Confissões de Andréa em Crise
4 Capítulo 4 - Quando cheguei longe demais
Rafael apareceu de novo. Eu passei a atender mais os convites de Silvia, pois ia acontecer alguma coisa diferente na igreja, não me lembro de exatamente o quê. Naquela noite Rafael parecia diferente. Eu sempre achei que ele tinha algo familiar, que muito me lembrava de alguém. No final do culto, quando ele veio me abraçar e eu o olhei nos olhos, de uma maneira diferente de como sempre fiz, minha espinha congelou ao reconhecer Diego naquele olhar. Era como ter parte da minha antiga paixão de volta, em outro alguém, alguém que poderia não me fazer chorar e sofrer. Porém eu não conseguia vê-lo dessa maneira, apesar disso. Não conseguia vê-lo como um possível namorado, ou simplesmente me apaixonar por ele. Apesar disso, numa conversa com ele, online, resolvi contar-lhe uma proposta: uma amizade colorida. Ele aceitou e disse que já havia pensado nisso antes. Nós marcamos de eu ir a casa dele uma tarde, e sentada no colo dele, por pouco não cheguei a um orgasmo. Culpa do short jeans que eu usava. Foi simplesmente incrível e era excitante só de lembrar.
Durante os dias seguintes eu voltei a conversar com Daniel, pelo mesmo sistema online, essas malditas redes sociais. Nós não falamos muito sobre o passado, quer dizer, mais ou menos, pois parecia de novo acender aquela esperança de um futuro juntos. Mas ele me fez chorar mais uma vez. Disse que não tinha como isso dar certo. O que ele sentia por mim era desejo, não pensava em casar comigo. Eu fiquei triste, claro. Eu amava Daniel ainda. Quase tanto quanto amei Diego. Mas ele não sentia o mesmo. E era preciso que sentisse para que decidíssemos ficar juntos para sempre. Ele pediu desculpas por só pensar nessas coisas sobre mim e não conseguir agir de outra maneira.
— Eu sei o efeito que eu tenho em você — ele disse —. Assim como você sabe o que tem em mim.
— E eu queria que isso pudesse resultar em algo concreto. Deus, como eu queria! — eu começava a chorar. Por sorte ele não podia ver —. Ainda acho que merecíamos uma chance. Fosse Deus, o destino, sei lá! Seria um romance melhor do que qualquer escritor pudesse pensar... E eu voltaria a acreditar em romance.
Por mais que Daniel negasse as chances de dar certo, eu não conseguia mudar de ideia. Ainda era com ele que eu queria casar. Eu o amava e ele era simplesmente perfeito se não fosse pelo fato de ele não me amar também. Eu me sentia completamente idiota por acreditar que talvez quem sabe algo poderia acontecer, no futuro. Eu não podia deixar de amá-lo.
Nós paramos de conversar por umas semanas e eu fiquei novamente com Rafael. Foi simplesmente incrível, melhor coisa que já senti fisicamente. Eu queria sentir algo por ele. Queria que minha barriga esfriasse quando ele aparecesse na porta, ao me atender. Mas não conseguia. Nada era mais que simplesmente físico. Dessa segunda vez, as coisas foram mais insanas, parecia que realmente havíamos feito sexo, o que eu não faria com ele, segundo sua regra de vida cristã. Eu experimentei novas coisas, como por exemplo, sentir o pênis dele embaixo de mim. Eu estava com um short de tecido fino e ele também – propositalmente. E ainda aconteceu algo novo pra mim: enquanto nos beijávamos, ele pegou minha mão e puxou para que o pegasse, mesmo que por cima da bermuda dele. Senti, peguei como pude, como consegui. Senti a firmeza, a dureza. Foi uma coisa realmente nova...
