Conexão
3 Jason
Jason Stevens
Manhattan, New York.
Eu acordei assustado com o barulho do despertador, consequência da noite mal dormida devido a ansiedade, mas era por um bom motivo...
Julie.
Sorri automaticamente quando pensei em seu nome, nos tornamos muito próximos nas últimas semanas, desde que a conheci na noite fria de ano novo temos trocado mensagens e sempre saímos dar um pequeno passeio, ela era uma companhia muito doce.
Me distraí dos meus pensamentos ao sentir algo bem leve no meu pé, Cappuccino meu gato, ele chegou mais perto e se aconchegou na minha barriga, eu ri de leve pelo nariz e acariciei suas orelhas ele era um gato meio exótico era bege com as pontas das orelhas pretas.
Peguei ele cuidadosamente e coloquei no chão, e segui para o banheiro esfreguei o rosto com as mãos tentando espantar o sono, meu reflexo no espelho não agradou certamente resultado da minha noite mal dormida, eu poderia ser facilmente confundido com um zumbi devido as olheiras bem evidentes, eu deveria ter tomado um calmante para dormir, pelo menos minha aparência estaria melhor para hoje.
Eu sairia com Julie hoje de novo e com sorte, ela aceitaria ficar comigo meu coração bate descompassado diante desse pensamento, eu nunca fui muito do tipo que acredita em destino, mas nós nos conhecemos de um jeito tão incomum que foi inevitável não criarmos um laço se não houver um envolvimento “Romântico” uma amizade legal fica com certeza...
Entrei em um banho frio tentando despertar meus pensamentos para começar o dia, isso poderia ser considerado quase um novo tipo de tortura considerando que nos últimos dias tem estado bem frio, mas diante do meu sono se eu ligasse na água quente provavelmente voltaria a dormir.
Abri o box e enrolei uma toalha na cintura dando de cara com cappuccino me olhando com a sua melhor poker face em cima da tampa do vaso, me lembro de deixar a tampa abaixada desde que ele ficou entalado uma vez, eu ri com a lembrança e fui me vestir coloquei uma calça preta, uma camiseta vinho e uma jaqueta de couro preta e um tênis também preto, eu juro que pensei em pentear o cabelo mas nem o cabelo mais arrumado do mundo ia fazer com que minha cara de morto vivo desaparecesse tão cedo bufei e passei a toalha nele de qualquer jeito, borrifei um pouco de perfume na camisa, no pescoço e no pulso e quando eu fui pegar meu colar e meus óculos escuros em cima do criado mudo meu celular acende indicando uma nova mensagem.
Franzi a testa. A essa hora? Será que a Julie teve algum imprevisto?
Mas quando eu desbloqueio o celular a realidade me atinge como um soco no estômago, era Hannah. Minha melhor amiga.
― “Quais são os planos para hoje?”
E nesse momento eu quis me bater, idiota! Burro! Estupido! Eu tinha a leve impressão que se eu tentasse explicar para a Hannah que eu ia sair com Julie não ia dar certo, eu me lembro das suas reações na cafeteria, Hannah não gostou de Julie eu vi isso, Hannah é uma excelente amiga mas quando ela não gosta de alguém...digamos apenas que eu tenho pena da pobre criatura.
Eu estava pensando em um jeito de sair da rascada em que eu me meti, quando meu celular começou a tocar suspirei era ela, Hannah. Eu sabia que não podia deixar ela sozinha, respirei fundo e atendi:
― Bom dia Little Doll ― Atendi tentando parecer animado.
― Bom dia Jason ― ela respondeu ― Aonde você está? ― Minhas mãos começaram a suar de nervoso.
― Em casa ― minha voz pareceu sair trêmula na resposta.
Droga!
― Eu estou na Magnólia Bakery, você vem? ― perguntou.
Esses últimos eu tenho passado o dia dos namorados ao lado dela, é normal que hoje ela esteja me esperando ainda mais quando desde que saímos daquela cafeteria no ano novo eu me esforcei para não mencionar Julie sabendo que ela se irritaria...
