Confissões de Andréa em Crise

1 Capítulo 1 - Quando eu era uma estúpida adolescente


É mais uma confissão – para mim mesma – do que qualquer outra coisa. Só para eu ter uma noção de como mudei com o passar dos anos, com as coisas que aprendi, vivi... Toda essa besteira de errar, aprender e tal, que na verdade nem é tão besteira assim. Se for pra errar, que pelo menos seja uma vez e se aprenda alguma coisa. É o que se espera de uma pessoa que está crescendo, não importa de qual maneira. Pelo menos é o que eu acho.

Acho não, pois mil vezes nas aulas de português a professora nos aconselhou a não usar o termo, principalmente em redações ou qualquer coisa que tivesse a ver com dar nossa opinião. Ela dizia que era melhor dizer “penso”, porque dá mais segurança da sua opinião. Eu PENSO que ela tem razão. Na verdade, não só ela, porque não é só ela quem diz isso, mas todo mundo que começa a se meter com a área de linguagens e também com essa coisa a ver com opinião, jornalismo, coisa e tal.

Pela minha forma de relatar as coisas, com esse bando de palavras idiotas pode parecer que eu sou uma das piores pessoas em redação, mas até que não. As minhas não ficam no top cinco, mas me garantem boas notas e poucas críticas de professor – e muitos elogios dos colegas. Mas eu realmente não me importo com tudo isso. Prefiro mesmo matemática e história.

Não tenho as melhores recordações da escola, não foram meus melhores anos. Pelo menos não os letivos. Eu tinha um incessante tédio em relação a todos os professores e detestava de forma diferente quase todos os alunos. Tinham um máximo de dez alunos de quem eu não reclamava; cinco que eu suportava legal; e dois com quem eu andava pela escola; e apenas um que eu fazia questão de ter uma vida fora da escola.

Acho que as minhas boas recordações, as poucas, se devem aos poucos amigos que fiz lá. Pena que não tenho mais amizade com mais nenhum deles após a escola. Significa que a amizade não era verdadeira? Bem, não digo isso. Apenas que a amizade serviu o que tinha de servir. Com o mudar dos tempos e dos lugares, as pessoas mudam também, quase como se fizessem parte do cenário. Não que eu fosse uma adolescente fria, mas é que eu não me apego facilmente a amizades. Sei lá. Se as pessoas param de falar comigo, eu também paro. Na verdade eu não faço questão do contato. Se acabar, acabou.

Pena que isso não se aplicou também aos casos “amorosos” (mesmo que eu ache que amor não tem nada a ver com isso). Eu sempre me apegava. E claro que isso sempre foi ruim para mim. Principalmente quando a coisa não era mútua e acabava que só eu saía ferrada nessas histórias. Foram todas histórias com finais infelizes. Mas, fazer o quê. Quando se é uma estúpida adolescente de quinze anos apaixonada, você tem é que se ferrar mesmo.

Mas as coisas foram um pouco fora de ordem na minha vida sentimental. Primeiro beijo e primeira paixão não aconteceram juntos. Agradeço e amaldiçoo minha memória por me lembrar de tudo com clareza. Mesmo que eu tenha vinte anos agora e minha adolescência não tenha se passado há tanto tempo assim, certos detalhes eu preferia não lembrar perfeitamente.

Tipo o primeiro beijo. Foi antes da primeira paixão. Eu era uma pobre menina de doze anos (e hoje as meninas de doze anos já falam em primeira vez...). Tinha um menino novo na sala. Havia muitos boatos sobre ele. Falavam que ele era “da pesada”, tinha sido expulso da antiga escola por mau comportamento. Uns diziam que ele tinha brigado com a professora, outros que ele bateu em uma menina. Ele tinha um aspecto sombrio, admito, uma parte da sobrancelha era raspada – coisa que era radical na época.

Olha o tipo de coisa que eu estava me metendo logo de cara. Eu era simplesmente idiota, não? O primeiro caso da minha vida seria logo com um cara daquele tipo! Mas o estilo rebelde chamou a atenção. Primeiramente não nesse sentido. Ele não fazia muito o meu tipo – se é que eu tinha um nessa idade –, mas eu não estava interessada. Então foi ele quem se interessou por mim.

Começaram a chegar recados no meu ouvido, que ele dizia que eu era a garota mais bonita da sala e tal. Umas semanas depois, chegou um bilhete, com perguntas. Ele tinha escrito. Queria saber se eu gostava dele, se eu queria ficar com ele. Maravilhada com a novidade, tipo, ser desejada, respondi que sim. Dias depois chegou ao meu ouvido que ele queria falar comigo, mas eu não tive coragem.

