Conselho Estudantil
14 Mentiras
Notas iniciais
Esse capítulo foi rapidinho de escrever. Eu estava bem animada com ele. É mais ou menos explicando como as coisas vão começar a dar errado.
TRILHA SONORA PARA O CAP: I'm not Yours - Angus and Julia Stone.
LINK: https://www.youtube.com/watch?v=hfAkr4F7p40
Boa leitura ♥~
Capítulo 14: MENTIRAS
As horas voavam. Sakura estava muito ocupada desarmando barracos, agindo como uma miss e botando moral para se preocupar com quem ela já se preocupava diariamente. Então não viu mais nenhum de seus amigos até a hora da despedida. Em parte aquilo também servia para Sasuke, já que Tsunade a mandara se afastar inclusive dele um pouco. Segundo ela, caso contrário, a impressão que teriam da Presidente não seria a de “mulher idependente” mas, sim, de “vai desabar assim que levar um fora, já que nem desgrudar do namorado, ela desgruda”.
Os convidados iam saindo, um a um, e quando parou para notar, Sakura percebeu que o ginásio estava praticamente vazio. Olhou o horário no celular e arregalou os olhos, convencida de que realmente já estava bem tarde. Tanto trabalho para poucas horas trabalhando ainda mais. Sakura suspirou.
Olhou em volta, meio preocupada, checando se Sasuke ainda estava por ali, e o moreno apareceu por trás dela, enlaçando sua cintura.
– Quem está tomando tanta atenção? – ele sussurrou em seu ouvido.
Sakura sorriu, já acostumada com os arrepios constantes que Sasuke provocava nela.
– Se quer saber, eu estava te procurando – admitiu, virando para ele.
O Uchiha pareceu surpreso.
– Bom sinal – constatou. Ela riu.
– Sasuke, eu estou sempre procurando você. É ridículo – Ele sorriu maliciosamente.
– Acho bom assim – Sakura revirou os olhos, ainda sorrindo – Isso é o ridículo. – E beijou sua testa. Voltou-se para a saída, onde estava praticamente todo o Conselho Estudantil reunido e arqueou o cenho. – Acho que já vão embora.
Sakura assentiu, pensativa.
– Eu não vi o Gaara a festa toda. Só quando chegamos. – Murmurou ela. Sasuke esperou, sem tirar os olhos do rosto rosado – Ele foi embora?
Sasuke balançou a cabeça, irritado.
– Não dou a mínima. – Sakura olhou para ele, surpresa com a reação.
– “Nossa” – ela ergueu as mãos, irônica – “como ele é simpático”.
Sasuke não teve tempo de achar graça:
– É só falar... – e Sakura olhou para onde ele olhava. Gaara sorria naturalmente, com Ino agarrada em seu braço esquerdo. Os dois riam, como se estivessem juntos há uma eternidade. Sakura Haruno, naquele instante, ficou completamente sem reação.
Dividida em várias partes, ela estava muito aliviada, como se finalmente estivesse em paz; preocupada; desconfiada e em pânico.
Ino estava com ele? Com ele? Com... Gaara?!
“Por Deus, Ino, o que você está fazendo?”, ela gritava em desespero. Mas uma voz sorrateira sinistra e miúda sussurrou: “Deixe de ser ciumenta, eles estão felizes juntos”. E Sakura não acreditou. “Ciumenta?”, rosnou de volta, “Ele vai quebrá-la em pedaços”. E tomou ar para gritar mais alto ainda, explodindo na mente: “Ele não presta!”
Sasuke voltou-se para ela, tirando-a de sua luta interna.
– Então eu te ligo mais tarde – disse ele, em tom baixo. Sakura automaticamente entendeu e assentiu, ainda meio perplexa. – Tsunade vai te levar para casa?
Ela assentiu novamente, ainda sem expressão. Sasuke uniu os lábios em um risco pensativo, enquanto olhava para alguma coisa no nada. Também estava preocupado.
Ino riu de algo que Gaara disse, como uma verdadeira idiota.
– Sasuke, o que ela está fazendo? – Sakura sussurrou, tão baixo que ela mal reconheceu a própria voz. Sasuke não respondeu, apenas erguendo o rosto dela e colocando os olhos verdes nos dele.
– Não importa mais. – Ela espremeu os lábios, descrente – Sakura, está ouvindo? Ele não vai mais existir. Acabou.
Ela assentiu, obrigada.
– Pode ir até lá comigo – implorou – falar ‘tchau’?
Ele se afastou, relutante. Estava louco para ir embora dali. Se possível, levar Sakura consigo. Mas ela o beijou, calmamente, com olhos chorosos. E ele não teve tanta escolha.
