Conexão Seattle
31 Feliz, mas triste
Notas iniciais
Uma corrente de ar fria atravessava a janela da sala que se encontrava entreaberta, permitindo que os primeiros raios solares enchessem o cômodo onde duas pessoas conversavam sentadas no sofá.
O diálogo era realizado num tom praticamente inaudível. A maioria das informações, eram, notoriamente ditas em códigos e a mulher, olhava constantemente na direção das escadas preocupada com a possibilidade de alguém aparecer. O que a tranquilizava era o fato de saber que apenas um dos filhos do homem com quem conversava, a menina estava no aparamento, e aquela hora, provavelmente dormia.
–Já acharam o dono da cobra?
–Não. Isso foi o que os agentes disseram, mas sabe o que eu penso a respeito disso
–Acho que não há motivos para se preocupar. –Dizia o homem. –O Crawelt esta numa prisão de segurança máxima, não há como passar informações de lá.
–Mas e o outro? –Perguntou Marissa. –O que está solto? Ele não pode estar atrás de vingança?
–Depois de tanto tempo? Acho pouco provável. Ainda assim, não se preocupe, estou empenhado em acha-lo. –Houve um breve silencio. – Como ela está?
–Como sempre, Charles. Tentei fazer a transferência, mas não há como fazer isso esse ano.
–Talvez seja melhor esperar. E quanto ao Steven?
–Ele esteve no hospital ontem, visitando o Freddie. Tem algumas semanas que não fala sobre a loja. Espero que tenha desistido.
–Acho difícil. Marissa, acho que deveria conversar com o Freddie. Tentar convencê-lo, seria melhor para todos.
–E acha que eu já não fiz isso? A cada dia que passa ele se parece mais com o pai.
–Obcecado pelos negócios?
–Não, teimoso.
–Por quanto tempo ele vai ficar com o Arthur?
–Por mim, ele vinha pra casa hoje. Mas eu não sei, estou esperando ele se recuperar.
–Me parece prudente. –O homem se levantou lentamente. –Mas deixe-me acordar a Carly, vamos sair mais tarde.
–Ah, claro nesse caso, eu também já vou.
–Eu não demoro, ainda quero lhe dizer algumas coisas. Espere um momento.
–Desculpe, mas tenho que ir ver o Freddie. E também aqui não é o lugar mais adequado para conversarmos. Até mais, Charles.
–Até. –Ele acenou distraidamente.
Freddie havia acordado cedo, sentindo a perna doer um pouco e se dirigira a sala da casa, porém ela estava vazia. Encaminhou-se então a cozinha onde o Arthur encontrava-se sentado lendo jornal enquanto bebericava o café contido na xícara. A mesa não só estava farta como bonita, e nesse momento Freddie sentiu a barriga roncar. Em silêncio, ele sentou ao lado do homem e aceitou o saltou um suspiro. Já não havia mais o que falar sobre o incidente com a víbora, embora tivessem certeza deque a mesma fora colocada na cama do garoto, não possuíam prova contra ninguém.
–Bom dia. –Disse o garoto.
–Bom dia. –O homem o fitou sorrindo –Dormiu bem?
–Sim. Obrigado por me deixar ficar aqui, não queria meso volta pra casa. Não agora.
–Não me agradeça, apenas tome o seu café. –Ele voltou-se ao jornal. –Não quero problemas com a sua mãe.
Freddie assentiu em silêncio e se serviu de um copo de suco.
A casa de Arthur não diferia muito do pet shop, ele tinha três cães, dois gatos, um hamster, dois lagartos, e uma tartaruga, cada um possuidor de um cantinho seguro e confortável em algum lugar da ampla residência. Mas se divorciara há uns anos e agora morava sozinho. Freddie lembrava que sempre gostara dali, mas a mãe raramente permitia que ele ficasse ali por mais que algumas horas.
Os latidos dos caos de Arthur, na parte da frente Daca, anunciaram antecipadamente a presença de algum visitante. Ouviu-se o barulho campainha, os passos da empregada indo atender, e logo depois Marissa surgiu na cozinha com um ar preocupado.
Freddie encontrava-se tão distraído que nem mesmo a aproximação da mãe foi capaz de tira-lo por completos de seus devaneios, limitando-se a levantar os olhos e sorrir distraidamente ao vê-la.
