Confie em Mim
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Tenho pena da Charlotte; tão jovem e já tão desiludida no amor! É tristemente poético sentir um coração se quebrar feito uma rosa emurchecida.
Minha doce Charlie, se ao menos soubesse que por quem chora não merece suas lágrimas, essa chuva sagrada na qual você o abençoa está sendo desperdiçada, pois aquele maldito corpo renega este gesto singelo de devotamento e afeição. Como queria que chorasse por mim...
Meus conselhos procuram penetrar em sua consciência; eu só quero que ela me escute, reflita sobre o tormento que aflige sua tenra existência, mas minha voz choca-se com a sua, meus fatos parecem fracos diante de sua fantasia de que um dia, um glorioso, longínquo e ensolarado dia seu amante perceberá que Charlotte sempre foi seu verdadeiro amor e ambos serão felizes.
Minhas forças se esvaem; nem ao menos o ódio se manifesta. Envergonho-me por transparecer a mais pura piedade e sei que Charlie me odeia por isso. Todavia, ela sempre foi assim.
Em nossa infância, lembro-me de irmos a inúmeras festas de chá que uma garotinha chamada Beatriz organizava em sua casa. Beatriz era loira, de olhos azuis e pele tão clara feito leite fresco, uma perfeita boneca. Dona de uma alma já tão tristemente podre, a menina sabia muito bem manipular todos ao seu redor, usando suas maiores riquezas a seu favor. Era somente piscar aqueles olhos de safira, sacudir aqueles cachos de ouro ou ao menos sorrir mostrando as pérolas entre seus finos lábios que todos se deleitavam.
Lotte a adorava; Beatriz era uma forma de deusa para ela. Ignorava a injusta repartição dos biscoitos dos quais acompanhavam o chá — que na verdade não passava de leite com chocolate — e aceitava as fantasias que saíam daquela boca quase sempre entupida. O que me aborrecia era o fato de Charlie sempre voltar para a casa sem mais uma de suas bonecas. Ela nada dizia à mãe, por mais que a aconselhasse, sua alma pueril preferia acreditar que tudo estava bem e logo veria suas filhas de novo.
Certa vez, senti que minhas palavras estavam surtindo efeito. Lembro-me como se fosse hoje de minha amiga tomando coragem para reclamar suas bonecas, salvando-as das mãos melosas daquela tirana fantasiada de anjo. Parte de mim preparou-se para o escândalo iminente que Beatriz faria; sem dúvidas não daria o braço a torcer, não entregaria algo tão facilmente. Isto ia contra a sua natureza mesquinha, contudo o silêncio nos rodeou e sentíamos o hálito quente dele queimando em nossos rostos. Infelizmente, a quietude estava ao lado de Beatriz, dando-lhe tempo para pensar em uma saída, algo astuto e ardiloso.
Dois segundos, no máximo três bastaram para acontecer, rápido demais para uma criança, talvez até para qualquer um; seria impossível impedir.
O leite com chocolate escorria pelos cabelos dourados de Beatriz, os fios amarronzados curvando-se por seu semblante ora pacífico, enquanto esperava a última gota contida na xícara de porcelana cair, ora retorcido em choros e gritos, apelos que trouxeram a presença de alguém quase idêntica à sua figura gorducha, a não ser pelo fato de ser magra, a pessoa mais magra que eu já havia visto.
Palavras venenosas acusavam Charlie de ter cometido aquele ato maléfico; lágrimas falsas que comoveram o ingênuo coração da cópia quase perfeita de Beatriz, sua mãe; a mulher deslumbrante que obviamente a filha não seguira esteticamente o exemplo. Eu a vi vociferar duros sermões na direção de minha querida Lotte e, o pior, eu a vi chorar, a lamúria dos injustiçados, os diamantes quebrados que abafaram a voz da defesa.
Eu estava ali. Tentei argumentar, impedir que minha amiga fosse tratada de tal inacreditável maneira, mas era inútil. Beatriz começou a sugar a vitalidade primeiro dos que conviviam com ela; aquela mulher diante de nós não possuía mais o dom da visão, da audição ou sequer da crítica — estava dominada pela força sombria trajada de pureza que chamava de filha — ela não acreditou em meu apelo, minhas palavras de nada adiantaram senão para nutrir a pequena raiva que passou a sentir de minha amiga. Eu havia piorado a situação. Contudo, jurei que aquilo não ficaria assim.
Charlotte sempre foi meu maior tesouro pelo simples fato de possuir o perdão aquecendo sua tão tenra alma. O que aconteceu naquela tarde de sábado por ela foi esquecido, mas por mim não. Eu havia gravado aquilo em meu peito e jurei a mim mesma que Beatriz teria de pagar por seus pecados. Como pode alguém tão jovem já dominar as estradas tempestuosas da ganância, gula e orgulho? Essa garota teria seu castigo.
Após o ocorrido, um peso saiu de meus ombros quando a família rica de Beatriz cortou laços com a família de Charlotte; finalmente eu a tinha só para mim. Fazíamos tudo juntas: eu sempre deixando-a comandar as brincadeiras, pois surpreendia-me com tamanha inocência e imaginação. Charlie, além disso era justa, não permitindo que eu fosse apenas uma mera coadjuvante de suas histórias, mas a protagonista, ao lado dela. Infelizmente isso durou pouco.
Beatriz decidiu ter de volta Charlie em sua vida, afinal, minha menina era seu melhor bode expiatório: não podia ficar sem ela. Sua bela mãe ligara para a casa de Lotte dizendo que a garotinha mimada sentia falta de minha amiga e queria fazer as pazes, e assim Charlie caiu como uma patinha e perdoou a pequena víbora, aceitando-a de braços abertos.
Os sábados torturantes voltaram, as tediosas fantasias de uma menina convencida enchiam nossos ouvidos e arranhavam nossas mentes de um modo perturbador. Eu não mais suportava aquilo tudo, porém, não deixaria minha querida amiga sozinha.
Houve um momento no qual Beatriz interrompeu a brincadeira dizendo que iria ao banheiro e logo voltaria. Eu disse à Lotte que iria com ela, pois também estava apertada, mas era mentira. Precisava daquela oportunidade para andar pela casa, seguir aquela criança, porém para minha decepção ela fora realmente ao banheiro. Contudo, aquilo não me garantia que Beatriz não iria fazer nada contra Charlotte, uma vez que eu mesma vira a sanha em seu olhar quando Lotte tentou reivindicar suas bonecas de modo corajoso. Certamente ela estaria planejando mais alguma coisa injusta para Charlie e eu não iria deixar que aquilo acontecesse.
Fui até a cozinha, subi em uma cadeira encostada à pia e pude observar minha amiga se divertindo sozinha, saboreando educadamente seus quatro biscoitos e bebericando seu leite com chocolate. Mastigava com a boca fechada e mal se ouvia o som da xícara tocando o pires, tamanha era a sutileza que possuía a minha menina! Ah, eu faria qualquer coisa por ela... Sim, faria qualquer coisa para vê-la livre daquela horrível companhia que era Beatriz e, mesmo que me odiasse, saberia que ela não mais seria a marionete daquele lobo em pele de cordeiro.