Quando dizem que a paixão emburrece acho que é verdade, porque se eu não tivesse me esquecido de Hannah nas últimas semanas eu não estaria me sentindo tão mal, por querer estar com Julie hoje de novo. Hoje no Valentine’s Day só para ver seu sorriso novamente.
Eu sabia que eu era a única pessoa que apoiava a Hannah a maior parte do tempo, que estava sempre ao lado dela não espero uma medalha de ouro por isso porque amigos de verdade são assim e agora por minha culpa ela estaria sozinha, só espero que ela me entenda...
― Jason? ― a voz de Hannah me despertou.
― Oi? Ah sim, sempre little Doll ― respondi automaticamente ― Chego aí em quinze minutos ― e desliguei suspirando.
Little Doll. Fazia tempos que eu não chamava ela desse jeito, muito tempo, sempre tivemos esse tipo de ligação intensa, desci as escadas para tomar meu café porque como dizia minha avó saco vazio não para em pé, e mesmo estando a caminho de uma das melhores padarias existentes, eu preciso do meu cappuccino matinal, dessa vez estou falando do café e não do gato...
Enquanto eu tomava meu café eu pensava em um jeito de dizer a Julie que eu ia passar um tempo com Hannah antes de me encontrar com ela, quando saímos nos últimos dias ela não se demostrou uma pessoa ciumenta, ou talvez eu apenas não reparei nisso. A verdade é que eu não levo jeito com garotas. Nem sei como Hannah e eu nos tornamos tão próximos geralmente eu sou bem atrapalhado nessa parte.
Fui até a geladeira e peguei uma caixa de bombons que honestamente eu tinha a intenção de dar para a Julie, tinha um bilhete grudado escrito : “para uma garota doce com carinho, Jason.” Amassei e joguei fora o bilhete eu poderia comprar outra caixa para Julie na saída da Magnólia Bakery esse era o menor dos meus problemas agora, para minha sorte elas tinham o mesmo gosto para chocolates.
Durante o caminho até a padaria abri digitei e apaguei o texto umas mil vezes por fim coloquei:
“Bom dia Carinho, tudo bem? Nos vemos às 14:00?”
Alguns segundos depois recebi a resposta:
“Bom dia Jay. Claro, mas aconteceu algo?”
Meus dedos suaram na hora de digitar, mas fui direto e sincero:
“Vou tomar um café com Hannah”
E bem mais rápido do que esperava a resposta veio:
“Que ótimo loirinho! É sempre bom passar um tempo com os amigos, quem sabe na próxima não podemos sair juntos? Adoraria conhece-la melhor, divirta-se! Até as 14:00.”
Sorri com a resposta.
E ao sentir meu pescoço protestar fui obrigado a erguer um pouco a cabeça o que fez com que eu visse Hannah rapidamente e acelerei o passo em sua direção enquanto sorria tentando não parecer nervoso.
― Oi! ― disse quando cheguei perto dela e a abracei ― para você! ― estendi os chocolates.
― E isso ― ela me entregou um pote de pudim de banana ― é para você!
― Caramba! Eu adoro esse negócio, Hannah!
Aprendam uma coisa melhores amigos dão comida um para o outro, Hannah me conhecia bem demais e era por isso que entre nós não havia nenhum tipo de cerimônia.
E era exatamente pela nossa amizade que eu seria sincero com ela, mesmo que corresse o risco de ela destruir a cafeteria, ganhei mais alguns minutos enquanto devorava meu pudim de banana, era um vicio eu sabia reconhecer isso.
Mas infelizmente bem mais rápido do que eu gostaria ela começou a contar sobre os planos para hoje:
― E aí, o que vamos fazer hoje? ― perguntou animada cerrei os dentes me sentindo mal ― Eu estava pensando em irmos naquele bar cine que passa filmes recém — lançados que tem hambúrgueres gourmet, já que semana passada você estava ocupado ou se você não tiver afim de ir lá, tem uns foods trucks logo na esquina desse bar, dizem que é uma ótima comida... ― ela fez uma pausa e mordeu um cookie.