–Como está se sentindo? –Perguntou passando a mão nos cabelos do garoto.
–Bem. –Respondeu.
–Aquela garota não apareceu aqui, não é?
–O nome dela é Sam, e por favor, procure trata-la bem.
–Arthur, exijo que ele proíba a aquela menina de entrar aqui. É uma delinquente.
–Boa noite Marissa. –Disse o homem encarando-a –Como vai?
–Não me venha com ironias. Aquela garota espancou uma menina no elevador, hoje a tarde! A Cintia, Freddie!
–Eu não acredito... –Freddie murmurou esfregando a testa.
–Por que a surpresa? –Ela riu seca. –Como se nunca tivesse ficado sabendo que ela bateu em alguém.
–Por que ela fez isso? –Perguntou Artur reprimindo um riso.
–Você fique fora disso!
–Mãe!
–Escutem aqui. –Disse apontando o dedo para os dois. Aquela garota...
–É amiga dele –Disse o homem alterando a voz. –Até quando vai continuar agindo assim? Deixe o garoto cuidar da vida dele, a Sam é uma menina, um pouco diferente, mas uma boa menina.
–Boa menina? Ora me poupe, quem você pensa que é?
–Já chega! –O homem levantou avançando. –Não vou deixa-la infernizar a vida do Freddie, felizmente ele tem a mim. E os amigos dele sempre serão bem vindos a minha casa!
A mulher arfava fuzilando-o com os olhos com as mãos tremulas de raiva. Freddie achou que fosse esbofetea-lo a qualquer momento.
–Freddie, vá pegar suas coisas. –Ordenou. –Vamos embora daqui.
–Marissa, ele ainda está mancando, deixe-o descansar, por tudo o que há de mais sagrado.
Ela se voltou ao garoto que continuou imóvel com os cotovelos sobre a mesa, e a cabeça apoiada nas mãos , mas completamente atento ao que ouvia. Com as faces rubras e tremendo de ódio, a mulher saiu pisando firme e batendo a porta com violência deixando os dois sozinhos novamente.
Quase no mesmo instante, Freddie sentiu-se tomado pela culpa, por ter se coportado daquele jeito, ao mesmo tempo que era invadido por uma enorme sensação de libertação. Sim, era capaz de agir por vontade própria e fazer o que julgava ser o correto independente da vontade da mãe.
Através de um pequena janela, Wendy podia ver, um homem com um curativo no braço. Estava de costas, mas ela podia reconhecer a voz do homem que a levara para longe de casa com a promessa de uma vida melhor e a atirara naquele inferno. A frente dele, estava um outro homem, esse com o rosto a mostra, aparentava ter uns trinta e oito anos, usava roupas de punk e, dentre as muitas tatuagens que possuía, destacava-se uma enorme serpente vermelha em seu braço, com os dentes a mostra, pronta para dar o bote.
–A garota está nos vendo. –Disse o tatuado.
–Deixe-a. É minha amiga. Tem me distraído bastante nas horas vagas.
Os dois riram.
–O que vai fazer com ela quando terminar o serviço?
–Não sei. Mas por que o interesse? Ela é menor.
–Mas você não se importa.
–Ora, por favor, não se compare a mim. Agora volte ao galpão e dê o recado.
O tatuado assentiu em silencio e se retirou, deixando o homem sozinho no escritório. Quando a porta da frente se fechou, ele voltou-se ao quarto onde estava Wendy e a encarou nos olhos. A garota parecia uma lebre assustada, atirada num colchão imundo, cercada por restos de comida cobiçada pelos camundongos.
Num movimento brusco, o homem a ergueu pelos braços, deixando-a de pé e a fitou com o rosto muito próximo ao da garota. Ele passou as mãos pelos cabelos da menina, retirando alguns fios do rosto e sorriu revelando os dentes perfeitos. Tinha a barba bem feita e o hálito impecável, vestia-se como se estivesse indo a trabalhar num escritório muito elegante.
–Wendy. –Começou calmamente. –Sabe qual é a sua sorte, minha querida? Hm? Que eu não gosto de crianças. Mas o meu amigo que acabou de sair, é um pouco imoral.
–Me deixa em paz. –suplicou.—Deixa eu voltar pra casa, não digo nada a ninguém...
–Garota ingrata. Em pensar que eu a ajudei...