Meus olhos me guiaram até a embalagem fulgurante do detergente ao lado da torneira. A luz batia no frasco de plástico e fazia o líquido transparente reluzir como se houvessem gotículas de diamantes ali dentro. Segurei a embalagem em minhas mãos e, ao descer da cadeira, fui ao encontro de Lotte no jardim.
Ao sentar-me, olhei profundamente nos olhos de avelã de minha querida amiga e, muito seriamente, indaguei:
— Você confia em mim?
— É claro, Suzana! — respondeu ela dando-me um leve sorriso, gesto que me fez ter ainda mais certeza de meu futuro ato.
Enfim, levantei o frasco de detergente que trazia escondido em minhas costas. De início, percebi que Charlie não compreendeu o que eu estava fazendo com aquilo em minha mão, porém, depois, pude vislumbrar seu rosto agitado, espantado ao presenciar-me despejando grande quantidade daquele líquido transparente na bebida de Beatriz.
— Suzana, o que está fazendo?
— Você disse que confiava em mim — disse a ela enquanto jogava a embalagem embaixo da mesa. — Então acredite quando digo que logo estaremos livres desta balofa. Você vai ver.
Não demorou muito para que Beatriz retornasse. Ela trazia no ar um cativante perfume de rosas o qual certamente vinha do sabonete que usara para lavar as mãos. Temia que a menina notasse a expressão amedrontada no semblante de Charlie, seus olhos fixos na xícara da falsa colega enquanto seus dedos se retorciam. Porém, nem sequer olhou para Lotte. Sentara-se e se encarregara de devorar os biscoitos remanescentes num lindo pote de vidro azul e praticamente sorveu o líquido parecendo uma betoneira que me embrulhava o estômago.
Num momento em que Beatriz conversava com Charlotte sobre sua semana na escola, banalidades vindas de uma menina simplória e odiosa, ela começou a coçar os olhos e os braços, alegando também sentir uma forte dor no estômago. Não podia deixar que visse meu sorriso eufórico, mas, mesmo que eu estivesse gargalhando, a menina parecia não notar, pois só tinha olhos para Charlie, olhos estes que naquele instante estavam vermelhos e lacrimejando.
Seus choros e gritos atraíram sua cópia delgada, esta expôs o desespero materno em seus olhos de safira, tão belos e tão sem vida a maior parte de seu tempo. Não se demorou a ligar para o hospital, aliás, tudo passou tão rápido, a ambulância, a chegada da mãe de Lotte, a briga entre as duas mulheres, uma acusando Charlie de ser uma psicopata que tentou envenenar Beatriz; a outra perplexa, apenas ouvindo tudo.
Charlotte estava com medo. Podia ver em seus olhos de avelã: a luz havia sumido. Ela estava assustada, preocupada com o destino da falsa amiga. Tudo que fiz foi abraçá-la, segurá-la fortemente em meus pequenos braços, senti-la tão próxima a mim e mostrar que eu a amava, que eu era sua verdadeira amiga e que não deixaria nada nem ninguém feri-la, nunca.
Não digo que foi sorte ou talvez um milagre, mas conseguiram salvar Beatriz de um destino por todos tão temeroso.
Quanto a Charlie, recebera um castigo injusto. Seis meses sem seus brinquedos, lápis de colorir, nada que a proporcionasse diversão, sem contar que passou a ter consultas regulares com uma psicóloga infantil. Até me ofereci para ir com ela ao consultório, e, mesmo se ficasse no banco de espera, pelo menos eu estaria lá, todavia se recusou alegando estar muito zangada comigo e aquilo foi duro para mim.
Nos dias de consulta, eu a esperava em seu quarto; queria fazer uma surpresa na esperança de ela me perdoar. Não fiz por mal, apenas pensei em dar uma lição naquela garotinha desprezível! Minhas tentativas foram em vão. Charlie passou todos os seis meses me ignorando como se eu fosse um móvel de seu quarto.
Nossa amizade só foi retomada quando a presenteei com um broche de prata que encontrei no parquinho enquanto brincava sozinha. Ela havia ficado encantada pelo objeto e voltou a me adorar. Disse a ela para que o guardasse bem e não deixasse ninguém vê-lo, pois este passou a ser nosso amuleto, o objeto precioso, quase sagrado o qual trouxera minha querida de volta para mim.
Quando éramos um pouco mais velhas, lá pelos nossos dez anos, enquanto passeávamos pelas ruas aparentemente tranquilas de nosso bairro, três garotos se aproximaram abordando-nos. Um deles, alto e magricela, jogou-me na parede e me fez assistir à cena na qual o provável líder, um robusto menino por volta dos seus doze anos, empurrava Charlotte e, aproveitando que ela caíra e ralara o joelho, subiu em sua bonita bicicleta rosa adornada de fitas coloridas. Vimos o trio sumir ao virar uma esquina, dois em suas bicicletas envelhecidas e o terceiro, ladrão e agressor, no singelo e querido presente de minha adorada Charlie.
A informação de que seu precioso meio de transporte fora roubado entrou por um ouvido de sua mãe e saiu pelo outro. A criatura omissa diante de nós nem mesmo procurou confortar a filha, apenas nos retrucou que não havia nada a ser feito e Lotte devia ter sido mais cuidadosa. Tive pena de minha amiga. Era um serzinho forte por fora, todavia eu enxergava sua fragilidade, sabia que estava entristecida e lamentava ainda mais a negligência da mãe do que a falta de seu terno presente dado por uma tia.
Mais uma vez eu tinha de ajudá-la.
Passeando pela pequena praça salpicada de árvores e bancos que embelezavam aquele bairro monótono, notei a presença do trio de marginais a alguns metros de mim. Escondi-me atrás de um dos bancos acinzentados de concreto frio e vislumbrei as figuras distintas que por dias não saíram de minha memória. Ao lado deles, havia três bicicletas inclinadas; duas delas eu reconhecia facilmente — o modelo rude as entregava — no entanto, a terceira chamou-me muito a atenção.
Os canos estavam revestidos com uma tinta preta mal distribuída, rachada, entregando alguns pontos rosados que mesclavam o objeto, tiras curtas presas ao guidão tremulavam acompanhando o vento, os pneus lisos e gastos, uma aparência tétrica, realmente era de partir o coração! Aquela certamente era a bicicleta de minha doce Lotte.
Não contei a ela, não poderia. Seria muito cruel, contudo imaginei que minha amiga e sua bicicleta precisavam ser vingadas.
Naquela noite, enquanto Charlie dormia, esgueirei até o quarto de sua mãe cruzando-o em passos tão lentos e silenciosos que poderia jurar que eu estava flutuando. Secretamente, furtei um objeto de sua escrivaninha, saindo do cômodo antes que a mulher acordasse e voltando aos aposentos de Lotte para que esta não fizesse o mesmo.
Na tarde seguinte, corri até a pracinha e, para a minha alegria, os valentões estavam ali reunidos em torno de um banco jogando algum estúpido joguinho de cartas enquanto suas bicicletas estavam estacionadas a pouco mais de dois metros deles. Um golpe de sorte foi a passagem de um carrinho de sorvetes. Não sabia quanto tempo teria de esperar até ter a oportunidade de agir.
