Confronto
1 Confronto
Notas iniciais
Os primeiros raios de sol começavam a surgir no céu dando início a mais um amanhecer no platô. Na casa da árvore, Verônica foi a primeira acordar e deu início a sua nova rotina desde que voltara para perto dos amigos. Foi até a varanda e ali ficou observando a paisagem ao mesmo tempo em que esperava algum indicio de que Malone estava voltando para eles, para ela. Passado algum tempo, suspirou e voltou para dentro da casa, encarou por um tempo uma das pinturas que havia feito com o rosto do jornalista e depois se dirigiu até a cozinha para começar o café da manhã.
Roxton foi o segundo a se levantar, deu bom dia para a loira e então começou a ajudá-la a arrumar a mesa. Quando tudo já estava pronto, os dois se sentaram e começaram a conversar sobre o que precisava ser feito naquele dia, já que não tinha planos de sair de perto da casa da árvore. Enquanto comia Verônica notou que Roxton apenas bebia seu chá, sem tocar na comida, certamente, esperando para comer na companhia de uma certa morena.
Challenger acordou e passou rapidamente por eles, os cumprimentou, pegou uma xícara de chá e um pedaço de pão e saiu em direção ao seu laboratório falando consigo mesmo sobre os testes que queria fazer naquela manhã. Roxton e Verônica se entreolharam e riram, em seguida o caçador se levantou e caminhou em direção a cozinha para preparar o café da sua amada. A loira sorriu com a cena, se levantou, pegou um dos diários do Malone e foi para a varanda.
Algum tempo sem passou, até que Marguerite apareceu na sala com um pequeno sorriso no rosto devido ao delicioso aroma do café, ela se encaminhou até a mesa onde Roxton a serviu e os dois comeram juntos, não falavam muito, apenas trocavam olhares e sorrisos. Quando terminaram de comer os dois limparam a cozinha.
Da varanda Verônica observava os dois sorrindo, desde o encontro deles com a Morte o casal parecia mais próximo, as brigas ainda eram constantes, mas uma pequena mudança havia acontecido e ela estava feliz pelos amigos. Voltou sua atenção para o diário em sua mão até que um movimento entre as árvores chamou sua atenção. Foi até a grade e observou atentamente até reconhecer quem era, então revirou os olhos. Sempre que ele aparecia trazia junto com ele confusão.
— Tribuno está aqui. — Ela disse entrando na casa.
Marguerite e Roxton que riam de alguma coisa na cozinha se juntaram a loira e viram o homem lagarto se aproximar da cerca elétrica.
— O que você quer? — Foi Roxton quem perguntou.
— Me deixem subir que saberão. — Ele respondeu.
Todos se entreolharam incertos sobre o que fazer.
— Vão demorar? — Tribuno perguntou impaciente, olhando para trás como seu estivesse preocupado com algo.
— Espero que não esteja trazendo problemas para nós. — Verônica disse e então foi até o elevador e o mandou para baixo.
Challenger logo subiu as escadas e se juntou aos outros.
— Tribuno. — Roxton respondeu ao notar o olhar confuso do amigo.
— E o que ele quer?
— É o que queremos saber. — Marguerite respondeu.
Assim que a herdeira terminou de falar Tribuno entrou em seus campos de visão com um sorriso no rosto. Marguerite com os braços cruzados em frente ao peito deu um passo à frente.
— O que você quer agora Tribuno? — Perguntou.
— Isso é jeito de receber um amigo que você não vê há tanto tempo? — O visitante brincou, mas só o que recebeu foi um olhar frio da morena e o olhar curioso dos outros, então respirou fundo — Eu preciso de ajuda.
— Que novidade. — Marguerite disse se sentando no sofá — Com o que?
— É uma longa história. — O lagarto respondeu.
— Que bom que não temos planos para hoje. — Disse Roxton se sentando ao lado da morena.
Verônica e Challenger repetiram o movimento dos amigos e se sentaram nas cadeiras vazias. Tribuno então respirou fundo e começou a sua história.
— Tudo começou há um pouco mais de 10 anos, quando eu ainda servia ao antigo imperador, meu mentor. — Tribuno andava de um lado para o outro da sala sob o olhar atento dos outros quatro — Existe um povo chamado Yuanti, semelhante ao meu povo, também são o que vocês chamam de híbridos. Eles são fisicamente mais parecidos com humanos, mas tem em algumas partes do corpo escamas, seus dedos são mais alongados e seus olhos são amarelos, iguais os de uma cobra. Eles são menos nobres, menos evoluídos e mais fracos que a minha espécie. — Ele fez uma pausa antes de continuar — Os Yuanti e o meu povo são inimigos que durante muito tempo viveram em trégua, até que a trégua foi quebrada e os nossos povos entraram em conflito, pois os dois tinham o mesmo objetivo de dominar o platô. Durante o conflito, ouvimos uma lenda que sobre um cálice sagrado, diziam que quem bebesse do cálice possuiria o poder divino pois seria abençoado pelos deuses. Meu imperador ordenou que eu fosse em busca dele e assim o fiz. Consegui encontrar o cálice em uma caverna, protegido pelo povo Saurial. Em posse dele o imperador conseguiu colocar os Yuanti de volta em seu lugar e eles nunca mais ousaram sair da sua área do platô.