–Você mentiu pra mim. –Disse chorando.
–Omiti. Se fosse um pouco mais inteligente, perceberia que agencia de modelo alguma jamais a contrataria. E que um garoto como o Tomi não se interessaria por você a toa. Mas vamos fazer assim. –Ele a abraçou conduzindo-a pra fora do quaro. – Eu te tiro daqui e você volta pra operação. Sem gracinhas, está bem?
Ela assentiu silenciosamente, trêmula de frio e deixou-se conduzir pra fora do quarto. A luz do sol enchia o escritório do homem, repleto de papéis onde, em quase todos era possível observar o símbolo de uma empresa que ela conhecia por pertencer ao pai de um dos seus amigos de Seattle. Em todos, o logo estava riscado por um X vermelho.
Já fazia alguns minutos que Carly se encontrava diante do computador, esperando que um arquivo terminasse de baixar. Ela precisava daquele vídeo para o web show, mas não sabia direito como fazer aquilo e a demora já estava deixando-a exausta.Ela já sentia as pálpebras pesarem e o ruído da chuva parecia convida-la a se aninhar nas cobertas quentes e confortáveis da sua cama. Mas ela sabia que um sono tranquilo não seria possível tão cedo diante de tudo o que estava acontecendo,depois do que ouvira pela manhã.
Um luz som agudo, vindo da caixa de som do computador, alertou que alguém a chamava no chat. Ela aceitou a conversa e logo a imagem de Freddie, sentado num sofá, surgiu diante dela.
–Como você está? –Perguntou ela sorrindo.
–Bem melhor. Pensei que eu era o único sem sono.
–Não é tão tarde assim. Acaba de dar onze horas.
–Mas pra quem foi acordada de madrugada... Queria pedir desculpas e também agradecer a você e ao Spencer. Eu tentei ligar mais cedo, mas vocês não atendiam...
–O Spencer está com uma nova namorada, mal para em casa. E eu estive fora o dia todo, sai com o meu pai.
–Fico feliz pelo Spencer.
–Obrigada, eu também estou feliz.
– Eu vou te deixar descansar, só queria dizer isso.
–Espera, só mais uma coisa.
–O que?
–Eu escutei uma conversa hoje cedo... –Elas sentiu as faces corarem. –Não que eu tenha esse hábito, mas dada as circunstâncias...
–O que houve?
–Freddie, eles têm noção de que há algo errado. Meu pai e a sua mãe.
–Sério? O que eles disseram?
–Muitas coisas. Mas o caso é que eles desconfiam do Crawelt. Freddie, é estranho eles parecem esconder algo...
–Disse o eu já sei. Resta saber o que. O que mais você ouviu?
–Eu não entendi, diziam muitas coisas, sobre um transferência, e também sobre o senhor Robinson... Freddie, acho que devia conversar com a sua mãe. Quem melhor que ela pra te ajudar?
–Não sei. Meu tio não iria concordar com isso.
–Mas as coisas mudaram, Freddie. Eu...
Carly parou de falar observando uma barra azul que surgiu no canto da tela, no instante em que o computador travou por alguns instantes. Quando a tela voltou ao normal, a barra desapareceu e ela pode voltar a falar com Freddie. Entretanto o download que estava 85% concluído fora cancelado.
–Freddie, amanhã nós conversamos. –Disse sentindo as forças esvaírem. –Também precisamos gravar os vídeos do web show.
–Tudo bem. Até mais Carly, e mais uma vez obrigado.
–Thau.
Ela desligou o notebook e pôs sobre a cômoda ao lado da cama. Atirou-se sobre o colchão e puxou as cobertas, resvalando rapidamente para o sono.
´
Ela caminhava lentamente pelos corredores do colégio com um ar sonolento, e sentindo as pernas pesarem a cada passo que dava. Não pensava em outra coisa que não dormir, e nem mesmo todos os problemas que rondavam sua mente pareciam ser suficientes para mantê-la desperta. Após encontrar o boletim dentro da caixa de correio, adiara tudo o que havia programado para o resto do fim de semana, e passara o Domingo estudando dentro do quarto, sem se permitir distrair nem por um segundo. Parara apenas para comer e para ligar para Freddie, que perecera um pouco aborrecido e ela deduziu ser apenas exaustão.
