Conexão Seattle
10 Cercas
Notas iniciais
Eram por volta de meio dia dauqela sexta feira e o calor só aumentava. A maioria dos alunos estavam almoçando na cantina. Um barulho infernal, o tilintar dos talheres, vozes , objetos caindo, passos. Certamente seria impossível dormir em tal ambiente.
Não para Sam. Ela estava sentada em uma das mesa, já havia acabado de comer e descansava a cabeça no ombro de Brad enquanto tirava um cochilo. Nem ela mesmo se deu conta de onde estava, mas o garoto tinha uma expressão de profunda satisfaça. Shelby, calada observava a conversa animada entre Jonah e Griffin que certamente não reparavam no seu incomodo.
Um tremor dominava o seu pé e ele o batia no chã a quase cinco minutos seguidos. Ele estava do outro lado da cantina. Mesmo tentando não olhar, não conseguia evitar e cada vez que via a cena uma onda de repulsa lhe dominava o estomago. Como pode beijar alguém daquele meio. Mas isso não se repetiria de novo, ele tinha outras coisas com que se preocupar. Muito.
–Não vai comer, Freddie? –Perguntou Carly.
–Vou. –Respondeu se voltando para o prato.
–E então, como estão indo as coisas no Conexão Seattle? – Perguntou Wendy.
Carly dirigiu um olhar de reprovação a Freddie e esse se defendeu rapidamente.
–Hei, não venha me culpar por não ter paciência com alguém que ridiculariza minha família...
–Eu não te culpo. –Disse Carly cortando a conversa. –Eu culpo a mim que inventei isso.
Ela não estava arrependida de verdade. Ao contrario, a popularidade do web show, só aumentava, e ela estava se dando cada vez melhor com Sam. Mas o problema era Sam e Freddie. Eram cada vez mais constantes as implicâncias, as discussões desnecessárias e as discordâncias. Não os conhecesse a tanto diria que se tratava de um caso de atração física.
No ultimo ensaio, Sam disse que achava ridículo o zoom que Freddie dava em todos os objetos que elas pegavam, e ele respondeu prontamente que ela não se metia no trabalho dele e ele não se metia no dela. Foi o bastante, mais uma tarde perdida com uma discussão inútil.
Agora, almoçando na cantina, a última coisa que ela queria era ouvir mais ladainha de algum dos dois. Acabaram suas refeições e se dirigiram para a sala de aula. Nunca iam para os pátio após o almoço como a maioria, sempre para a biblioteca ou para a sala de aula.
Sentaram-se novamente desarrumando a sala em uma roda com seis cadeiras e se puseram a estudar. Freddie fingia ler e fugia para longe dali encarando o livro sem nada ver. Não que não gostasse dos amigos, mas quando estava com Sam, era diferente. Ela era divertida, diferente e o melhor sentia algo muito prazeroso com sua presença que ele não sabia dizer o que é. Tudo isso lhe dava muita raiva e cada vez que a via sua raiva redobrava.
–Freddie! –Chamou Carly. –Hoje vou fazer uma festinha de aniversario atrasada la em casa só pra gente com uma seção cinema no final, você vai, certo?
–Claro! –Respondeu saindo dos seus devaneios.
–Só pra avisar, gente, eu chamei a Sam.
–Carly você não aprende não é? –Repreendeu Wendy. –Depois de tudo...
–Hei! A Sam fica constrangida, coitadinha por que vocês ficam destratando ela por que ela mora no subúrbio!
Freddie sentiu uma pontada de culpa. Lembrou do sorriso triste que Sam exibiu depois de ele ter dito palavras tão duras a ela. Não se desculpou, ela o estava tratando ele tão mal que ele achou que ela não ligou. Sam era uma garota fria.
–Duvido. –Retrucou. –A Sam? Constrangida? Ela acha o Maximo morar no subúrbio, acha revolucionário!
–Ninguém mora em condições precárias por que quer, Freddie e é claro que ela tem que manter a cabeça em pé, porque se não pisam nela. Ainda mais.
–Qual é Carly? –Perguntou Jeremy de maneira tanto grosseira. –Ta defendendo ela? De que lado você esta?
–Do lado de quem estiver comigo. –Respondeu em tom desafiante. -Quero uma sessão de cinema tranquila e feliz hoje na minha casa e quem provocar primeiro vou achar que esta contra mim.
