Confissões De Uma Adolescente
9 Parque de diversões
Notas iniciais
Fiquei de roupão pensando em tudo isso e quando percebi já estava sentada ali na cama havia um tempo. Logo lembrei que estava menstruada e quando levantei já era tarde. Tinha manchado todo o meu lençol. Puta merda! Me limpei e me troquei rapidamente, desci e coloquei o lençol pra lavar. Olhei pro relógio e vi 16:05. Mas já?! A empregada estava de folga e minha mãe iria reclamar se chegasse do serviço e a casa estivesse suja. Na verdade ela não estava, mas minha mãe fazia questão que fosse limpa todos os dias. Dei uma varrida rápida e depois fui comer. Estava no tédio, sem saber o que fazer e ninguém pra conversar já que a Ju tinha saído com o João e os outros amigos dela. Subi pro meu quarto e entrei no skype, vi que o Lucas estava online mas eu não o chamei. Da última vez que eu o chamara ele ignorou. Em menos de dez minutos, ele me chamou. Eu não queria atender, estava chateada com ele mas simplesmente não conseguia ignorar. Atendi só a chamada de voz, não queria que ele me visse. Não sei o por que, mas não queria.
-Você não vai ligar a câmera? -O Lucas perguntou.
-Não. To de pijama, com a cara toda amassada. -Menti e estava torcendo pra que ele não insistisse.
-Ok. -Ele não fez questão e nós continuamos a conversar.
Confesso que no começo da conversa eu estava um pouco distante e fria, mas logo passou. Era como se eu não estivesse mais brava com ele e estivesse tudo bem entre nós. Na verdade estava, ele era um bom amigo, meu melhor amigo. Falar com o Lucas me trazia paz, eu sabia que poderia confiar nele e por isso sempre contava tudo. Por mais que ele ás vezes ficasse bravo, como da última vez, nós sempre nos acertávamos depois. Porém, achei melhor não falar que estava em dúvida sobre a minha orientação sexual. Acho que ele iria me matar via skype. Jamais duvide do seu melhor amigo.
O Lucas tinha curso então desligou a chamada. Eram 21 hrs. Caramba! Ficamos rindo e conversando tanto que nem vi o tempo passar. Ouvi os gritos da minha mãe dizendo que era pra eu descer pra jantar, foi o que eu fiz. Depois da janta fiquei na sala assistindo um pouco de tv com os meus pais e minha irmã, como uma família normal. O que raramente acontecia. Nós não passávamos um dia sem discutir, então era bom aproveitar esses momentos. Minha mãe e meu pai contaram como havia sido o dia deles, o que eles fizeram no trabalho etc, o que era um milagre. Perguntaram sobre o meu dia e o da Ju, nós contamos, mas não detalhe por detalhe, né.
Mais tarde subi pro quarto e já estava caindo de sono pois tinha levantado cedo, então fui dormir. Acordei no meio da noite sentindo que tinha alguém no quarto. Mais precisamente junto comigo, sim, na minha cama. Fiquei assustada e me virei pra ver o que era. Se eu realmente estava endoidando ou não. Quase caí da cama porque tinha sim uma pessoa dormindo comigo, a Juliana.
-Ju? Ju? Juliana porra! -Cutuquei ela fazendo-a acordar.
-O que é isso? Ta louca? -Ela acordou e sentou na cama assustada.
-Eu que perguntou. Você ta louca de vir pra minha cama?
-Ai Carol, é que tinha uma lagartixa no meu quarto e eu vi quando acordei pra ir beber água. Aí é claro que não ia conseguir domir sabendo que tinha um bicho ali, então vim pra cá.
-Tá, mas e por que você não abriu a cama debaixo e deitou lá? Ta super apertado aqui.
-Ah, eu nem lembrei que é bicama. Me deixa dormir, vai.
-Primeiro você vai levantar da MINHA cama e vai pular pra debaixo, se quiser, se não você volta pro seu quarto.
-Carol, não vou sair daqui. Aqui ta quentinho e se eu for pra outra cama vai estar gelado o colchão etc. Deixa eu dormir em paz!
Depois de muita discussão no meio da madrugada eu fui obrigada a descer para a outra cama e deixar a Juliana ficar na minha. O que era muita injustiça!
Acordei no outro dia com uma música alta. Abri os olhos e vi a Ju dançando e cantando na frente do espelho, ainda de pijama e com os cabelos bagunçados.
-Ô Juliana, será que dá pra parar? -Eu perguntei irritada.
-Não! Vai, vamos, levanta dessa cama!!! -Ela respondeu animada.
-Eu não vou levantar agora porque são... -Olhei para o relógio. -São oito da manhã. Oito! -Repeti tentando fazer com que ela entendesse que ainda estava muito cedo.
-Então, oito da manhã! Já está mais que na hora de acordar. -A Ju me provocou.
-É sério, porra. Eu quero dormir, e além do mais, você está no meu quarto. M-E-U quarto.
-Ta bom, eu vou pro meu. Chata!
Parecíamos duas criancinhas brigando e pirraçando uma a outra. Depois que ela resolveu sair do meu quarto eu pude voltar a dormir. Fui acordar bem depois, ás duas da tarde. Me arrumei rápido e desci pra almoçar, já que já tinha passado da hora do café, e do almoço também, mas... hahaha. Gritei "alguém" pra ver se tinha alguém em casa mas ninguém respondeu. Fui até o quarto da Ju e ela não estava lá, meus pais estavam trabalhando e a empregada estava lá embaixo na lavanderia. Desci até lá pra ver se ela tinha conseguido tirar a mancha de sangue do meu lençol e parece que tinha saído. Ainda bem!