Até que um dia, ele finalmente me acompanhou na volta pra casa. Veio ao meu lado, meio longe. Não conversamos muito. Quando cheguei perto de casa, ele pediu um copo de água. Viemos até minha casa. Ele ficou na porta esperando e eu trouxe o copo gelado. Ele bebeu. Agradeceu. Ficamos nos olhando por instantes, pouco próximos. Ele disse:

— Vem aqui.

Aproximei-me e ele então me puxou pela cintura e me beijou.

Não almocei direito naquele dia.

Pode rir de mim, não me importo. Era uma grande novidade para mim, porém não fora nada agradável. Eu não gostava do cara, ele estava soado, eu pude até sentir o mau cheiro. Eu me afastei dele dizendo que meus pais estavam na sala – não estavam. Ele tentou insistir, mas desistiu. Disse que nos veríamos na escola no dia seguinte, mas eu não queria mesmo saber de mais nada disso. Fora horrível. Fiquei pensando como as pessoas conseguiam fazer aquilo. Hoje dou umas boas risadas de mim mesma, mas naquela manhã, fora uma das piores experiências da minha vida até então.

Se eu pudesse voltar no tempo, evitaria tudo aquilo. Deixaria o primeiro beijo para o ano seguinte, quando eu realmente gostaria. Ou não... Essa é uma das piores lembranças, tipo, eu voltaria no tempo para dar umas boas tabocadas na minha cara, por ter agido como uma idiota. Mas é melhor começar por partes.

Nas semanas seguintes eu evitei o cara. Por sorte ele fora mudado de sala. Eu disse que não gostava dele e tal, tal, aquele velho migué. Na verdade, eu realmente não gostava dele, falava a verdade. Bem, enfim. Isso aconteceu em abril e o resto do ano fora comum. Só que não! E eu odiaria que fosse. Em junho, num passeio com uma colega de escola, vi um cara na praça principal da cidade. Eu não conseguira vê-lo bem, mas parecia ser bem bonito. Como fiquei muito entretida com ele, minha colega começou a perturbar-me, dizendo que ele era meu namorado. Aquela brincadeira besta de criança. Como se dizer que ele era meu namorado fosse algo ruim!

Passou mais meses e se aproximava o final de ano. Na escola, programavam uma gincana que reuniria todos os turnos da escola. Eu tinha uma amiga de infância (que era vizinha minha nos tempos de criança menor e brincávamos juntas) que estudava no período da tarde. Eu tinha conversado com ela sobre o tal rapaz que vi na praça. Pra minha sorte, ela sabia quem ele era. Tinha me dito o nome, idade e tudo mais. Para minha surpresa, ele estudava na minha escola, à tarde, e agora iria participar da gincana. Odeio gincanas, e saber que ele estaria ali, foi o único motivo que me incentivara a participar. Fora o fato que valeria presença e nota.

Eu e Júlia, a amiga de infância, estávamos na porta da escola. Era o dia da gincana. Eu estava guardando os portões da escola, vigiando para quando o menino chegasse. Sim, eu era idiota. Na verdade ainda sou. Só que agora por motivos diferentes. Estávamos conversando e ela de repente disse:

— Andrea, lá vem Diego.

Sutilmente eu me virei. Só que não. Me virei tipo a menina do Exorcista, dando bandeiras de todos os países. Graciosa eu, não? E quando me virei, o vi vindo de bicicleta. Eu jamais vou me esquecer da cena. Ele estava de camisa cor de rosa bem claro – ficava lindo na pele branca dele – e de bermuda jeans. Ele me olhou provavelmente tão encantado quanto eu, porque nosso olhar não desgrudou um instante até ele entrar. E sim, ele era incrivelmente lindo. Mais do que eu imaginava, mais do que qualquer um que já vi pessoalmente ou mesmo por televisão. Os olhos brilhavam, as sobrancelhas eram escuras, tinha um nariz perfeito e uma boca minúscula. Era simplesmente encantador para mim.

Ao contrário de mim, desengonçada e feia, no momento com treze anos – por isso digo que treze é o meu número da sorte. A partir daquele dia, esse número me marcou várias vezes. Até hoje, fico pensando o que ele viu em mim. Até Júlia se admirou do olhar que ele me deu. Meu coração bateu forte por ele pela primeira vez. E não seria a última. E acredito que a última será quando meu coração parar de bater.

