenas fazer coisas que viessem na sua mente.
–Eu vou aceitar a sua proposta. Estou muito curioso pelo que vou descobrir. Isso não anula o fato de você ainda ser a minha escrava.
–Eu sei, mas eu nunca tive um escravo antes. Acho que vai ser interessante — ela pousou a cabeça sobre suas mãos, imitando o mesmo tom de voz que Choi Young Do sempre usou ao dizer aquelas palavras. — E qual é a sua pergunta?
–Por que a Coreia?
–Hã?
–Tantos lugares no mundo para você estudar, por que você escolheu a Coreia se você não está aqui por causa do Kim Tan?
Ela pousou a colher ao lado da vasilha. Seu estômago já estava se embrulhando por comer arroz àquela hora da manhã. Respirou fundo e começou a se recordar do real motivo de estar ali.
–Na verdade, não fui eu quem escolhi a Coreia. Eu escolhi morar com o meu pai, nossa relação não é tão boa, mas eu realmente queria que a nossa relação se estabelecesse. Mas eu percebi que é impossível. Ele sempre vai querer decidir o futuro da minha vida. Eu só vou ser livre quando os testes acabarem.
–Interessante.
–Pensei que você iria me perguntar algo mais interessante.
–Eu tive uma ideia melhor. Eu já planejei todas as minhas perguntas essa noite, então você não precisa se preocupar com isso.
–Está bem! — murmurou desanimada, bebendo um pouco de suco. Por mais que estivesse demonstrando naturalidade, por dentro ela estava com medo de ele se envolver na história. Mas também, sentia que iria se divertir tendo um rapaz forte e bonito como seu escravo. Aquela era a primeira vez em que ela se sentia bem guardando o segredo sobre os testes de alguém. Percebeu que a Coreia era o melhor lugar no mundo para ela estar naquele momento.
–A nossa aula come...
Ele foi interrompido quando ouviu o barulho de alguém gritando o seu nome. A pessoa parecia estar desesperada. Eles ouviram a porta da frente batendo, a pessoa entrou atropelando tudo e encontrou-o na cozinha. Assim que o viu, parando para respirar da corrida que provavelmente teve, Choi Young Do se levantou da cadeira, preocupado. Taila fez o mesmo, ela estava assustada.
–O que você está fazendo aqui Kim Tan? — perguntou ele, demonstrando frieza, mas no fundo estava preocupado, não sabia o que poderia estar acontecendo.
–Choi Young Do o seu pai... — ele finalmente a viu e interrompeu sua frase de propósito para avaliar se não era uma miragem.
–O que tem o meu pai? — ele ficou desesperado e aproximou-se de Kim Tan com a respiração pesada.
–Ele teve um ataque cardíaco, ele está no hospital agora. Nós tentamos ligar para você a noite toda.
–Eu cancelei a linha de telefone e meu celular está descarregado — lembrou-se vagamente do seu erro. Aproximou-se de Kim Tan com os olhos encharcados de lágrimas e de desespero. — Como ele está? Ele está bem, não está? Ele está vivo, não é?
–Ele está... em coma.
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