Confusão

1 A redenção de Otávio


Notas iniciais
Oláaaaaa Não sei muito o que dizer sobre essa one shot. Ela me cutucou a mente e deu nisso. Boa leitura ♥

Otávio acordou depois de meia hora de sono confuso com a luz do corredor. Ele ouviu o som dos copos na cozinha, as portas dos armários batendo. Revirou-se na cama e pensou no dia seguinte, visualizando na mente sonolenta os olhos da professora de Português quando ele entregasse o poema escrito no guardanapo da lanchonete do tio Gustavo. Ele tentou não deixá-lo engordurado, mas achava que a poesia impressa no papel descartável era bonita de se ver. Eu posso sonhar em qualquer lugar, dizia ela.

Ele não podia sonhar em qualquer lugar. Ele não podia sonhar na maioria dos lugares. As palavras geralmente apareciam no vidro embaçado do box do chuveiro, ou palpitavam em seus lábios na iminência do adormecer. Os sonhos nunca vinham quando lhe convinha.

Os zumbidos da cozinha o impediam de dormir; encontrou-se na dimensão entre inconsciência e realidade. Os passos no corredor, flip flop flip flop. Seriam os chinelos de borracha? Imaginou o grande monstro verde usando chinelos cor-de-rosa para ir buscar água na cozinha.

— Que porra é essa, Adriana?

Sobressaltou-se com a voz do pai, e voltou à consciência já tremendo com a antecipação. Respirou no escuro, respirou o escuro, envolveu-se no silêncio que se seguiu pela casa. Talvez tivesse sonhado com o grito. Um pesadelo breve e irreal. E a volta:

— Cê vai me dizer que eu tô louco? Não tá faltando nada nessa merda, né, Adriana? Olha pra mim! Eu volto pra casa depois de me fuder o dia inteiro naquele inferno que cê me arrumou pra ganhar uma cesta básica cheia de leite em pó encaroçado. O menino bebe veneno todo dia, cê tá me entendendo? Tá todo mundo morrendo nessa casa, e você, caralho, ainda me faz o favor de tirar a única coisa que não me faz enfiar meu pescoço numa corda pra você me encontrar tão branco, tão gelado, que você não ia tirar essa minha cara da tua cabeça pelo resto da vida. Eu ia pro túmulo, e cê ia junto, tá me entendendo? Cadê a porra da bebida, Adriana? Cadê essa merda?

Otávio afundou-se nos travesseiros e respirou até o ar ficar quente demais. Pensou nos poemas, nos poemas. Ignorou o chiado que, ele tinha certeza, vinha dos pulmões de sua mãe.

— Você tá bêbado. Vai tomar uma ducha, e depois dorme. Eu pego um copo d'água. — A voz dela tremeu, e o menino sabia que ela estava chorando. Ele chorou. — Ouviu? Vem.

— Porra nenhuma. Onde cê escondeu? Hein? Eu vou até o inferno pra achar essa merda. — agora ele estava berrando.

Otávio tirou as mãos suadas debaixo do lençol e tentou alcançar os óculos na cabeceira da cama. Tremia como o diabo, mas sentou-se na cama para conseguir apertar a quina da cama, esperando a pontada de dor. Acorde acorde acorde acorde. Os pés alcançaram o chão e ele se forçou a levantar. Pernas bambas. Medo.

Covarde.

— Eu joguei na privada. Todas as garrafas. Dei descarga.

O som de cadeiras arrastadas pela casa; um vidro se quebrando; o grito da mãe; o baque do corpo; silêncio. O menino tentou sair do lugar, mas as pernas tremiam tanto, ele temia tanto. Pareceu perder o ar por um segundo, um momento em que viu o começo e o fim de si mesmo enquanto inspirava e o oxigênio não vinha. Talvez não esquecesse o som que fez, este que saiu de seus lábios num sufoco logo após o silêncio mortífero da casa. Achou que ia morrer, mas viveu.

Ela estava chorando, podia ouvir, mas o pai permaneceu silencioso, o que aterrorizou o garoto. Tomou coragem, e saiu para o corredor. Seus pés não pareciam os chinelos rosas de um monstro verde. Era mais fop fop fop. Suor na madeira.

Não sabia o que encontraria na cozinha, mas tinha medo do que o pai poderia fazer.

Não era a primeira vez.

Não era a última.

Porém, ao entrar no cômodo revirado, encontrou apenas a mãe jogada ao lado da geladeira, chorando baixo. Ela olhou para o filho, expelindo dor.

— Ele te bateu?

A mãe o olhou, liquefeita, desfazendo-se.

— Ele me empurrou. Vou ficar bem.

Ela não pediu, mas ele fez mesmo assim. Saiu da cozinha, passou pela sala, abriu a porta da frente. Saiu na rua gelada, o mundo girando, o asfalto trêmulo sob seus olhos. Não foi difícil encontrar o pai. Ele estava no meio da rua, sentado no meio da rua, não parecendo perceber ou se importar com o risco de ser atropelado. Ao contrário do que achava Otávio, o pai carregava na mão direita uma garrafa de cerveja pela metade. Ele olhou para a aproximação do filho com horror.