Sabia que esta seria minha única e vital chance e teria de aproveitá-la. Aproximei-me com cautela, sem tirar os olhos daqueles delinquentes gulosos se fartando em volta do carrinho; do bolso de meu casaco retirei um fino estilete projetando sua lâmina para cima e pus-me a cortar os freios da bicicleta cuja qual pertencia à minha amiga. Meus pensamentos estavam todos focados nela, em seu rosto desamparado quando os viu sumir no horizonte levando mais um de seus pertences e a desilusão por parte dos adultos que lhe ensinavam que não valia a pena lutar por algo. Mas isso não ia ficar assim, não se dependesse de mim. Lotte iria ter sua merecida vingança.
A lâmina cortou aqueles cabos como se fossem manteiga. Rapidamente me escondi atrás de um arbusto e fiquei observando o momento em que os meninos voltavam com suas bocas lambuzadas e exprimindo a negligência de seus pais no quesito educação por meio de altos e repulsivos arrotos. Cada um pegou uma bicicleta e, com certeza, seguiriam para suas casas. Eu teria de ver se meu plano funcionaria, assim os segui apenas com passos rápidos para que não pudessem me descobrir e então veio o segundo golpe de sorte daquele dia: o trio teria de descer uma ladeira para chegarem aos seus destinos; agora era a hora de minha vingança ser concretizada.
Despreocupados entre risos e piadas, os meninos inclinaram as bicicletas deslizando pela rua, dois deles controlavam facilmente seus meios de transporte apertando de quando em quando os freios, porém o terceiro exprimia uma terrível confusão em seu rosto, pois por mais que puxasse o manete contra o guidão, nada acontecia, parecia até que o veículo estava indo cada vez mais rápido.
Pude ouvir seus gritos desesperados diminuindo ao passo que sua velocidade aumentava e, assim, seguiu-se o terceiro e último golpe de sorte. Eu realmente acreditava que algo ou alguém estava a meu favor naquele dia!
Um carro passava tranquilamente na rua debaixo e não percebeu a bicicleta desgovernada se aproximando. O garoto deslizou direto por debaixo do veículo quebrando as duas pernas, sem contar que partes de seus braços foram esfoladas no contato com o asfalto. Infelizmente, o menino sobreviveu, pois seus amigos berraram para o motorista frear antes que as rodas traseiras passassem por cima de sua barriga flácida.
Não consegui ver muita coisa depois disso, apenas um grande desespero por parte do motorista agitado. O homem tirou do bolso seu celular e, creio eu, ligou para a emergência enquanto os colegas tentavam retirar o ladrãozinho debaixo da carroceria.
Não havia mais nada a se fazer ali, resolvi voltar e contar tudo à Lotte. Sua reação foi algo inesperado para mim. Pensei que ficaria contente em saber que seu algoz teve o que merecia e por isso aprenderia a nunca mais roubar as coisas dos outros, mas ela só me encarou, arfante e lutando para não chorar. Por que ela choraria?
— Você não devia ter feito isso! — era só o que ela sabia repetir.
Não podia compreender tal comportamento de sua parte, pensei que ficaria feliz ao ouvir meus feitos, afinal, tudo que fazia era por ela, tão e somente para vê-la bem, porém nada estava bem. Charlie só sabia repetir que crianças boas não faziam este tipo de coisa.
Confesso que não me importava com seus sermões. Certamente só estava agitada demais para entender, para enxergar o motivo real de minhas ações. Não importava quanto tempo levasse. Um dia. Um glorioso, longínquo e ensolarado dia, Charlotte perceberá que tudo que faço e fiz, foi por amor a ela.
Charlotte conheceu Lúcio na quinta série. No início, ela não gostara muito daquele garoto gordinho e desajeitado tentando se encaixar em um grupo de sua nova turma. Lotte lhe chamou atenção, creio que pelo fato de ela não ser como as outras garotas. Enquanto as outras só pensavam em maquiagem e Justin Bieber, Charlie adorava passar horas desenhando anjos e ouvindo nossa banda favorita: Nickelback.
Lúcio sentiu-se atraído pela energia diferente de Charlie. Eu mesma podia notar o modo que os olhos castanhos dele se iluminavam quando a ouvia falar da hierarquia celestial, sobre os piores filmes que já havia visto e como sabia pronunciar corretamente as palavras das músicas do Nickelback.
Aos poucos, aquele garoto foi ganhando um espaço na vida de minha amiga. Ambos passaram a fazer tudo juntos. Charlie o deixara entrar, abrira a porta para a sua vida e o que me surpreendeu foi o modo como Lúcio mostrou-se tão acomodado. Ele não fugiu, não tentou mudá-la ou sequer comandá-la; pelo contrário, foi Lotte quem o influenciara. O jovem passou a pesquisar sobre os seres celestiais adorados por Charlie e a ouvir rock alternativo junto dela; assistiam a filmes de terror e comentavam sobre a péssima atuação daqueles aspirantes a atores, ambos carregando sempre um sorriso puro nos lábios.
Finalmente, Charlotte havia encontrado alguém que a completasse.
Minha presença foi cada vez mais diminuída em sua vida. Ela não mais me procurava; sua existência tinha outro rosto e outro nome. Eu estava sendo posta de lado pela pessoa que sempre amei e por quem faria tudo. Não vou mentir, passei a odiar Lúcio, um forte ódio, o qual enrolava minha língua, sufocava e me fazia pensar em formas de tirá-lo de meu caminho. Contudo, isso era impossível. Afastá-lo magoaria Charlotte e isso eu não faria.
Os anos correram, levando a gordura mal distribuída no pequeno corpo infantil de Lúcio a se ajustar em seu novo físico. O garoto havia crescido, estava mais magro e mostrava sinais atraentes que chamaram a atenção de Charlie. Seus olhos brilhantes, os dedos enrolados numa mecha de cabelo, brincando enquanto falava dele para mim, isso tudo significava que minha querida ia me deixar e o pior: eu não sabia por quanto tempo.
O dia finalmente chegara, às vezes vinha rápido, outras vezes montado em um caracol, porém sempre chegava. O dia no qual a escola soube do relacionamento de Charlotte e Lúcio. Ela agora tinha outro alguém que a fazia rir e provavelmente entregaria o mundo somente por um beijo dele, ao passo que eu fiquei esquecida num canto empoeirado de sua alma feito um brinquedo quebrado, inútil, obsoleto. Contudo confesso que não estava totalmente triste... Não! Ver minha adorada menina sorrir como sorria ao lado de Lúcio era o melhor presente que o universo podia me dar.
As pessoas tinham opiniões diferentes sobre Lúcio e por isso preferiam não deixá-lo entrar em seus frívolos mundinhos. Mas, vendo-o tão feliz ao lado daquela que não o rejeitou e notando o modo como ele a tratava, acredito que as outras garotas passaram a sentir ciúmes.