– Oh, Sakura – Tsunade sorriu assim que a viu – Meus parabéns, querida. Você foi incrível. Aliás, nossos parabéns. – O Conselho Estudantil a aplaudiu, dentro da noite. E ela escutou as palmas como um eco, enquanto algumas vozes ainda gritavam dentro de sua cabeça. Não estava muito bem.
Se sentia tonta, com vontade de vomitar.
– Obrigada – murmurou ela, com a mão na cabeça. Tsunade olhou em volta.
– Bem, vamos deixar os parabéns para amanhã. Alguém parece cansada, certo? – e riu. Todos foram se despedindo rapidamente.
Gaara e Ino estavam abraçados, os quadris colados, enquanto Gaara fazia algum tipo de brincadeira de mau gosto e, mesmo assim, Ino conseguia achar engraçado e levar como um elogio. Sakura soltou a mão de Sasuke depois que ele deu nela um beijo de boa noite. Ela não aguentava mais. Estava nojento.
– Ino, vamos? – ela quase gritou, a alguns metros dos dois.
A loira olhou para ela como se ela fosse louca.
– Hm?
Sakura ergueu as sobrancelhas.
– Pensei que você fosse dormir lá em casa. – Ino assentiu, sorrindo e depois olhou para Gaara. E começou a rir.
– Ele vai me levar.
E foi a primeira vez que Gaara olhou para os olhos verdes, com um ar extremamente superior:
– Algum problema, flor de cerejeira?
A raiva foi crescendo e tomando conta das veias de Sakura, como se acabasse de ser implantada por uma agulha.
– Ino, são quase quatro da manhã – Sakura rugiu, tentando evitá-lo.
– Calma, boneca – novamente, foi Gaara quem falou. E aquilo estava deixando Sakura envolta em ira. "O que você está fazendo? Agora vai começar a provocar as pessoas que eu amo e que não tem nada a ver com isso também?!" Gaara quase percebeu, quando ela finalmente olhou para ele. Estava prestes a avançar, usando as unhas feitas para cortá-lo em pedaços. E era incrível como os dois, ao olhar nos olhos um do outro, conseguiam apenas ver os próprios reflexos.
Gaara usava sua máscara novamente. E aquilo dava medo.
E ele não viu nada em Sakura além da raiva, quando ela o fitou. Aquilo também dava medo. Havia ódio, e apenas ódio.
– Ela está segura – ele garantiu, tentando amenizar a situação, embora ainda tivesse o sorriso superior nos lábios. Sakura olhou para Ino, de um jeito meio forçado.
– Tem certeza, Ino?
Ino sorriu.
– Caramba, Sakura. Viva um pouco – berrou ela – Você parece a minha mãe.
Sakura olhou fundo em seus olhos azuis, séria.
E, por fim, assentiu, usando energias para nada além de virar as costas e ir embora. Ino era sempre a mais rápida. Talvez por isso fosse tão imbecil.
♜
Gaara não dormia direito havia um tempo. Dois... três dias?
Seria generoso dizer que ele dormira quatro horas em dois dias. Ou seis em três. Não. Ele dormira, aproximadamente, quarenta minutos por dia.
No dia do baile, apenas o desespero o mantera aceso. E a chama crescera, em estratégias, queimando a teia simplória que criara.
Havia aula naquele dia e ele estava empolgado.
Passou perfume, sorriu para o espelho. E os lábios se contorceram em uma linha novamente, cansados. Os olhos verde-sujo que ele via eram exatamente como ele imaginara. Não significavam nada. Estavam ali para observar. Não para transmitir pensamentos.
Horas e minutos não pareciam tão diferentes na cabeça dele.
Mas, naquele dia, cada segundo era importante. E, quando ele entrou no colégio, ligou o cronômetro.
Levava dois segundos para dar cada passo.
Tanta precisão o assustou e, de repente, ele fez questão de variar. Três, um, dois segundos. E sorriu. Agora era diferente.
Uma, duas, três aulas. Três, quatro horas.
O sinal bate e ele se levanta. Anda até uma das salas do primeiro ano e espera, pacientemente, do lado de fora.
Antes que Sakura saísse, Gaara soube que era ela. O cheiro marcou sua pele e o deixou de olhos fechados, inspirando, como um maníaco.
Sakura saiu, coicidentemente olhando na direção em que ele estava. E, quando o viu, parou. Um garoto, que saia logo atrás dela, trombou em suas costas e reclamou, desviando e passando direto. Ela não se importou.
Ficou encarando o reflexo dos próprios olhos. Agora impuros.
– O que você está fazendo aqui?
– Você parece bem feliz em me ver – Sakura avançou sobre ele, com um tom mais forte.
– A Ino não foi para a minha casa ontem.
Gaara ergueu as mãos.
– Eu levei ela para a casa dela.