Porém na mesma noite, conversei brevemente com Daniel, sobre qual seria o melhor fim do mundo: apocalipse zumbi, robótico ou alienígena. Uma conversa sobre nada, que ainda assim, foi muito melhor do que a tarde inteira com Rafael. Cheguei à conclusão que não importa o que você faça fisicamente, se não houver sentimento, não adianta muita coisa. É um pouco triste, pois só eu amo nessa história. Só há amor da minha parte. Desde que conheci Daniel, não me apaixonei por mais ninguém. Já estava a caminho dos dois anos desde que o conheci, mas eu ainda tinha o mesmo sentimento por ele. Eu não entendia por que. Eu mesma comecei a falar com Deus, a perguntar por que ele havia aparecido na minha vida se não fosse ficar nela para sempre, se não fosse mudá-la definitivamente, se não fosse aquele com quem eu dividiria a minha vida daqui em diante. Eu realmente queria isso. Mas se ele não, eu não poderia obrigá-lo. E isso me deixava totalmente quebrada. Já chegava há dois anos e Daniel não tinha sentimentos por mim. E talvez nunca tivesse...
Fiquei com Rafael ainda mais uma vez e não senti nada bom. Não foi prazeroso como das outras vezes porque minha cabeça não estava no lugar. Eu não sentia nada nos beijos dele, nem em suas mãos no meu corpo. Nada no meu coração, nada além do físico.
Então, na faculdade, um dia, encontrei Thiago. Aquele que terminou comigo porque eu escolhi esperar. Ele estava procurando por um trabalho por lá. Nós conversamos por um bom tempo e até voltamos pra casa juntos. Ele tinha um parentesco com Diego, eu descobri um tempo depois. Eles tinham um jeito de falar muito parecido. Aquilo me perturbava porque só me fazia perceber o quanto ainda era apaixonada, de uma forma estranha, por Diego. Nessa noite sonhei com Diego: nós finalmente tínhamos andado de mãos dadas pela rua, eu o abracei firmemente e nos beijamos de verdade. Foi um sonho incrivelmente perfeito. Quando acordei, desejei tanto que fosse tudo verdade, que eu e ele realmente tivéssemos uma segunda chance e que estivéssemos determinados a fazer dar certo, sabendo os sentimentos que tínhamos um pelo outro... Nesse momento, percebi que amava mais Diego do que eu achava que amava Daniel. Ele foi e sempre seria meu grande amor. Não sei se o verdadeiro, mas do jeito que eu o amava, sabia que nunca amaria igual. Mas de que me vale alimentar um sentimento impossível? Eu tinha de aceitar isso o mais rápido possível. Seria melhor pra mim.
Na mesma semana fiquei com Rafael uma terceira vez. Depois disso decidi que não ficaria de novo, sei lá. Era bom e tal, mas eu não sentia as malditas borboletas na barriga. Nas semanas seguintes nos falamos muito pouco mesmo. Eu vivia minha vida normal. Também tinha deixado Daniel de mão e tinha decidido esquecer Diego totalmente, mesmo que essa droga ficasse presa. Enfim, segui os dias.
Então eu sonhei com Leonardo. Aquele meu amigo queridíssimo, que tanto adorava e era “apaixonada” — aquele com quem fiquei enquanto ele tinha uma namorada vadia. Eu meio que estava pensando na minha vida, como seria ficar com certos caras. Pensei em Leonardo e soou bom. Pareceu que poderia dar certo, de alguma maneira, afinal, ele meio que era apaixonado por mim, sei lá. E eu adorava ele, éramos amigos e nos dávamos super bem, então, por que não? Afinal ele era um fofo.
Infelizmente eu ainda mantinha contato com Daniel. Mesmo ele morando nos Estados Unidos, eu não conseguia desconsiderar as possibilidades. Contei a ele sobre Leonardo e ele achou a ideia boa, afinal ele dizia que seria muito melhor se eu conhecesse alguém antes de acontecer o mesmo com ele, assim eu me “desprenderia” e não sofreria. A questão é que Daniel ainda tem a queda dele por mim, e quase cogitou a ideia de eu esperar que ele conclua a faculdade para tentar ficarmos juntos – isso depois de já termos nos encontrado pessoalmente durante esse meio tempo.
Pensar novamente nisso não me encheu de esperanças. Claro que me deu um pouco de alegria, mas eu sabia que essa era só uma daquelas promessas em que eu não devia acreditar. Enfim eu voltei a pensar em Leonardo e parecia mais concreto. A questão agora era contar a ele sobre meus planos de futuro.
Deixei isso um pouco de lado e tentei falar com Leonardo sobre os planos. Diferente do que eu esperava, ele foi grosso e me entristeceu ter de ver afundar a minha expectativa sobre nós dois. Ele disse que nunca daria certo, e outras coisas mais bem cruéis.