— Achei que você não acreditasse em magia e superstição. — Marguerite comentou se recordando de uma conversa que tivera com Tribuno quando se conheceram.
— Nunca disse que não acredito, apenas considero uma fraqueza. Para mim inteligência, estratégia e foco são muito mais eficientes. E de fato não acredito na história do cálice, mas meu mentor acreditava e os Yuanti também e eu acredito que as crenças são uma coisa poderosa, mais forte do que o poder que o objeto supostamente tem é o poder que damos a ele.
— Então, qual o problema? — Challenger questionou — Aparentemente tudo foi resolvido.
— Desde que o antigo imperador morreu e Centúria tomou o poder, os Yuanti começaram a ficar mais ousados, a ultrapassar os limites do seu exilio. Centúria durante o tempo que ocupou o cargo de imperatriz procurou pelo cálice sagrado e não o encontrou, isso porque meu imperador pediu que eu o escondesse depois que exilamos os Yuanti, ele dizia que o cálice nas mãos da pessoa errada poderia levar a destruição de todo o platô. Confesso que não concordei com sua escolha e o achei um fraco por querer esconder um objeto que ele considerava tão poderoso, mas naquela época ainda seguia suas ordens e assim o fiz. Centúria em seu momento de frustração por não o encontrar, comentou sobre o assunto com um dos guardas na presença de escravos. Esses mesmos escravos conseguiram fugir e essa informação chegou até os Yuanti, sabendo que o cálice não está no império eles decidiram acabar de vez com o seu exílio e estão a procura dele.
— E onde nós entramos nisso? — Roxton perguntou.
— Eu não sou bem-vindo no lugar onde o escondi e não confio em ninguém do meu povo para busca-lo para mim. Pensei que vocês poderiam me ajudar a pegá-lo. — Disse com um sorriso no rosto.
— E porque faríamos isso? — Marguerite questionou com o cenho franzido.
— Porque os Yuanti acreditam que se estiverem com o cálice eles poderão dominar o platô de uma vez por todas, por isso farão de tudo para tê-lo em mãos e juraram começar uma guerra se for preciso. Uma guerra que afetaria outros povos, não só o meu. Mas em posse do cálice posso exilá-los outra vez.
— E você está preocupado com outros povos? — Questionou Challenger incrédulo.
— Muitas vidas inocentes acabariam sendo levadas, comunidades seriam destruídas. Eles passarão por cima de todos para dominar o platô
— Não é o mesmo o que o seu povo deseja? Dominar o platô? — Verônica questionou e foi a vez de Tribuno revirar os olhos.
— Qual o sentindo de imperar um lugar onde só se tem destruição e caos? – Ele perguntou — Os Yuanti só querem acabar com tudo para que possam viver em um mundo onde eles são os únicos. O meu povo entende a utilidade de outros povos, queremos que eles nos sirvam e reconheçam a nossa superioridade e não que sejamos os únicos nesse platô.
Um silêncio se instaurou entre todos, os quatro exploradores se olhavam tentando decidir o que fariam.
—Porque eu sinto que você não está contado a história inteira? — Foi Marguerite quem quebrou o silêncio.
— Porque você, minha querida... — Tribuno respondeu se aproximando e encarando a morena nos olhos — é muito parecida comigo. — Marguerite sorriu por saber que estava certa, mas se incomodou com a comparação — Mas eu contei a parte importante, o resto são apenas detalhes.
— Se te ajudarmos, como podemos ter certeza de que não nos meterá em uma confusão como das outras vezes? — Verônica questionou.
— Provavelmente nos meteremos em uma confusão. — Ele respondeu — Mas te garanto que a confusão será muito maior se por algum motivo os Yuanti chegarem primeiro até o cálice. Então, vão me ajudar?
Os quatro exploradores acabaram optando por ajudar Tribuno, o lagarto então explicou que teriam mais chances de pegar o cálice nas primeiras horas da manhã, por isso apesar de o lugar ser relativamente perto da casa da árvore, teriam que acampar. Os quatro então prepararam suas coisas e após o almoço saíram com Tribuno.
Caminharam por algumas horas, até que o caminho que estavam seguindo fez com que Roxton, que seguia Tribuno, de repente parasse. Os outros que iam atrás do caçador imediatamente pararam também, já o homem lagarto deu mais alguns passos até que seus sentidos notaram a ausência de movimentos atrás dele, parou e se virou para o grupo.
— Aonde exatamente você escondeu o cálice? — Roxton questionou sentindo uma sensação estranha dentro dele, sabia muito onde chegariam se continuassem pelo caminho que estavam seguindo e era um lugar que ele nunca mais gostaria de voltar.
— John? — Marguerite o chamou ao notar a tensão no rosto do caçador.
— Se continuarmos seguindo por aqui, acabaremos... — ele interrompeu a frase ao sentir um arrepio percorrer sua espinha.
— No cemitério de dinossauros. — Verônica terminou por ele, estava distraída no caminho, mas agora que o amigo havia falado percebia que era exatamente a direção que estavam seguindo. Nesse momento, a herdeira de aproximou do caçador e segurou em seu braço, não sabia se para confortá-lo ou se para confortar a si mesma, se lembrava muito bem daquele dia e do medo de perdêlo.
— Então vocês já a conheceram? Oseena. — Tribuno questionou curioso.
— E não gostaríamos de revê-la. — Disse George.
