Conexões Improváveis

7 Capítulo 6 – compaixão


Notas iniciais
Como prometido, ta ai o capítulo 6 gente! Boa leitura, espero que gostem!

Estou presa aqui. Completamente incapacitada de fazer algo útil. Não tenho como raciocinar sobre o assassinato de meu irmão, pois não tenho informações suficientes para fazê-lo. Nunca me senti tão inútil em toda a minha existência.

Levanto-me da cama sobre a qual passei as ultimas horas me revirando e caminho em direção a sacada do quarto. Pouso minhas mãos sobre o parapeito de mármore desta e observo a vista que se estende a minha frente: Centenas de painéis solares. Repulsa se apossa de mim, esta tecnologia poderia estar ajudando milhões de pessoas na Terra.

Entro novamente no quarto e olho de relance para o relógio que se encontra ao lado da cama em um criado mudo, ainda são quatro da manhã. Começo a caminhar ansiosamente pelo quarto, afinal, não tenho nada melhor para fazer. Continuo caminhando até que a ação se torna entediante, então paro e fico estática perdida em meu tédio e inutilidade até que uma ideia invade minha mente.

Vou explorar a mansão, se me encontrarem não irão achar estranho, afinal este lugar pertence a Rachel, ou melhor, pertence a mim. Caminho em direção a porta e abro-a seguindo para o corredor. Bastam apenas alguns passos para que eu me arrependa dessa ideia miserável.

– Hey! Acordada a essa hora? – Logan surge do nada trajando sua usual jaqueta de couro.

– Pois é, 17 anos já preencheram a minha cota de sono! – digo e sorrio suavemente enquanto Logan ri e se aproxima de mim.

– Gostei do pijama! – ele diz e sorri esperando me deixar desconfortável.

– Gostei da jaqueta! Saindo escondido senhor Forbs? – pergunto e sorrio maliciosamente.

– Toque de recolher não é exatamente a minha regra favorita! – ele diz risonho – Qualquer dia desses você poderia vir comigo...

– É... Talvez! – digo vagamente e começo a caminhar novamente.

– Aonde a senhorita vai? – ele pergunta enquanto segura minha mão e me puxa para trás suavemente, uso todas as forças de meu corpo para não deixar meu reflexo natural agir e derruba-lo ao chão.

– Vou dar uma volta! – digo simplesmente e me desvencilho de sua mão.

– Não vai escapar de mim tão facilmente! – ele diz e agarra minha mão novamente.

Volto-me para ele, o encaro severamente e espero que diga algo.

– Certo, não precisa me assassinar com o olhar... Só quero conversar! – ele diz e balanço a cabeça suavemente.

– Ok! – murmuro me rendendo, ao menos não vou ficar entediada.

– Vem, vamos pro meu quarto! – ele diz e começa a caminhar me guiando pela mão.

Eu o encaro incrédula, homens são homens, não importa se estão na terra ou não.

– Você tem uma mente um tanto suja pra quem esteve em coma por 17 anos! – ele diz e rimos em conjunto.

Permanecemos em silencio até chegarmos a seu quarto. Ao entrarmos neste não consigo evitar meu comentário.

– Você é bem organizado... – digo sarcasticamente.

– Meu quarto de verdade é até bem arrumado! – ele diz enquanto tira a jaqueta de couro e a joga desleixadamente sobre a cama.

– Seu quarto de verdade? – pergunto enquanto vou em direção a sacada intrigada pela vista.

– Quando soube que você acordou eu vim pra cá para ficar mais perto de você, na verdade eu tenho um apartamento na cidade! – ele diz e sorri levemente. Fico um tanto incomodada, ele realmente se importa com Rachel.

– Nossa... Isso é bem... – procuro a palavra certa, mas antes que eu possa pronuncia-la ele me interrompe.

– Fofo? É eu sei! – ele diz convencido e eu balanço a cabeça inconformada enquanto rio suavemente.

O silêncio pousa sobre nós enquanto eu observo a vista que se estende a minha frente, se trata de um vasto jardim inundado de flores belíssimas de um tipo que eu nunca vi antes.