Esqueci de mencionar que durante essa minha trajetória de vida em relação a meninos, eu tinha um amigo com quem fiquei uma vez. Mas como não foi uma das melhores da minha vida, nem marcante, eu não comentei a respeito. Dias depois do desprezo de Leonardo, esse meu amigo de quem falei me procurou e eu já sabia quais eram suas intenções. Então nós ficamos. E teve outra coisa nova, caramba! Ele me puxou pra perto dele me pegando pela minha bunda, apertou e tal, e depois de um tempo, pegou a minha mão e levou para pegar suas partes por cima da roupa. Depois, ele abriu a calça, puxou a cueca e colocou minha mão diretamente no pênis dele. Imagina eu, como achei isso estranho e diferente. Caramba! Eu deveria fazer nele algo como masturbação, acho. Sei lá, só sei que o negócio foi ficando mais quente e eu me levantava em cima dele, pra tentar senti-lo embaixo de mim, só sei que paramos de nos beijar por não aguentar o prazer que vinha lá debaixo, HAHA. Enfim, eu tinha de ir embora e paramos tudo de repente. Esse que é o chato de você ficar com alguém que você não gosta. Você não o abraça depois, não anda de mãos dadas, não dá um beijo no rosto pra se despedir. Enfim. Eu queria isso, mais do que o sexo, o prazer, enfim. Queria o sentimento, a paixão, o amor de verdade.
Os meses passaram, e como passaram. Tudo extrema e completamente normal. Eu tinha ficado com o Rafael em maio, durante os meses seguintes, como eu havia dito, nós não nos falamos. Mas em agosto, repentinamente, tudo voltou como se nunca houvesse tido um intervalo. Nós nunca conversamos sobre os meses de silêncio, e eu nem entendo porque aconteceram.
Em setembro eu e Rafael fomos ao cinema, ver um filmezinho qualquer. Fez muito frio na sala de cinema e ele me abraçou. Foi uma coisa boa. Nós sempre tivemos o físico, mas naquele momento, foi algo sentimental. Pegamos um ônibus e enquanto estávamos conversando no terminal, esperando um ônibus – era começo de noite –, ele abraçou de repente, envolvendo-me em seus braços e eu abracei sua cintura, me aproximando de seu corpo e repousando minha cabeça em seu peito. Ele era muito mais alto que eu. Tinha olhos escuros assim como as sobrancelhas, que eram largas. Rafael tinha uma risada gostosa e uma voz mansa. Ouvi-la pela caixa torácica dele foi uma boa experiência. Senti as batidas do seu coração.
Desde esse dia, as coisas entre nós mudaram. Parecia que estava nascendo um sentimento. No outro dia ficamos novamente e foi muito bom. Nós conversávamos sempre, dando bom dia e boa noite, contando as coisas do nosso dia, e enfim! Marcávamos de nos encontrar no terminal quando eu saía da faculdade, para repetir aquele dia. E nunca queríamos nos separar quando o ônibus enfim chegava. Era a primeira vez que eu ficava triste porque o ônibus não atrasava.
Eu havia dito que não faria sexo com ele por suas questões cristãs, mas não foi muito bem assim que as coisas aconteceram. Numa vez que ficávamos e fiquei apenas de calcinha, ele a empurrou para o lado e esfregava seu pênis em mim, pois assim não estava desobedecendo a regra de si manter virgem até o casamento (mas o que é virgindade afinal?). Pouco tempo nesse movimento, e aquele líquido branco saltou para cima, pegando na minha coxa e também na camisa dele. Eu, como uma boa menina de 18 anos, que morria de medo de engravidar, me desesperei e meio que corremos para o banheiro para nos limpar. Ficamos conversando depois.
— Você deveria ter me avisado – eu disse –. Por mais que o risco seja mínimo, é melhor estar livre de preocupações – e passei minha mão pelo braço dele, porque todas as suas veias estavam destacadas.
— Achei que você ficaria com nojo ou algo assim.
— Não, claro que não! Apenas medo pelo perigo. Da próxima vez, me avise.