O garoto calou a boca e Freddie pensou se Carly não estava sendo influenciada por Sam. Do seu jeito doce, ela falou de um modo que lembrava e muito o tom da loira.
Quando a garota entrou, acidentalmente ou não, chutou para longe a mochila de Freddie que estava no chão ela se recusou a pegar.
–Foi sem querer, levanta e pega.
–Sam pega agora se não jogo a sua por essa janela!
–Tenta! –Disse ela sentando e pondo sua mochila no chão.
Freddie cerrou os punhos. Não estava nem ai pro fato de que os amigos dela poderiam interferir, Sam estava lhe tirando do serio cada vez mais. Levantou, pegou sua mochila e se dirigiu a ela.
–Não vou me rebaixar ao seu nível, mas escute bem se sua mãe não te deu educação, um dia você aprende da maneira mais difícil!
–E qual é? –Perguntou friamente.
–Pela repreensão policial, você tem a natureza criminosa, e sabe disso.
Sam não deixou por menos, disse que criminosa foi a mãe dele por ter posto tal aberração no mundo, e ele continuou alimentando as loucuras da loira. Um garoto abriu um saco de pipocas e começou a comer assistindo animado a discussão. Era a segunda entre eles aquela semana.
Ninguém interferiu, e eles sequer viram quando Sr Howard chegou. Apenas quando pigarreou pela terceira vez o homem foi notado pelos dois. Depois de olha-los severamente e esperar que todos se acomodassem o homem disse amargo olhando pro nada antes de começar a escrever na louça.
– Meus pais começaram assim.
A sala explodiu em risos histéricos e Sam sentiu as faces arderem de ódio daquele homem e de Freddie. Esse, tentou esconder a raiva, não queria ficar mal com o professor.
A aula seguiu sem mais interrupções e Sam decidiu que o senhor Howard se superara na estupidez e que dessa vez ele era decretadamente o professor que mais odiava na escola.
Por volta das quatro, Sam saia do pet shop com seu filhotinho de beagle quando viu um homem com fortes semelhanças com Freddie entregando dinheiro a outro homem no carro. O pagador era Arthur Benson, o receptor ela não reconheceu. Quando o homem se virou e a viu, sorriu desconcertado e a cumprimentou.
–Sam, não é?
–Sim. –Respondeu sem jeito.
–O meu sobrinho me falou de você. São amigos não é?
–Sim. –Respondeu no mesmo tom robótico.
–O que acha do atendimento no pet shop, Sam?
–Bom. –Respondeu ainda desconfiada. –Eu tenho que ir.
Sam sorriu embaraçadamente e se afastou. Não queria ter que confessar ao homem o motivo pelo qual o sobrinho bancava o cachorro dela. Em pouco tempo, ele acabaria perguntando.
Voltou pra casa e se arrumou. Já tinha ligado para Carly avisando que não ia poder chegar para a festa dela, e que só poderia aparecer la pelas sete, na hora do filme. Alem disso, não queria ficar conversando com aquelas pessoas, já faria um esforço supremo em ir só por Carly que ultimamente se mostrava uma grande amiga.
Vestiu uma roupa simples e saiu. No caminho, encontrou Brad com ar preocupado.
–Sam, vai faltar a outro ensaio?
–Desculpe, eu compenso na semana que vem.
–Sam, desculpa mas como empresário da banda eu tenho dizer que voce ta confundindo suas prioridades, quer dizer eu achei que fosse banda...
–E é Brad. Mas é aniversário da Carly, poxa ela ta sendo tão legal comigo e...
–Tudo bem. –Ele sorriu gentilmente. –Vai pra sua festa depois a gente conversa.
Sam assentiu e se afastou com um sorriso no rosto. Que logo se desfez. A ideia de trocar seu divertido ensaio por uma seção de filme com aquelas pessoas lhe embrulhava o estomago. Ainda mais depois de uma gravadora ter ligado para ela há algumas semanas e ter agendado um teste.
Mas a verdade é que depois do que Griffin lhe contara sobre Carly, Sam desenvolvera um carinho especial por ela. Achava que era apenas uma patricinha que tinha tudo o que queria e fazia dos amigos seus capachos. Era uma garota doce cercada de cobras que chamava de amigos. A forma como Carly a tratava e respeitava seu jeito de ser também a conquistara, e mesmo não admitindo nem sob tortura já a considerava uma amiga.