E de repente o pudim que eu comi pareceu pesar uma tonelada no meu estomago.
― Na verdade Hannah ― eu hesitei por um momento ― eu tenho um encontro hoje. ― disse por fim.
― Justo hoje Jason?! ― perguntou sua voz ficou mais aguda ― No dia dos namorados, você vai me deixar sozinha? ― eu entendia o que ela quis dizer, sempre fomos muito próximos e eu nunca a deixei para trás ― Não pode deixar para outro dia? Jason é só uma garota... ― ela riu.
Não, eu simplesmente não podia meu coração bobo e encantado não deixava, eu vou sair com a Julie hoje sim! Ela era uma garota gentil tenho certeza de que Hannah vai gostar dela, então eu tomei a decisão mais lógica:
― Desculpe Hannah, mas olha, se você quiser ir junto eu e a Julie nós podemos...― comecei, mas fui interrompido pela sua risada, não era uma risada feliz.
Do jeito que ela era teimosa provavelmente entendeu como um ato de pena, segurei a vontade de revirar os olhos sabendo que isso pioraria a situação.
― Você e a Julie? Aquela garota do café? ― assenti olhando firme em seus olhos ― Você vai me trocar justo por aquela garota Jason? ― agora a irritação estava evidente.
Eu acho que já sabia que ela não entenderia tão facilmente que eu não estava trocando ninguém que eu jamais a trocaria, suspirei pesadamente.
― Hannah, não é bem assim e você sabe disso... ― falei calmo.
― Aquela garota que você sabe que eu não fui com a cara desde de o começo... Aquela garota que na primeira oportunidade sentou na própria cauda e veio tentar me dar lição de moral? Ah que boa samaritana, você não tem saído nem falado comigo direito há duas semanas e vem me dizer que não é bem assim? É por causa dela não é?― agora ela estava chorando na minha frente e eu me senti a pior pessoa do mundo por isso, porque em parte era culpa minha porque eu falhei, é verdade eu tinha quase certeza de que Hannah não havia gostado de Julie e agora a confirmação estava aqui alta e clara.
Julie estava tentando ser empática aquela noite, mas como ela não conhecia Hannah como eu acabou causando a impressão errada, eu não a culpo porque vi que não foi a intenção, mas para Hannah a primeira impressão realmente fica, e dessa vez a impressão não foi boa, e eu errei em deixa-la de lado para dedicar meus pensamentos e minhas ações em grande parte para Julie, eu sei que não posso dedicar cada segundo que tenho a Hannah mas eu fui um idiota e eu reconheço isso, e eu não disse nada eu não podia dizer nada e então ela continuou ― Você sabia que a minha mãe me deu um ultimato? Se eu não conseguir um emprego que ela considera respeitável ela me expulsa de casa? E minha única chance é a Bolshoi, o único motivo pelo qual ela ainda não Me expulsou foi porque meu pai conseguiu me ajudar arrumar um emprego de atendente de livraria, você sabia disso? Claro que não! ― meu cérebro estava tentando acompanhar tudo que ela me dizia mas antes que eu realmente conseguisse assimilar tudo ela disse : ― Tenha um bom dia dos namorados Jason. ― E saiu correndo da padaria.
E quem disse que minhas pernas me obedeceram?
Eu fiquei lá parado com a cabeça em parafuso enquanto meu cérebro grava uma palavra por vez apoiei a cabeça em minhas mãos, não foi exatamente do jeito que eu esperava, mas pelo menos ela não quebrou a padaria, eu sabia que ela precisava de um tempo.
E então, de repente meu estomago roncou me lembrando que eu mal mastiguei o meu pudim de banana porque estava nervoso com a conversa, e foi quando eu me dei conta da quantidade de comida que havia na mesa, tinha o bastante para no mínimo cinco pessoas mas eu sabia que na verdade era apenas para duas, Hannah era louca.