Ainda assim, ficara um pouco chateada, não entendera o motivo dele ter dito num tom tão seco que precisavam conversar. Isso lhe dificultara bastante sua concentração no resto do dia, e ela apenas não questionou o comportamento dele no mesmo instante em função do que havia acontecido.
Ainda faltavam alguns minutos para a aula começar, e ela via nisso uma oportunidade de descansar um pouco em algum lugar onde o barulho não fosse tanto quanto no pátio.
Ela subiu até a biblioteca que encontrava-se no mais absoluto silencio, poucos estudantes encontravam-se ali, e após escolher uma mesa recanteada, numa área de menor iluminação, ela inclinou a cabeça sobre a mesa e fechou os olhos. Pareceu ter passado muito tempo, mas ela ainda sentia-se sonolenta quando alguém sentou diante dela e a tocou no braço.
–Que é? –Perguntou sem levantar o rosto.
–Sam, precisamos conversar.
Ela levantou o rosto e viu Freddie sentado em uma cadeira em frente com um ar um pouco sério fitando-a.
–Eu ia falar com você depois da aula. –Ela ergueu-se lentamente. –Como você está?
–Bem e você?
–Bem. –Respondeu ajeitando os cabelos. –Apenas com um pouco de sono.
–Sam. –O ar dele ornou-se ainda mais sério. –Por que fez aquilo? Bateu na Cintia?
Sam saltou um suspiro impaciente.
–Por que ela te beijou. –Respondeu friamente. –Como ficou sabendo disso?
–Não faz diferença. Mas desse jeito parece até que não confia em mim.
–É claro que confio! –Disse esforçando-se para manter a voz baixa.
–Então por que bateu nela?
–Por que ela sabia da gente, e mesmo assim fez aquilo. Alem disso, não fui lá atrás dela. Eu fui ver a Carly, e encontrei a Cintia no elevador. Ela ficou me provocando, e eu não aguentei!
–Sam, precisa ser menos impulsiva. –Disse após um suspiro. –Não havia necessidade disso.
–Então foi por isso? –Ela o olhou com um ar desafiador. –Que me tratou daquele jeito ontem? Por causa dela?
–Não. Está entendendo errado, sabe que eu sou contra violência! Além disso, agressão é crime, podia ter se metido numa encrenca por minha causa! Como quer que eu me sinta?
–Quero que seja menos ingênuo e não deixe mais nenhuma outra garota entrar no seu quarto!
Freddie se calou com as faces coradas de raiva. Tinha preparado aquele dialogo a noite toda, e absolutamente nada estava saindo como planejara. De algum jeito, Sam revertia a situação ao seu favor e fazia com que parecesse que ela tinha alguma razão.
–Tudo bem, Sam. Vamos colaborar pra que nada disso aconteça novamente, está bem?
–Por mim está ótimo. –Ela ajeitou a mochila sobre os ombros e saiu apressadamente da biblioteca visivelmente aborrecida.
Linda. Pensou Freddie ao vê-la se distanciar. Embora odiasse o que ela havia feito, contra a sua vontade sentia certa vaidade por parte do ciúmes dela. E o que mais o admirava: ela não havia, em momento algum, sido rude com ele em função disso. Freddie começou a sentir um certo arrependimento pela forma que a tratara na tarde anterior, mas no momento, seria impossível raciocinar em meio aos gritos de Marissa que, brigava com Arthur por conta de um dos lagartos do homem que tomava sol na varanda.
Brad andava de um lado para o outro na sala do diretor, como um animal enjaulado, enraivecido e faminto. Tinha um papel amassado entre os dedos, que recusava a olhar novamente, pois a cada vez que o fazia, uma onda de ódio e aflição o abalavam de tal forma que chegava a doer-lhe as têmporas. F. Havia tirado um F numa prova que lembrava de ter gabaritado, e isso o indignava de uma forma, que ele teve de se controlar para não ir tirar satisfações diretamente com o professor, de forma pouco amistosa.
–Bom dia, senhor Crawelt. –cumprimentou o homem abrindo a porta. –A que devo a visita?
–Minha nota está errada. –Disparou. –Eu gabaritei, tem um F aqui, o que há?
–Calma. –Disse o homem sentando-se na cadeira. –Está muito nervoso, não se preocupe, vamos ver o que há.
Aqui. –Brad estendeu o papel.
