Capítulo 26: Número 207



Embora fosse bom ficar ali, Kakashi precisava sair. Ele saiu da cama, vestiu suas roupas e explicou: — Preciso resolver a questão da chave. O senhor Tanaka vai passar lá hoje e preciso recebê-lo.


Concordo com um aceno de cabeça, mas não digo nada. O que precisamos conversar não deve ser resolvido com uma conversa rápida, então é melhor não começar agora.


— Volto logo — ele diz e, antes de sair pela porta, para e olha para mim. — Fica?


Não é uma pergunta. Não é uma ordem. Posso ver que é um pedido.


— Fico — respondo e ele sai com um sorriso. Fico deitado, olhando para o teto, para o lençol amassado, e parece que ainda sinto o cheiro dele no travesseiro.



***



A porta do quarto do hotel se abre e ele entra. Cabelo úmido e roupa diferente. Deve ter passado em casa para trocar de roupa depois de resolver o problema da chave. Trouxe duas sacolas com comida, sentou comigo no sofá, mas não me incentivou a comer.


— Vamos conversar? — ele fala, e eu aceno com a cabeça, sabendo que essa conversa era necessária. Cruzo as pernas e olho para ele, esperando.


— Eu vou embora — ele começa. Sem rodeio. — Não será hoje ou amanhã. Mas, assim que meu trabalho pedir, terei que ir.


Estou com dor, mas dessa vez eu já esperava por essas palavras e consegui aceitá-las um pouco melhor. Não era fácil. Entretanto, eu não tinha escolha além de aceitar.


— Eu não quero ir embora — digo antes que a coragem suma. — Não quero largar a faculdade e os meus amigos. Essa é a minha vida, Kakashi.


Ele assente. Parecia esperar por isso.


— Mas eu também não quero... — engulo em seco — não quero me separar de você.


Eu sabia que isso era um pouco injusto com ele, mas ainda precisava dizer aquelas palavras ou iria me arrepender. Ele pareceu aceitar bem, acenando com a cabeça enquanto segurava a minha mão.


— Então a gente não se separa — ele diz, como se fosse simples. — Podemos manter um relacionamento à distância.


— Relacionamento à distância? — levanto a cabeça e o encaro, surpreso.


— Volto quando der. Você me espera quando puder. Sem promessa. Sem cobrança... É injusto com você e sei que merece coisa melhor...


— Escolho aceitar. Não importa se é injusto, é escolha minha — interrompo suas palavras. Ele segura meu rosto e sua testa encosta na minha.


— Você é um idiota.


— Sou seu idiota — corrijo.



***



Duas semanas se passaram e pode-se dizer que muita coisa aconteceu nessas semanas, ao menos me sinto assim quando se trata da minha vida.


— ... E aí simplesmente sumiu — Kiba fala, de boca cheia. — Sem aviso. Sem festa de despedida. O professor Hatake pediu demissão do nada. A diretora está puta.


Sakura me cutuca. — Você não sabe de nada mesmo, Naruto? Vocês dois eram próximos.


— Não — minto. — Não sei de nada.


Ino estreita os olhos. — Sei. Você está esquisito faz semanas.


Sorrio para ela, mas não digo nada. Eles são todos bons amigos, mas não quero estragar minha chance de ser feliz. Kakashi ainda não disse que posso revelar a nossa relação, então eu não o faria. Por enquanto, não.


O pessoal na mesa continuou a falar sobre outras coisas interessantes que aconteceram naquelas últimas semanas, e eu deixei de lado a conversa para ler a mensagem que havia acabado de chegar no meu celular. Era uma mensagem dele.



[Um trabalho apareceu. Tive que ir antes do planejado. Desculpa.

Deixei um presente para você.

Rua Nagarita, 207. A chave está no vaso verde da esquerda.]



207. Esse número não me era estranho, já que o número do quarto dele no dormitório dos professores também era esse, 207.


— Terra chamando Naruto — Kiba estala o dedo na minha frente. — Que foi? Quem é?


— Ninguém — guardo o celular, levanto, pego a bandeja e começo a sair da mesa. — Só spam.


Eu digo isso, mas há um sorriso em meu rosto. Agora que tínhamos um endereço, ao menos eu sabia onde poderia esperá-lo.