– Mentiroso – ela disparou, tentando empurrá-lo para trás, com as duas mãos. Mas ele segurou seus pulsos antes mesmo que ela pudesse se preparar para empurrá-lo novamente:
– Estou falando sério.
– Ela faltou aula. Ela não está aqui, Gaara. O que você fez? – Sua voz delicada agora arranhava.
– Ela perdeu o horário – Gaara modificou o tom. Agora soava mais agressivo, ofendido, como se não tivesse gostado de Sakura tê-lo julgado.
– Como você sabe disso? – Sakura era linda irritada.
– Ela me mandou uma mensagem, relaxe – Ele sorriu.
– Prove.
Gaara suspirou, revirando os olhos.
– Isso é mesmo necessário, for de...
– Na verdade, se você tivesse matado ela – Sakura interrompeu –, pegar o celular e mandar uma mensagem para o seu próprio número falando que “perdeu o horário” não ia ser muito trabalho, não é?
A expressão de Gaara se transformou em uma expressão furiosa:
– Eu não matei ninguém.
– Prove. – Ela repetiu, fora de si. Os dois se encararam, em um clima de ódio. Até o celular de Sakura tocar. Era Ino. A rosada, sem se importar, atendeu desesperada – Ino, pelo amor de Deus, onde você está? Não recebeu a droga das minhas mensagens?!
Ino parecia preocupada, mas o modo como Sakura a recebeu no telefone mudou seu humou automaticamente.
– Desculpe. Calma, Sakura, por Kimi-sama!
– “Calma”?! – A Presidente arregalou os olhos – Você some, não manda nenhum recado pra mostrar que está viva e me pede para ter calma? Vá para o inferno!
– Sakura, o que aconteceu com você? – Ino berrou – Está mesmo brava só por isso?!
– Você acha pouco?! – Os olhos verdes estavam incrédulos enquanto ela berrava no telefone – Olha aqui, da próxima vez que você estiver bêbada... não, aliás, sempre que você estiver bêbada, me esqueça.
– Sakura – mas Sakura a interrompeu.
– Eu não tenho cabeça, nem tempo, nem paciência para ficar me preocupando “a toa”. – E desligou, exausta. Fechou os olhos, colocou uma mão na testa.
Gaara a encarava, sorrindo.
– Puxa... Está viva, afinal – provocou ele. Sakura não se dignou a olhá-lo.
– Me deixe em paz – rebateu, fazendo o possível para desviar dele e sair do pátio.
Mas Gaara parou na frente dela, com o mesmo sorriso de antes.
– Espere, eu vim aqui falar com você.
Ela suspirou.
– Eu não tenho nada pra falar com você.
– Não sei por que você se importa tanto assim com a Ino – ele laçou os ombros dela com o braço, ignorando-a completamente.
– Gaara, me largue. – Sakura murmurou, cansada.
– Quer dizer, eu não ligaria muito para um cara que já transou com a minha namorada – ele deu de ombros, ignorando novamente.
– Você não está falando coisa com coisa – ela reclamou.
Gaara fez de surpreso.
– Mas claro que estou. Só mudei os sexos, levando em consideração a minha opção sexual – aquilo soava cômico. Mas nenhuma das piadas de Gaara tinha mais graça.
– Vá embora daqui. Eu não estou entendendo nada do que você está falando – Sakura deu um forte empurrão na mão dele, já irritada.
Era o momento.
Três, cinco segundos. Dois minutos, pouco tempo.
Sakura caminhava de costas para o Sabaku, próxima o suficiente para ouvi-lo. Estava perfeitamente encaichado. Perfeitamente armado.
– Só estou dizendo – Gaara fechou os olhos, sorrindo, com o queixo apontado para o céu, pronto para a vitória – que deve ser difícil para você aceitar o fato de que a Ino já dormiu com o Sasuke.
♜
(https://www.youtube.com/watch?v=hfAkr4F7p40)
A princípio, Sakura não entendeu.
Eram só palavras vazias, vagando, tentando formar uma frase e significar alguma coisa. E, quando se uniram, era como uma chave. Que expandiu seus pensamentos para uma outra dimensão. Algo extremo.
Realmente.
Sua estúpida.
Sasuke jamais seria só dela. De onde essa ideia imbecil surgira?
Ino e Sasuke. Sasuke e Ino.
Naquela tarde, deram falta da Presidente na reunião do Conselho Estudantil. E não foi mentira quando ela justificou que tinha vomitado algumas vezes.
Era horrível só de pensar.
“Qual é o problema de eles já terem dormido juntos? Bom, tecnicamente, nenhum. Todos têm um passado”, mas aquilo era racional demais para ela até ela encontrar um furo. Sua melhor amiga. E Sasuke Uchiha. Não tinham apenas ficado; tinham dormido juntos. Homem e mulher. E ela não sabia.