O menino sentou ao lado do homem. O pai não fez nenhuma tentativa de tocá-lo, aliviando a ambos. Depois de minutos, notou que choravam.

O silêncio se estendeu pela rua deserta. Otávio, porém, sabia que os vizinhos ouviram a discussão e estavam a postos na fenda das cortinas para acompanharem de perto as próximas brigas. Ele respirou em meio às lágrimas e encarou o sapato do pai.

— Por que a gente não pode ser o suficiente pra você?

O pai soluçou longamente.

— Vocês são.

— Não acredito em você.

— Eu não queria ter machucado a tua mãe. Nunca quero. É que ela me deixou tão puto...

A garganta dele ardeu.

— Mas machuca. Todos os dias. — o pai não disse nada, o que o encorajou a continuar. — Eu sinto o cheiro de álcool e penso em você. Nossa família tá em pedaços e você não tá lá. — Pouco a pouco, Otávio sentiu a raiva mascarada pelo medo florir em seu peito. — A bebida acabou com a gente e acabou contigo, mas você não vê um palmo além do seu copo. Meus amigos me perguntam por onde você anda, e quero dizer que não sei. Quero não saber, porque me envergonha te achar no sofá da sala dormindo em cima do próprio vômito. Quero não saber, pai, porque você não é meu pai já faz um tempo, e tá acabando com a minha mãe também.

— Otávio…

— A mamãe é a melhor pessoa que qualquer um de nós dois algum dia vai conhecer. Ela é muito pra você. — O homem estava chorando intensamente, e o menino não tinha certeza de quando isso tinha começado. Estava completamente bêbado, talvez nem ao menos consciente. — Para. Para com isso.

A garrafa de cerveja caiu no asfalto e molhou o tecido do tênis do pai. Ele estava fora de controle. Apoiou a testa sobre os joelhos dobrados e chorou como criança.

— Pai, para, por favor. — O menino agarrou os ombros do pai.

— Eu tô doente.

O garoto ficou mudo. O pai voltou a falar, quase num sussurro:

— Não sei onde tá o meu dinheiro. Já procurei em todos os bolsos umas três vezes, e o Gustavo não quer me fazer uma garrafa de cerveja fiado, aquele desgraçado. Eu guardei umas duas… três garrafas de cachaça debaixo da pia da cozinha, e aí sua mãe jogou na… — Ele olhou para Otávio, expondo as pupilas dilatadas. Estava fora de si.

O choro se intensificou, e ele engasgou. Apoiou as mãos no chão molhado de cerveja, finalmente percebendo que a garrafa estava caída e o conteúdo, desperdiçado. Fechou os olhos e agarrou uma das mãos do filho enquanto sua respiração acelerava descontroladamente.

— Eu vou melhorar, eu vou melhorar, eu vou melhorar.

Jogou-se nos braços do outro, molhando as camisetas dos dois. Otávio engoliu o nó que se formou em sua garganta, e retribuiu o aperto. Uma gota acobreada de esperança e álcool rolou pelo asfalto. Eles respiraram.

— Adriana, meu pai não veio me visitar hoje.

O menino se afrouxou por inteiro. O pai estava vivendo um delírio. Perguntou-se se esteve consciente em algum momento.

— Vem, pai. Já tá tarde. — Levantaram-se.

— Me perdoa, Adriana.

— Ela vai te perdoar. É bizarro, mas ela vai.

Cambalearam.

— Como eu vou me perdoar?

Chegaram à soleira da porta, e Otávio sussurrou, sozinho:

— Você não vai.

Entrou na casa e a mãe correu para tomar seu rosto nas mãos e inspecionar seus olhos. Olhou para baixo, com lágrimas nos olhos.

— Onde você arranjou essa garrafa, Otávio? — Ela parecia horrorizada.

— O quê?

Ele notou que segurava a garrafa de cerveja. Viu as rugas da mãe, e as veias arroxeadas no pescoço dela.

— Essa garrafa é do papai.

A expressão dela caiu. Preocupação tornou-se melancolia.

— O seu pai vai acompanhar nossos medos pelo resto de nossas vidas, querido. Eu sei disso. Mas você tá deixando isso te consumir. É a terceira vez na semana que você tem o mesmo pesadelo. — Notou o olhar confuso do filho; abraçou-o. — Eu sinto isso também, filho.

Ele se desvencilhou do afeto materno, procurando o pai que estava enlaçado a ele há poucos minutos. E então, como nas duas vezes anteriores, lhe atingiu:

Tá todo mundo morrendo nessa casa, e você, caralho, ainda me faz o favor de tirar a única coisa que não me faz enfiar meu pescoço numa corda pra você me encontrar tão branco, tão gelado, que você não ia tirar essa minha cara da tua cabeça pelo resto da vida.

O pânico voltou.

Você não ia tirar essa minha cara da tua cabeça pelo resto da vida.

Eu ia pro túmulo, e cê ia junto, tá me entendendo?

Eles não perdoariam a si mesmos.

Notas finais
Será que tenho a capacidade de escrever alguma coisa que não seja extremamente dramática? Sexta, no Globo Repórter. Se você gostou, odiou, quer me matar ou quer um abraço, me conta nos comentários. Beijossss