Confiança

24 Conversa Amistosa


Notas iniciais
Talvez aqui Edward mostre um lado mais carinhoso. Será o suficiente para Bella?

Edward

Estávamos parados a cerca de meio minuto em frente ao seu apartamento. Se fosse por ela, já estaria o mais longe de mim possível. Porém, tinha pedido para ficar. Sabia o quanto Bella estava furiosa por causa do beijo no campo de golfe. Como explicar que aquilo foi irresistível diante da visão da alegria dela após uma pequena vitória. O sol em seus cabelos fazendo-o brilhar, o ar brincalhão de seus olhos e o sorriso iluminado. Aquilo me fez tomá-la em meus braços.

Ela estava sentada ao meu lado, ereta e silenciosa, a expressão em seu rosto era fria. A presença dela e a sua insistente recusa em me perdoar me perseguiu todo o dia. Além da ideia de saber que ela tinha se encontrado com o Black mesmo sem querer e da sua resposta quando perguntei se voltaram: “Ainda não.” Fiquei louco com isso.

O clima era tenso naquele pequeno espaço, o humor de Bella preenchia tudo. Mesmo assim não conseguia me arrepender do beijo. O que iria dizer a ela diante disso? Sabia que esperava por desculpas sinceras, mas como fazê-lo? Eu queria muito mais. Passei o dia querendo tocá-la e consegui, afinal, depois de lutar comigo mesmo. Porque Bella se tornara tão arredia comigo? Apenas por causa do bufê? Do beijo? O que estaria realmente acontecendo?

Não compreendia muita coisa e isso me fazia hesitar muito, coisa que não existia em minha vida. O que estávamos vivendo era algo novo, os limites estavam confusos. O estranho, porém, era que eu queria entender. Não conseguia dizer para mim mesmo que Bella era apenas a irmã da minha ex-noiva. Ela era bem mais que isso. Bella abriu a porta do carro bruscamente, apanhou a bolsa e o agasalho sem proferir palavra. Era óbvio que tinha cansado de esperar que eu dissesse algo.

– Vamos dar uma volta, por favor, jante comigo. — Eu a convidei, segurando-a pelo braço num impulso.

– Mais um evento de negócios hoje? — Ela perguntou hostil.

– Não tem nada a ver com negócios. Apenas gostaria que jantasse comigo.

– Por qual motivo? Gostaria de exibir a sua grosseria em público? — Ela disparou.

– Bella, reconheço seus motivos, mas realmente não quero continuar com isso. Apenas quero passar alguns momentos com você. — Ela me olhou surpresa e depois o seu olhar tornou-se observador.

– Por favor... Por favor... Prometo ser um cavalheiro.

– Preciso de um banho e me trocar. — Ela concordou, após alguns segundos.

– Faça isso. — Disse, tentando ignorar o alívio que me invadiu. – Volto daqui à uma hora para apanhá-la.

– Uma hora e meia. — Ela corrigiu com um leve vestígio de seu sorriso alegre o que me fez ficar ainda mais esperançoso.

Eu a observei se afastar com um sorriso teimoso em meu rosto e retribui o breve aceno dela. Dei partida no carro e deixei o estacionamento, com uma vontade enorme de assobiar...e comecei, não era nada demais mesmo.

Bella

Eu não vira Edward frequentar ambientes tão simples desde os velhos tempos. Apoiei o queixo nas mãos e o fitei na tênue iluminação proporcionada pela vela fincada numa garrafa de vinho no centro da mesa. Eu adorava essa pizzaria. Apesar dos preços baixos, a comida era excelente.

O beijo de Edward no campo de golfe me deixou atordoada. Não consigo imaginar porque me rendera aos seus carinhos se eu estava tão zangada com ele. Mais tarde, porém, no carro ele realmente pareceu querer a minha companhia e a sua sinceridade me desarmou.

– Você já esteve aqui antes. — Ele concluiu, observando a garçonete se afastar com o pedido. — O serviço é demorado?