Sam foi a última a chegar e quando entrou e viu o rosto dos amigos de Carly olhando-a com desprezo pensou em voltar. A sala estava bagunçada, o som baixo revelava que a momentos antes o lugar estava bem mais agitado. Agora estavam sentados pela sala escolhendo filme numa algazarra formidável para quem nela estivesse inserido.
–Gente. –Carly lhes chamou a atenção. –Pra quem não conhece essa é a Sam, minha colega. Sam esses são Robert, Sophia e Scarlet. Moram aqui no prédio.
Sam deu um sorriso sem graça e olhou pra Carly meio que perguntando. “E agora?” A morena a conduziu até a cozinha onde preparava algo sozinha. Os outros continuaram olhando-a com desdém.
–O que esta fazendo? –Perguntou vendo a morena pondo uns pacotes de pipoca de micro-ondas para estourar.
–Pipoca, ué!
–Você tem milho de pipoca comum?
–Tenho sim, por que?
–Se você me arranjar bacon e margarina te mostro como se faz uma pipoca de verdade!
Carly pegou os ingredientes e pôs na mesa. Na sala, os demais conversavam escolhendo um filme. Sam cortou o bacon em cubinhos e fritou. Quando acabou, retirou a carne da panela e separou parte do óleo para fritar os milhos. Quando começaram a estourar, ela jogou os pedacinhos de bacon e esperou.
–Pronto! –Disse sorrindo. –Isso é pipoca de verdade!
–Uau! –Carly se aproximou da panela – Que cheiro bom, já pode casar!
–Não é pra tanto. –Disse pondo a pipoca numa enorme vasilha. –O que vão assistir?
–Eles estão decidindo, eu ainda não sei.
–Eu trouxe um. Não pra eles, com certeza não vão querer, pra você!
–Qual? –Perguntou a morena com um largo sorriso.
–O menino do pijama listrado. Você já deve ter visto... Mas esse eu comprei pra você, por que você me disse que não tem.
Carly sentiu vontade de chorar. O filme se passava na segunda guerra mundial e retratava entre outros temas muito fortes, a amizade entre um garoto alemão e o judeu. Uma amizade que nasceu dividida entre as cercas do campo de concentração.
Carly deu um forte abraço na loira e levantou o rosto para não chorar.
–Brigada!
–Eu não gosto de abraço. –Responde a loira ocultando um sorriso.
As duas foram para sala e Sam sentiu o animo morrer ao ver aquelas pessoas reunidas. Nem se acordasse na casa dos jogos mortais sentiria um desespero tão grande. Passar a tarde ali!
Sam sentou na ponta do sofá ao lado de Carly e pos os pés no centro obtendo desaprovação geral. Wendy e Jeremy estavam espremidos numa poltrona e os demais espalhados pelo chão com filmes por toda a parte ainda decidindo.
–O que colocaram? –Perguntou Carly.
–O que colocaram nessa pipoca? –Perguntou Gibby admirado com a boca cheia. –Qual a marca?
–A Sam que preparou.
–Ah ta. –Disse o garoto sem jeito.
–Sua mãe é cozinheira Sam? –Perguntou Wendy gentilmente.
–Mal sabe fritar um ovo. Tive que aprender a cozinhar pra não morrer de fome...
–Só tome cuidado pra não engordar... –Acrescentou Missy mais gentil ainda.
–Sinceramente, gorda ou magra o final de todos aqui vai ser o mesmo então não faz diferença desde que eu morra alimentada...
–Olhando pra você é impossível dizer que não é vaidosa. –Disse Sophia. –Tem o cabelo e a pele bonita.
–Com 16 todos tem. –Respondeu Sam um tanto grosseira.
–Obrigada também servia. –Interveio Freddie que até então estava bastante calado.
–O que vamos assistir? –Perguntou Carly sobrepondo a voz a de Sam.
–Avatar. –Respondeu Scarlet já iniciando o filme. Ninguém chegou a uma decisão então eu pus esse mesmo.
Ninguem objetou-se. Sam reparou que Robert dava em cima de Carly de forma gritante, e ela não parecia corresponder. Freddie não estava nem um pouco interessado no filme, mantinha o olhar vago e distante. Tinha o semblante preocupado. Estava sentado em um puff e olhava constantemente para o relógio. Houve um momento em que seu olhar se cruzou com o de Sam e a garota sentiu as faces corarem violentamente.