Nunca vou compreender o que se passa na cabeça dessas garotas, não importa a idade que tenham, cinco, quinze ou até cinquenta anos, sempre vão cobiçar o que suas “amigas” têm. O que será que elas pensam? Um homem é como um objeto que funcionaria normalmente em suas mãos mesmo se os roubasse? Isso é tão insano. Apesar de Lotte nunca ter sido assim, não estava salva desta praga feminina e masculina também; devo dizer que isso era uma praga da humanidade: nunca se contentar e nunca ser feliz pelo próximo.
Lúcio havia se tornado um ser desejável entre as meninas, não só as de sua turma. Pois é, as mesmas garotas que o rejeitaram pelo seu exterior, agora o queriam pelo mesmo motivo. Isso fez com que as portas da popularidade se abrissem para ele, permitindo que se deliciasse com a fama tantas e tantas vezes como múltiplos orgasmos e, nesta história de extremos, um deles ficava em completo êxtase enquanto o outro a cada dia se decepcionava mais.
As brigas vieram, começadas e terminadas por Charlotte. Uma hora, estava zangada e jogando os anos de amizade na cara de Lúcio e, logo depois, estava pedindo desculpas, beijando seu pescoço e repetindo o quanto sentia por estar errada, desejando que tudo ficasse bem entre eles. Quase sempre ficava.
A surpresa vinha em forma de areia arremessada em meus olhos. Não podia crer no que estava vendo e por mais que eu os esfregasse, ainda desconfiaria de minha visão. Lotte criara coragem e passou a enfrentar e desafiar Lúcio, mas a menininha frágil e submissa ainda estava ali e surgia forte no momento em que corria para os braços daquele garoto implorando seu perdão.
A relação só piorou a partir daí, pois Lúcio começou a se afastar. Apesar de dizer à Lotte que estava tudo bem entre eles, obviamente não estava. Era evidente que a presença de Charlie em sua vida não era mais necessária, sua beleza adolescente comprava qualquer uma. As visitas escassearam e as ligações ainda mais, Charlotte voltou a ser a garota deprimida e solitária que passava os recreios no banheiro.
Queria que ela me ouvisse, diria que não estava sozinha, pois eu sempre estive ao seu lado e sempre estaria, que faria qualquer coisa para não vê-la naquele estado, mas a melancolia que a atacou fez seus olhos e ouvidos se fecharem.
Charlie trancou-se em seu mundinho e nem mesmo eu pude entrar durante um tempo.
Lúcio aparecia somente quando precisava de algo, como notas altas em seu boletim. Uns beijos e carícias e lá estava Lotte tomando em seus braços os livros e cadernos daquele rapaz egocêntrico. Apesar de sua ingenuidade para com as sanguessugas ao seu redor, Charlotte era uma das garotas mais inteligentes da classe e isso era motivo suficiente para Lúcio a querer por perto.
Meu ódio mesclava-se com pena e em certas vezes eu não sabia o que mais se manifestava. Odiava Lúcio e tinha pena de Lotte, porém em alguns momentos odiava e tinha pena dela pelo o fato de ser tão tola e ainda sim querer e buscar a companhia daquele jovem arrogante, pelo modo como suspirava e sussurrava o nome dele à noite enquanto dormia...
Houve um curto período no qual não mais soube por quem sentia tanta raiva; por Lúcio, por Lotte ou por mim mesma, a boneca quebrada que só queria um pouco de atenção de sua querida criança.
— Você tem que deixá-lo ir — implorava a ela quase me ajoelhando aos seus pés.
— Não posso — ela retrucava. Sei que no fundo era isso que queria, porém também sei que temia pela solidão.
Pobre Charlotte, sua fraqueza me fazia amá-la ainda mais e era por isso que precisava protegê-la. Não podia se cuidar sozinha e este mundo é muito cruel, não quero nem imaginar o que fariam com minha garotinha!
Numa tarde de sexta, Lúcio havia finalmente aparecido para fazer uma visita. Prometi a ela que ficaria trancada em seu quarto enquanto ambos conversavam na sala de estar. Estavam sozinhos e minha curiosidade foi maior que minha palavra. Pus-me ao pé da escada para ouvir a conversa.
— Senti sua falta — murmurou Lotte. Qualquer um notaria a emoção em sua voz e aquilo era apenas uma fagulha na esperança de ver nascer uma chama no interior daquele iceberg arrogante que Lúcio era.
— Eu também — falando em iceberg, não sei como Lotte não congelou com tamanha frieza em seu timbre. Ele nem se esforçava em mentir para minha amiga.
Após o tedioso e deprimente silêncio que se seguiu, pude ouvir vozes alteradas, obviamente eram de Lúcio. Creio que Lotte havia tentado argumentar sobre a ausência do rapaz em sua vida, mas o garoto enervou-se e começou a vociferar dizendo à Charlie que ela não era absolutamente nada sem ele e que só continuava namorando-a por pena, pois poderia ter todas as garotas burras que quisesse.
Vê-la chorar partiu meu coração, assim como em tantas outras vezes, porém preferi ficar calada. Queria deixar que ela lidasse com a situação sem mim e, por dentro, eu rezava para que minha querida Lotte pusesse logo um fim naquela relação que só a fazia sofrer. Contudo, não foi bem isso que aconteceu. Apesar do tom alto, nenhum daqueles gritos de Charlotte apontava para um suposto término e era esse o meu temor. Eu sabia que ela só estava extravasando sua raiva e que quando se acalmasse, correria para os braços repletos de espinhos venenosos de Lúcio. Oh Lotte, por que você sempre faz isso?!
Lúcio não aguentou mais aquela situação e, para a minha surpresa, decidiu calar Charlotte com as próprias mãos. Pude ver o exato instante no qual aqueles galhos secos marcaram o rosto de meu ingênuo anjo. A dor de presenciar aquela cena horrenda queimou em minha própria carne, acendendo a ira que sentia em meu coração. O frio de seus dedos e o calor do golpe resultaram em um choque emocional que me obrigou a descer as escadas e arremessar o pote para chaves que ficava no hall de entrada em sua direção. Acertei-o em cheio.
O maldito tateou a testa e sentiu algo morno escorrer perto de seus olhos, apontou-os para mim e pude ver o quão vazios eram. Talvez estivesse espantado; devia ter pensado que somente Lotte estava em casa, tolo engano! Eu nunca deixaria minha menina sozinha, nunca. Suas pernas tremularam, uns passos para trás, até que o garoto recobrou a sanidade e decidiu partir sem dirigir uma palavra à Lotte, só se apressou e bateu a porta quando saiu.
Charlotte olhava para mim com uma estranha fúria que me fazia sentir como um toureiro dançando em uma arena. Seus olhos faiscavam ao passo que sua respiração bufante quebrava o silêncio, entretanto não tinha certeza se o que sentia era em relação a mim ou a Lúcio, porém deposito todas as minhas fichas de que sua sanha tatuou o meu nome em seu coração.
— Por que você fez isso? — ela explodiu, enfim.
— Eu não tive escolha, ele te machucou!
— Por que tem sempre que se meter na minha vida?! — lá estava ela desviando o assunto para mim.
— Se não fosse por mim, aquele otário te espancaria, porque eu sei que você não teria coragem de se impor!
— Eu tenho coragem suficiente pra fazer o que eu quiser.
— Não, você não tem e é por isso que preciso ficar sempre te protegendo de tudo e todos.