— Mas vejo que estão todos bem, o que é um ótimo sinal, nunca soube de nenhum homem que a tenha encontrado e que ela tenha deixou sair vivo para contar a história.
— Você aparentemente é uma exceção. — Marguerite comentou.
— Eu e Oseena, isso foi antes. O que ela se tornou receio que seja minha culpa.
— Ele disse com um sorriso presunçoso no rosto.
— O que você não está nos contando Tribuno? — A morena questionou — Se vamos ajudar você, temos o direito de saber de tudo e da onde estamos nos metendo.
— Está bem! Eu contarei. — O lagarto respondeu revirando os olhos — Assim que chegarmos no local onde acamparemos.
Os quatro continuaram seguindo Tribuno por algum tempo até chegarem ao local desejado e então começaram a montar o acampamento. O local onde estavam era mais elevado e lá de cima podiam ver o cemitério. De novo aquela sensação esquisita tomou conta de Roxton, não havia gostado da experiência que tivera naquele lugar e só a proximidade com o local o deixava desconfortável.
Marguerite notando o semblante do moreno caminho até ele.
— Esse lugar me dá arrepios. — Ela comentou e Roxton concordou com a cabeça — Você está bem?
— Cuidado Marguerite, alguém pode achar que você se importa. — Ele disse com um sorriso no rosto, a herdeira sorriu de volta — Eu estou bem.
Os dois ficaram mais um tempo comtemplando o cemitério e depois se juntaram aos outros. Eles esticaram os seus sacos de dormir, organizaram suas armas e comeram o que haviam levado em suas mochilas. Depois todos se acomodaram para ouvir a história que Tribuno iria contar.
— Como contei a vocês, o cálice sagrado era protegido pelo povo Saurial, seres metade humanos metade dinossauros. O povo de Oseena. — Tribuno explicou — O Sauriais era um povo bondoso que acreditava no equilíbrio e harmonia das espécies, por isso o local é sagrado, ali ninguém poderia fazer mal a ninguém, se o fizessem teriam que enfrentar a pior das criaturas, teria que enfrentar a si mesmo. Eles que encontram o cálice e sabendo do poder que supostamente possui e com medo que caísse em mãos erradas o esconderam em uma caverna dentro dos limites do seu solo e o protegeram durante décadas.
— Até chegar você. — Challenger comentou e Tribuno se limitou a sorrir.
— Quando descobri que o povo Saurial estava com o cálice eu tentei me aproximar da forma que me pareceu mais fácil, conquistando a confiança deles. Em uma das minhas visitas conheci Oseena, ela se apaixonou por mim e aos poucos fui me tornando bem-vindo entre seu povo.
— Você enganou todos eles para chegar até o cálice? — Verônica questionou indignada.
— Eu fiz o que eu precisava fazer para atender as ordens do meu imperador. — O homem lagarto respondeu, entediado com a indignação da loira — Logo a minha presença se tornou natural para eles, assim consegui entrar na caverna e
pegar o cálice. Nunca mais voltei, mas Oseena veio atrás de mim tentar entender porque eu a tinha abandonado e descobriu que eu havia roubado o cálice, mas acho que estava tão decepcionada e com medo de a culparem por me trazer para dentro do povo dela que não falou nada para ninguém. Alguns dias depois, os Yuanti chegarem até os Sauriais exigindo o cálice, mas ao chegaram até a caverna não o encontraram, eles ficaram revoltados e atacaram o outro povo não deixando nada além de corpos. Oseena foi a única sobrevivente e o lugar sagrado se tornou um cemitério de um povo que foi destruído.
— Por sua causa um povo inteiro foi destruído. — Verônica disse com raiva.
— Foram os Yuanti que os mataram, eu só peguei o cálice. — Tribuno disse se defendendo.
— E o que aconteceu com Oseena? — Challenger questionou.
— Ela se culpa por tudo que aconteceu, foi ela quem me trouxe para dentro do seu povo. Então ela se condenou a viver nas terras mortas dos Sauriais e a ser a protetora da que um dia foi o seu lar. Com o coração partido e desiludida, ela passou a desacreditar nos homens e jurou matar todos que pisassem em suas terras. Porém, seu povo acreditava que não se devia machucar aos outros, seu povo buscava a harmonia, só puniam aqueles que fizessem mal aos outros por prazer. Então, quando um homem pisa no solo sagrado ela o engana para poder matá-lo, desse jeito ela pode fingir para si mesmo que está agindo de acordo com as leis e crenças do seu povo.
— O Malone conseguiu entrar sem problemas. — Disse Marguerite — Ele tem anotações do lugar em um dos seus diários, ele precisou entrar lá para fazer as anotações.
— Se ele esteve no cemitério nas primeiras horas do dia, então essa é razão.
Assim como o meu povo, os Sauriais não são tão fortes ao amanhecer.
— Como ela engana os homens que pisam ali? — Roxton questionou.
— Assim que o homem pisa no terreno ele começa a ouvir sons de algum dinossauro, passa a se sentir acuado e então o animal aparece vindo em sua direção preparado para atacar. O homem pode tentar fugir, mas é um jogo que não dá para ganhar, o dinossauro não vai deixa-lo sair, sua única chance é matálo. E é aí que Oseena aparece para dar a sua sentença. — Tribuno notou a mudança no olhar do caçador, como se de repente alguma coisa fizesse sentido — Foi você quem a encontrou? — O caçador apenas assentiu — Você deve ter realmente a surpreendido para ela ter te deixado sair vivo.