E eu amava isso nela, amava a sua espontaneidade sua vontade de viver sem se importar com que os outros pensam mas eu também sabia que de certa forma ela sofria por isso, que por escolher um tipo de arte como profissão todo mundo a desmerecia e para provar que estava no caminho certo ela se dedicada sempre tentando ser a melhor, cobrando muito de si mesma vinte e quatro horas por dia e era comigo que ela desabafava era em mim que ela se apoiava, mas eu não estava lá nas últimas semanas.
Eu não conhecia a familia de Hannah muito bem é verdade, mesmo depois da festa de ano novo com todo mundo lá eu nunca fui de falar muito, só com a Hannah porque ela simplesmente não me julgava, só me ouvia e ela foi melhor do que qualquer profissional que poderiam ter pago para mim, mas eu vi na casa de Hannah por observar bastante que os comentários cruéis estavam sempre lá, mesmo que disfarçadamente.
“Quando Cherry estiver montando o seu futuro em Paris, pelo menos terá Hannah para lhe fazer companhia, bailarinas não são muito requisitadas hoje em dia, e então ela vai ter tempo de sobra para procurar um emprego de verdade...”
E eu lembro do silêncio que se instalou depois disso, e eu lembro da mãe dela falando que ela estava procurando um emprego em um escritório, lembro de Hannah bufar ao meu lado e manter a cabeça baixa.
E eu sabia o quanto palavras mal colocadas podiam machucar, Hannah sempre esteve comigo desde o primeiro momento ela não me julgou, ela não me julgou quando eu me mutilava, ela não me julgou quando eu peguei uma mochila e decidi rodar NY porque minha mãe estava sofrendo com o divórcio com o meu pai e entrou em estado catatônico, desenvolveu anorexia e se recusava a se tratar, porque ela passou a vida com meu pai e ele de repente a deixou e então, ela caiu.
Meu pai sempre foi aventureiro nunca quis uma vida muito comum, e minha mãe sempre foi muito tradicional, eles se complementaram por algum tempo até que não deu mais para o meu pai e os objetivos deles se separaram, ele não queria estar sempre no mesmo lugar e para minha mãe uma casa com dois pastores alemães, uma boa carreira, filho e marido, ela se sentia completa mas o meu pai não...
E então, quando ele foi embora e minha mãe ficou nesse estado, eu prometi a mim mesmo que seria o melhor companheiro que alguém pudesse ter, como amigo, como namorado e como filho mas aparentemente como filho eu falhei porque toda vez que minha mãe me olhava ela via o marido, a familia que ela perdeu e ela sempre me deixou claro isso, então eu fui embora...
E agora, falhei de novo como amigo.
Fui despertado dos meus pensamentos com o toque do meu celular.
― Alô? ― atendi meio fungando ― Hannah? ― perguntei ansioso.
― Não ― uma leve risada soou ― Julie.
― Oi Julie ― eu disse meio desanimado ― Será que você poderia vir a Magnólia Bakery?
― Posso claro, mas...― ela fez uma pausa ― não vamos mais ao cinema? Podemos pegar a sessão das 15h30...
― Vamos Claro ― tentei soar convincente ― mas agora eu preciso de você aqui, pode vir por favor? ― quase implorei.
Malditas lembranças.
― Estou indo ― e desligou.
Limpei o rosto com as costas da mão, pela primeira vez percebendo que as lágrimas escorreram, acho que quem viu de fora pensou que a Hannah me deu um fora, e que eu estou me afogando em lágrimas, o mais patético é que é ela que precisa de ajuda e quem está aqui chorando sou eu.
Decidi comer é a melhor coisa no fim das contas, puxei o prato de cookies para mais perto e comecei a morder ouvindo quebrar na minha boca.
Quando eu estava pegando um cupcake Julie chegou colocando a mão no meu ombro, me dando um susto e por um segundo eu desejei que fosse Hannah, e me senti o rei dos canalhas por isso.
― Oi ― ela sorriu e eu me levantei para abraça-la sentindo o cheiro de camomila do seu cabelo ela se afastou um pouco para me encarar ― O que aconteceu?