— Eu não pedi por isso.
— Você é burra demais para enxergar o que as pessoas fazem com você. Provavelmente nunca pediria por socorro. Passaria a vida toda definhando, implorando por um amor que nunca irá ter!
— Está enganada. Eu não preciso de você para me proteger. Eu não quero você na minha vida, Suzana. Desapareça!
Confesso que não esperava por isto. Palavras tão frias como o gume de uma adaga que lambia meu coração. Dessa vez, fui eu quem sentiu algo morno escorrer por meu rosto, mas não era sangue.
Saí rua afora e pus-me a caminhar sem destino. O sol iluminava meu semblante ardente de um misto de raiva e tristeza, o resultado era uma pura e amarga dor que gritava em meu peito, a dor da traição. Como poderia me sentir após todos esses anos dedicando-me de corpo e alma àquela vadia estúpida que nunca soube reconhecer meus atos e nem me tratar com devido respeito e gratidão?
A rua, as pessoas, os carros, todas as imagens em meu caminho eram apagadas e só a figura chorosa e enervada de Charlie fulgurava, olhando diretamente para os meus olhos vazios. O falatório, o latido dos cachorros, as buzinas frenéticas, tudo foi abafado pela sensação de estar embaixo d’água, porém com um único som a ser ouvido, as dilacerantes palavras dela, o querido anjo que quebrou meu coração.
Minhas pernas não conheciam a dor, meus pés cálidos continuavam automaticamente, pois minha mente divagava em outra dimensão. Eu andei por entre pessoas que não viam as lágrimas que derramava feito migalhas traçando o meu caminho. Eu andei por entre carros que não seriam capazes de atingir meu corpo rijo. Eu andei... Andei... Andei até a escuridão me cobrir com seu frio manto e ainda assim não parei.
Parecia que minhas pernas sabiam para aonde me levar. Apesar das voltas e voltas que dei, quase tantas que poderia mapear a cidade apenas tendo meus pensamentos para consultar, finalmente havia chegado ao meu destino.
O pequeno muro media não mais que um metro, era graciosa a aparência de moradia saída de um conto de fadas, tudo por causa daquele diminuto muro sustentando um diminuto portão de ferro com finas grades que rangiam ao se mover. Estava sempre aberto, numa forma equivocada de demonstrar a falta de medo pelos perigos que a noite abrigava. Naquele momento, agradeci pela ausência de precaução, avançando para dentro do lugar.
Meu corpo ereto, minha visão aparentemente distante, senti-me feito uma modelo numa passarela infinda com a única função de caminhar. A porta de vidro não me detivera, os móveis da cozinha, todos afogados na penumbra, não me questionaram, as curvas, os corredores estreitos, nada que se pusesse em meu trajeto seria capaz de me segurar, somente o instante no qual vislumbrei meu objetivo.
Enfim parei.
A ossatura preguiçosamente estirada no sofá era de Lúcio. O rapaz estava jogado sobre o móvel vendo um filme, a pipoca ao seu lado em uma tigela de vidro. De tempos em tempos, ouvia-se o som agudo de suas unhas batendo na superfície quando pegava um punhado e o levava à boca, algumas caindo em sua roupa, porém o garoto não se importava com a sujeira. Certamente, pensava que sua mãe logo limparia, pois era seu dever manter a casa limpa. Machista, preguiçoso e imbecil!
Seu queixo havia caído, deixando que o conteúdo em sua boca fosse despejado em seu colo. Seus olhos encontraram minha figura inerte encostada ao batente da cozinha. As luzes da TV davam ao seu rosto um tom azulado como se estivesse congelado. Talvez estivesse realmente, pois posso garantir que o garoto não mexeu um músculo por alguns instantes, apenas me fitou com seu olhar vazio, espantado.
— O que você faz aqui?
Suas primeiras palavras após momentos silenciosos, tendo como pano de fundo a trilha sonora arrepiante de algum filme de terror.
— Você se acha tão poderoso, não é? Isso se deve ao fato de que emagrecera, se tornara um jovem atraente. A comida não mais é sua forma de prazer e satisfação, você encontrou outras formas de aliviar a fome que vive aí dentro. Encontrou outro meio de devorar a carne, mas eu lamento dizer, seu imbecil, não devia ter brincado com minha garotinha.
Ele veio em minha direção, zangado com minha presença, confuso com minhas palavras. Tentou me tocar, agressivamente me expulsar de sua nefanda moradia, contudo eu não o deixaria exercer sua força em desenvolvimento em mim. Bati sua cabeça no batente da cozinha e isto foi o suficiente para me desvencilhar de seu toque nauseabundo.
Vislumbrei seu corpo mole rodopiar pela sala. Estou certa de que a sensação de se estar em um carrossel que não parava de girar era experimentada por aquele ser narcisista e admito ter me divertido vendo-o dar voltas em torno de si próprio feito um pobre e errante ébrio. Aquilo me acresceu segundos valiosos em meu tempo de estada naquela casa. Pude caminhar até a tigela de pipoca sobre o braço do sofá e atirá-la na cabeça de Lúcio.
O ruído de estilhaços e os cacos sobre o tapete não me incomodaram, afinal, o golpe de sorte estava implícito naquela noite. Todos os finais de semana, os pais de Lúcio saíam para jantar ou talvez só saíam. Podia compreendê-los; qualquer um o faria se tivesse de passar tanto tempo na companhia de um alguém tão desprezível. Já que eu tinha a solidão como minha aliada e o rosto de Charlotte úmido pela decepção em minha mente, não perderia um só minuto em concluir minha vingança.
Esta seria a maior de todas.
Lúcio estava ajoelhado, tateando o chão com as mãos trêmulas pela pancada. Parecia um animal prestes a ser abatido. Inclinei sua cabeça para frente quase a ponto de tocar os cacos afiados e consegui enxergar a bruma lívida que se formou no vidro quando respirou tão perto dos pedaços.
— Coma — ordenei friamente.
Alguns palavrões em protesto. Eu sabia que não seria fácil, entretanto tinha comigo algo que poderia servir de instrumento de persuasão.
Sua mão esquerda estava apoiada sobre o tapete da sala, seus dedos alongados procurando cobrir maior território para se estabilizar e se recuperar dos dois golpes seguidos, porém minha satisfação foi acertá-lo mais uma vez e vê-lo sucumbir à minha ação com toda a sua ingenuidade. Aposto que não esperava por mais um ataque.
Como havia dito, os móveis da cozinha, tão silentes e adormecidos, não me questionaram ao me verem cruzando o recinto, nem mesmo os utensílios como um garfo, uma faca... Um cutelo.
Desci rapidamente a lâmina prateada sobre três de seus dedos, já foi comprovado que a velocidade exercida em um objeto aumentava sua força, então sim, o gume brilhante pôde cortar parte de seus dedos, deixando um trio de filetes avermelhados deslizarem sobre o tapete feito uma ramificação de riachos. Seus gritos guturais ecoaram pela residência vazia seguidos de gemidos chorosos.
Lamento, Lúcio, ninguém virá salvá-lo.
— Coma! — ordenei mais uma vez, mais alto, mais forte.
E ele comeu.