— Por isso, que você disse que fez de tudo para não o matar, que não teve escolha, e ainda assim ela falou que você matou uma vida inocente. Era tudo só uma desculpa para poder te punir. — Verônica falou lembrando que quase desacreditou das ações do amigo na ocasião.
— Puní-lo pelo que o Tribuno fez. — Foi Marguerite que disse encarando o lagarto.
— Nós estávamos em guerra, eu fiz o que foi preciso para defender o meu povo. — Tribuno disse se aproximando da morena — Vamos lá Marguerite. Você também me enganou e manipulou quando sequestrei você e fez o mesmo com Centúria para salvar a si mesma e aos seus companheiros. — Ele então levou a mão até o queijo dela — Eu e você, nós nos entendemos. — Ele disse e imediatamente tirou à mão do rosto da herdeira ao notar o olhar do caçador.
— Onde está o cálice e como vamos pegá-lo? — Marguerite perguntou ao perceber que todos os olhares estavam nela.
— Eu o enterrei no cemitério, embaixo de uma armação feita com presas de mamutes, o altar deles. — Ele disse e os outros pareceram surpresos — O monumento era importante para os Saurial, ali estão escritas as leis do seu povo.
— Você espera mesmo que a gente invada as terras de Oseena e mexa na área do monumento sagrado de seu povo? — Challenger perguntou.
— Se o fizermos nas primeiras horas da manhã ela não poderá fazer nada contra a gente. Além do que, se não o fizermos, os Yuanti o farão e começarão uma guerra no mundo perdido que você acha tão fantástico. — Tribuno respondeu.
Todos ficaram mais algum tempo encarando o cemitério lá embaixo e aos poucos um a um foram dormir. Marguerite deitou, mas o sono não veio, as palavras de Tribuno voltavam a toda hora na sua mente. A morena pensou sobre seu passado, sobre suas escolhas, sobre a guerra e o seu papel nela. Talvez Tribuno tivesse razão, talvez ela fosse mais parecida com o homem lagarto do que gostaria de acreditar. Seus pensamentos então foram para o caçador de coração nobre que dormia próximo a ela, ele merecia alguém muito melhor que ela. A herdeira se virou para encarar o moreno e notou que ele se movimentava muito em seu sono, com uma mistura de horror e repudio em seu semblante.
Preocupada, Marguerite se aproximou dele e tentou acordá-lo.
Acordou sem saber ao certo aonde estava, ao fundo conseguia ouvir a voz de uma mulher, mas não sabia quem era e nem sobre o que falava. Um vazio enorme tomava conta do seu ser, só o que sentia era a necessidade ódio e uma necessidade de caçar sua presa, de vê-lo sofre. Quando a voz sumiu consegui sentir sua presa sair correndo pela floresta, mas isso não era um problema. Rastejou pelo solo do platô, seguindo de longe a sua vítima que se juntou a outro homem a quem chamou de Challenger e os dois seguiram até uma casa na árvore. Ficou apenas observando sua presa, um homem a quem reconheceu ser a parte mais fraca de quem fora um dia. Depois que os dois sumiram de sua vista, sentiu seu corpo tomar forma, ao olhar para suas mãos e pernas podia perceber que ainda era apenas a sombra daquele homem.
Durante a noite preparou uma armadilha para sua presa, perfeita para o seu tamanho e peso, que conhecia de cor. Depois se acomodou a uma certa distância para assistir à queda daquele homem por quem sentia uma vontade incontrolável de ver morto. Porém, na manhã seguinte, foi uma mulher loira que caiu em sua armadilha, viu sua presa se aproximar junto ao mesmo homem do dia anterior e uma mulher de cabelos pretos para ajudar a que estava de ponta cabeça. Assistiu o grupo soltar a mulher, que chamavam de Verônica, e juntos voltarem para a casa da árvore. Os seguiu. Mataria a todos se fosse necessário, mas ainda ouviria aquele homem implorar pela morte. Pouco tempo depois notou sua presa acompanhado da morena na varanda da casa, se preparou para atirar e assim o fez, mas sua foi mais rápido e conseguiu se abaixar junto com a mulher. Nesse momento, sentiu seu corpo ganhar mais força, olhou para suas mãos e pernas e pode ver que já não era mais uma sombra, era um homem.
Agora a caçada ia começar.
Sabia que logo sua caça viria atrás, o conhecia bem o bastante para antecipar seus movimentos e decidiu preparar algumas armadilhas pelo caminho, acreditava que viria sozinho, porque tinha a necessidade de proteger a todos. Assim, estariam só os dois, sem ninguém para atrapalhar seus planos, iriam brincar de gato e rato. Esperou por ele em um local mais aberto da floresta, logo o seu eu mais fraco estaria ali, se fosse capaz de perceber as armadilhas pelo caminho. E foi o que aconteceu, notou uma movimentação atrás de alguns arbustos e começou a se aproximar, queria ver a feição no rosto de sua presa ao perceber que seu caçador era ele mesmo. Viu sua imagem sair de trás dos arbustos acompanhado por Verônica e apontar a arma, mas isso não o assustou, apenas ficou ali parado curioso para saber o seu próximo movimento, a presa então atirou no chão próximo a seu corpo. Sem pressa, levantou sua arma, podia ver a hesitação no seu outro eu, a insegurança e o choque, era exatamente isso que queria, que ele se sentisse fraco. Mas então notou que algo mudou no semblante da sua caça e o viu puxar o gatilho. Então correu a tempo de fugir da bala. Iria ter que pensar em outro plano, subestimou o seu outro eu e mais ainda subestimou a relação que tinha com o seu grupo, mas já tinha uma ideia do que fazer.