Sam só conseguiu assistir trinta minutos de filme e depois apagou. Quando Carly a acordou, se deparou com a sala vazia e bagunçada.
–Cadê todo mundo?
–Já são nove horas, Sam todo mundo já foi!
–Ah, desculpe ter dormido.
–Tudo bem. O Spencer vai te levar pra casa, mas se quiser pode dormir aqui. A gente aproveita e vê o filme que você me deu juntas!
Sam sorriu triste. Seria legal ficar, mas certamente não podia.
–Valeu, Carly mas nem da. Amanhã tenho que ensaiar dobrado e depois estudar pra prova. E no Domingo ainda tem coral de Igreja... Foi mal.
–Não sabia que cantava na igreja...
–Foi la que eu comecei a cantar. Até que é divertido sabe?
–Eu vou chamar o Spencer. –Disse a morena sorrindo.
–Não! Eu to com uma grana pro taxi. Sempre volto de taxi quando ta tarde.
–Tudo bem. Mas o Spencer não ta fazendo nada, ele pode te levar.
–Quando eu tiver dura ele me leva ta bem? –Perguntou sorrindo.
–Ok.
Quando saiu do apartamento, ouviu a porta em frente do apartamento de onde tinha saído se abrir. Ouviu passos lhe seguindo e uma mão lhe girar pelo cotovelo.
–Sam. Eu posso falar com você um instante?
Freddie tinha um semblante apreensivo e constrangido. Parecia obrigado a estar ali.
–O que você quer?
–Eu não queria falar aqui. Pode vir comigo até a minha casa?
–Claro que não. Por que não falou comigo na casa da Carly?
–Sam. –Disse pacientemente. –Eu realmente preciso falar com você em particular. Pode ter certeza que não é mais difícil pra você do que pra mim.
–Sobre o que?
–Sobre a caixa de palhaço que você me deu... Pode vir comigo?
A garota o olhou seriamente e viu que não havia deboche em seu rosto. Nunca havia. Freddie a conduziu gentilmente pelo pulso e ela o seguiu. Estava preocupada com a reação da mãe dele, mas achou que poderia ser divertido.
Entrou e se deparou com um apartamento idêntico ao de Carly só que convertido e com moveis diferentes. Estava vazio e silencioso. Era extremamente arrumado.
Freddie fechou a porta assim que Sam entrou. A garota o encarou interrogativamente.
–Olha obrigado por ter vindo. Vamos pro meu quarto. Mesmo minha no trabalho é arriscado ela parecer e...
–Como é? Sua mãe não esta? Estamos sozinhos?
Freddie não conseguiu evitar o riso em função do desespero da loira.
–É. Mas relaxa que eu não sou o tipo de garoto que você conhece, o que eu tenho pra te perguntar é serio. Muito serio.
Sam deu dois passos para trás em direção a porta mas Freddie a puxou pelo braço.
–Vem, por favor se a minha mãe chegar ela vai querer me matar. No meu quarto eu passo a chave.
–Freddie já chega. Amanhã nos falamos na escola, no sótão da Carly, lugares não faltam, não vou ficar sozinha com você.
–Sam eu quero te fazer umas perguntas sobre aquela caixa que me deu. É só.
–Por que? –Perguntou desconfiada.
–Não é da sua conta. Só preciso que me responda.
–Se você não responde as minhas perguntas por que espera que eu responda as suas?
–Estou coletando provas. Sobre o assassinato do meu pai. Isso fica aqui.
–Freddie eu vou ignorar suas grosserias e te dizer desista seja la em qual bizarrice esteja pensando.
–Não vai me responder? Então obrigado, pode ir.
Sam sentiu ímpetos de ir. Mas se deteve frente determinação de Freddie em “coletar” provas pra sabe Deus o que. Chegou ao ponto de por alguém de quem tinha medo dentro de casa estando sozinho...
–Tudo bem. O que quer saber?
–Primeiro se pode vir no meu quarto por que não quero correr o risco de minha mãe te ver aqui.
Sam assentiu e seguiu o garoto que não parecia estar de armação. Ainda assim ficou em alerta. Não sabia o que ele queria, mas há muito tempo notava algo diferente com ele. Olhar perdido, sempre apreensivo e distraído. Sabia mais ou menos o que ele pretendia e no fundo achava que ele estava certo.