O barulho agudo dos cacos se partindo entre seus dentes não podia ser comparado nem à melodia mais complexa e estupenda desse mundo. Era um regozijo ouvir seus lamentos dolorosos e lembrar-me dos choramingos noturnos de Lotte, das vezes em que ambos discutiam e aquele egocêntrico a fazia sentir-se um lixo. Era um deleite ver suas lágrimas misturando-se ao sangue que escorria de seus lábios cortados.
Lúcio estava sufocando, pedaços de vidro deslizavam lentamente cortando as paredes frágeis de sua garganta. Tossia e cuspia punhados de sangue coagulado misturado a fragmentos de vidro e até de sua própria língua. Era chegada a hora de acabar com seu sofrimento, antes que o feitiço virasse contra o feiticeiro.
A vida não era como nos filmes; esta deveria ser a primeira lição a ser ensinada às pessoas. Se alguém lhe ferir com uma arma de fogo ou com um gume afiado, não reaja! Lúcio não reagiu. Estava confuso e com muita dor para fazer uma idiotice como esta e aquele era o momento perfeito. Como uma cena épica, era ainda melhor, pois não havia câmeras ou roteiros ditando minhas ações; eu simplesmente fiz.
Meus braços se ergueram a ponto de a lâmina do cutelo quase tocar a lâmpada da sala, ao menos ofuscara sua luz. Por um segundo, admirei aquela figura destruída diante de mim e tudo no que pude pensar foi em minha garotinha, minha doce Lotte, a minha menina dos olhos. A dor que tão cedo invadiu sua vida, os pecados que aos poucos tentaram lhe seduzir e depois lhe empurrar para um abismo que não haveria mais volta, mas nada disso funcionou, pois eu estava lá sempre ao seu lado, para tudo. Ela sempre poderia confiar em mim.
Ouvi o ruído estridente da lâmina rasgando o ar ao descer em grande velocidade em direção ao crânio de Lúcio. Minha força, embora diminuta, foi capaz de enterrar a arma branca quase que totalmente entre seus cabelos negros que logo se tornaram úmidos e brilhantes. Seu corpo caiu com um baque seco no chão de madeira. Ainda estava vivo, pois conseguia ver os espasmos vagarosos em suas costas, isso me indicava que logo estaria parado, quieto, inofensivo.
Olha o que fiz por você, Charlie!
Saí daquela casa do mesmo jeito que entrei. Cruzei as ruas vazias do mesmo modo, tendo a escuridão materna a me envolver. Ninguém conseguiria ver o sorriso em meu rosto ou as marcas rubras em minhas roupas e então eu percebi: eu estava segura em meio à noite.
Retornei à morada de minha querida Lotte com a esperança de que já estivesse melhor. Ela dormia tranquilamente na penumbra de seu quarto. Sentei-me ao seu lado na beirada da cama e contemplei seu brando sono. Seu rosto era magnífico, sua expressão plácida tal qual estivesse dormindo o sono dos anjos. Como podiam tratá-la tão mal? Isso agora acabou. A partir de hoje, eu morreria e mataria por ela. Sem lágrimas, sem questionamentos.
Charlie despertou com o som de minha respiração pesada. O interruptor ao lado de sua cama foi tocado e então revelou-se a imagem que a deixou transtornada. Eu estava em pé ao lado de sua cama com minhas roupas frias e manchadas. Minha menina, apesar do assombro, reuniu forças para perguntar de onde vinha todo aquele sangue. Contei-lhe a verdade, não poderia esconder um só detalhe, afinal, tudo que fiz foi tão e somente por ela.
— Como você foi capaz de fazer uma coisa dessas, Suzana? — indagava ela entre choros e soluços.
— Disse que confiava em mim, então acredite quando digo que tudo o que fiz foi por você, por nós!
Aquele era meu argumento, porém parecia ser tão inconsistente. Charlie não parava de tremer e chorar. Comecei a acreditar que havia cometido um erro, mas eu não podia me deixar levar por tais pensamentos. Procurava pensar que minha garotinha só estava assustada e precisava de um abraço, e foi o que eu fiz. A segurei tão forte contra o meu peito, senti seu coração ao ritmo do meu, sua pele tão quente roçando-se à minha. Ah, como era gostoso senti-la assim tão perto.
Sussurrei em seu ouvido que tudo ficaria bem, meus dedos se enterraram em seus cabelos e logo pude sentir sua dor se esvaindo. Eu a transmitia uma paz que certamente nunca teria se estivesse sozinha; ela precisava de minha presença em todas as horas do dia ou da noite. Sempre fomos um só pensamento, uma só alma. Lotte sempre estaria dentro de mim assim como eu sempre estaria dentro dela.
— Você ainda confia em mim? — perguntei e, apesar de já saber a resposta, parte de mim necessitava de uma confirmação sonora para me deleitar.
— Para todo o sempre.
Minha alegria não poderia ser maior.
Nosso momento de puro e real afeto fora interrompido pela mãe de Charlie, que adentrou o quarto encontrando-nos abraçadas junto da cama, ambas agora compartilhando as manchas úmidas e rúbidas de sangue que antes pertenciam somente a mim.
— O que está acontecendo, Charlotte?
Sua pergunta saíra num fio de voz. Era como se tudo em seu corpo desacelerasse até parar completamente. Sua voz morrera, sua respiração mal podia ser ouvida, seus olhos perderam o fulgor assemelhando-se a esferas pálidas e vítreas, sua pele parecia feita de luar. A mulher diante de nós beirava mais uma figura fantasmagórica do que um ser humano envolto em carne e ossos.
Levantei-me, tristemente tendo de deixar os braços aconchegantes de minha amiga, busquei aqueles olhos vazios da mulher e, sem medo, contei-lhe toda a verdade. Nada escondi, assim como fiz com minha querida menina. Fui sincera em minhas palavras, afinal, não sentia pudor em vagar por minhas recentes lembranças, explorando meus ainda cálidos atos. Eu não sentia remorso pelo que havia feito.
Ao final de meu relato, percebo a figura materna em prantos. A mãe de Charlie precisou se apoiar em uma cômoda. Disse que aquilo era demais para suportar e não demorou a chegada do momento em que a mulher já estava completamente recuperada do choque de minhas palavras.
Enfim, pôs-se a falar secamente, mirando meu olhar sereno:
— Algo terá de ser feito, pois isso não há de ficar assim.
Lotte agarrou meu braço e se pôs defronte a mim em sinal de proteção. Meu âmago se aqueceu ao ver minha garotinha defendendo-me.
— Não, mãe, por favor, não faça nada com a Suzana, ela não teve culpa.
— Essa história tem que acabar de uma vez por todas — retrucou a mulher engolindo em seco, lutando para não mais se desmanchar em lágrimas.
— Já acabou, mamãe. Eu prometo que a Suzana não cometerá mais erros, só lhe peço que não faça nada com ela, por favor? — suplicava minha menina aos prantos.
— Você está louca, Charlotte, sempre esteve. Eu fui tola por ignorar e deixar que isso se tornasse um risco para todos nós, principalmente para si mesma.
— Do que é que você está falando, mamãe? — inquiriu Charlie franzindo o cenho, não compreendendo as palavras duras da mãe.