― Hannah e eu nos desentendemos ― resumi ― ela saiu chorando daqui. ― Suspirei ― mas e você? ― perguntei sorrindo.
Ela arqueou a sobrancelha em minha direção e ficou em silêncio por alguns segundos.
― Posso perguntar se foi por minha causa?
Suspirei.
― Nossa relação é bem mais complicada do que parece ― eu disse por fim.
A história não era só minha então eu não me senti no direito de me abrir sobre Hannah com Julie, ainda mais considerando que Hannah não gosta de Julie é algo intimo demais para ser contado e eu só espero que Julie entenda isso.
― Ela vai ficar bem ― ela segurou minha mão ― Só precisa de um tempo ― sorriu.
Um tempo...
Eu me lembro da vez em que ela me pediu um tempo para ficar com os próprios pensamentos...
Suspirei.
Quando ela não passou na primeira tentativa em uma escola intensiva de ballet aos quatorze anos, isso não faz tanto tempo...
Eu lembro até hoje com uma clareza espantosa, acho que por ter sido um dos dias mais traumáticos da minha vida, de encontrar Hannah no quarto aparentemente meio grogue, com vários frascos de comprimidos vazios na sua cabeceira, remédios até mesmo meio antigos aos montes no seu organismo.
Eu sabia que tinha que manter ela acordada o maior tempo possivel, até ter certeza de que não havia mais nada em seu estomago, felizmente pelo que eu sabia eram poucos os comprimidos e tudo o que eu tinha que fazer era obrigar ela a colocar para fora...
Me ajoelhei ao seu lado na cama e passei as mãos em seus cabelos, ela estava branca feito papel depois de tudo...
― Porque fez isso? ― perguntei sem reconhecer minha voz de tão apertada que minha garganta estava.
― Eu não consigo mais ― A voz dela falhou enquanto parecia tentar puxar o ar ao mesmo tempo em que tentava conter o choro ― Não consigo! ― ela olhava firmemente para mim e eu vi pela primeira vez em seus a dor nos olhos com olheiras roxas o aspecto cansado e o lábio tremulo ―A minha cabeça não para! Eu não consigo descansar, todas as críticas! As falhas, as críticas da minha familia! O fato de eu não saber o que eu vou fazer de faculdade, nada parece bom! E toda vez que eu tento fazer alguma coisa parece que dá errado e minha familia está lá para dizer você fracassou de novo ― ela deu um sorriso triste ― parece que tem alguma coisa me segurando, e eu não sei para que lado ir...
Eu fiz carinho na sua bochecha.
― Vem para mim, eu sempre vou estar aqui ― beijei sua testa me deitando do seu lado ― Vamos dar um jeito ― prometi enquanto a apertava contra mim ― nada vai tirar você de mim, nem mesmo a sua própria dor ― mexi nos seus cabelos e senti ela relaxar.
― Jason! Jason! ― eu abri os olhos Julie me encara preocupada e apertava minha mão.
― Desculpe – pedi secando as lagrimas que teimavam em cair enquanto puxava os meus cabelos em um gesto de desespero, eu precisava encontrá-la, então eu me levantei indo em direção a porta.
― Jason, onde você vai? ― ela perguntou enquanto se levantava ― você nem sabe onde ela está! É perda de tempo ― se aproximou de mim ― Ela não é mais criança, deixe – a ir ― pediu tocando meu rosto.
Eu segurei seu rosto entre minhas mãos e a encarei profundamente:
― Eu prometi que cuidaria dela, eu não consigo deixa-la ir.
― Por que? ― ela parecia terrivelmente frustrada.
― Porque eu sei o que é ser uma pessoa quebrada ― suspirei ― Ela é como eu ― e assim sai da padaria sem olhar para trás.
Eu só esperava que a Julie entendesse.
* * * *
― Hannah, apenas não me deixe ― pedi ― não faça nenhuma besteira precisamos conversar.