– Não, é bem rápido. — Contei sorrindo e torcendo para que ele não percebesse a ansiedade que me dominava.

Não havia razão para nervosismo. Nós fizemos amor, mas eu não tinha certeza que isso significaria algo para ele. Ponto final. Apaixonar-me não fazia parte do acordo. Agora que ele se desculpou por menosprezar meus esforços para a festa, podíamos voltar a uma relação estritamente profissional. Ainda assim, não conseguia evitar que meu coração batesse mais depressa de pensar como seria bom se ficássemos juntos.

Edward recostou-se na cadeira, uma expressão jovial e descontraída no rosto. Ele vestia uma camiseta esporte, uma malha azul-marinho, algo que fazia seus olhos verdes ficarem mais claros e brilhantes. Seu sorriso ao contrário do que ocorrera mais cedo, surgia com mais facilidade.

– E o estúdio?

O tom amistoso da pergunta me surpreendeu totalmente diferente das referências mordazes sobre o meu trabalho.

– Está indo muito bem. Meus horários estão todos tomados desde que Sarah me apresentou no clube.

– Você deve estar muito contente, principalmente por estar continuando o trabalho de seu avô.

– Sim. — Respondi simplesmente. — Sinto a presença dele e o imagino me observando.

– Eu não o conheci. Ele deve ter sido um homem e tanto.

– Ele era um máximo. — Concordei, imaginando que o avô teria gostado dele.

– Me fale dele.

– Bem, ele sempre estava disponível para nós, não importava o que acontecesse. Às vezes as coisas ficavam difíceis. Minha mãe não ganhava muito, as coisas que fazia nem sempre davam certo, mas éramos felizes e amadas. Meu avô era parte importante disso.

– Mas vocês mudavam muito. Isso causa insegurança numa criança.

– Nem sempre. Eu gostava de frequentar novas escolas, fazer novos amigos...

– Isso não atrapalhou os seus estudos? Nem todas as escolas ensinam a mesma coisa ao mesmo tempo.

– Eu me virava. Os professores gostavam de mim, exceto quando eu fazia muitas perguntas.

– Mas não é normal fazer perguntas?

– Sim, mas eu fazia perguntas impertinentes.

– Ah, você era uma daquelas alunas... — Edward riu.

– Era sim. E quando me metia em confusão, chamava meu avô para falar com o diretor.

– Ele representava o papel de pai, não é mesmo?

– Sim. — Assenti e dobrei o guardanapo a minha frente.

– E o seu pai? — Ele indagou com cuidado como se temesse me magoar. — Eu sorri ante esse pensamento. Estaria ele revelando seu lado sensível?

– Meu pai não faz parte da minha vida. — Falei dando de ombros, as feridas estavam quase cicatrizadas. — Mas tudo bem. Minha mãe é meio inconsequente, mas é adorável. Há crianças que não têm nenhum dos pais.

Edward baixou o olhar, a expressão sombria.

– Ah, Edward me desculpe. Como fui insensível. — Merda! Logo agora que ele estava tão legal eu estragava tudo com a minha grande boca.

– Tudo bem. — Ele garantiu com um sorriso triste. — Minha infância parece muito longe agora e a vida poderia ter sido bem pior.

– Não acho. Pelo que ouvi...

– Não foi tão duro. — Ele interrompeu.

– ...deve ter sido pior para você, já que era o mais velho.

– Obrigado pelo apoio. — Ele agradeceu, o sorriso quase meigo. — Mas apendi muito. É claro que às vezes não posso deixar de imaginar como teria sido diferente se meus pais fossem vivos.

– Isso é natural.

– É verdade. Tenho certeza de que meus sonhos me ajudaram a atravessar aqueles tempos difíceis, mas agora que sou adulto preciso não confundir fantasia a realidade. — Ele continuou num tom leve. — As dificuldades me ajudaram a chegar onde estou.

