Confronto

1 One-Shot


Notas iniciais
Boa leitura.

— Você não vai sair desse apartamento, Jane. Temos muita coisa a esclarecer.

Kurt estava determinado a manter-se no comando a situação. A arma em sua mão era seu maior recurso e ele rezava para não ter que apontá-la pra ela. Não de novo. Não dessa vez. Focado na situação à sua frente, ele tentou manter afastada a ideia de que talvez a arma fosse a única coisa capaz de detê-la e não mais o sentimento que um dia os uniu.

Remi avaliou a situação. Por alguns instantes, pensou em se entregar ao alívio de sair do papel de esposa apaixonada que desempenhou pelos últimos meses. Existia uma possibilidade nada pequena de desarmá-lo e, a partir daí, Kurt não teria a menor chance contra ela. Ele ainda não estava em forma. Ela venceria fácil. Até seu corpo ser encontrado, Shepherd já estaria bem longe dali. Recusando as estratégias de sua mente, suas palavras foram por outro caminho:

— Nunca imaginei que Violet atiraria em você... ou em qualquer outra pessoa. Achei que se tratava apenas de negócios... Kurt, você é tudo pra mim. Não estou entendendo tudo isso.

— Essa é a questão, Jane. Tem muitas coisas que também acho que não se encaixam aqui.

— Eu sei que os últimos meses tem cobrado muito de você... de nós...por favor, acalme-se. _ e apoia a mão no balcão fingindo buscar apoio para uma possível tontura que ela estaria tentando disfarçar.

Kurt percebe o gesto imediatamente, mas se mantém firme:

— Se você pretende conversar, melhor jogar com a verdade, porque estou cansado das suas mentiras, Jane.

— Mentiras? Kurt, eu não sou obrigada a suportar suas acusações... ou com isso_ e aponta para a arma. _ Esse tipo de “conversa” entre nós nunca terminou bem, pelo menos pra mim. Vou deixar você um pouco sozinho pra pensar sobre isso.

— Você não vai a lugar algum, Jane! Eu não estou brincando...

— Eu não vou sair do apartamento, Kurt! Essa conversa acabou com minha disposição para a academia. Vou para o quarto. O “nosso” quarto. Ou será que além de ser sua prisioneira nessa casa, nem me deitar um pouco eu posso mais? _ e fecha os olhos respirando fundo novamente tentando forjar um mal estar.

Ela se vira devagar atenta às reações dele. Como Kurt permanece imóvel sem apontar a arma para ela, dá um passo em direção ao quarto.

Ele parecia irredutível na postura e expressão facial. Estava focado em detalhe dos movimentos dela, esperando qualquer gesto que iniciasse a luta para fugir do apartamento. Sua mão firme na arma, pronta para aponta-la na menor ameaça. Mas os passos de Jane foram mais e mais em direção ao quarto.

Quando ela já estava quase desaparecendo no corredor, ele disse:

— Ainda vou insistir nessa conversa quando você se sentir melhor...

— Eu tenho certeza disso. E vou fazer questão de conversarmos. Você estará me devendo um pedido de desculpas.

Ela despareceu dentro do quarto e ele retorceu o pescoço tentando aliviar um pouco da tensão acumulada. Se Jane achava que poderia levar tudo isso colocando-se como simples vítima, estava muito enganada. A forte confiança que ele depositava nela estava quebrada. Ele não abandonaria sua esposa que estava à beira da morte, ele esperava não ter que prendê-la novamente, porém a manteria sob pesada vigilância até que tudo estivesse esclarecido. Droga! Tudo o que ele queria era secar uma garrafa de uísque agora, mas isso era tudo que Jane poderia esperar dele nesse momento, então não abriria uma brecha para ela agir.

Remi entrou no quarto sentindo-se trêmula. O sentimento ruim que fazia seu estômago revirar só podia ser mais uma náusea causada pelo ZIP, ela não se deixaria enredar por outra motivação para essa sensação. Ela tinha algumas horas extras dentro de seu plano. Era possível esperar que ele dormisse e, então, sair sorrateiramente sem causar alarde. Ele dormia pesado e devia estar exausto após o tiroteio com Violet e o embate com ela. Um bilhete retardaria um possível alarme dele ao FBI.

Ela se despiu e foi para a cama. Recostada na cabeceira, puxou as perna de encontro peito junto com os lençóis. Tentou manter sua mente vazia. Nenhum pensamento era bem vindo. Nada que a racionalidade a fizesse deduzir que queria terminar sua missão sem ferir a imagem que Weller tinha dela. Muito menos admitir que até isso já tinha ruído. Tudo estava sob controle.