O garoto entrou no quarto e abriu passagem para a loira. Assim que ela entrou, fechou o quarto com chave.
–Isso é mesmo necessário?
–Ficamos mais a vontade.
Sam estava começando a ficar tensa. Ele sentou na cama com um notebook na mão e pediu que ela sentasse. Sam sentou na ponta da cama e o encarou tentando passar frieza. Ele falava tranquilamente mas era perceptível seu nervosismo. Ele começou a falar enquanto digitava alguma coisa.
–Eu fiquei bolado com a aparição do Petter nesse vídeo. Já tinha visto mil vezes e nunca tinha reparado. Eu no começo não liguei pra essa caixa, mas depois eu pensei se ele entrou ali, alguém mais que estava ali pode ter dado acesso, então me perguntei se essa pessoa não pode ter enviado a caixa pro meu pai como um aviso.
–Ou uma ameaça.
–Hã?
–Essas caixas não são coisas amigáveis, se manda para inimigos em tom de ameaça. Se eles vão entender ou não, não importa, mas tem que receber.
–A Carly me disse que você falou que ela significa traição. A que vem com uma cobra, não é?
–É. Freddie, no que você esta pensando heim? Em desvendar um homicídio sozinho? Se desconfia de alguma coisa fala com o coronel Shay e pronto...
–Não sei se posso confiar nele.
–Por que?
– Meu tio sempre diz que ele facilitou a fuga do Petter. Desconfia dele...
Sam tentou disfarçar o choque. Não soube o que dizer. Na verdade sabia sim. Ele estava certo, a morte do seu pai era extremamente misteriosa e passível de uma segunda linha de investigação. Mas disfarçou e riu tentando descontrair.
–Se você tivesse um problema real não estava se preocupando com isso. Isso é coisa de gente grande, e agora o bebezinho da mamãe vai dormir, sim?
– Problema real pra você é só a perseguição que a policia impõe aos ladrões que moram no teu bairro?
–Hei, veja como...
–Se alguém que se dizia amigo do meu pai tem ligação com o Crawelt, eu também posso estar correndo perigo.
Sam silenciou ainda ruborizada. A vontade era de sair dali e manda-lo pro inferno, mas não o fez. Não é que gostaria que fizessem se estivesse no lugar dele.
–Não, você não esta em perigo seu tosco, você tem a sua mãe, a Carly. Fala pra alguem...
–A Carly? Creio que ela vai adorar saber que desconfio do pai dela... E minha mãe confia mais no coroel Shay que em mim.
–E o seu tio?
–Toquei no assunto com ele. Ele disse que eu to ficando louco e que tenho que arrumar uma namorada.
–Ué, talvez tenha.
–Então, preciso que me diga o nome de todas as lojas do subúrbio que fabricam estas caixas. Vou começar por onde ninguém foi.
Sam reparou que embora tentasse se mostrar calmo, Freddie tinha o semblante triste e preocupado. Suspirou e começou a falar sem encara-lo diretamente.
–Elas são fabricadas em apenas três lugares e vendidas em vários estabelecimentos. Um dos lugares fica la no subúrbio. Tem outro em NY e um la Los Angeles que foi fechado. Cada coisa que você encontra dentro tem um significado. Foi invenção de uma das gangs de la no inicio dos anos 1930 pra poder mandarem mensagens codificadas e enganarem a policia. Se você quer descobrir quem comprou uma caixa com uma cobra dentro em 1995, saiba que vai estar procurando uma agulha no palheiro.
–E se eu ainda tiver a tal caixa?
–Facilita. Cadê ela?
O garoto tirou uma caixa preta de dentro de uma gaveta e a entregou a garota. Ela pegou, girou nas mãos e abriu. A cobra estava quebrada. Ela desmontou a caixa toda e analisou. Abriu o fundo falso e sorriu triunfante.
–Aqui tem a identificação do fabricante e a data da fabricação. Foi fabricado aqui mesmo. Por que vocês não entregaram a polícia?
–Entregamos e eles dizem que não serve de nada. E então, sabe onde fica?
–Vai mesmo querer entrar nessa? –Perguntou a loira com um riso desafiador.
–Preciso.
–Posso te ajudar?
–O que? Por que?
–Por que todo mundo precisa de ajuda. E um dia quando eu precisar, vou cobrar.
–Não. Não quero que se envolva e muito menos quero ficar te devendo alguma coisa.