Subiu no elevador e entrou dentro do habitat natural da sua presa, caminhou por ali observando cada canto do lugar e ignorando os outros dois que estavam presentes. Sabia que os outros dois perceberiam para onde estava indo e voltariam para casa, dessa vez conseguiria arrastar ele sozinho para fora ou então acabaria com todos ali. Essa luta era deles, mas mataria quem fosse preciso para ver sua presa sangrando. Logo ouviu o barulho do elevador e se posicionou, pronto para atacá-lo. Uma luta então começou, a loira veio tentar impedi-lo e ele a jogou longe; depois foi a vez da morena e viu o seu outro eu imediatamente reagir para defendê-la; então Challenger tentou o segurar e ele o empurrou para longe, mas sua presa e a morena, que descobriu se chamar Marguerite, conseguiram o derrubar e o sua caça fugiu, ele então o seguiu. Agora seriam só os dois.
Já na floresta enfrentou a sua presa e levou um tiro no ombro, então se afastou. Precisava agir com racionalidade e não por impulso. Enquanto pensava com cautela no seu próximo passo, cuidava do seu ferimento. Foi quando um barulho o fez chegar a conclusão do que faria em seguida. Sua presa viria até ele no momento certo. Caminhou por um tempo e parou para ouvir o som que buscava, sentia seu outro eu por perto, mas ele não era seu foco no momento. Voltou a ouvir as vozes das duas mulheres e seguiu o caminho que sua audição indicava, não demorou para encontrá-las e assim que pode se colocou entre as duas e nocauteou Verônica, não precisaria dela. Ele encarou Marguerite por um tempo se lembrando da súplica de sua imagem, “Não! Não a Marguerite.”. Sim, ela era a isca perfeita. A levou até a sua presa, poderia tê-lo matado naquele instante, sabia pelo olhar dele que ele não correria o risco de machucar a morena, mas não seria tão divertido, então assim que se certificou de que sua caça viu que estava em posse de Marguerite, ele a levou para onde daria um fim em seu outro eu.
— Roxton? — Marguerite o chamou mais uma vez, começando a ficar preocupada com a falta de resposta do moreno.
Roxton abriu os olhos e sentiu o coração bater forte no peito, respirou fundo algumas vezes enquanto se sentava e olhava ao redor. Ele então olhou os olhos preocupados da morena e deu um pequeno sorriso tentando tranquilizá-la.
— Eu me lembrei... — Ele franziu o cenho, incerto se lembrar era a palavra correta — Eu vi os acontecimentos daquele dia, do dia que conhecemos Oseena, pelos olhos dele, do meu lado negro. O desejo de matar, a raiva, o ódio, eu olhava para vocês e só o que eu via eram presas. Eu... — Ele não terminou.
— Você viu tudo? — Marguerite perguntou tensa, esperando que sua voz não mostrasse o medo que estava sentindo, se lembrava de cada palavra que havia dito para o lado negro de Roxton e não sabia se queria que ele soubesse.
— Não, a última coisa que eu vi foi ele te levando para o cemitério.
— Você está bem John? Quer conversar sobre o que você viu e sentiu?
— Precisamos dormir, temos que acordar cedo para tentar resolver o problema em que Tribuno nos enfiou. — O caçador disse, ignorando as perguntas da herdeira.
— Você está fugindo. — Ela disse o provocando, ele sorriu e levou a mão direita até a bochecha da morena, a acariciando.
— Boa noite, Marguerite.
Marguerite sorriu e segurou com sua mão esquerda a mão de John que estava em seu rosto e trouxe até os seus lábios.
— Boa noite, Roxton. — A morena falou e deu um beijo no torso da mão do moreno e então voltou para o seu saco de dormir.
Tribuno e os quatro exploradores acordaram pouco antes dos primeiros raios de sol, comeram algumas frutas e guardaram suas coisas, se preparando para descer até cemitério. A descida foi rápida e feita em silêncio, assim que chegaram no começo do que um dia fora a terra dos Sauriais, Tribuno parou.
— Eu esperarei por vocês aqui. — Ele disse sorrindo.
— Nem pensar. — Verônica disse — Você vai com a gente.
— Eu só vou atrapalhar se for com vocês, se Oseena me ver, não vai nos deixar pegar o cálice.
— Quem escondeu o cálice foi você, esse problema é seu, nós estamos aqui apenas para te ajudar. Então, você vai. — Roxton disse, mas Tribuno parecia incerto.
— Você está com medo de confrontar Oseena? — Marguerite perguntou provocando o homem lagarto.
— Claro que não. Vamos. — Tribuno respondeu rapidamente e voltou a andar em direção ao monumento. Os outros trocaram sorrisos e então o seguiram.
Estavam a apenas alguns passos de distância do monumento quando Oseena apareceu dentro dele.
— Achei que tinha sido clara quando disse que não voltassem a pisar neste solo sagrado. — Oseena disse encarando Roxton e Marguerite, em seguida passou a olhar para o resto do grupo, dois deles ela não conhecia, mas o quinto fez com que ela sentisse o seu sangue ferver.