Essa foi a vigésima mensagem que eu deixei em sua caixa postal, sem contar os áudios e mensagens de Whatsapp e ainda sim, nenhuma merda de resposta.
Passei a mão pelo meu rosto, o cansaço batendo duas horas e nada, agora eu estava caminhando até aquela cafeteria que passamos o ano novo, que era relativamente próximo ao nosso galpão na esperança de encontra-la e também de poder comer algo, porque meu estomago nesse exato momento se encontrava quase colado nas costas.
Minhas pernas estavam queimando pelo esforço, o suor escorria pela minha nuca, um conselho se um dia você quiser morar em NY compre um carro primeiro para poder perseguir sua amiga deprimida sem quase desmaiar de exaustão no meio do processo, meu coração batia quase dolorosamente no peito quando eu finalmente cheguei na cafeteria.
O sino anunciou minha chegada ao lugar familiar, e havia apenas três casais na cafeteria parecendo muito felizes se isso fosse um anime certamente estariam com corações nos olhos, me aproximei do balcão sorrindo para a Helena que conversava com outra garçonete baixinha de cabelos cacheados.
― Oi meninas! ― cumprimentei.
Helena olhou na minha direção e sorriu animada.
― Jason! ― sorriu dando a volta no balcão ― como você está? ― perguntou enquanto me abraçava. ― Venha vamos conversar um pouco! Me conte como vai a vida?! ― o tom animado nunca a deixava enquanto ela me arrastava para uma mesa vazia e se sentava de frente para mim.
Eu me senti o pior ser humano do mundo ao perceber que, eu poderia ter vindo antes apenas para visitar ela que nos ajudou tanto no ano novo, e ela era uma pessoa muito legal em vez disso eu só apareci aqui para trazer um problema para ela, parabéns Jason!
― Eu estou bem ― sorri fraco ― e você, Helena?
― Eu estou bem, estou me preparando para um teste de um novo Espetáculo da Broadway, se eu conseguir passar talvez não precise mais ter dois empregos o salário é ótimo. ― respondeu empolgada.
― Nossa Helena! Isso é muito bom, vou estar torcendo para você passar e quando isso acontecer, vou estar na primeira fileira! ― sorri animado ― Você merece!
― Vamos comemorar então. ― Ela foi até o balcão e voltou com dois pratos com bolo ― por conta da casa ― seus olhos brilhavam ― já trago o café.
― Helena, não precisa...
― Ora Jason, deixe de cerimônia! Faz tempo que eu não vejo você ― insistiu me encarando.
Ergui as mãos em sinal de rendição, e minutos depois ela voltou com duas xicaras de café.
― Na verdade você parece pálido ― ela observou ― aconteceu alguma coisa?
― Bem sim ― cocei a nuca hesitante ― por acaso a Hannah veio aqui?
― Não, eu nunca mais a vi ― me encarou ― Por que?
― Porque eu comecei a sair com a Julie e a Hannah reagiu mal a isso, então a gente discutiu porque eu nunca a deixei sozinha no dia dos namorados, ela saiu correndo e eu não fui atrás ― suspirei ― e agora deixei Julie para procurar Hannah e ela não gosta da Julie ― Soltei tudo em um único folego.
Ela me encarou de olhos arregalados.
― Nossa! Parece novela, mas fico feliz em saber que aquela confraternização inesperada de ano novo juntou vocês Julie parece uma boa menina ― sorriu para mim ― sua vida é bem movimentada! Está mais do que claro que as duas são importantes na sua vida agora, você tem que fazê-las entenderem que tem espaço para as duas na sua vida... ― ela riu fraco ― especialmente Hannah, certo? ― ela ergueu uma sobrancelha.
Agora quem riu fui eu sem humor nenhum.
― Hannah é meio dificil de lidar, mas ela sempre esteve comigo ― olhei firmemente para a menina na minha frente ― sempre. Passamos por coisas pesadas juntos, ela é uma parte de mim. Eu prometi que nunca a deixaria, e pretendo cumprir minha palavra. ― Suspirei ― sinto algo especial por Julie, eu não queria ter deixado ela sozinha hoje, mas... eu estou em um impasse ― Admiti angustiado.
