Confiar
1 I. Neutron Star Collision
Notas iniciais
– Feliz aniversário de seis meses.
– Oh, Dave! Você é o melhor! — eu o abracei forte.
Cheguei da universidade cansada e irritada com o dia longo e exaustivo. Nem sonhava em encontrar na porta de casa meu namorado segurando um lindo buquê de rosas e uma caixa de presente.
– Tento ser o cara que você merece — ele beijou minha testa.
– Acho que não te mereço — entrelacei meus braços em seu pescoço — Não comprei nada pra você!
– Ainda bem que não comprou. Eu não iria aceitar.
– Me sinto culpada por você ser tão atencioso e ter como recompensa uma droga de namorada exausta, com o cabelo todo bagunçado e de mãos vazias!
– Pam, você já é o melhor presente que eu poderia querer! Nem um milhão de flores poderia retribuir a felicidade que você me causa. E você fica linda de cabelo bagunçado. — ele tirou uma mecha do meu cabelo do meu rosto.
Sorri e o beijei.
– Se isso for um sonho, por favor, não me acorde.
– Eu que te peço pra não acordar. Não sei se você se apaixonaria por mim na vida real — ele riu.
– Eu me apaixonaria de novo, e de novo, e de novo, e quantas vezes eu pudesse.
Ele passou as mãos por minha cintura e me beijou gentilmente. Depois, disse que já ia embora pra me deixar dormir.
– Não quer dormir aqui hoje? — ofereci.
– Fiz um acordo com seu pai, lembra? Melhor não desobedecer, ou ele te leva pra longe de mim.
– Está bem. — o beijei pela última vez — Boa noite.
– Me ligue quando abrir o presente pra dizer se gostou.
– Já sei que vou amar. — sorri.
Ele atravessou o jardim pra entrar no carro e eu me virei pra abrir a porta. Antes de eu entrar, ele me chamou.
– Pam!
– Sim?
– Eu te amo.
Sorri.
– Eu te amo mais.
Ele soltou um beijo e foi embora. Eu entrei e acomodei meus presentes no sofá, enquanto tirava o jantar da geladeira. Deixei descongelando e coloquei as flores num vaso em cima da mesa. Depois subi para o andar de cima, onde ficava o meu quarto, e fui tomar banho. Enquanto a água gelada caía em minhas costas, pensei o quanto fui sortuda em encontrar o David. Lembrei do dia em que nos conhecemos.
Eu era novata na universidade e nas primeiras semanas ainda não tinha me aproximado de ninguém. Ele chegou de repente e se ofereceu para me mostrar o campus. Desde então ficamos muito próximos, e começamos a namorar um mês depois.
Eu morei toda a minha vida numa cidade no norte do Oregon, mas há três meses meu pai foi transferido no trabalho pra Nova York. Eu não queria deixar minha cidade, meus amigos e principalmente o David. Papai, que também não gostou da ideia de se mudar, concordou em comprar uma casa perto da universidade. Disse a ele que a que ele escolheu era maior do que o suficiente pra mim, mas ele insistiu que queria uma com dois quartos, pra quando ele viesse visitar.
Desliguei o chuveiro e vesti meu pijama de flanela. Desci, esquentei a comida no microondas e voltei pro meu quarto. Enquanto comia, em cima da cama, olhei pro retrato da mamãe no criado-mudo.
– Sinto tanto a sua falta... Me sinto tão sozinha sem você. Queria que você estivesse aqui.
Perdi minha mãe aos quinze anos, ou seja, quase três anos atrás. Um dia, ela disse que ia ao mercado e nunca mais voltou. Não temos absoluta certeza de que ela morreu, afinal, seu corpo nunca foi encontrado, nem qualquer pista que leve até ele. Não sei se gosto de pensar que ela ainda está viva, porque se está, onde passou esse tempo todo? Por que foi embora? E se foi sequestrada, o que estão fazendo com ela?
– Você devia voltar pra casa. Olha, estou comendo macarrão com almôndegas! O seu preferido!
Suspirei. Era óbvio que ela não ia voltar.
Quando acabei de comer, desci e lavei a louça e antes de subir novamente, verifiquei se a porta estava trancada. Meu pai me fez prometer que iria fazer isso toda vez que eu saísse e toda dia antes de dormir. Levei meu presente até minha cama e abri o embrulho.
– David. — sorri.
Dentro da caixa havia milhares dos meus bombons preferidos: chocolate com castanha, chocolate com amêndoa, chocolate com amendoim... Muitos tipos de chocolate. Também havia um porta retrato com uma foto nossa. Nossa primeira foto tirada como namorados. Quando peguei o porta retrato, vi que embaixo tinha um bilhete.
"Nosso amor será para sempre
E se morrermos, morreremos juntos
Mentira eu nunca disse
Porque nosso amor será para sempre
Para a melhor namorada do mundo. Com muito amor, Dave"
Era a letra de uma música. Da nossa música. Não pude deixar de dar um sorriso que ia de uma orelha à outra.
Peguei o celular e liguei pra ele.