–Freddie, eu moro no subúrbio, vai precisar de mim pra poder circular por la. Sozinho vai levar um soco a cada esquina.
–Você já me ajuda passando as informações...
–Não. Não vou ser sua informante.
–Sam, isso não é uma brincadeira...
–Ia te dizer a mesma coisa. E então vai querer minha ajuda ou não?
–Como vou saber se posso confiar em você?
–Tanto sabe que me pediu pra dizer o que eu sei sobre a tal caixa! Acho que não estar em condições de escolher. Sozinho você não vai conseguir.
–Eu aceito. Mas só pra ir na loja onde fabricam essas caixas, depois você esquece tudo o que eu te disse, certo?
–Ótimo. Vamos amanhã as nove.
–Por que tão cedo?
–É mais seguro. A parte em que elas são vendidas não entra carro, teremos que ir andando.
–O que? Mas e motos?
–Não, Freddie. São pessoas desconfiadas, precisam ver nossos rostos pra saber que não oferecemos perigo. Mais um motivo pelo qual não pode ir só. É um idiota.
Freddie soltou um “certo” conformado e suspirou. Parecia que queria chorar. Sam percebeu que ele estava mesmo sozinho. E era mais inteligente do que pensava por não confiar nos seus outros amigos, não era ingênuo como Carly. Ainda que não estivessem trabalhando juntos no web show Sam o ajudaria (não da forma que ele esperava). Era seu colega de escola, um garoto infeliz atormentado pelos fantasmas do pai. Que mesmo ameaçando denuncia-la a policia por todas as brincadeiras que ela fazia, nunca o fez por ela se tratar de uma garota “pobre e mal orientada” como ele mesmo dizia. Mesmo que ofensivo considerava isso algo solidário.
O fitou mais uma vez e se levantou decidida a ir embora.
–Abre essa droga.
–Já vai?
–O que você quer que eu fique fazendo aqui?
–Não respondeu onde fica a loja...
–E nem vou responder. Pra ter certeza de que você não vai cometer a estupidez de se meter no subúrbio sozinho.
–Esta preocupada comigo? –Perguntou insinuante.
Sam sorriu ironicamente. A quem Freddie queria enganar, até Brad ficaria com pena dele se o visse de onde estava. Sozinho, talvez correndo risco de vida e sem ninguém que acreditasse nele alem dela.
–Não. Estou evitando que o Conexão Seattle fique sem produtor técnico. Agora abre essa droga!
Freddie levantou e tirou a chave do bolso. Abriu a porta e a deixou passar.
–Sam. –A chamou quando ela já se aproximava da sala. -A algum tempo queria me desculpar por...
–Esquece. –Já sabia o que era.
–Eu não quis dizer aquilo só tava nervoso. Me desculpe.
Sam continuou andando pela sala até chegar na porta e girara a maçaneta.
–Eu acho que ultimamente nos estamos mantendo muitos segredos juntos para dois inimigos, não acha?
–O que quer dizer?
–Que novamente não sei do que você esta falando.
A porta se fechou com uma baque ensurdecedor. Freddie continuou sem entender.
Mas Sam acreditava que fingir que nunca se beijaram era a melhor forma de continuarem a se odiar sem sentir culpa por nada de ruim que viessem a fazer um com o outro. Sentia que Freddie estava apenas perdendo tempo, por mais que acreditasse que a morte do pai do pai dele ainda fosse um mistério, o que ele poderia fazer?
Só então Sam lembrou que pra acompanhar Freddie teria que desmarcar outro ensaio. E agora ainda teria que mentir para os amigos. Se perguntava onde tinha ido parar o ódio e a repulsa que sempre acreditou sentir por ele. Mas a verdade é que nem o conhecia, o chamava de preconceituoso quando ela mesmo o julgava precipitadamente como uma pessoa fútil, esnobe e asquerosa.
Mas era sozinho, atormentado, e tão mais digno de pena que ela, que o vendo sentado naquela cama segurando seu computador acreditando que podia solucionar um crime antigo sozinho, sentiu ímpetos de abraça-lo e cantar até ele dormir.
–Heeei Samantha! –Disse para si mesma assim que o elevador se fechou. –Vamos voltar ao normal, sim? Dou um susto nele e o faço desistir amanhã mesmo dessa palhaçada. Ainda me divirto!
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