— Nós... — Marguerite começou, mas não conseguiu terminar.
— O que você faz aqui, lagarto? — Ela perguntou visivelmente irritada e começou a caminhar em direção ao homem lagarto, que instintivamente deu alguns passos para trás, deixando os exploradores na sua frente.
— Você costumava ser mais carinhosa comigo no passado. — Tribuno disse, mas se arrependeu imediatamente quando viu o rosto da Saurial estremecer de raiva.
— Como você tem coragem de voltar aqui depois de tudo? Como você tem coragem de pisar nas terras que você destruiu? — Ela questionou se aproximando ainda mais do grupo, era possível notar sua respiração mais intensa e seu olhar carregado de dor e raiva.
— Eu não destruí nada. — Tribuno disse se defendendo.
— Você roubou o cálice sagrado.
— Sim, mas quem destruiu o seu povo foram os Yuanti, eu não tive nada a ver com isso. — Eles notaram como ela cerrou os punhos, as unhas compridas quase atravessando a pele da mão.
— Fica quieto, Tribuno. — Marguerite disse percebendo que ele só estava piorando a situação.
— E vocês... — Oseena falou se dirigindo a Roxton e Marguerite — Como ousam trazê-lo até aqui? Talvez eu tenho errado ao te liberar da sua maldição. — Oseena falou acabando de vez com o espaço que existia entre ela e o grupo, Marguerite institivamente se colocou na frente de Roxton.
— Oseena, você tem todo o direito de não nos querer aqui, mas ao menos nos escute. — Verônica pediu.
— E quem são vocês? — A Saurial perguntou se referindo a loira e a Challenger.
— Eu sou o Challenger e essa é a Verônica. — O mais velho dos quatro exploradores disse tentando ser cordial — Somos amigos do Roxton e da Marguerite, não viemos para perturbá-la.
— Então, o que fazem aqui com esse lagarto?
— Acredite em mim quando digo que não estaríamos aqui ajudando ele se não fosse realmente importante para todos nós. Por favor, nos deixe ao menos explicar o que aconteceu. — Marguerite pediu.
Oseena assentiu com a cabeça e Marguerite com a ajuda de tribuno contou o que estava acontecendo com os Yuanti e sobre o cálice.
— E aonde você enterrou o cálice? — Oseena questionou.
— No monumento sagrado. — Tribuno respondeu em um sussurro, a mulher dinossauro pediu que ele repetisse mais alto e ele assim o fez.
— Como você pode? Você teve coragem de voltar a pisar aqui e enterrar o objeto que levou a destruição do meu povo embaixo do nosso altar, do lugar onde as nossas leis foram escritas? — Oseena estava a ponto de explodir.
— Depois de tudo, imaginei que seria o último lugar onde os Yuanti procurariam, eles e qualquer outra criatura. Por causa da sua maldição, este se tornou o esconderijo perfeito. — O homem lagarto disse tentou mostrar a lógica por trás da sua razão, mas isso só serviu para tirar ela mais ainda do sério.
Oseena avançou para cima de Tribuno, ela levou uma de suas mãos até o pescoço dele enquanto com a outra ela colocou sobre o coração, com as unhas prestes a atravessar a pele dele.
— Oseena. — Roxton a chamou — Em nosso último encontro você disse que me libertava da minha maldição porque percebeu que minha compaixão podia ser maior que as minhas paixões mais sombrias, porque a minha piedade te surpreendeu. Por isso estamos aqui, em respeito à vida de todos que habitam esse lugar.
— Todos nós poderemos ter problemas se os Yuanti começarem uma guerra. — Verônica disse.
— Essa poderá ser a destruição desse platô inteiro. — Challenger acrescentou — Será um povo contra povo, vida contra vida. Não deixe que o que aconteceu com o seu povo se repita com outros.
Oseena pensou por alguns minutos e então soltou Tribuno o empurrando para o chão, ele rapidamente se levantou meio constrangido e meio aliviado. Ela então se virou para encarar os exploradores.
— Oseena, sabemos o que ele fez com o seu povo e sentimos muito. Você tem todo o direito de odiá-lo e de querer matá-lo, eu sinto o mesmo na maior parte do tempo. — A herdeira falou e viu a mulher a sua frente relaxar um pouco — Mas isso é maior do que o Tribuno. É sobre todos nós, por favor deixe nos pegar o cálice.
— Engraçado, o seu jeito de falar, de se portar. — Oseena disse se aproximando da morena — É sedutor, convincente, nos faz acreditar. Conheci alguém assim. E tudo era mentira, um joga para conseguir o que queria. — Oseena disse e apontou para Tribuno.
— Eu sempre digo a ela que somos parecidos. — Tribuno disse sorrindo e as duas o encararam, ele então se calou imediatamente.
— Não estou tentando fazer jogos. — Marguerite disse — “Mas aqui, nesse lugar sagrado, há paz. Todos que entrarem devem respeitar a vida, e aqueles que não conseguirem controlar a besta interior, por ela serão consumidos”— A morena disse repetindo parte do que estava escrito no monumento.
— Você consegue ler. — Oseena disse surpresa com a habilidade da morena.