–Hm... –O homem analisou o boletim. –Já procurou o senhor Kim?
–Ele está em aula, não quis incomodar.
–Onde está a prova.
–Aqui. –Brad entregou o papel.
–Senhor Crawelt, lamento dizer que não será tão simples resolver isso. ainda que tenha sido um erro, as notas já foram lançadas no sistema, e não haverá como reverter.
–O QUE?
–Acalme-se. Mas como o houve uma injustiça, podemos lhe dar alguns créditos...
–Não preciso de créditos! Preciso apenas que descubram como isso aconteceu.
–Provavelmente, um erro. Mas eu tenho uma sugestão. Ao fim do semestre, colocaremos isso como observação em seu histórico, e assim seu ingresso em qualquer universidade não será afetado. O que me diz?
–Já que não há mais nada que possa ser feito...
Brad deu meia volta e saiu da sala dizendo um “bom dia” praticamente inaudível ao homem do outro lado da mesa. Do lado de fora, uma garotinha miúda do primeiro ano, o olhou assustada, e então ele se deu conta do quanto estava possesso. Respirou fundo tentando se acalmar. Ele começou a avaliar as possibilidades. Não parecia ter sido um simples erro, pois não fora uma mudança de A para B, mas sim para F. Alguém fizera aquilo com o intuito de prejudica-lo. Na hora, ele pensou em Shelby. Mas embora ela fosse vingativa, ela seria incapaz de prejudica-lo em algo relacionado aos seus projetos para o futuro.
Foi quando uma garota ruiva, com as pontas dos cabelos virados para cima, passou, descendo as escadas em pequenos salto ao lado de mais dois garotos. Brad se aproximou. Estava tão irritado, que nem sequer medira as consequências do que poderia acontecer. Mas de repente tudo pareceu muito claro. Missy seria incapaz de enfrenta-lo, mas no dia em que brigaram, percebeu, no instante em que ela saiu da sala, que não havia acabado ali.
–Foi você não foi? –Perguntou pondo-se diante dela.
–Eu? Eu o quê? –Ela olhou pros lados assustada.
–Não se faça de desentendida! –Gritou.
–Hei, veja como fala com ela. –Disse Gibby aproximando-se.
–Você cala a boca, não sabe o que está acontecendo!
–Mas sei que não deve tratar uma mulher assim acaso não te deram educação?
–Escute aqui. –Brad disse dirigindo-se a Missy. – Já se divertiu o bastante, mas a partir de agora, fique longe do meu caminho, se não quiser se arrepender do dia em que nasceu!
–Ah é, e você vai fazer o que? –Gritou Gibby– quem você pensa que é cara, não conhece uma coisa chamado diálogo civilizado?
–Está avisada. –Disse Brad afastando-se.
–O que está acontecendo? –Perguntou Jonah aproximando-se do amigo.
Sam e Shelby estavam logo atrás.
–Aquela estúpida alterou uma nota minha.
–Sério? –Perguntou Sam admirada. –Por essa eu não esperava.
–Qual é Sam, está do lado dela? –Perguntou Griffin aproximando-se.
–Claro que não, mas sei lá... Definitivamente por essa eu não esperava!
–E agora, Brad? –Perguntou Shelby.
–Não, tudo bem, já disse o que ela tinha de ouvir. E ela que não se atreva a cruzar meu caminho de novo. Nenhum desses babacas.
Sam olhou de relance na direção das escadas e viu o grupo ao redor da garota aumentara. Agora Carly se encontrava ao lado dela, e há alguns metros, Freddie que havia chegado com Carly, fitava Sam à distância, com uma expressão indecifrável. Naquele momento pareceu haver uma longa distancia entre eles, ao mesmo tempo que uma forte ligação fazia-se presente naquele breve olhar. Mas, o que, aos olhos de todos, ficava evidente, eram os dois grupos, em mais um de seus confrontos que pareciam não ter fim. Não poderiam viver em paz.
Sam fora a última entregar a prova, mas achava que se saíra bem. Respondera todas as questões atentamente, recordara-se de todas as fórmulas e assim conseguiria fazer todos os cálculos. Teve de fazer um grande esforço para não pensar na discussão com Freddie, e ainda se havia feio a coisa cera ao ocultar dele a participação da mão do garoto na história. Mas devido a tudo pelo que ele vinha passando, achou que devesse poupa-lo. Uma nova briga entre as duas só serviria para perturba-lo ainda mais.
