Confissões de uma Vida em Crise
2 Última Perda - Parte 2

Não consegui dormir esta noite, minhas piores lembranças vieram me assombrar. Não poderia dormir lembrando do corpo de minha irmã caído no chão.
Morto. Deixando para trás um sorriso como forma de amor.
Hoje será meu primeiro dia sem ninguém, sem um bom dia e sem um "como foi seu dia?", será pior do que o dia em que minha mãe morreu, o dia em que me fechei de tudo e deixei a vida me levar. Pelo menos, quando fiz isso eu tinha alguém, eu tinha ela, a minha "segunda mãe", eu tinha seus abraços calmantes e seus sorrisos dóceis...
Eu tinha alguém. Já hoje, não tenho ninguém.
Levantei da cama feito um saco de batatas, essa noite foi difícil e o dia será mais ainda, não dormi direito e isso significa que estou ainda menos preparada.
Resolvi tomar um banho, demorei menos de dez minutos.
Respirei fundo, peguei minha bolsa e segui até a escola.
* * *
Cheguei na escola seis e meia da manhã, só havia chegado o porteiro e ele ainda estava abrindo as salas do colégio.
Ofereci ajuda, ele me olhou triste e deu um sorriso de esquerda, disse que não precisava de ajuda abriu minha sala e saiu de perto de mim.
Eu acho incrível que o ser humano ache que quando sofremos, até uma simples tarefa possa piorar a situação, na verdade, as coisas simples nos fazem melhorar.
Eu só queria poder me desligar um pouco do mundo, queria que isso fosse um jogo e que de vez enquando eu pudesse dar uma pausa nessa vida. Mas como minha mãe dizia, "Essa é a vida, ela nos tira tudo, para depois, do nada nos trazer tudo novamente, só que melhor".
Sentei em uma carteira qualquer e decidi dormir um pouco.
* * *
Acordei de repente sendo cutucada por meu amigo Henri, dei um pulo da carteira e olhei para cima.
– Você não dormiu essa noite? — Perguntou sem expressão
– O que você acha?
– Vamos sair daqui um pouco
– Por quê?
– Vamos logo — Puxou — me pelo braço
* * *
Ele me levou até a sala do selador.
– Você é muito teimosa sabia? — Sorriu
– Esse é o meu trabalho, mas enfim... Por que me trouxe até aqui? — Cruzei os braços
– Eu fiquei sabendo da sua irmã...
Sorri com deboche.
– Todos ficaram
– Seu pai não veio pra cá, veio?
– Você acha que ele viria pela Carie?
Ele não disse nada, só agachou a cabeça e a conversa morreu.
– Eles te fizeram algo?
– Eles quem? — Cerrei as somprancelhas
– Os policiais, fiquei sabendo que eles chegaram na sua casa depois que ela... — Colocou a mão atrás de seu pescoço — Você sabe... E... O que aconteceu depois?
– O enterro dela — Empurrei bruscamente a porta da sala do selador
Antes que pudesse sair da mesma, braços quentes me seguraram.
– Está tudo bem Marrie — Disse ele em meu ouvido
Lágrimas escorreram por meus olhos e ele me apertou mais forte.
– Eu perdi tudo Henri — Solucei
Ele pegou em meu rosto, me forçando a olhar em seus olhos.
– Não tudo, eu sempre estarei do seu lado. Ouviu? Sempre — Deu um beijo em minha testa e me deixou chorar em seus braços
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