― Vou tentar Ligar para Hannah ― Helena falou colocando o telefone na orelha olhei para ela confuso ― Achei ela no facebook ― deu de ombros e voltando ao balcão.
Ah é, o café!
― Talvez você ela atenda ― resmunguei amargamente enquanto bebericava meu café com chocolate.
Helena negou com a cabeça.
― Nada. As vezes ela só precisa de um tempo, fique calmo Jason ― pediu.
Eu suspirei minha mente não me deixava relaxar.
O sino tocou de novo e eu fiquei surpreso ao ver Julie com as mãos dentro do casaco, o sol começava a sumir tudo indicava que talvez a noite fosse gelada ou talvez fosse apenas o meu estado de espirito.
Ela veio em minha direção com um pequeno sorriso.
― Como soube que eu estava aqui? ― perguntei.
― Palpite ― deu de ombros ― Foi aqui que tudo começou, não é? ― Ela se sentou na minha frente.
Um gritinho chamou minha atenção e agora Helena ia em direção a Julie e as duas começaram a conversar animada sobre o próximo teste da garçonete.
― Que noite cheia de reencontros gente! ― Helena disse feliz ― Não sabem como gostei de revê-los, seria mais divertido se fosse em outras circunstancias, mas... ― a voz dela foi morrendo aos poucos.
― Você veio procura-la, não é? ― Julie perguntou com os olhos baixos.
― Sim ― assenti.
― Olha, Jason eu... ― ela olhou para cima fazendo uma pausa repentina ― onde mais ela costuma ir? ― perguntou soltando o folego enquanto finalmente olhava para mim.
Eu pisquei algumas vezes, surpreso.
― Julie...― suspirei. ― Me desculpe por isso...
― Estamos juntos no dia dos namorados ― ela sorriu ― Assim está perfeito para mim...
Dei um sorriso sem graça e beijei várias vezes sua mão em um gesto carinhoso.
― Venha ― pediu ela ― Vamos dar uma caminhada ― me estendeu a mão
Deixei o dinheiro do café em cima da mesa junto com uma gorjeta para a Helena, e saí para a noite com a companhia da menina mais bonita de NY.
― Está uma noite muito bonita ― comentei desajeitado evitando olhar para ela enquanto caminha com as minhas mãos nos bolsos.
Eu acho que não tinha o direito de andar abraçado com ela quando tudo o que fiz no dia dos namorados foi deixa-la, e para ajudar eu realmente não sei começar um assunto.
― Traz uma certa paz admirar as estrelas ― ela sorriu.
― Eu entendo o que você sente...― dei um meio sorriso.
― Entende? ― ela me olhou curiosa.
― Sinto isso quando estou com você ― disse simplesmente.
Ela deu um sorriso sem graça e olhou para os próprios pés, e eu pude ver que ela ficou vermelha o que a deixou bastante fofa.
Eu estava Prestes a dizer algo quando uma montanha peluda veio em nossa direção, abanando o rabo freneticamente.
― Ei Amigão! ― Julie se agachou fazendo carinho no animal que tinha uma carinha de sapeca. ― Como você é bonito ― afirmou com uma voz doce ― Qual o seu nome? ― perguntou com um sorriso.
Demorou alguns segundos para a minha mente registrar isso e mais alguns segundos para eu piscar aturdido.
― O que foi? ― sua voz chegou aos meus ouvidos e só então me dei conta que deveria estar encarando demais.
Eu ri fraco.
― Você acabou de perguntar para o cachorro o nome dele? ― arqueei a sobrancelha.
Ela deu de ombros.
― Só porque ele não fala não quer dizer que não entenda... ― resmungou.
― Eu sei, eu achei isso muito fofo na verdade ― sorri.
― Você adora fazer isso, não é? ― perguntou com os olhos fixos no cachorro.
― O que? ― perguntei confuso.