— Meu bem, a Suzana nunca existiu, ela é só uma menina que você inventou para ter com quem brincar. Ela não é real!
Era verdade isso que acabava de ouvir? Aquela mulher estava dizendo que eu não era real? Então como meu coração foi capaz de acelerar-se segundos após absorver aquelas palavras? Como minha garganta ficou dolorosamente interditada e meus olhos permitiam que lágrimas involuntárias corressem livremente por meu rosto? Como ela podia dizer tais coisas?
— Foi você, Charlie, o tempo todo. Foi você quem envenenou Beatriz.
O semblante de minha querida Lotte parecia uma pintura hirta, as únicas coisas que se moviam eram seus olhos feito aqueles quadros misteriosos dos filmes de terror. Eu sentia o desespero confuso que gelava os ossos de minha garotinha. Sabia muito bem que nossos corações desaceleraram quase a ponto de pararem e eu via lágrimas silenciosas beijarem suas níveas bochechas.
— Após este incidente — começou sua mãe, contendo com todas as forças seu pranto —, a cada sessão com a psicóloga, ela me contava que a Suzana havia se tornado uma figura muito forte em sua vida. Você deu-lhe um nome, um rosto, uma história, tudo muito idêntico a si própria e assim passou a usar esta imagem de Suzana para fazer coisas das quais nunca tivera coragem de fazer como Charlotte.
— Está mentindo pra mim — retrucou Charlie em voz baixa. Eu notava que seu espanto e confusão havia se transformado em raiva, sentimento do qual minha menina podia sentir quão doloroso era mantê-lo sob controle. — A Suzana existe, sempre existiu. Ela é minha única amiga.
Vi os fios de lágrimas descerem do olhar apertado da mulher diante de nós, seu rosto comprimia-se em uma força aflitiva como se as palavras de minha amiga fossem golpes fatais que rasgavam e arrancavam a pele de seus ossos.
— A Suzana é fruto de sua imaginação, Charlotte! — bradou a mãe enfim, desmoronando a fortaleza gélida que havia construído em volta de suas emoções — Você a criou e fez tudo sob sua identidade.
Charlotte pôs-se a chorar. As palavras de sua mãe faziam um percurso estranho em sua mente. O passado cheio de lembranças que pareciam concretas chocava-se com o agora, o instante atônito semelhante a uma bola de demolição, pondo a baixo tudo o que via pela frente. Em quê deveria acreditar?
— Só tinha você na casa de Beatriz, filha — recomeçou a mãe, agora com a voz suave, tão suave que chegava a arder na mente confusa de Lotte.
O tempo parou, retornou à época em que tínhamos sete anos. Nós duas, almas puras e inocentes, livres para sonhar com um mundo que não conhecíamos nem a metade, era ali que nos encontrávamos...
Estávamos no jardim da casa de Beatriz, consigo me lembrar do cheiro brando das flores que nos cercavam naquele oculto paraíso. O perfume se misturava ao aroma adocicado do leite com chocolate. Eu estava sentada perto de Beatriz, usava um vestido azul feito o pote de biscoitos, havia quatro deles ao lado de minha xícara, eu me lembro.
Não consigo encontrar Charlotte em lugar algum, isto está errado. Ela deveria estar ali, junto a mim, devíamos estar trocando olhares incômodos diante daquela tirana glutona que só sabia dizer bobagens. Onde estará minha garotinha? A pequena cadeira ao meu lado está vazia, só Beatriz e eu estávamos naquele jardim. Charlie, onde você está?!
Beatriz diz que irá se ausentar, pois precisa ir ao banheiro. Ela está falando comigo e somente comigo. Como aquela pequena víbora não notara a falta de Charlotte naquela tarde de chá? Eu era sempre a excluída e não minha querida Charlie! Eu havia decidido segui-la, queria ter a certeza de que não planejaria algo ruim contra minha amiga. Sim, a velha frustração diante do ocorrido, a menina mimada falara a verdade e fora mesmo ao banheiro, porém eu sabia dentro de mim que isto não a impedia de tramar contra Lotte.
Subi na cadeira para pegar o frasco de detergente sobre a pia da cozinha, deixei meu olhar me guiar até o jardim, até a pequena mesa redonda coberta com uma linda toalha bordada com flores e borboletas. Parecia a peça que completava aquele jardim, contudo não havia ninguém lá sentada. Eu não compreendo... Onde estaria Lotte?
Meus olhos atônitos miraram o vidro da janela da cozinha, eles agora pareciam perplexos, eu estava perplexa. Aqueles olhos não eram meus...
— Foi você que invadiu meu quarto roubando aquele canivete.
A voz da mulher invadia os pensamentos confusos de Charlie e os meus também, eu conseguia ver a expressão brumosa em seu olhar, como se tentasse reproduzir memórias, acontecimentos, fatos dos quais não condiziam com sua realidade, com a nossa realidade. Eu mesma tentei imaginá-la invadindo o quarto da mãe, esgueirando-se na escuridão feito uma sombra e furtando um objeto de maneira tão ágil, não... Minha querida Lotte jamais faria algo assim.
— Todo o bairro comentou do incidente com aqueles meninos, da quase tragédia e eu sabia, no fundo eu sabia que aquilo era sua culpa, mas não havia como provar, não é? Só me restou rezar para que esse tipo de coisa nunca mais acontecesse e por um tempo foi bom, você parecia ter esquecido a Suzana quando conheceu o Lúcio, mas quando ele te magoava, a Suzana voltava, pois ela era a única que nunca lhe machucaria.
A mulher encarava o rosto molhado e inexpressivo de minha garotinha, eu sabia que aquilo a destruía por dentro. Por mais que fosse omissa, ela amava Charlie com todas as suas forças e vê-la assim, tão inerme, calada, dilacerava seu simplório coração. Eu a vi dar alguns passos em direção à filha enquanto continuava lhe dirigindo palavras suaves, porém extremamente dolorosas.
— Ela voltou, não foi? Voltou mais uma vez para se livrar de quem um dia lhe feriu. Eu sinto muito, querida, sinto por você ter criado um alguém para lhe defender, pois eu não fui capaz de fazê-lo.
Ela tinha razão, eu faria qualquer coisa pela minha menina. Eu sou a única que esteve ao seu lado durante todos esses anos. Eu a vi sorrir apenas ao contemplar o canto singelo de um pássaro pousado em um galho de uma árvore, eu a vi chorar à noite pelas feridas causadas pelos desgraçados que encontrou pelo caminho, feridas que sangraram sua alma. Fui eu... Sempre eu. Eu a amo, eu a protejo, eu sou como ela.
Eu sou real, sou tão real quanto qualquer uma das duas, tenho sonhos, sentimentos, tenho uma vida! Meu coração se aquece na presença de anjos pintados num caderno, adoro ver filmes de terror num sábado à noite, e vago em pensamentos quando ouço as músicas tão inspiradoras do Nickelback... Eu tenho características, eu tenho personalidade. Eu sou real. Todavia, Charlie não mais concordava com esta afirmação.