Ele sorriu e voltamos a nos beijar incessantemente. Eu passei a planejar essa próxima vez, em como eu queria que fizéssemos, pois ele não se importava mais com regras religiosas. Ficamos outras vezes, e eu sempre planejando O Dia. Falei sobre isso com ele e marcamos o dia, que caiu em primeiro de outubro. Ele havia comprado a camisinha, e eu calculei meu período fértil. Seria perfeito.
Era uma tarde quente, mas no quarto dele havia um ventilador grande. A cama era espaçosa – ao contrário da minha, onde havíamos ficado anteriormente. Eu saí da faculdade direto pra casa dele. Levei minha roupa pra trocar. Tomei banho e me enrolei numa toalha dele. Sentei na cama enquanto Rafael se preparava. Ele chegou ao quarto, tirou minha toalha, me beijou me pegando fortemente pela cintura e me fez deitar.
O cheiro de frutas vermelhas era forte. A camisinha parecia bem colocada. Sentei no colo dele, e tentava-o fazer entrar em mim, mas doía tanto!
— Andréa, se doer muito, não faz! Deixa pra momento certo — ele dizia, mas eu sentia em cada palavra que ele queria me ouvir gritar de dor.
Tentei um pouco mais e desisti. Voltamos ao de sempre enquanto eu gemia no ouvido dele até aquela camisinha se encher de branco. Eu sempre adorava os momentos pós-quase-sexo, pois nós conversávamos sobre inutilidades bem abraçados, curtindo a companhia do outro, não apenas por questões físicas, mas porque gostávamos da essência invisível do outro. Ele me abraçava na cintura, eu beijava seu pescoço, ele amaciava meu cabelo, me fazia arrepiar, beijava minha testa, passava a língua na minha bochecha... Isso aconteceu ainda na mesma semana, essa coisa romântica, e nós concordamos que esse momento de romance foi de certa forma melhor que nossa tentativa de sexo, o que significava que começávamos a ter sentimentos um pelo outro. Nós ficamos abraçados, na cama dele, conversando, nos fazendo rir com cócegas, nos beijando vez em quando, eu tentando mordê-lo com força, ele colocando a mão por dentro do meu short e eu por dentro da cueca dele, sentindo sua tensão. Foi uma tarde incrivelmente boa. Nas semanas seguintes nós repetimos de nos ver no terminal, e todas as pessoas da igreja dele suspeitavam de que estávamos namorando porque quando eu ia, que ele me convidava – não mais a Silvia – eu falava pouco com ela e ficava conversando com ele o tempo todo depois do culto. Eu gostava da sensação, de finalmente estar gostando de alguém que me correspondia, que gostava da minha companhia não somente quando estava sem roupa, mas que achava meu sorriso cativante, gostava de ouvir minha voz, e me achava inteligente. Alguém que mesmo depois de ter quase obtido todo o meu corpo, ainda queria conhecer minha alma.
Num momento súbito de prazer, numa das nossas tardes quentes e mal programadas, cheias de medo e apreensão, que aumentam nossa tensão e apetite pelo proibido, eu tentei convencê-lo de mais uma vez tentarmos, sem desistir. Inicialmente a razão falava por ele, o sorriso no rosto denunciava seu desejo, mas ele tentava manter a cabeça no lugar. Voltamos a nos beijar bem simplesmente, até que ele sucumbiu ao desejo carnal, e deitou em cima de mim. Colocou-se para fora, assim como eu também. Tentei aliviar a tensão que me fazia me contrair, porque sentia uma faca entrando em mim. Devagar ele agia, ao ver a dor exprimida em minha face. Saia, mas voltava quando eu dizia tente outra vez. E em meio a minha expressão de dor, minhas sobrancelhas franzidas, minha boca começando a se abrir, nós sentimos que enfim havia entrado, e horas depois ele me descreveria a sensação ótima que teve, quanto a mim só coube a dor. Alguns breves segundos ele se movimentou, mas ele estava tenso – mesmo que eu estivesse a um dia de sangrar – ele não quis fazer seu festejo ainda dentro de mim. Mesmo quando ele havia saído, eu ainda sentia a dor, que se espalhava pelo meu corpo, em especial minhas pernas. Depois de nossa despedida, vi um sangue em minha calcinha, aquele sangue fino e pouco, e então tive a certeza de que eu tinha dado adeus ao que prometi que guardaria até o grande dia.
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