Minhas energias foram renovadas para a gincana, mesmo que eu não fosse fazer absolutamente nada, como sempre. Diego estava vestido de rosa porque era a cor da equipe dele. Os acontecimentos da gincana passaram despercebidos para mim, principalmente num momento específico no pátio. Estavam todos num círculo imenso, e eu estava encostada na parede, sem me importar se estava vendo coisa alguma do que acontecia no centro. Foi então quando ele começou a andar por dentre os alunos e passou bem na minha frente, de frente a mim, totalmente próximos, que se eu levantasse os pés, teria tocado seus lábios. Mas eu ainda era muito inocente para isso. Os instantes que ele passou bem diante de mim pareceram eternos e eu queria que fossem. Olhamo-nos profundamente nos olhos e eu soube, naquele momento, que essa história estava apenas começando.

Depois daquele dia, passei a ficar sentada na calçada da avenida onde ficava a escola, com uma prima, no final da tarde, só esperando Diego passar, para vê-lo, para trocarmos nossos calorosos olhares. Meu coração batia loucamente cada vez que o olhar dele tocava minha alma, como no dia da gincana. Eu me perdia em paixão por ele. E com a idade que tinha, não me importava se não o conhecia, se nunca tinha falado com ele. Trocar aqueles olhares com aquele ser maravilhoso para mim era suficiente.

Então fui tendo mais informações sobre ele. Ele era primo do filho de uma amiga da família. Parece complicado, mas é só ler duas vezes devagar que dá pra entender. Ou seja, era sobrinho de uma amiga da nossa família. Diego – jamais, até hoje, consegui dizer o nome dele sem ter algo acontecendo dentro de mim – tinha dezessete anos, estava na mesma série que eu, o que me entristecia, afinal eu tinha treze anos. Mas eu era apaixonada demais para realmente me importar com alguma coisa.

O final de ano então se aproximava. Eu tinha uma amiga que era amiga da filha da amiga da família que era mãe de Diego. Ou seja, uma amiga que era amiga da prima de Diego. Mais fácil assim. Bom, eu tinha o costume de ir a casa dela para conversarmos quase nada importante. Ela era uns quatro anos mais velha que eu, o que fazia a conversa não ser idiota, mas ela se interessava por minhas questões adolescentes. Numa tarde, ela contou que tinha um amigo dela que estava interessado por mim. Um colega de escola dela.

— Ele sempre pergunta por você. Diz que vai namorar você. E vai namorar sério, para casar — Carla ria.

Eu o conhecia. Tipo, de vista. Sabia quem era. Eu estudava com um amigo dele, e como a cidade era pequena, todo mundo se conhecia, nem que fosse apenas por cara e nome. Fernando era um cara bonito, tinha a mesma idade que Diego, só que estava cursando a série adequada. Era uma vantagem.

— Sério? — eu estava admirada. Não imaginava mesmo que eu alguém se interessasse assim por mim. Casar? Poxa, eu tinha treze anos! Não podia acreditar que era tão bonita assim. Não era. Não sou. Jamais vou ser.

Era 31 de dezembro, saí com minha família para comprar algumas coisas para a noite. Bem, sobre minha família: eu, meu pai, minha mãe e meu irmão. Fomos numa loja de roupas, mas eu não estava muito afim. Fiquei na porta da loja, olhando o grande movimento na avenida, quando vi Fernando passando. Ele me viu, junto com meu colega de classe. Ele ficou sorrindo para mim, ignorando todo o movimento do trânsito. Olhava para algum carro ou moto, depois voltava o olhar para mim, e eu segurei o olhar de volta. Fitamo-nos até ele dobrar o canto e ir para casa, que ficava ali perto. Eu comecei a ter sentimentos por ele.

Tinha uma rede social na época, que a gente trocava mensagens instantâneas. Carla deu meu e-mail para ele e ele me adicionou. Conversávamos de vez em quando, e assim seguiu durante os dois primeiros meses do ano. Eu me apaixonava por ele, e sempre que víamos na rua, ficávamos encantados.

O que tinha acontecido com Diego? Bem, com o encerramento das aulas, não pude mais vê-lo, e eu não sairia correndo para saber onde ele morava. Não tinha celular. Na verdade, eu não tinha celular, então... Na verdade eu não era do tipo que procurava as pessoas, por mais que gostasse. Eu esperava sempre pelo destino. E foi isso o que aconteceu em março.

Diego apareceu de novo na minha vida.

Uma colega de classe me convidou para ir à igreja dela. Nunca fui chegada a essa coisa de religiosidade e tal, mas acreditava em Deus. Onde se falasse dele, eu poderia ir de boa vontade ouvir.