Passei o resto do dia assistindo tv e no computador. Meu celular começou a tocar e era minha mãe.
-Alô?
-Carol, hoje seu pai e eu teremos que fazer plantão aqui no hospital, então ACHO que estaremos aí só amanhã depois do almoço. Tudo bem?
-Ata, tudo bem mãe. Eu e a Ju ficaremos bem.
-Que bom. A Lúcia ta ai?
-Tá sim, lá embaixo lavando as roupas.
-Pede pra ela regar as plantas e pergunta se ela já limpou a piscina, por favor.
-Ta bom, mãe. Beijo, tchau.
-Beijos.
Fiz o que minha mãe pediu e mandei um sms pra Ju.
"Você vai demorar? Preciso da sua ajuda pra uma coisinha."
"Que coisinha?"
"Minha roupa. Hoje vou sair com a Babi e quero que você me ajude"
"Tá, pode deixar. Vou chegar aí daqui meia-hora."
Fiz minhas unhas enquanto esperava a Ju e logo ela chegou.
-Ainda bem, achei que não ia chegar nunca! -Eu reclamei.
-Ih, relaxa. Vocês marcaram só as oito, né? São seis e meia ainda. Tem muito tempo.
-Tem nada, porque não sei se você tá lembrada mas você demora um século pra escolhar roupas.
-Mas eu já sei qual você vai usar.
-Já? Qual?
-Aquele vestido que eu comprei pra você mas nunca usou.
-Ah não, Juliana! Você sabe que eu odeio vestidos. E não posso usar coisas que apareçam o braço e os pulsos. Esqueceu?
-Sobre isso eu também já pensei, e você vai ficar linda naquele vestido.
-Vestido é muito "menininha". Eu não gosto disso, não sou assim, tão delicada.
-Relaxa que eu vou dar um jeito. Pega ele que eu já tenho ótimas ideias.
Depois de um tempo eu estava pronta. Vestido, várias pulseiras pra dar um estilo mais "punk" e um salto não muito alto.
-Juliana, eu vou pra um parque de diversões. Com certeza a Babi vai estar de calça e tênis e você quer que eu vá de salto e vestido, se liga!
-É, pensando bem... Pode trocar o salto por aquela sapatilha, vai ficar bom. Mas nada de trocar o vestido. Você ta linda.
Discutimos sobre o meu visual, até que ela me convenceu a ir daquele jeito. Até que não estava tão ruim.
-Ah, Ju! -Eu lembrei de avisar antes de sair. -A mamãe ligou e disse que ela e o papai vão fazer plantão no hospital e só chegarão amanhã depois do almoço.
-Oba, então hoje eu não tenho hora pra chegar em casa, haha! Vou sair com o pessoal, então não me espere a noite.
-Ta ok, mas juízo hein!
-É o que eu mais tenho. -Ela riu.
Sai de casa e fui a pé mesmo até o parque porque não era longe. Eram oito horas certinho e eu ainda estava na metade do caminho, que droga. Dez minutos depois lá estava eu. Parada em frente ao parque e nada de Babi... Será que ela tinha me enrolado? Não queria acreditar nisso. Resolvi ligar pra ela.
Chamou várias vezes até que ela atendeu.
-Oi Carol, cadê você?
-Ué, eu to aqui. Na frente do parque.
-Eu também, não to te vendo.
-To aqui onde tem uma placa bem grande escrito "estacionamento".
-Ai Caroline, você tá na saída do parque!
-Sério? Puts! -Nós rimos.
-Sim, fica aí que eu to indo.
Não demorou muito e ela chegou.
-Ô cabeção!!! -Nós rimos alto.
-Nem percebi que aqui era a saída. Juro como pensei que fosse a entrada, até fiquei olhando pra ver se eu conseguia ver você, achei que você tinha furado.
-Claro que não! Enfim, você ta linda.
-Obrigada. -Eu corei. -Você também. -Sorrimos.
Bárbara estava com uma saia curta, uma regata e uma rasteirinha.
-Então, em qual vamos primeiro? -Eu perguntei animada.
-Quero muito ir na montanha-russa. Gosto de adrenalina. -Ela respondeu séria e aquilo me deixou um pouco assustada. "Gosto de adrenalina"...
-Eu também, então vamos!
Ficamos na fila, demorou um pouco mas conseguimos ir no primeiro carrinho.
-Ai, socorro! -Eu gritei ainda com os carrinhos parados.
-Você quer sair? -A Babi perguntou preocupada.
-Não, é que sempre dá um friozinho na barriga antes de começar, aí fico nervosa. -Eu ri.
-Ah ta. -Ela riu também. -Pode segurar a minha mão. Se quiser, é claro.
Ela estendeu a mão e eu segurei, mas não disse nada. Nós nos olhamos e sorrimos. Os carrinhos começaram a andar e foi aquela emoção uhuehueh. Depois nós fomos comer, lá no parque mesmo e alguma coisa estranha aconteceu comigo. Me deu tontura e calafrios por todo meu corpo. A Babi percebeu e me fez sentar e foi buscar água. Parecia que algo ruim iria acontecer e eu estava sentindo aquilo. Difícil explicar. A Babi voltou com a água, eu bebi e logo depois fiquei bem.
-Você quer ir embora? -Ela perguntou.
-Não, já tá tudo bem.
-Tem certeza? Acho melhor a gente ir e passar no pronto-socorro.
-Não Babi, sério, to normal. Em qual brinquedo a gente vai agora?
-Você é doida! -Nós rimos.
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