Conexões Improváveis

2 Capítulo 1 – Um Último Adeus


Notas iniciais
Aí está o primeiro capítulo gente!!! Não esqueçam de comentar e divirtam-se!!!! ps: A media de dias para um novo cap será de uma semana a 10 dias ok??

Nunca imaginei que o que me levaria a ARGOS seria tal acontecimento. Sempre imaginei que seria recrutada por minhas habilidades e levada para ajudar na defesa da estação, em meus sonhos minha família se reunia nesse paraíso que orbita o planeta azul. Mas isso eram apenas sonhos de uma mente fustigada por uma realidade pútrefa e desigual.

A verdade é que, o planeta que um dia já fora acolhedor, acabou tornando-se uma grande ruína que se sustenta em uma realidade vazia e sem esperanças. Simplesmente não há mais espaço. Há água, ar puro e alimento, mas um lugar o qual possa ser chamado de casa vem desencadeando batalhas sangrentas as quais simplesmente não tem como serem evitadas.

A superpopulação foi o que iniciou uma sequência de acontecimentos que resultaram na destruição do que antigamente conhecíamos como sociedade. O que resta é apenas anarquia.

Doenças se espalham mais rapidamente, e no meio desse ninho de infecções nasceu algo extremamente mortífero, uma Praga. Semelhante a que já afligiu o mundo durante a Idade Média, na verdade uma versão melhorada desta. É quase como se ela tivesse sido fabricada e lançada ao mundo no exato momento em que alguns déspotas precisavam de uma desculpa para “abandonar o barco” e se refugiarem em uma estação espacial a salvo da Nova Praga.

Mas não cabe a mim divagar sobre teorias conspiratórias. Atualmente, cabe a mim apenas usufruir da incrível sensação de luto, pois acabo de perder a única coisa que me ancorava a vontade de viver, meu irmão, o que restou de minha família, ou melhor, o que restava. Ele foi misteriosamente assassinado em ARGOS 12 horas atrás, e agora eu me encontro no meio do trajeto entre a Terra e a estação.

É surpreendente que me deixem ver seu corpo antes da cremação, afinal, ninguém, jamais entra em ARGOS. Isso me leva a deduzir que não estou indo apenas testemunhar o fim do que resta de meu irmão, certamente eles planejam algo no qual estou incluída. Mas o que o antigo governo iria querer com uma mercenária? Minha mente anseia por uma resposta.

– Prepare-se para a acoplagem! Em cinco minutos a comporta atrás de você se abrira! Antes de passar para a outra nave deixe todos os seus pertences aqui, isso inclui armas e roupas! – a voz do piloto ecoa pelo compartimento de carga no qual me encontro.

Sem muitas opções sigo suas instruções, jogo ao chão minhas roupas e minhas três facas, pelas quais tenho muito apreço. Mas isso valera apena, pelo menos verei seu rosto uma última vez antes de decidir o que fazer com minha miserável existência.

Permaneço em pé, estática, posso até sentir os olhos por trás das câmeras que me monitoram. Sinto-os analisando cada pedaço de meu corpo desnudo, posso ouvi-los tecendo comentários sobre mim, a irmã do cientista chefe do departamento NP. Antes que o ódio por tais pessoas pudesse me consumir, um grande abalo desestabiliza a nave, e então um estrondo ecoa pelo compartimento. A comporta se abre, e antes que eu me de conta, já estou caminhando em direção ao compartimento pertencente a outra nave, a qual me levara para ARGOS.

Outro estrondo ricocheteia pelas paredes metálicas da nave e invade meus ouvidos, em seguida a comporta se fecha. Cerca de 10 minutos se passam, e então sinto a nave pousar sobre uma superfície plana, finalmente cheguei a ARGOS.

∞ ∞ ∞

– Sinto muito pela viajem inconveniente! Tememos que a praga nos atinja, sendo assim um pouco de precaução não faz mal! – Walker, um membro do Conselho me recebe com um sorriso diplomático estampado nos lábios.

– Esta viajem por si só já representa um inconveniente! – digo ríspida, delicadeza nunca foi um dos pontos marcantes de minha personalidade.

Sua expressão diplomática se dissolve em condolências. Pessoalmente ele parece ainda mais novo do que imaginei, é um tanto jovem para fazer parte do conselho.

– Eu compreendo! – ele murmura, seus olhos transmitem pena e sinceridade, talvez Walker fosse próximo de meu irmão – Vou leva-la até ele!

Caminhamos lado a lado, ambos com posturas rígidas e desconfortáveis. Começo a sentir-me culpada por ter agido tão grosseiramente, a presença de Walker exala gentileza e compaixão, ele realmente parece entender minha posição.

– Você o conhecia? – questiono-o tentando demonstrar simpatia.

– Sim! Eu o localizei enquanto ainda estava na Terra, reconheci suas habilidades! Acabei por me tornar seu mentor aqui em cima... – ele responde e estica os braços lembrando-me quão longe estamos da Terra – Jason era uma boa pessoa! Não consigo imaginar quem tenha feito isso com ele... – seu semblante se entristece.