Era uma sexta à noite, e após o culto fiquei na porta da igreja enquanto minha colega conversava com as amigas dela. Eu me apoiava na coluna, esperando pacientemente, quando vejo vir na rua um menino aparentemente bonito. Quando ele se aproximou, reconheci Diego. E meu coração também o reconheceu e fez o maior alarme. Assim que ele me viu, falou com o primo dele, Eric, o filho da amiga da minha família, aliás, eles eram dessa igreja. “Eles” exceto Diego. Fiz leitura labial de Diego:

— Quem é essa aí?

Os dois me olharam logo em seguida, que sutil. Eric respondeu:

— Andrea.

Fiquei inexplicavelmente feliz com aquilo. Diego me olhou novamente, com um olhar mais firme e malicioso. Deus! Como eu o adorava. Minha colega me tirou do transe dizendo que já tínhamos de ir. Eu abracei então as amigas dela, e nesse momento do abraço, eu sorri para Diego, e para minha histeria ele sorriu de volta. Cara... O sorriso dele era ainda mais lindo do que... Do que qualquer coisa! Toda vez que abracei as meninas, eu sorria para ele e não me cansava receber seu sorriso perfeito...

Saí então da igreja com a colega, mais feliz por ter encontrado minha antiga paixão do que por ter participado do culto. Que Deus me perdoe!

Antes de me deixar em casa, Silvia me avisou que no dia seguinte teria um batismo e que gostaria que eu fosse assistir.

— Batismo?

— É, mergulho em água e tal. Tem todo um significado que eu posso explicar depois para você. Mergulho igual rio.

Rio, a ideia me encantou.

— Tudo bem, eu vou. Que horas?

Ela passaria na minha casa às sete e meia da manhã para irmos... Acordar às sete da manhã em pleno sábado? Parecia cruel, mas um bom banho de rio valeria a pena.

Eu consegui dormir naquela noite porque a imagem linda do sorriso incrível de Diego me acalentou. Como ele podia ser tão lindo, malicioso e encantador? Eu estava totalmente tragada, perdidamente apaixonada e tinha me esquecido de Fernando. Ele não poderia competir com minha antiga e primeira paixão. As palavras que troquei com Fernando foram sempre muito doces e me encantara muito com ele. Ele também me marcou profundamente, não somente nesses dois meses, mas nos meses que viriam... Sim, eu fiquei enrolada... Mas enfim, voltando a Diego...

O batismo seria num rio ali perto que há tempos eu não ia. Estava morrendo de saudade de mergulhar numa água gelada... Será que existia algo melhor? Sim. Diego. E ele estava lá para provar isso.

Eu paralisei. Surpresa com aquela coisa linda de óculos escuros. Meu Deus, meu coração ia arrebentar meu peito. Silvia percebeu o estado que fiquei e sorriu, mas não comentou nada. Gostava disso em Silvia. Ela não perguntava o que eu não contava.

O batismo fora interessante. E Silvia me explicou as coisas. Umas eu entendi, outras não fizeram o menor sentido para mim. Na verdade, era inacreditável que eu estivesse conseguindo me concentrar em alguma coisa com Diego ali perto de mim.

Depois da cerimônia, o banho foi liberado e a galera jovem simplesmente se jogou no rio. Eu também. Como eu já conhecia um pouco alguns deles, foi fácil me enturmar com a galera que por sinal era gente boa.

Sempre tem uma parte funda e legal do rio que só a galera que sabe nadar consegue ir. Eu queria ir. Pedi a Silvia que fosse comigo lá. Tinha uma árvore derrubada onde a gente podia sentar e não afundar completamente. Cheguei lá, feliz com meu feito, tentando evitar olhar para Diego para não perder minhas forças e me desconcentrar.

Depois de um tempo na parte funda (e perigosa) do rio, quis voltar para o raso junto com as criancinhas. Silvia tinha voltado para a terra e eu não quis pedir a mais ninguém que me levasse de volta. Como Diego estava ali, parecia o momento perfeito para finalmente falar com ele.

— Ei — eu disse após reunir todas as minhas forças.

— Sim?

Meu Deus, a voz dele me deixou anestesiada.

— Me leva ali? — e apontei ao raso.

— Tá — ele sorriu.

Pulei de onde sentava e envolvi meus braços em seu pescoço e até hoje não vivi nada melhor do que sentir nossos corpos unidos debaixo da água, mesmo que durante os segundos mais rápidos da minha vida.

— Obrigada — e sorrimos docemente.

Ele voltou para onde os outros, deixando-me com o olhar e o sorriso que eu mais adorava no mundo.