Nenhum dos dois tinha noção real do tempo que transcorreu até que ele abriu a porta do quarto. Kurt alegou a si mesmo que precisava averiguar se ela ainda estava lá já que não confiava na sua plena adesão às determinações dele. Também admitiu que também precisava verificar se ela estava bem. Não entrou. A mão com a arma permaneceu do lado de fora, disponível para qualquer eventualidade.

O movimento da porta foi seguido pela mudança de posição dela na cama. O tempo não era suficiente para deitar-se e fingir que dormia, então ela se posicionou de costas para a abertura da porta.

Merda, vê-la nua na cama, apenas envolta nos lençóis não tornava as coisas fáceis pra ele. Era tudo que qualquer homem sonharia como uma forma de reconciliação. Mas era que tudo que Jane não faria e isso o deixou em alerta máximo.

— Você ainda não dormiu? _ perguntou

Ela virou a cabeça em direção à ele para falar:

— Não conseguir adormecer depois de tudo que acaba de acontecer será mais uma das acusações na sua lista?

Não havia traços de lágrimas nos rosto dela. Se houvesse, ele entraria no quarto e exigiria explicações imediatamente porque Jane não usaria o subterfúgio das lágrimas em momento algum. Então, respirou fundo antes de responder:

— Ironias sobre o que está acontecendo não vão me abalar, Jane. Você precisa de algo?

— Preciso que você fique bem longe de mim enquanto estiver com essa arma. _ a voz dela falseou no final da frase, trazendo à tona a emoção diante da admissão inconfessável da confiança quebrada. E eles não estavam preparados para isso.

— Estarei na sala, se precisar... _ foi tudo que ele conseguiu verbalizar.

Antes que a porta se fechasse, uma necessidade absurda tomou conta de Remi. Ela argumentou para si mesma que precisaa se livrar desse peso que sentia sobre seus ombros para evitar qualquer risco de fracasso na sua missão.

— Kurt...

— Sim.

— Eu não vou forçar uma saída e não vou te machucar. _ a sinceridade em suas palavras a chocou._ Então você pode entrar nesse quarto, no “nosso quarto” sem essa arma?

Ele balançou a cabeça e sorriu com ironia.

— O conceito que você tem de mim é o que mais me decepciona._ respondeu.

Ela se virou de frente na direção dele e segurou o lençol para manter seu corpo velado sem perder a sensualidade.

— Eu não vou discutir, não vou discordar. Não é um teste, Kurt. Nem é qualquer estratégia. Faz tanto tempo que nós não... que nós não fazemos amor.

A forma como as palavras soaram, o olhar dela. Tudo aquilo parecia tão distante de Jane. Mas uma coisa ele não podia negar: a sinceridade que costurava tudo o que ela disse. Esse era o único e forte traço de Jane que ele via na mulher à sua frente. Talvez ela precisasse disso para encontrar o caminho de volta pra ele.

Afastando-se da porta em direção ao corredor, Kurt alcançou o aparador e colocou a arma ali. Naquele momento, ele estava certo do seu erro, mas estava disposto a arriscar diante da sinceridade nos olhos dela.

Quando ele se aproximou da beirada da cama, ela ficou de joelhos sobre o colchão deixando o lençol cair. Suas mãos estavam levemente trêmulas enquanto desabotoavam a camisa e a calça dele. Então, ela recuou abrindo espaço para ele terminar de se despir e se juntar à ela na cama.

A sequência de toques e carícias explorando o corpo dele como uma desejada descoberta não deixou qualquer dúvida em Kurt sobre o que estava acontecendo. Era como viver um dejà-vu da primeira noite de amor dos dois. No rosto dela, entretanto, não havia aquele sorriso encantador e carregado de entrega. Ela estava surpresa com o quanto o contato físico entre eles era capaz de envolvê-los num sentimento de pertencimento mútuo.

Nenhum dos dois desejava apressar o final, então retardaram o êxtase repetidas vezes. Ela aproveitando para conhecer o corpo dele e os sentimentos que isso lhe despertava mais e mais. Ele para tentar trazer Jane à tona daquilo que, para ele, era um pesadelo sombrio.

Depois do amor, os dois ficaram entrelaçados na cama. Qualquer milímetro de separação parecia inadmissível. Nenhum deles fechou os olhos. Não havia qualquer certeza que permitesse conciliar o sono. Como um sentimento podia ser tão forte em duas pessoas diante de determinações tão diversas? Será que a cura também seria capaz de consertar tudo o que se quebro trazendo o mundo deles de volta ao lugar?

Notas finais
Obrigada pela leitura.
Adoraria saber o que acharam dessa história.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!