― Me deixar envergonhada ― esclareceu sem olhar para mim.
Eu dei de ombros rindo.
― Não é intencional, mas você fica bonita quando fica vermelha...
Ela se virou rapidamente em minha direção.
― Está vendo? ― ela parecia tentar reprimir um sorriso.
Ergui as mãos em sinal de rendição.
― Não te deixo mais sem graça, prometo ― sorri ― na verdade, eu não tenho muito jeito com encontros ― olhei para os meus pés coçando a nuca.
― Eu diria que você está se saindo muito bem ― ela riu me fazendo olhar surpreso em sua direção ― e ainda temos a companhia do... ― ela pegou a coleira ― Cookie.
― Um Border Collie branco e ruivo chamado Cookie?! ― soava bonitinho, eu tinha de admitir.
Me abaixei para fazer carinho na sua orelha.
― Eu sou a louca dos cachorros ― afirmou sorrindo enquanto se levantava ― Mas meus pais não curtem muito, eu gosto muito mais dos animais se quer saber ― deu um meio sorriso enquanto voltávamos a caminhar novamente.
― Sim, eu entendo. Os animais são leais fiéis até a última batida do seu coração... ― fiz uma pausa ― Já a maioria dos seres humanos são apenas cruéis ― dei de ombros sem saber exatamente o que dizer. ― Já assistiu quatro vidas de um cachorro?
― Já, eu sempre choro quando tem cachorro no filme ― ela deu uma risada ― até hoje eu choro quando o Marley morre ― sorriu.
E por um segundo eu juro ter visto seus olhos marejarem, eu sou mesmo uma mula insensível! Para a minha sorte passamos perto de uma banca de flores, peguei 4 dólares no bolso da calça dei para o senhor e peguei uma rosa.
― Eu acho que foi meio insensível da minha parte mencionar filmes de com morte de cachorro, quando você gosta tanto ― acelerei o passo parando na sua frente ― mas eu não muito bom nisso, então... ― estendi a flor para ela.
― Você é impossível.
― Isso é bom? ― perguntei divertido.
Ela deu um soquinho no meu ombro, ela parou por um momento e me encarou.
― Você é real?
Me aproximei dela coloquei uma mecha do seu cabelo atrás da sua orelha, e passei o polegar por sua bochecha.
― Vamos descobrir... ― sussurrei
E então eu a beijei.
Chegar em casa com um sorriso ridiculamente grande, minha madrinha estava assistindo algum programa de culinária com o capuccino deitado preguiçosamente em seu colo.
Cumprimentei minha madrinha com um beijo na testa, afaguei o gato e segui para a cozinha percebendo que eu estava com fome, acho que era compreensível já que o relogio marcava 01:00h da manhã.
Peguei um pacote de bolachas, um de salgadinho, um refrigerante e cookies e subi para o meu quarto pensando seriamente em colocar um armário com frigobar embutido...
Me joguei na cama e coloquei em um documentário sobre grafite, que mostrava o dia a dia de um ilustrador ao mesmo tempo em que eu pensava em maratonar o segundo arco de Fairy Tail.
Peguei meu celular e decidi mandar um boa noite para Julie assim que fiz isso e fechei nossa conversa o nome Hannah saltou até os meus olhos eu abri e suspirei ao ver apenas as minhas mensagens desesperadas, a preocupação ainda está presente no fundo da minha mente, Hannah sempre vai estar comigo...
Mas agora nesse exato momento tentando aproveitar minha madrugada eu tentava convencer a mim mesmo que eu havia feito por ela hoje, tudo o que eu podia e que ela me procuraria quando estivesse pronta, que poderia ser a qualquer hora inclusive amanhã na escola ela querendo ou não...
Preguei meus olhos na TV me forçando a prestar atenção enquanto eu mastigava salgadinhos de cebola e pimenta um desenho de mandala surgiu em minha mente em tons de vermelho absurdamente familiar me fazendo arregalar os olhos e caminhar até minha escrivaninha rabiscando freneticamente antes que eu esquecesse...
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