Ela surpreendeu-se ao deparar-se com o pátio completamente vazio, esperava que ao menos Shelby a aguardasse, e naquele momento se sentiu solitária como nunca. Ela seguia pelo corredor até a saída principal quando ouviu passos vindo em sua direção. Num movimento repentino, ela se viu encostada contra a parede, os braços de Freddie, em volta do seu corpo
–Ainda está brava comigo?
–Você é quem está bravo comigo.
–Eu disse a sua amiga que você iria comigo hoje.
–Por que fez isso?
–Quero ficar com você. Me desculpe por ontem, vamos esquecer aquela discussão?
Ela desviou os olhos dos dele por alguns segundos, buscando força em sua raiva, que dissipava-se a medida em que o encarava. Entretanto, ela o fez baixando as pálpebras e seus olhos fixaram-se nos lábios dele, que desenhavam um lindo sorriso de lado. Ela sentiu os pelos da nuca arrepiarem-se quando ele diminuiu o espaço entre eles, e lentamente aproximou os lábios dos dela, encaixando-os nos seus.
–Hei, o que estão fazendo?
Sam sentiu ímpetos de soltar um grito de frustração diante da interrupção. Em vez disso, empurrou Freddie e acenou para o inspetor, e continuou o trajeto até a porta sendo seguida pelo garoto.
–Vem, eu te deixo em casa.
Ela permaneceu em silencio, enquanto caminhava até o outro lado da escola, Freddie segurando-lhe a mão com firmeza. Ela tentava não demonstrar a satisfação que aquele simples gesto lhe causava, fingindo-se indiferente a toda a situação.
–Sam, está tudo bem, não é? –Ele perguntou ao entrarem no estacionamento –Sinto muito por ontem, não tive a intenção.
–Está sim. –Ela o olhou séria. –E me desculpe também, acho que não era um bom momento pra criar confusão.
Os dois seguiram ainda em silêncio, até onde se encontrava o automóvel do garoto. Alem do Sedam de Freddie, haviam mais três carros estacionados ali, um deles, uma bela Mercedes cujo modelo embora Sam não soubesse identificar, parecera-lhe estranhamente familiar.
–Professores devam ganhar bem. –comentou ela.
–Não tenho tana certeza, mas você pode tentar...
–Talvez... Professora de música. –ela deu de ombros olhando para o carro.
–Entra. –Disse ele abrindo a porta do carona.
Ela entrou no carro, com uma expressão indecifrável, meio confusa, meio intrigada. Freddie entrou logo depois batendo a porta do carro, enquanto a garota recordava-se do dia em que o vira fazer esse mesmo movimento quando ia jantar com uns amigos da mãe. Porém, naquele dia, ela estava do lado de fora.
–Algum problema, Sam?
–Não, é só que... Vamos embora daqui.
Ele assentiu em silencio e ligou o carro saindo um tanto apressado frente ao súbito nervosismo da garota. Ela mantinha os olhos fixos em algum ponto do distante, sem de fato vê-lo, como se estivesse a fazer um grande esforço para se lembrar de alguma coisa.
–Viu aquela Mercedes? –Perguntou ainda mirando o nada.
–Vi. –Freddie a olhou de relance. –O que tem?
–Tinha um homem lá dentro. –Ela voltou-se para Freddie –Se abaixou quando eu olhei.
–É sério?
–Freddie, não é o senhor Robinson que tem um carro daquele?
–Não sei, acho que sim... Sam, carros são parecidos.
–Freddie, o que há? Você parece está fugindo dos fatos...
–Não estou fugindo, só estou cansado disso. –A voz dele soou impaciente. –E se realmente tivesse alguém lá? O que poderíamos fazer?
–Realmente, nada. Mas e quanto a serpente? A presença daquele homem no hospital?
–Os agentes ambientais disseram que provavelmente, a serpente pertence a alguém, que por medo não quer assumir. E o hospital não pode liberar informação sobre ninguém, no máximo podemos registrar uma reclamação.
–Que absurdo! Então deixam o homem entrar no seu quarto, mas não dizem o que ele fazia lá. Vamos descobrir sozinhos! Onde ficam os registros de visitas?
