Chris

Eu me sentava com um livro nas mãos sob uma árvore a espera do teste de aptidão. O vento da manhã carregava as flores amarelas em direção ao grupo de casas que havia por ali e o Sol fazia reluzir o dourado e o verde das plantações da sede da amizade. As estufas se erguiam em meio as plantações.

Respirei fundo enquanto as crianças da facção corriam. Avistei uma menina de cabelo castanho escuro e pele pálida. Vestia-se com uma camiseta vermelha da amizade e me parecia deslocada dali. Caminhei em sua direção fechando o livro e com memórias daquele lugar passando em minha cabeça. Memórias das vezes que me aplicaram o seu maldito soro a fim de me tornar idiota como a maioria dos membros.

Eu sou Chris. Christian, aliás. E eu não quero continuar na Amizade. E sei que meu teste de aptidão não poderia indicar a Amizade. Mas e o dela? Será que poderia?

Toquei em seu ombro e ela se virou, piscou os olhos negros de cílios grandes, forcei um sorriso em resposta e começávamos a caminhar. Estava na hora. Dirigimos-nos até a escola da sede da Amizade jogando conversa fora como sempre.
Antes que eu me esqueça: Seu nome é Sarah.

- Acho que estou com um pouco de medo. – Ela adentrava no pátio de concreto e olhava ao redor onde vários jovens se juntavam em mesas a espera de seu teste.
— Por causa da agulha? Ah, eu também odeio agulhas!
— Não! – Ela riu enquanto me olhava nos olhos. – Estou com medo de saber o que eu serei a partir de amanhã quando estivermos na cerimônia...
— Todos têm um pouco de medo, você sabe.

Sentamo-nos e à medida que os nomes eram chamados em ordem alfabética, minha mão tremia. Não demorariam a me chamar, porém a Sarah sim. Acho que isso a dava um tempo para respirar melhor e deixar a mente vazia, se acalmar. Mas ela não precisava, ela era naturalmente calma. Eu era estressado e me esforçava para não vazar isso, mas uma panela de pressão costuma ter uma válvula. Se não vazasse nem um pouco, estouraria e feriria as pessoas.

“Christian Pride”

“Pride?”

Meu nome. Levantei-me nervoso. Sarah piscou os olhos e sorriu. Acho que era algo como “Boa sorte”. Adentrei uma sala branca, sem janelas e com luzes brancas fortes. Havia uma cadeira reclinável com partes metálicas, semelhante as de dentista.

-Olá. Christian Pride, não é? – A voz suave invadiu minha mente. Meus olhos se moveram e na imagem do piso polido começava a aparecer um sapato cinzento e o vestido de mesma cor. Recatado, impedia que eu pudesse ver as curvas daquela garota e não havia nenhum decote. Ela devia ser apenas uns dois ou três anos mais velha. Sorria com o cabelo castanho amarrado. A pele pálida e olhos verdes. Seria linda se não se portasse como as pessoas da Abnegação. – Meu nome é Abigail.

-Abigail? – Ergui uma sobrancelha. Me sentei na cadeira a seguir.
-Vai doer um pouco. – Ela pegou uma seringa com um líquido amarelado, hesitou em me aplicar enquanto eu forçava minhas mãos contra minhas pernas tentando não mostrar que elas tremiam. Acho que essa hesitação vinha da Abnegação, a hesitação em causar dor a alguém.

Senti a agulha contra meu pescoço. Minhas veias ferveram e levantei uma das mãos para passar sobre o pescoço. Mas perdi o controle sobre aquilo. Tudo desapareceu até mesmo a dor. A sala agora era um monte de espelhos.
Me levantei e ao olhar para os espelhos notei que a cadeira havia desaparecido em instantes. Meu reflexo em todos os cantos e talvez aquilo fosse um labirinto. Um labirinto de espelhos? Meu estômago revirou. Medo. Mas ergui o meu rosto e analisei minha imagem. Uma camiseta vermelha escura e a calça jeans. Foi difícil achar uma camiseta que não fosse tão alegre quanto a Amizade gostava. Minha pele morena parecia combinar com aquele tom de vermelho. Minhas sobrancelhas grossas e pretas como o meu cabelo liso, agora franzidas, também. Me dava um aspecto arrogante. Eu acho que sempre fui arrogante.
Então pensei. Não olhe para os espelhos se quiser sair. Olhei para o chão e meus pés. Podia ver agora alguns caminhos entre os espelhos. Ainda com receio comecei a andar e os espelhos se partiram assim que encontrei um caminho.
Eu estava numa sala de aula vazia. Olhei para a janela e percebi estar no segundo andar. Em cima da mesa do professor havia alguns objetos. Calculadora, queijo. O que eu faria com aquilo? Eu acho que poderia estar em perigo, então peguei uma faca, que estava junto deles. Antes de sair dali cortei um pedaço do queijo e comi. Abri a porta e escutei um rosnado.
Um enorme cão negro rosnava mostrando seus caninos afiados. O encarei por um tempo com a faca empunhada e encostando a parte sem corte em meu antebraço. Olhei para o corredor. Havia uma escada. Merda, uma escada. Era a única chance. Corri o mais rápido que pude e me deitei alguns degraus abaixo. Escutei o cão vir correndo e ele saltou sobre a escada. O impulsionei com os pés e ele foi lançado no primeiro andar. Gemeu, iria se recuperar logo. Corri na direção da sala. Escutei um choro, uma criança. Meu estômago. Meu peito. Droga. Eu não poderia deixar uma criança! Não!
Eu voltei e vi o cão andando em torno da criança, rosnando. A expressão de medo em seu rosto. Eu corri na sua direção e quando ele se jogou em minha direção cravei a faca no seu olho, a soltei e agarrei a menina com roupas da abnegação que chorava em meu colo. Corri até a primeira porta que vi. Tudo sumira de novo. Então percebi, finalmente. Isso tudo. Nada é real.