Se aquilo parecia bom demais para mim, a volta para casa seria ainda melhor. Na ida ao rio, fomos a pé, pois estava cedo e o sol não estava torrando. Mas agora perto do meio dia as coisas eram mais tensas. Tinha um homem da igreja que tinha um carro com aquele espaço atrás, tipo picape (eu acho, não manjo nada de carros mesmo). O pessoal jovem que não tinha outro meio de transporte se arrumou naquele pequeno espaço e partiu. Sentei ao lado de Silvia e do meu outro lado... Diego.

Não, não conversei com ele em momento algum. A galera tinha uma conversa animada que envolvia a todos e como estava todo mundo tão próximo, qualquer coisa que eu falasse a Diego seria ouvida por todos. Preferi apenas curtir a sensação da perna dele tocando a minha. Foi suficiente para mim.

Mantive contato com Silvia durante o dia e ela me convidou mais uma vez a ir à igreja dela, mas no domingo à noite. Por mais que eu gostasse das coisas divinas e tal, não pretendia mesmo fazer totalmente parte disso, como ela fazia.

— Vamos Andrea. Vai ser bom, você vai gostar.

Permaneci com minha cara de não vontade.

— Bem... — ela continuou, com outro tom de voz — Eric convidou Diego também, e parece que ele vai. Até porque ele pensa que você vai.

Era esse o meu ponto fraco?

Ri bastante e disse um “tudo bem”. E explodi de felicidade em saber que Diego também estava indo, mas especificamente por minha causa. Sei que era errado, principalmente se tratando das coisas de Deus e tal, mas... Como eu disse, eu era apenas uma estúpida adolescente apaixonada. Perdida, cega e completamente apaixonada por Diego.

E domingo à noite, lá estava eu na igreja. Muito bem vestida, como não fazia há muito tempo. Eu estava razoavelmente arrumada, não bonita. Pelo menos naquela idade eu não tinha como ser bonita assim.

Mas lá estava ele, vestido de preto, contrastando com a cor perfeita de sua pele, fazendo-o quase brilhar como um anjo. O cabelo castanho-escuro dele fazia leves pontas para cima, o que lhe caía como um estilo rebelde. Só que para ele, fazia-o simplesmente ser a coisa mais linda do mundo.

Depois do culto, fiquei na cola de Silvia enquanto ela falava com os amigos e eles também falavam comigo. Ainda não tinha associado todos os rostos aos nomes, mas um dia eu conseguiria, não? Foi quando Silvia finalmente se dirigiu a Eric, e eu a segui. E lá estava Diego ao lado dele.

Ela abraçou Eric, saudou-o e deu um aperto de mão a Diego, apresentando-se. Silvia me apresentou a Eric, o abracei. E então Eric me apresentou a Diego. Aí ele me abraçou.

Eu finalmente abracei Diego.

Os braços dele segurando suavemente minha cintura enquanto meus braços circulavam o pescoço dele e por segundos arrumei minha cabeça em seu ombro devem ter sido as melhores sensações da minha vida. Por sorte, elas se repetiriam muitas e muitas vezes.

Frequentei a igreja de Silvia e Diego fez o mesmo. Era onde nos encontrávamos, nos abraçávamos e conversávamos... Era tudo de bom para mim!

E assim as coisas seguiram. Víamo-nos lá e também depois da escola. Vez em quando ele me esperava na saída da escola e outra vez eu o esperava... Assim as coisas sucederam... Em junho ele me deu uma carta. Entre outras frases conhecidas, gostei de “Não quero que você sofra nem que me faça sofrer. Só quero que me ame do jeito que eu amo você”. Eu era a quem mais enviava cartas nessa história. Sempre dizendo que o amava. Até hoje sei que não menti em nenhum momento. Isso me alegra, mas também me assombra.

Os comentários sobre estarmos namorando rolaram. Algumas pessoas da igreja ficavam me perguntando isso, mas eu sempre negava, afinal para mim aquilo não era um namoro. Eu apenas gostava dele e ele de mim, nunca conversamos sobre iniciar um namoro e tal.

— Marcos me chamou uma vez e me perguntou se estávamos namorando — eu disse numa vez depois da escola. Era de tarde, ou seja, eu havia esperado a saída dele.

— E o que você respondeu?

— Eu disse que não.

— Tá.

O olhar dele era sempre delicioso para mim.

Todo o pessoal da minha sala sabia que eu estava com ele. Afinal era uma cidade pequena. No meu caderno havia o nome dele escrito em letras gigantes, cheio de corações e de “eu amo você”. Era meio bobo sim, mas quando você é uma garotinha de catorze anos, você é totalmente romântica e brega.