– Fica tudo no computador da recepção, e depois de uns meses vai pro arquivo. Mas não vejo como vamos fazer isso.
–Eu vejo. –Disse com determinação. –E aposto que o nome do senhor Robinson não consta lá!
Os quatro estavam sentados numa lanchonete, próxima a escola, e viram, o momento em que os dois passaram juntos, de mãos dadas saindo logo em seguida no carro do garoto. Resignado, Jonah dera as costas a cena, voltando-se ao seu hambúrguer, enquanto Shelby, ainda incrédula, revezava-se entre observa-los e olhar de soslaio para Brad, que apenas no início levantara os olhos, voltando-se logo em seguida ao ipad.
–Nossa, já estão assim? –Comentou Griffin.
–É. –Shelby olhou de relance para Griffin.. –E eu achava que o Benson era um controlado pela mãe. A gente se engana né?
–Eu espero que isso não tenha sido nenhum tipo de provocação.
–Eu? –A menina pôs a mão sobre o peito. –Acha que eu insinuaria que você foi um idiota que não ficou com a magrela só por que mamãe não deixa?
Brad e Jonah riram.
–Não tem graça. –Respondeu Griffin.
–Ah, deixa de ser chato, eu só to brincando.
–O fato é que foi por causa daquele idiota que perdemos o teste. –Comentou Jonah. –Isso me dá ódio.
–Foi em nome do amor.
–Shelby o seu humor instiga minha curiosidade. –Disse Griffin. –A que se deve essa alegria?
–Arrumei um emprego novo! –Respondeu –Finalmente vou sair do inferno que é aquela lanchonete! Agora vou trabalhar numa loja de instrumentos!
Os três parabenizaram a garota praticamente ao mesmo tempo.
–Muito legal, mas se ao menos duas pessoas na Purple tivesse o comprometimento que eu tenho, não estaríamos nessa dureza!
–Errado, o seu comprometimento é com a preguiça! –Retrucou a garota. –quer ganhar dinheiro sem ter que perder noite estudando.
–Mas pretendo perder tocando.
–Que seja, de qualquer forma, todos nós nos emprenhamos. Não estamos dando sorte, é isso.
–Hei, vejam isso. –Exclamou Brad. –A CR seguros corre o risco de fechar.
–O que é isso? –Perguntou Jonah.
–Uma empresa. Dos pais daqueles amigos do Benson, a que fugiu e o outro imbecil.
–O que aconteceu?
–Sei lá, é só uma lista de empresas quebradas.
–E por que está lendo uma lista de empresas quebradas? –Perguntou Shelby.
–É economia. Ela está no mercado a um bom tempo. Olha só...
Os três se entreolharam como risos reprimidos, como se estivessem se perguntando, silenciosamente o que aquele garoto fazia ali entre eles.
A recepcionista fazia a ficha de um garoto na faixa de uns dez anos, com o rosto úmido de lágrimas e o braço enfaixado num pano tingido de vermelho. O hospital estava pouco movimentado, na recepção havia apenas o garotinho com o braço machucado, e logo atrás, um garoto de olhos castanhos com uma mochila nos ombros. Assim que os pais do menino se afastaram com ele em direção a enfermaria. Freddie se aproximou.
–Boa tarde. Estava lá fora esperando uma amiga, ela veio fazer um curativo. Ela me ligou dizendo que estava presa num banheiro. Ela é claustrofóbica, estou muito preocupado.
A mulher olhou em volta, e não localizando ninguém, pediu que o garoto se mantesse tranquilo e se afastou. Freddie observou perplexo o plano de Sam fluindo exatamente como ela havia dito e num movimento rápido, girou a ela do computador e trouxe o ouse para mais perto. Não eram exigidas senhas nem nenhum tipo de código de acesso, e com uma habilidade impressionante, Freddie abriu uma planilha cujo titulo indicava ser exatamente o que ele precisava. Ele correu os olhos rapidamente pela tela, no instante em que a recepcionista voltava, acompanhado de Sam, abismando-se diante do que via. Freddie aumentou a velocidade da leitura, até que localizou, em meio a vários outros nome o de Steven e do paciente que ele esteve visitando, um tal Davis August.
–Garoto, o que pensa que está fazendo?
–Me desculpe, meu celular está sem bateria, queria muito postar no perfil o que está acontecendo.