— O que?

Estava num metrô. Olhei pela janela. As imagens se moviam muito rápido. Alguém puxou a minha camiseta, um idoso. Olhou em meus olhos e eu levantei uma sobrancelha. Se aquilo não era real e acontecia na minha mente eu... Movi minha mão até o bolso da calça, havia uma arma.

— Você conhece este homem? – Ele mostrou uma foto no jornal. A notícia era sobre algum assassinato. Mas me preocupei mais com quem era o idoso. Ele não me parecia bom. Eu não queria mentir, mas não podia dizer que conheço aquele homem.

Eu não menti. Porém também não revelei nada ao idoso, que até onde sei, poderia ser outro assassino. Me virei e comecei a andar. Escutei seus passos e ele agarrou meu braço com força.

- É melhor você dizer! Você o conhece, não conhece! – Passei a mão novamente pelo meu bolso. Ele era o homem da foto, ele era o assassino. Eu tinha certeza, não havia um rosto antes, mas agora em minha memória o jornal mostrava o rosto deste velho. O cheiro de cigarro, a protuberância em seu bolso.

- Me solta! – Encostei a arma em sua garganta e ele me soltou. Me afastei e corri. Ele começará a me seguir e então tudo desapareceu de novo.

— Isso é impossível! – Abri os olhos. Ardiam e pareciam grudados. Os revirei a procura da voz e me lembrei de Abigail. Agora estava em expressão de choque olhando para uma tela de computador sobre a mesa. – Não pode ser. Isso nunca havia acontecido antes.

- O que foi?

- Audácia... – Parecia ilógico, eu até pensava que saberia sobreviver ao ataque de uma pessoa, mas matar não, saltar de trens também. – Abnegação e Erudição. – E novamente um nome me parecia ilógico. Abnegação? Eu nunca viveria ao modo deles, era só olhar para a falta de vaidade de Abigail. Erudição?

- Por que disse três? Você não deveria dizer apenas a facção a qual tenho aptidão?
— Desculpe. Desculpe, mas... – Ela passou a mão sobre o rosto pálido. – É que... Você têm aptidão para as três.
— Como assim!? O teste não deveria indicar apenas um resultado!
— Mas acontece que... Há pessoas que apresentam aptidão para mais de uma facção, isso é chamado de divergência. Só que três? Isso nunca aconteceu antes. – Ela veio até mim, ajudou para que eu ficasse em pé. – Para a sua segurança, não conte isso a ninguém.

Não conte isso a ninguém, ela disse. Li em algum livro sobre o que é um Divergente. Um livro escrito pela Erudição, obviamente, que retratava os Divergentes como uma anomalia genética. Olhei para as minhas mãos assustado com aquela palavra e me sentei pálido na mesa em que estava antes. Respirei fundo e percebi que Sarah já estava em uma das outras salas.
Ela demorou um pouco a sair e quando saiu estava, aparentemente, mais calma que eu. Talvez a divergência fosse rara. Talvez eu fosse a única aberração pronta a sair da Amizade nesse ano. Talvez divergência seja um pouco pior do que apenas uma anomalia genética. Sabem tão pouco sobre isso.
Acontece que antes que Sarah perguntasse sobre o meu teste, decidi ir embora mais cedo da escola. Eu poderia inventar que estava passando mal e que isso provavelmente era um efeito colateral do soro. E foi o que fiz.
Entrando em casa não havia ninguém. Fechei as janelas, já irritado com as crianças que ficavam o tempo todo pulando e rindo. Fui até o meu quarto, que tinha paredes brancas e a cama de madeira forrada com um lençol vermelho, pois era uma das cores da amizade. Me deitei e fiquei um bom tempo olhando para o vazio do teto. Adormeci.