Sua infância não estava tão longe quanto ele pensava, eu quis dizer ao lembrar a tensão que percebi quando ele jogou golfe com Dave. A intuição me dizia que meu acordo não agradava a ele, pois honra e integridade significava muito para ele. Por que mais teria se oferecido para casar com uma moça grávida e abandonada? Eu sabia que ele contrariava seus princípios ao fingir ser algo que não era e, no entanto, ali estava ele, lutando contra a própria integridade. Tal atitude era prova de que havia muitas questões não resolvidas na vida de Edward, mas eu não devo me importar, não devo me render ao amor e desejo que ele despertou em mim.

– Aqueles dias deviam ter sido horríveis, mas você acha que dinheiro e sucesso vão compensar o sofrimento do passado?

– Não, claro que não. O que passou, passou.

– Mesmo? — Indaguei cética.

– Verdade. Você também não quer sucesso e dinheiro? Todos estão atrás disso, até você. — Eu o olhei, perguntando-me se ele realmente não sabia o que me motivava a trair minha natureza.

– Sim, eu quero sucesso e dinheiro o bastante para manter o estúdio, comprar comida para meus gatos e pagar o aluguel. — Edward sorriu como se as minhas palavras confirmassem sua observação. — Mas você quer mais. — Eu disse suave. — Muito mais.

– Meus gatos são maiores. — Ele brincou. — E o aluguel, mais caro.

Estávamos calados já a algum tempo saboreando nossa pizza quando de repente ele parou para me observar e eu o olhei também confusa e um pouco envergonhada.

– Diga-me, por que deixou os seus noivos? — Aquela pergunta me surpreendeu.

– Achei que já tinha decidido por você mesmo os meus motivos.

– E eu achei que a fase do mau-humor havia acabado. — Ele riu brincalhão.

– É complicado.

– Acho que posso aguentar. — Pressionou ele.

– Fiquei noiva do Mike muito jovem. O conheci na última escola que estudei, quando fomos para a faculdade, decidimos ficar noivos. Eu estava apaixonada e era muito emotiva e impulsiva. Pouco antes do casamento descobri que ele me traia com outra garota há bastante tempo. Não pensei duas vezes e terminei o noivado. — Falei tudo em um impulso.

– Ele é um canalha! — Ele soltou indignado.

– Pelo menos eu enxerguei isso a tempo.

– Sim, foi muito bom mesmo, depois seria ainda pior. — Eu sorri com o seu comentário. — Mas e o outro...

– James.

– Sim, o que aconteceu?

– Ele simplesmente mentiu sobre tudo. Desde o início, até o sobrenome era falso. — Ri sem humor. — Ele tinha negócios escusos, tudo muito perigoso. Na véspera do nosso casamento ele decidiu me contar tudo, porque depois que eu casasse com ele, teoricamente participaria das suas tramoias. Ele disse que era para eu pensar e que me esperaria diante do altar. Passei a noite toda em claro, eu sentia algo por ele, mas tudo aquilo pra mim era absurdo. O dia amanheceu e eu estava em choque, não conseguia fazer nada. Fui para a praia caminhar e tentar clarear minha mente. O tempo passou e eu ali e então eu me dei conta de que o casamento deveria estar começando, tentei ligar para ele e avisar para que ele não fosse, mas já era tarde.

– Você realmente chama problema, não? — Ele estava tentando ser brincalhão, mas eu percebia o terror em seus olhos.

– Não tem graça Ed. — Tentei sorrir.

– Me desculpe. — Ele murmurou.

– Pelo quê? — Estava confusa.

– Por ter dito todas aquelas coisas no dia em que me procurou no escritório. Eu fui insensível e completamente injusto. — Seus olhos eram sinceros e intensos, ele pegou em minha mão por cima da mesa e foi maravilhoso sentir esse contato.

– Isso já foi esquecido. — Falei sincera.

– E o Jacob? — Ele estreitou os olhos. — Já sabe qual é o pecado dele?

– O Jacob é o cara mais legal que conheci, leal, sincero e companheiro. — Ele suspirou e abaixou o olhar por alguns segundos depois me encarou novamente.

– Que bom, Bella.