–Consegue imaginar o porquê? – pergunto astutamente.

– Isto é algo para debatermos em outro momento... – ele responde em um sussurro inclinando a cabeça para baixo, como se tentasse esconder sua boca. Compreendo sua atitude, alguém está nos observando.

Alguns minutos de silêncio se estendem entre nós até que chegamos a um elevador. Por estarmos parados, minha inquietação se apresenta mais visível.

– Vai acabar destroçando a pobre blusa Aya! – Walker diz com um sorriso discreto brincando no canto de seus lábios.

– Oh... – murmuro ao me dar conta de que comecei a desfiar uma das mangas do macacão acinzentado que me foi dado – Sinto muito... Tenho mãos, digamos... Inquietas... – justifico-me.

Mãos inquietas que geralmente se acalmam ao sentirem o gélido toque das facas que costumo prender a meus pulsos.

– Você é exatamente como ele a descrevia!

– Isso é bom? – pergunto.

– Diga-me você, auspiciosa jovem de 23 anos, cujas falas são afiadas como faca e o olhar gélido e penetrante!

– Você soou exatamente como ele! – digo esboçando um sorriso discreto enquanto uma imagem fraca do rosto de Jason preenche minha mente.

– Ele também disse algo sobre irresponsabilidade e instinto, mas isso ainda não pude comprovar! – Walker sorri levemente e eu o acompanho.

Meu sorriso perdura por alguns segundos até se desmanchar ao lembrar-me de que ele está morto.

– A possibilidade de acharem o culpado existe? – questiono-o.

Ele inclina levemente a cabeça em minha direção e simplesmente me encara. Apesar de possuir um rosto marcante e capaz de demonstrar suas emoções em apenas alguns relances, são seus olhos que me comunicam que essa possibilidade existe.

As portas do elevador se abrem revelando um corredor arcaico e escuro, Walker sai do elevador e eu o sigo. Meu coração gela quando meus olhos distinguem a palavra necrotério escrita em uma porta de metal a nossa frente. Este é o fim das horas angustiantes que passei, finalmente irei vê-lo pela última vez, poderei me despedir em silêncio, sentirei um rio de lágrimas se acumular em meu intimo, mas não as derramarei, pois eu e Jason aprendemos da pior maneira que externar emoções pode ser perigoso.

Walker posiciona sua mão direita sobre um painel que se encontra ao lado do batente da porta, esta se abre instantes depois. Caminhamos dentre diversas macas de metal onde corpos cobertos por tecidos brancos repousam.

– Parecem haver muitos assassinatos por aqui! – deixo escapar.

– Estes são criminosos que receberam a pena de morte, depois de passarem pelo necrotério, seus corpos são encaminhados para o departamento de testes! – Walker responde calmamente.

Então ele para diante de uma maca que está acoplada a uma espécie de câmera.

– Quer realmente vê-lo? – ele questiona o óbvio.

– O que acha? – respondo fazendo jus a descrição que Jason atribuiu a mim.

– Acho que deveria preservar em sua mente a memória dele vivo...

– Eu preciso vê-lo! É assim que eu aceito as coisas... – digo removendo de minha voz qualquer indicio da dor que realmente sinto.

– Sendo assim... – ele murmura e retira parte do tecido branco que cobre o corpo, revelando-me o rosto sereno de um homem de beleza suave, cuja pele pálida contrasta com os cabelos negros e arrumados. Sua boca esconde-se em meio á palidez que seu semblante possui, mas ainda sim é possível ver seus leves traços, que em comparação com o resto de sua face são suavemente dotados de cor.

Meu interior se agita, dividido em uma batalha entre ódio e dor. Como alguém ousou tirar sua vida? Jason não merecia isso, ao contrário de mim ele nunca tirou uma vida, e sim salvou milhares. Sua bondade era contagiante. Sua dedicação para com a vida era motivadora, ele queria salvar todos da Nova Praga. Ele almejava o bem até para os poucos que lhe almejavam o mau, sempre foi assim.

A humanidade foi contemplada com 28 anos da existência de uma alma esplendorosa, mesmo essa humanidade sendo indigna de sua bondade.

Repouso minha mão delicadamente sobre sua face, o choque entre as diferentes temperaturas de nossos corpos faz com que uma onda de arrepios se dissipe ao longo de meu ser.

– Adeus... – murmuro com pesar.

Afasto-me lentamente de seu corpo. Walker me permite um último vislumbre e então cobre o rosto novamente. Ele caminha até um painel ao lado da câmara, seus dedos descrevem traços na tela e então a maca se recolhe, em seguida uma espécie de liga de vidro lacra o corpo de Jason dentro da câmara.

Walker se vira para mim e me encara, seus olhos me interrogam “posso?” eu aceno a cabeça lentamente, e então, labaredas de chama envolvem o corpo de minha família. Lanço ao corpo um último olhar de despedida e então fecho meus olhos e viro-me dando as costas para Jason.