– Dave? Estava dormindo?
– Não consegui. Estava ansioso demais esperando você ligar. Achei até que não tinha gostado do presente.
– Não seja bobo. Foi o melhor presente que eu já ganhei na minha vida!
– Você foi o melhor presente que eu já ganhei na minha vida.
– Oh, Dave...
– Fico muito feliz que tenha gostado. Isso significa que sou um namorado aceitável.
– Você é o melhor do mundo.
– Só não mais que você. Agora vá dormir, você está cansada.
– Podemos sair amanhã? Faz muito tempo que não saímos numa sexta à noite.
– Saímos semana passada, Pam — ele riu.
– Pra mim parece uma eternidade. Ora, vamos! Por favor!
– Ok, não precisa chorar. Te pego às oito.
– Vou amaldiçoar cada segundo por ser muito longo até lá.
– Tudo bem, rainha do drama.
– Com as provas na universidade tenho passado muito tempo longe de você! Estou com saudades!
– Eu também estou. Amanhã vou te levar num lugar especial.
– Que lugar?
– Surpresa.
– Vou esperar ansiosamente.
– Eu também. Agora vá dormir.
– Não estou com sono. — menti.
– Posso ouvir o sono em sua voz.
– Não quero desligar.
– Fale comigo até você dormir.
– Onde você está?
– No telhado.
– Está sem camisa?
Ele riu.
– Você está? — ele perguntou de volta, maliciosamente.
– Estou falando sério, seu idiota. O tempo ta frio, você pode pegar um resfriado.
– Fui rebaixado de melhor namorado do mundo à idiota resfriado.
– Vá vestir uma camisa. E você não foi rebaixado, continua sendo o melhor idiota do mundo.
– Estou vestido, mamãe.
– Melhor assim. — ri debilmente.
Minhas pálpebras já pesavam demais.
– David?
– Sim, Pam.
– Eu te amo.
Não ouvi a resposta dele. Caí no sono.
No dia seguinte, acordei cedo, mas sem vontade nenhuma de levantar da cama. Peguei meu celular e liguei pro meu pai. Ainda não tinha falado com ele essa semana.
– Bom dia, pai.
– Bom dia, meu amor. Dormiu bem?
– Sim. E você? Não diga que ainda passa noites trabalhando, não é? Seu médico já disse que isso não é nada bom!
– Não, agora vou dormir todos os dias às dez em ponto. Estou me cuidando mais. Rachel até disse que eu já emagreci.
Rachel é a secretária dele. Trabalha com ele desde que eu nasci. Ela e minha mãe se tornaram grande amigas. Tenho sorte de ter ela cuidando do meu pai quando eu estou tão longe para fazê-lo.
– Como está a Rach?
– Vai bem. O filho dela se forma esse semestre. Ela pediu pra você vir na formatura.
– Diga a ela que com certeza.
– Pamela...- ele hesitou por instantes — Lembra do policial que acompanhou o caso da sua mãe?
– Lembro. O que tem ele?
– Ele me ligou ontem à tarde. Disse que tem novidades sobre o assassino.
Meu estômago embrulhou.
– Assassino? Quer dizer que...
– Sim, filha. A Molly está morta. Mas nós já sabíamos disso.
Contive minhas lágrimas.
– Onde... Como...
– Não sei. Ele não me falou muita coisa. Disse que semana que vem vai esclarecer melhor a situação. E eu gostaria que você estivesse aqui.
– Pai, eu... eu prefiro não saber. E depois, eu estou em período de provas, não vai dar realmente.
– Pam, eu preciso de você. Acabo de saber que definitivamente perdi minha mulher. A mulher que eu mais amei na minha vida. Você é a única que me resta. — ele disse, meio choroso.
– Pai...
– Nunca te peço nada, Pam. Mas estou te pedindo agora. Por favor, diga que vem e eu agendo sua passagem pra depois das provas.
Pensei por um tempo.
– Tudo bem. Agende a passagem pra quarta-feira.
– Obrigado, filha. Você fez um velho feliz.
– Você não é um velho — ri — Não totalmente ainda.
– Eu te amo, Pamela. Mais do que ninguém.
– Eu também, papai. Mande um beijo pra Rachel. E um enorme pra você.
Desliguei e não consegui mais segurar as lágrimas.
***
Mais tarde, quando já tinha tomado banho e me arrumado pra ir à biblioteca, encontrei a Taylor no jardim.
– Pam, sua sumida!
– Oi, vizinha! — fui até ela e a abracei.
Taylor é minha melhor amiga desde o ensino fundamental. Depois que eu me mudei pra casa ao lado da dela, passamos a maior parte do tempo juntas. Só nessa última semana que foi meio difícil, por causa das provas.
– E aí? — ela perguntou.
– Ontem fiz seis meses com o David. Ele me deu um buquê lindo de rosas e uma caixa cheia de chocolates. E uma foto nossa.
– Que amor! O Dave é um sonho mesmo.
– É sim. — eu sorri.