Senti seus olhos a me analisar, por que estava fazendo isso? As lágrimas voltaram a cair, eu não compreendia, por que minha garotinha estava me olhando daquela maneira?! Acaso estava duvidando de mim? Que motivos ela teria para duvidar? Não, Charlotte, não me olhe assim, minha querida! Eu lhe imploro.
— O que vai fazer, mamãe?
A mulher caminhou em direção à Charlie, mais uma vez senti meu coração se partir ao vê-la chorar. Parecia que os braços da mãe eram feitos de caules espinhosos, pois o pranto doloroso que se seguiu fez Lotte soltar urros tristonhos, porém abafados pelo peito amoroso e paciente de quem um dia lhe deu a vida. Nunca a havia visto daquele jeito.
— Eu vou dar um jeito nisso, querida — disse a figura materna, acariciando os cabelos úmidos de suor da garota trêmula junto ao seu corpo —, você vai ver.
A luz invadia aquele quarto causando a sensação incômoda de falta de privacidade. Havia também um toque impessoal no branco fosco usado para pintar as paredes. Tudo ali era pálido e cheirava a produtos de limpeza baratos, desses que nos causam enjoo, porém eu já estava me acostumando.
O silêncio que antes oprimia meu corpo agora era meu aliado nestes dias solitários. Eu consigo ler, escrever e até pintar um pouco quando as coisas estão guardadas em um lugar que duas vezes por semana sou obrigada a bagunçar, tendo de guardá-las novamente para outro dia remexer. Esta rotina ainda me causava aversão.
Recebia a visita austera e quase taciturna da senhora Prado pelo menos três vezes ao dia. Os outros se sentiam intimidados com sua presença, mas eu até gostava dela. Parecia que, quando essa mulher olhava em meus olhos, via algo que ninguém mais era capaz de ver e isso me deixava contente.
Falando nela...
Ouvi o barulho metálico do molho de chaves e depois o ruído da maçaneta sendo girada. Lá estava a senhora Prado, toda vestida de branco de modo a quase se camuflar com o ambiente, porém uma cor dessas não caía bem em pessoas cujos corpos possuíam excesso de peso contornando sua cintura, avolumando seus seios e engrossando suas coxas. Sua pele negra era bonita, brilhava quando a luz do sol batia em seu rosto, destacava-se daquele ambiente apagado, os cabelos tão negros quanto a noite estavam sempre presos. Dava para notar que formavam cachos pelo modo ondulado que orlavam sua cabeça. Creio que ficaria muito bonita se os soltasse e passasse alguma coisa colorida naquele rosto limpo e simplório.
Ela deu-me um sorriso, aqueles usando somente o canto da boca enquanto empurrava o carrinho, da mesma cor patética que cobria tudo, para dentro do quarto.
— Como está hoje, querida? — perguntou sem mesmo me olhar.
Sua voz entregava que era uma mulher bem mais velha. Acredito que beirava os cinquenta. Havia certa rouquidão em seu timbre, contudo ainda assim era o som mais agradável que se podia ouvir estando ali.
— Bem — respondi.
Realmente estava, porém creio que não era preciso acrescentar coisas, era isso e pronto.
A mulher não reagiu à minha resposta, continuou virada de costas para mim, mexendo em seu carrinho. Passou alguns instantes correndo as mãos por alguns compartimentos até encontrar um frasco. Deitou-o, deixando um comprimido lívido rolar para o espaço minúsculo que era o fundo de um copo de café descartável e encheu outro copo de mesmo material com água de uma bela jarra de vidro que tilintava ao tremor produzido pelo carrinho já enferrujado quando cruzava os corredores deste lugar. Ela direcionou ambos os copos a mim.
— Beba, querida.
Sua voz casual não exprimia gentilezas, porém algo dentro de mim se aquecia ao ouvi-la me chamar de querida. Era um tipo de afeto que há muito tempo ninguém tinha para comigo.
Eu não tinha outra escolha a não ser beber.
A cápsula cilíndrica descia leve e rápida por minha garganta. Eu só a sentia quando roçava por um milésimo de segundo em minha úvula e depois, nada. Era assim todos os dias antes das refeições: um comprimido e em seguida a gororoba que chamavam de comida; uma papa sem sal que eu engolia fingindo saborear um suculento bife acebolado. Algumas vezes fazê-lo dava certo, outras eu simplesmente arremessava o prato contra uma das paredes impecavelmente brancas e encarava a decisão de ouvir meu estômago roncar até o horário da próxima refeição, na qual eu estaria tão faminta que não me importaria com o cheiro, gosto ou textura.
Queria poder dizer alguma coisa à senhora Prado, qualquer coisa. Comentar sobre o modo de as nuvens passearem preguiçosamente pelo céu azul-pálido, perguntar quando foi que ela tivera seu primeiro namorado, se já fora casada ou se ainda passavam aquela série de terror que eu tanto adorava assistir aos sábados à noite. Queria poder conhecê-la, pois me parece ser uma boa pessoa; porém em todas as minhas tentativas, eu só obtive respostas vagas, curtas. Acho que ela não era uma mulher de muitas palavras, queria apenas fazer seu trabalho em paz. Eu a compreendo.
Ela depositou a bandeja embalada em plástico sobre a minha cama e, me dando um breve olhar, falou:
— Mais tarde venho buscar a bandeja. Coma tudo, sim, querida?
E lá se foi ela, nem ao menos aguardou por uma resposta minha. Eu sabia que ela não tinha tempo, porque havia outros quartos para visitar, outras bandejas e comprimidos para entregar.
A refeição parecia brilhar através daquela película de plástico. O que seria desta vez? Não importava, a sensação seria como mastigar um pneu velho.
Passei meus olhos pelas paredes opressivas daquela sala quadricular. Até minha respiração produzia um eco que perturbava meus ouvidos, mas eu não tinha com o que me preocupar, eu não estava só.
Levanto-me um momento para ir em direção ao pequeno espelho que me concederam tão gentilmente, uma bonita peça de contorno preto sem nenhum ornamento. Poderia ser de qualquer cor, menos branco, aquele tom causava-me náuseas.
Meus lábios se esticaram em um sorriso sincero, esfuziante, desses que parecem que vão rasgar os nossos rostos de tão larga que é a nossa emoção. Meus olhos tornaram-se marejados com a figura que me encarava tão cândida, em sua mais natural forma, em sua mais frívola beleza.
— Aí está você, minha querida Lotte!
Sim, ela estava ali... olhando para mim. Eu a olhava da mesma maneira, nossos corações se aqueciam ao vislumbrarmos nossos semblantes felizes. Eu sentia sua alegria em cada célula de meu corpo e ela sentia o meu amor correndo por suas veias.
Nunca houve possibilidade alguma de nos escondermos uma da outra. Onde quer que Charlie estivesse, eu estaria e vice-versa, pois somos um só pensamento, um só coração, um só corpo, uma só alma. Eu sou ela e ela sou eu e nunca vamos permitir que medicamentos cujos quais mais parecem placebos ou até mesmo a reclusão em algum lugar distante da vida que conhecíamos possam nos separar. Não há nada que possa me afastar de minha garotinha.
Charlotte confia em mim, precisa de mim e por ela sou capaz de tudo.
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