Talvez tivesse sido “antes de Sasuke tê-la conhecido”.
Mas quem disse que ele a amava?! E Ino nunca a contara. Aliás, quem garante que não foi noite passada, noite retrasada?
O furo.
“Por que você acha que a Ino brigou com a Karin daquele jeito?”, Gaara dissera, “Elas se odeiam por causa do Sasuke”. “As duas disputam quem foi a melhor. De quem ele gostou mais”.
O enjoo voltou. Uma mistura de cólica com tontura e nojo.
As palavras ainda estavam frescas na memória e ela tinha vontade de simplesmente dormir. Ter pesadelos era melhor do que encarar tudo aquilo.
Pela primeira vez em algum tempo, Sakura se sentia fraca.
Quatro chamadas perdidas – Sasuke Uchiha. 12:03
Por horas, tudo o que ela fez foi prender a respiração.
Doze chamadas perdidas – Sasuke Uchiha. 13:58
E soltar.
Trinta e seis chamadas perdidas – Sasuke Uchiha. 18:12
Quando o sono veio, ela não queria mais dormir. E não dormiu. Ficou imóvel, paralisada sobre a cama, imaginando que tudo era mentira. Que Sasuke estava ali, naquele instante, por cima dela, com os lábios colados nos seus.
Havia mais chamadas perdidas, mas ela apenas contava as que interessavam.
E, de repente, outro nome interessou.
Sete chamadas perdidas – Ino Porca. 19:47
O celular deslisou em seus dedos e vibrou em suas mãos. “Ino”.
– Sakura? – Ela não respondeu.
A mente estava em outro lugar.
– Sakura, o que aconteceu com você? Você foi embora antes das aulas acabarem, não foi? Passou mal? E, desculpe por não ter te avisado onde eu estava, eu só...
– Ino – os olhos de Sakura estavam estreitos, apontados para a lâmpada presa no teto. Acesa, clareando o ambiente escuro.
– Ufa, eu achava que você nem estava aí! Se duv...
– Ino.
– O que?
Sakura piscou, em silêncio.
– Você é virgem?
Ino arregalou os olhos, sem palavras. O coração falhou por um instante e, quase sem ar, soltou:
– Como você soube? – Uma pausa para tomar ar e ela gritou: – Eu ia te contar, ma–
Ainda encarando a lâmpada, Sakura encerrou a chamada.
E dispensou o celular por algum tempo.
108 novas notificações. 01:20
♜
Estava frio e Sakura Haruno tremia.
Escorregou as mãos para a cômoda e abriu uma gaveta, no silêncio. Sentiu o vazio soprar de lá de dentro e colocou a Bíblia em mãos.
Com os dedos ágeis, folheou até onde queria, até o que precisava.
Salmos... Salmos 70? Não. Hmmm... Salmos 73. Salmos 73:2-20.
Ela estava fraca e não havia o que fazer. Tinha vontade de se cobrir e nunca mais sair debaixo do edredom. Nunca mais. Não queria ir à escola. Não queria olhar nos olhos ônix que ela odiava amar. Não queria mais perdoá-la. Não queria mais ver Ino. Nunca mais. Queria que tudo explodisse.
Então, em desespero, leu em voz alta, entre soluços:
Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei.
Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a prosperidade desses ímpios.
Eles não passam por sofrimento e têm o corpo saudável e forte.
Estão livres dos fardos de todos; não são atingidos por doenças como os outros homens.
Por isso o orgulho lhes serve de colar, e se vestem de violência.
Do seu íntimo brota a maldade; da sua mente transbordam maquinações.
Eles zombam e falam com más intenções; em sua arrogância ameaçam com opressão.
Com a boca arrogam a si os céus, e com a língua se apossam da terra.
Por isso o seu povo se volta para eles e bebem suas palavras até saciar-se.
Eles dizem: “Como saberá Deus? Terá conhecimento o Altíssimo?”
Assim são os ímpios; sempre despreocupados, aumentam suas riquezas.
Certamente foi-me inútil manter puro o coração e lavar as mãos na inocência,
pois o dia inteiro sou afligido, e todas as manhãs sou castigado.
Se eu tivesse dito "falarei com eles", teria traído os teus filhos.
Quando tentei entender tudo isso, achei muito difícil para mim,
até que entrei no santuário de Deus, e então compreendi o destino dos ímpios.
Certamente os pões em terreno escorregadio e os fazes cair na ruína.
Como são destruídos de repente, completamente tomados de pavor!
São como um sonho que se vai quando a gente acorda; quando te levantares, Senhor, tu os farás desaparecer.
– Amém.
Notas finais
Até o próximo capítulo, lindões *-*
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