— Só o que queremos é pegar o cálice e então iremos embora. Isso não é sobre o Tribuno, é sobre os Yuanti e sobre todos nós que vivemos aqui nesse mundo perdido. Se nos ajudar, Tribuno poderá acabar com os Yuanti e exilá-los uma vez mais. Eu sei que as ações do Tribuno tiveram um impacto nisso, mas foram os Yuanti quem mataram o seu povo. — Marguerite disse — Só o que estamos pedindo é que você mostre o respeito pela vida que seu povo julgava de extrema importância. Mostre que você tem os mesmos atributos que exigiu do Roxton: compaixão e piedade. Não por Tribuno, mas por todos os habitantes e vidas inocentes do platô.
— Está bem. — Oseena disse.
Roxton e Challenger foram até o monumento e retiraram o cálice, a Saurial os observou desenterrar embaixo do altar do seu povo o objeto que trouxe a sua destruição. Pelo menos agora, o cálice que só trouxe desgraça para a sua vida estaria bem longe do solo sagrado do seu lar. Challenger pegou o cálice, que estava dentro de uma caixa, e guardou na mochila, depois junto com Roxton voltou para perto do grupo.
— Se eu descobrir que esse é só mais um dos seus jogos, mais uma das suas mentiras, você vai pagar caro e o seus amigos também. — Oseena disse encarando Tribuno e o viu estremecer — Agora saiam deste solo sagrado.
Oseena os assistiu desaparecer na floresta, suspirou torcendo para que tivesse feito a escolha certa dessa vez.
O caminho de volta para casa da árvore foi feito na maior parte em silêncio. Assim que chegaram na casa da árvore os exploradores guardaram suas coisas e trocaram suas roupas enquanto Verônica preparava o almoço. Foi só depois que já haviam almoçado e a mesa já havia sido limpa que Challenger tirou a caixa que havia desenterrado de sua mesa. Foi Marguerite quem abriu a caixa e soltou uma exclamação de surpresa e animação. Dentro da caixa havia um cálice de ouro incrustado com pedras preciosas de diferentes variedades. A morena tirou o cálice para fora da caixa, deixando à mostra para todos verem, e passou um tempo inspecionando a peça.
— Se tem algum poder divino eu não sei, mas eu entendo porque esse cálice é sagrado.
— Marguerite! — Verônica chamou a atenção da amiga.
— Só estou dizendo. — Marguerite respondeu levantando os ombros — Você tem noção do quanto esse cálice vale?
— Eu sabia que você iria gostar. — Comentou Tribuno — Mas se vocês não se importam, eu preciso ir. Quanto antes resolver essa situação, melhor.
Eles conversaram mais um pouco sobre os planos de Tribuno em relação aos Yuanti e então deixaram que o lagarto fosse, não sem antes deixar claro que se isso fosse mais um dos jogos dele Oseena não seria nada perto do que eles fariam com ele. Tribuno garantiu que não era e foi embora.
— Vocês acham que fizemos certo em ajudar? — Verônica questionou.
— Só o tempo vai dizer, mas acho que ele estava sendo sincero sobre toda essa história. — Challenger disse se afastando e indo em direção ao seu laboratório.
O resto dia passou tranquilo e sem problemas, os exploradores fizerem as tarefas de casa e relaxaram um pouco. Roxton se deitou e o sono veio rápido e assim como na noite anterior voltou a sonhar com os acontecimentos da primeira vez em que esteve do cemitério de dinossauros.
Ele apontava a arma na direção de Marguerite e a orientava para onde deveria seguir, a morena seguia o caminho, mas sempre deixando claro o que achava daquilo. Chegaram no cemitério e ele a amarrou em um dos ossos, a ouviu reclamar e questionar se ele sabia o que ela significava para a sua presa. A ouvia impaciente, mas ao mesmo tempo curioso enquanto ela falava que ele nunca seria o homem que Roxton era. Ele terminou de amarrá-la e saiu andando, mas a mulher não parava de falar e quando disse que ele era a antítese de Roxton, aquilo o fez parar. Ele era mais forte que o seu outro eu, como ela poderia achálo melhor? E então ela mencionou o vazio que ele estava sentindo e aquilo fez com que ele voltasse a olhar para ela. Ela falou da dor e da solidão e depois falou sobre sentir o calor de outro ser humano e sobre amor. De como ela era parecida com ele e de que foi Roxton quem a ensinou sobre o amor, que ela o amava e nunca o disse. E ele desejou que pudesse ter um pouco do que ela falava. A morena então disse que se havia um pouco de Roxton nele, então talvez ela pudesse amá-lo também. Ele sentiu uma onda de calor dentro dele e aquilo o assustou. Não podia, tinha um objetivo. Ele então se virou para sair e a deixou mais uma vez falando sozinha. Mas será que não podia mesmo?
Ele voltou para ela, precisava sentir aquilo de novo. Ela pediu que se aproximasse e ele se aproximou, sentindo que a voz dela o atraia para perto. Marguerite então pediu que ele tocasse em seu rosto, em seus cabelos e ele assim o fez. Sim, ele podia sentir o calor. A morena disse que era sua, que estaria sempre com ele e pediu que a soltasse. E ele não conseguia negar, ele precisava continuar sentindo aquela sensação até então desconhecida. Mas quando estava prestes a desamarrá-la a voz do seu outro se fez presente, o fazendo se lembrar do seu objetivo. Não podia! Ele precisava colocar a cabeça no lugar e focar na sua caça, então a deixou e saiu correndo.
