Conistra
2 2
Corro o mais rápido que aguento e derrubo um deles. Enquanto o outro está distraído, Lianders aproveita para causar uma onda que arrasta os dois e me evita. Encontro um sorriso no seu rosto alterado pela magia.
Ele é uma fada, é claro. Deveria ter notado pelo tersol.
Ouço o atirador se levantando e me afasto. Com um movimento súbito, Lianders dá um rasante que quase estoura meus tímpanos e afoga os dois atiradores no buraco que fiz quando derrubei um deles.
Vejo Heitor, sob os conselhos de Yorr, dilacerar os inimigos restantes. Enquanto o Lípos nos declara vitoriosos, somos descidos pelos pedestais.
Como de costume, Heitor e eu celebramos, mas eu estaria morta se não fosse por Lianders e Yorr. Recebemos nossas cestas de comida, digo adeus aos três, talvez nunca mais os veja.
Agradeço Lianders e Yorr com um abraço em cada e Heitor está tão excitado que não quer descer de sua armadura.
Yorr se vira para mim e diz:
–Não foi a última vez que fui sua aliada. – com um singelo sorriso e nenhuma maldade no coração. Yorr é tão magra que mal consegue carregar sua cesta.
–Me dê, eu levo isso pra você. – ignoro as três vezes que ela diz que não preciso fazer isso e levo assim mesmo.
Se eu soubesse mais sobre o povo de Yorr e sobre como eles gostam de se manter longe de todos, talvez não tivesse me oferecido para carregar a cesta, mas o caminho parece mais curto conforme a conversa avança.
–O que quis dizer com “não foi a última vez que fui sua aliada”? – pergunto-a.
–Creio que me expressei mal, Talin. Não quero que seja a última vez, foi o que quis dizer. – ela explica – O futuro é claro, querida, você verá.
Não posso ver o futuro. Não consigo entender tudo que Yorr diz. Apesar de sábia, ela é enigmática também, aposto que Heitor teve alguns problemas.
–Posso perguntar o porquê de morar tão longe dos outros casebres? – tento dizer isto com a maior delicadeza do mundo para que ela não pense que estou carregando sua cesta com má vontade.
–Vou lhe responder com outra pergunta. Por que você não mora? – ela responde dando um sorriso simpático.
–É mais perto da Conistra.
–E do barulho das mortes. – ela completa – Meu povo sempre tentou excluir-se dos outros para conseguir concentrar-se.
Ela para de andar. Ouço-a suspirar e fungar.
Tudo que sei sobre o genocídio que cometeram com o povo dela é que nenhum deles reagiu além dela. Ela tentou impedir a destruição, mas os guardas a trancafiaram em um porão para que ela pudesse reconstruir sua linhagem.
–Novamente. Amanhã. – ela diz, toma a cesta da minha mão e segue o caminho sozinha.
O caminho de volta é mais longo sem ninguém para conversar, mas o destino é mais importante.
Heitor e eu dividimos uma casinha a três quilômetros da Conistra. A casa é repartida ao meio. De um lado, as loucuras mecânicas dele, do outro, algumas coisas que meus pais deixaram para mim.
Chegando, encontro a porta queimada, de novo.
–O que você fez? – grito, como se não soubesse a resposta.
–Mandy recebeu um golpe que arrancou parte da lataria, tive que ressoldar, mas acabei acertando a porta. – ele diz sem tirar o rosto da armadura.
Desde que a avó de Heitor morreu, as coisas têm piorado para nós. Uma parte da família dele é charistimena, o que quer dizer que, mesmo sendo pobre, ele conseguia sobressair-se. Vovó Mandy, que nomeou o corpo de metal que ele comanda nas batalhas, nos dava mantimentos escondidos e quando Heitor não conseguia resolver algum problema mecânico, ela mesma levava a armadura para algum maquinário da Cidade.
Passo direto pela zona de construção que ele chama de quarto e vou dormir.
“Novamente. Amanhã”
As palavras de Yorr ressoam em minha mente por horas até que eu consiga pegar no sono.
No raiar do Sol, Heitor me acorda dizendo que o Lípos está chamando nós dois.
Ele monta em Mandy e me dá uma carona no apoio que construiu para Yorr. E enquanto penso nela, vejo-a surgir na estrada, com um lindo vestido verde-claro que realça sua pele e olhos negros.
Fale com o autor