Capítulo 03: Não há nada sobre ele



Naquele dia, na biblioteca, engoli o meu orgulho e pedi ajuda aos meus amigos. A todos eles. Era uma questão de necessidade, afinal, se eu não conseguisse descobrir mais sobre o professor, nem sequer teria chances. Mas, o resultado...


— Ele é um fantasma! — Kiba joga um pacote de salgadinho na mesa. Estamos no meu quarto no dormitório e o assunto é o professor que passamos a semana investigando.


— Ele sumiu da escola por três dias e ninguém sabe o motivo. Aposto que é um espião — Kiba continuava a pensar em todas as explicações possíveis.


— Ou é um criminoso — disse Shikamaru do beliche de cima. — Que problemático — acrescentou meu colega de quarto, me deixando ainda mais desesperado.


— Eu só queria saber se ele tem namorada. Onde mora ou sei lá... se gosta de lámen — expliquei, sentado no chão e escorado na cama.


Após ouvir minhas "exigências", todos, que procuraram por uma semana e não encontraram nada, começaram a dar ideias...


Kiba: — Segue ele! Tenho experiência. Meus cachorros rastreiam cheiros a dois quilômetros. A gente espera ele sair da escola e segue ele!


— Ele mora na escola e não sai daqui com frequência — lembrei-o.


Ino: — Estou estudando sobre hipnose... Que tal eu entrar na mente dele, descobrir tudo e sair antes que ele perceba?!


— Isso é crime, Ino — Shikamaru fala lá de cima, dizendo o que eu queria dizer.


Sakura: — Pergunta para a senhora Tsunade. Ela é a diretora, então deve ter a ficha dele completa. Endereço, telefone, tipo sanguíneo...


— Já tentei — murmurei, desanimado. — Ela falou que as informações dos professores são confidenciais e me mandou correr cinquenta voltas na quadra — contei, vendo-a rir.


Shikamaru: — Tenta uma armadilha. Espalha na escola que você vai fazer um jantar e convidá-lo. Se ele aparecer, está interessado. Se não...


— Se não passo vergonha eterna — completei, olhando para cima, para o amigo desinteressado que estava falando besteiras. — Próximo — pedi com dor de cabeça.


Hinata: — Um presente anônimo? Deixa na sala dele. Se ele usar, significa que gostou... Certo?


Essa é a primeira ideia normal que apareceu. Sem surpresas, era da Hinata, que sempre tratava tudo com seriedade e definitivamente não faria brincadeiras ao tentar ajudar. Mas...


— Um presente pode funcionar, mas eu teria que escolher um e não sei do que ele gosta — disse, impotente, ouvindo o silêncio dos outros.


Bem, ainda era o problema de não conhecê-lo.


— Rouba a carteira dele! Deve ter identidade, endereço...


— Kiba! — todo mundo grita junto.


— É eficiente! — nosso amigo rebateu, enquanto eu olhava dele para Hinata. Somos todos amigos, mas a diferença de pensamento parece ser a de dois mundos diferentes.


Sakura: — Que tal você tentar seduzi-lo?


— Posso tentar seduzir alguém que eu nem sequer sei se gosta de homens? — devolvi a pergunta a ela.


Silêncio na sala.


Shikamaru senta no beliche e diz o que deve estar se passando na mente de todos: — Que problemático.



***



O Hatake Sensei entrou na sala exatamente às 14:00. Nem um minuto a mais, nem a menos. Larga o livro laranja na mesa e nem sequer dá um bom dia antes de iniciar a aula:


— Capítulo 3. Páginas 40 a 67. Quem leu?


Duas pessoas levantam a mão. Eu, obviamente, não sou uma delas.


Ele passa os cinquenta minutos falando sobre "a desconstrução do herói na literatura pós-guerra" com a mesma animação de quem está lendo bula de remédio. A voz é baixa, arrastada. Mas, quando ele faz uma pergunta, te encara com aquele olhar que parece que está lendo até a sua alma.


Foi uma aula difícil, ainda mais para mim, que estava com a cabeça cheia. Passei a aula inteira tentando pensar em um jeito de falar com ele. Um jeito casual. Normal. Tipo:


"Ei, professor, gostei da aula, vamos tomar um café?"


Não. Muito direto. Ele ia chamar a coordenação da escola e me repreender.


"Ei, professor, adorei seu comentário na minha redação. Vamos conversar sobre isso?"


Pior ainda. Lembrar daquela nota três não vai me ajudar, só vai lembrá-lo das minhas notas ruins.


"Professor, não consigo entender essa parte, pode me ajudar?"


— Essa parece normal — sussurrei para mim mesmo em aprovação.


Não que houvesse algo normal em mostrar interesse pelo professor, na tentativa de conseguir namorá-lo para vencer uma aposta com os amigos...


"Está tudo bem. No mundo de hoje, todos são loucos e ninguém é normal", confortei-me enquanto olhava para o relógio, vendo que o fim da aula estava se aproximando.


Já se passaram uma semana e meia; eu não podia demorar mais. Vamos tentar hoje!