Assistiu a si mesmo se aproximar de Marguerite, viu a intimidade que tinham, o viu beijá-la e ela sorrir para ele. Queria ter aquilo para ele e isso o deixou com mais raiva do seu outro eu. Então apareceu pronto para lutar e os dois lutaram.
Viu como sua presa o dominou e o colocou no chão, estava preste a lhe fincar um osso, mas desistiu. Quando teve forças para levantar notou seu outro eu nos braços da morena. Aquilo o irritou, não sabia ao certo o que estava sentindo. Mas não teve tempo de refletir sobre porque se viu envolto em uma fumaça, a voz que o despertará se fazia presente de novo, uma dor dilacerante começou a tomar conta do seu corpo e então nada.
Marguerite acordou com o som de passos do corredor, sabia a quem aqueles passos pertenciam. Se levantou, colocou seu robe e saiu na mesma direção que o homem que muitas noites invadia seus sonhos. Ficou um tempo apenas o observando de longe enquanto ele encarava o céu na varanda. Mas o instinto do caçador logo notou a sua presença. Ela então se aproximou e se apoiou na grade ao lado dele.
— Está tudo bem? — A morena perguntou notando que o semblante do homem era mais tranquilo do que na noite anterior.
— Você acha que ele era realmente parte de mim? — Roxton questionou olhando a imensidão a sua frente.
— É tão ruim assim se ele for? — Ela questionou e o viu fazer uma careta.
— Tudo que ele sentia era ódio, desejo de matar, não tinha apreço pela vida.
Não quero ser assim. — Ele disse.
— Você não é. — Ela disse colocando uma das mãos no braço dele — Mas ele é uma parte importante de você. É esse seu lado caçador que nos mantem alimentado, foi esse seu lado caçador que salvou todos nós em várias ocasiões, me salvou várias vezes e eu sou grata por isso. Ele é parte de você, mas você é muito mais que ele, Roxton. Você tem muitos outros lados que juntos te tornam um homem forte, inteligente, bondoso, nobre...
— Terno, gentil e capaz de mais do que apenas violência cega? — Ele perguntou se lembrando das palavras que ela tinha usado ao se referir a ele, a viu assentir com a cabeça e notou que ela havia ficado tensa — Eu vi o resto daquele dia.
Marguerite ficou sem saber o que falar, então apenas encarou a imensidão a sua frente.
— Você também é mais do que apenas partes da sua vida Marguerite. — O moreno mudou de assunto e ela o olhou curiosa — E vi como você reagiu quando Tribuno te falou que vocês eram parecidos e vi de novo quando Oseena mencionou o mesmo. E esse seu lado estrategista, calculista, frio também já nos salvou em várias situações, mesmo que na hora a gente não reconheça, esse seu lado também tem sido importante para nós. Mas você é muito mais que isso.
— Você me acha fria?
— Em alguns momentos. — Ele respondeu e ela apenas assentiu com cabeça — Mas você também é mais do que esse seu lado. Tem muito calor aí dentro também, uma mulher de aço e fogo. — O moreno se lembrou de uma das primeiras conversas que tiveram e os dois sorriram.
— Tem muita coisa que você não sabe sobre mim, escolhas que eu fiz, decisões que eu tomei.
— Todos temos coisas das quais nos arrependemos, o que importa é a pessoa que somos hoje, que somos capazes de reconhecer nossos erros. Eu posso não saber quem você foi, mas sei que você é e isso é o bastante. — Ele falou e a viu dar um leve suspiro, refletindo sobre o que ele acabara de falar — Naquele dia, você conseguiu fazer algo se acender dentro dele, o que você disse mexeu com ele. Por alguns segundos, havia mais do que raiva, ódio e vazio. Por alguns segundos, houve calor. — Os dois sorriram.
— Eu acho que vou voltar para a cama. — Ela disse após algum tempo.
— Quem está fugindo agora? — Ele perguntou em tom provocativo se lembrando da conversa da noite anterior, Marguerite apenas sorriu e se retirou.
A herdeira já estava no corredor onde se encontravam os quartos quando ouviu os passos de Roxton atrás dela e a voz dele chamando pelo seu nome, ela então parou e virou para ele. Estava escuro, mas conseguia ver sua silhueta e um pouco do seu rosto. Ele se aproximou e levou a mão direita até os seus cabelos, a mão segurou uma mecha e então deixou que seu dedo escorresse por ela. Depois a mesma mão foi colocada na bochecha da morena, a qual acariciou com o polegar.
— Eu espero que um dia você conseguia me dizer o que disse para ele. Mas eu espero. Eu vou esperar o tempo que for. Uma semana, um mês, um ano, vinte anos. Não importa, porque você vale a pena. — O caçador disse sussurrando para não acordar os outros, a morena sorriu.
Marguerite então se aproximou do moreno e colou os seus lábios no dele, se demorando um pouco ali, então se afastou um pouco, deixando apenas milímetros de distância entre eles, ainda sentindo o calor que o corpo dele emanava.
— Boa noite, John. — Ela disse sorrindo e se afastou, ele viu a silhueta da amada se afastar e sorriu também.
— Boa noite, meu amor. — Ele sussurrou e então foi para o quarto, com a certeza de que se voltasse a sonhar, seria um sonho muito melhor que o que o acordou.
Fale com o autor