– Veja se ele tem um primo ou algo assim, ok? Estou extremamente carente. ela riu, e me fez rir também. Aonde está indo?
– Vou à biblioteca. Consegui um trabalho de meio período lá.
– Trabalho?
– Sim, achei que já estava na hora de parar de viver com a mesada que papai me dá. Quer dizer, ele não vai estar aqui pra sempre. Achei melhor entrar no mercado logo cedo.
– A pessoa começa a morar sozinha e acha que já tem trinta anos — ela brincou.
– Trinta e um na semana que vem!
– Oh meu Deus, Pam! Seu aniversário já está chegando! Você já vai fazer dezoito! Dezoito é quase trinta e seis! Trinta e seis é quase quarenta!
– Oh sim, já estou praticamente no túmulo de tão velha. Tenho que ir, não posso me atrasar logo nos primeiros dias.
– Você tem horário de almoço?
– Só trabalho pela manhã. Quer almoçar comigo? Perto da biblioteca tem um restaurante bom.
– Ok. Me liga quando sair.
Despedi-me e entrei no carro. Acenei pra ela pela janela aberta antes de sair. No caminho, liguei o som no volume máximo e deixei tocando Neutron Star Collision, do Muse. É minha música com o David. Quando acabou, coloquei pra tocar de novo, até eu chegar à biblioteca.
– Bom dia, sra. Grayson — eu disse assim que entrei.
– Bom dia, Pamela!
A sra. Grayson é provavelmente a pessoa mais simpática que você pode conhecer. Ela construiu a biblioteca junto com o marido, e desde que eu me lembro ela lê à tarde para as crianças e em alguns sábados para os cegos. Aos domingos, ela faz o almoço para a creche do bairro. Ela é como uma mãe pra todo mundo. E especialmente pra mim, depois que a minha desapareceu. Todo dia ela assa biscoitos e os traz para a biblioteca, para dividir com os funcionários.
– Hum, os de hoje estão com um cheiro ótimo! — eu me debrucei no balcão tentando achar os biscoitos.
– São de chocolate com gotinhas de baunilha. Sua mãe adorava!
Forcei um sorriso torto.
– Aposto que sim. Tudo que a senhora faz é excepcionalmente delicioso.
– Oh, não exagere, minha filha. Já estou velha e não faço mais nada como antigamente.
– A senhora não está velha. Aliás, sempre tem mais disposição que eu!
Ela sorriu gentilmente.
– Ah, quase me esquecia! Seu amigo David passou por aqui e deixou isto — ela puxou um pequeno envelope de debaixo do telefone.
– David é meu namorado, sra. Grayson — eu sorri.
– Vocês são muito crianças pra namorarem. Prefiro chamar de amizade super-afetiva. — ela sorriu e me entregou o bilhete.
– Obrigada. O que temos pra hoje?
– Ah, nada demais. As crianças da creche vieram aqui ontem à tarde e bagunçaram a sessão de clássicos. Você poderia arrumar?
– Com o maior prazer. — eu sorri e me encaminhei para o fundo da biblioteca, onde ficavam os clássicos.
Prendi o cabelo em um coque e me sentei no velho banquinho de madeira. Antes de começar a arrumar os livros, abri o envelope, que continha um bilhete.
"O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.
W. Shakespeare"
Sorri sem conseguir acreditar o quão perfeito meu namorado era.
Quando acabou meu período, agradeci a sra. Grayson pelos biscoitos e fui me encontrar com a Tay.
– Como foi o trabalho?
– Foi ótimo. Adoro trabalhar no meio de livros, e a sra. Grayson é um amor de pessoa.
– Deve estar sendo maravilhoso, Pam. Ta tudo dando certo pra você.
– É — eu disse sem muita animação.
– O que foi?
– Descobriram algo sobre o assassinato da mamãe.
– Meu Deus, Pam! Por que você não me contou?
– Só soube hoje. Mas não quero falar sobre isso, ok? E aí? Me conte as novidades!
– To sem nenhuma no momento. Ah, pra falar a verdade, eu soube que vamos ganhar um vizinho novo!
– Sério? Pra aquela casa do lado da minha que é abandonada e mal-assombrada? — eu ri.
– Sim. Não sei quem é ainda, mas tiraram a placa de Vende-se.
– Isso não significa que alguém vai morar lá. Eles podem querer derrubar, sei lá.
– Não seja tão pessimista. Imagina se for um cara gato?
– Isso não mudaria muito pra mim, eu tenho namorado, esqueceu?
– Mas pra mim mudaria! Imagina se eu arrumo um carinha também? Podemos sair nós quatro! Eu, você, o David, e meu futuro príncipe encantado!
Rimos e ficamos conversando besteiras, como sempre fazíamos.
***
Havia acabado de sair do almoço com a Tay e estava indo pra casa, quando meu celular tocou. Olhei o visor e sorri.
– Rachel! Que saudades! Aham. Antecipar a viagem? Mas por q- meu pai o quê? Oh meu Deus, estou indo agora!
Dei meia volta e pisei fundo no acelerador em direção ao aeroporto.
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