– Há uma lan house há alguns metros daqui. Por favor, não faça mais isso, esse computador é de uso restrito.
– Por favor, me desculpe, é que...
–É melhor que se retirem agora. –Disse rispidamente.
–Me desculpe mais uma vez. Tenha uma boa noite.
Ele se afastou de mãos dadas com a garota. Já escurecia quando os dois saíram do hospital e caminharam até o carro em silêncio, Freddie ainda pasmo com o que acabara de fazer. A principio, a ideia parecera loucura, mas inofensiva uma vez que se encontravam na porta do hospital viu-se obrigado a seguir adiante. Sam deveria entrar afirmando senti uma dor no braço, e depois ser liberada, entrar no banheiro, de onde mandaria uma mensagem. O resto era com ele.
–Da próxima vez, você entra e eu verifico. –Disse ela ao entrar no carro.
–Não vai haver próxima vez. –Ele bateu a porta do carro. –Nem sei como aceitei isso.
–Eles queriam engessar meu braço, mesmo vendo que estava bom. Idiotas! –Ela olhou de relance para o garoto enquanto retirava as ataduras. –E então?
Freddie suspirou encostando a cabeça no encosto do banco com os olhos fixos no para-brisa.
–Ele realmente veio ver um amigo. Talvez... Tenha sido só coincidência mesmo.
Os dois ficaram em silencio por um tempo.
–O que vai fazer agora? –Perguntou ela.
–A Carly me aconselhou a conversar com a minha mãe. Talvez fosse a coisa certa a fazer.
–Talvez. Mas você já tentou contar a ela antes e ela não acreditou. E se contar sobre a loja, pode ser que ela se desespere... Não sei, não gosto dessa ideia.
–Também não, mas não consigo pensar em mais nada.
–Você desistiu de falar com o Crawelt?
–De que isso serviria?
–O Crawelt é a única pessoa viva e não foragida que pode ter alguma informação sobre o Petter.
–E por que ele me diria?
–Ele tem uns... Sei lá uns códigos de conduta que pra ele fazem muito sentido. Ele não é homicida. E sempre ha motivações pessoais em suas ações. –Ela deu um longo suspiro e acrescentou com doçura –Enfim, faz aquilo que lhe parecer melhor, e conta comigo pro que precisar, tá?
Se fez um longo silencio até que ele se virasse, fitando a garota com doçura e tomasse as mãos dela entre as suas. Queria mais do que tudo ficar ao lado dela, ao mesmo tempo em que preferiria vê-la longe daquela história.
Arrependia-se de tê-la chamado no quarto no outro dia e de ter lhe contado a respeito da caixa. Mas jamais imaginara que ela, ao invés de fazer todo o tipo de piada (antes ou depois de lhe fornecer alguma informação), iria se mostrar a amiga que ninguém jamais seria. Ele sabia que se sentia fortemente atraído por ela muito antes daquilo, talvez antes mesmo do beijo na sala vazia, mas nunca poderia imaginar que ela sentisse por ele qualquer coisa além de desprezo.
Agora sentia uma extrema vontade de estar perto dela a todo o instante, sentindo o aroma doce e fresco que ela exalava impregnar-lhe as narinas, a maciez em sua pele extasiando-o a cada vez que a tocava. Gostava de ouvir o som alegre da voz dela enchendo seus ouvidos, e de se perder na no azul instável dos olhos dela. Amava-a. E ela também o amava. Estava feliz. Não queria que nada daquilo estivesse acontecendo. Também estava triste.
–O que foi? –Perguntou ela?
–Nada. –Ele sorriu ainda fiando-a. –Eu vou pensar no que fazer. Mas agora, vou te levar pra casa.
Ela assentiu apertando os dedos envolta das mãos dele e aproximou o rosto, beijando-o rapidamente nos lábios. Em seguida ajeitou-se no banco, enquanto Freddie ainda com o olhar um pouco perdido, mas parecendo menos tenso, ligava o rádio do veículo. As notas da música encheram o carro de uma forma suave, fazendo a tensão que os dois ainda sentiam ir diminuindo aos poucos, até um ponto que eles não a notavam mais, e permitiam-se, desfrutar da companhia um do outro, durante todo o trajeto numa conversa agradável e descontraída. Não havia mais nada a fazer no momento.
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