– É lindo! – digo quebrando o silêncio.

– Sim! – ele murmura a meu lado.

Eu o encaro de relance e o pego me observando.

– Seria legal se você parasse de me olhar como se eu fosse um completo desconhecido... – ele diz.

– Mas você é! – digo e pauso – Mesmo que eu me lembrasse de você, ainda seria um desconhecido! Pessoas mudam em 17 anos!

– É, acho que não sou mais um garotinho irritante de 7 anos! – ele diz e rimos silenciosamente.

– Parece que você não mudou muito afinal! – digo e ele ri mais abertamente.

– Isso foi bem gentil! – ele diz sarcástico me fazendo sorrir – Ás vezes você fala como se não tivesse passado todos esses anos em coma...

Um calafrio percorre minha espinha.

– Como assim? – pergunto disfarçando meu incomodo.

– Tecnicamente você tem só 7 anos! – ele diz e ri.

– Engraçadinho! – digo sarcástica e me junto a ele em seu riso.

O silêncio pousa sobre nós novamente, porém desta vez quem o quebra é Logan.

– Depois da festa vamos ter muito o que fazer! – ele diz.

– O quê? – questiono-o confusa.

– São 17 anos perdidos, tenho que lhe ensinar a fazer coisas erradas! – ele responde risonho.

– Como fugir sorrateiramente durante a noite e voltar ás 4 da manhã? – pergunto sorrindo.

– Isso e muito mais! – ele diz e rimos em conjunto.

Alguns instantes depois seu sorriso desaparece e uma feição de desconforto surge.

– Sinto muito pela minha mãe... – ele se desculpa e se vira de costas para o parapeito enquanto cruza os braços sob o tórax.

Engulo em seco e me contenho para não soltar alguns comentários ácidos. Penso em uma resposta decente, mas nenhuma delas consegue se formar sem conter em alguma parte de seu período uma fagulha de sarcasmo ou alguma espécie de ofensa velada. Antes que meu cérebro dê conta da árdua tarefa de levar os comentários de Monica na esportiva, Logan me salva em meio a meu devaneio.

– Eu sei, ela é meio... Radical em algumas opiniões... – deixo um suspiro de alívio escapar mais felizmente ele não o percebe.

– É!- murmuro — Então... – começo sem saber ao certo o que dizer, tentando instintivamente evitar mais uma pausa inundada de silêncio desconfortável. Meu cérebro se move com desenvoltura no meio segundo que se transcorre e então eu decido para que lado levar a conversa – Você faz alguma coisa além de fugir na calada da noite?

Ele ri suavemente e endireita sua postura relaxada tentando parecer respeitável.

– Eu tenho um emprego! – ele responde com um sorriso preso no canto de seus lábios.

– UOU! – digo exagerando minha reação de surpresa.

– Não sou tão inútil quanto pareço! – ele diz e rimos – Trabalho na programação! Se não fosse por mim e meus camaradas nada disso iria funcionar! – ele diz e gesticula em direção ao horizonte.

Levanto levemente uma de minhas sobrancelhas demonstrando confusão.

– Cuido dos sistemas de ARGOS, pra que não haja nenhuma falha! É um bom emprego, pagam bem e eu só trabalho três vezes por semana! – ele explica – É o suficiente pra não ser um completo filinho de papai! – ele se auto ridiculariza me fazendo rir.

Por um instante começo a me divertir, mas então lembro-me que não estou aqui para isso.

– Vou voltar para o meu quarto! – digo e começo a ir em direção a porta, mas Logan me segura pela mão.

Ele realmente deveria parar de fazer isso, antes que eu acabe o machucando.

– Por quê? – ele pergunta.

– Você teve uma noite bem agitada, deve estar cansado! – minto e me desvencilho de sua mão.

– Okay, você venceu! Pode escapar! – ele diz e sorri.

– Não foi tão difícil afinal! – digo e rio – De qualquer forma, amanhã você vai ficar a festa inteira no meu encalço! Esta será difícil de escapar!

Ele ri amplamente.

– Boa noite! – murmuro e vou em direção a porta.

– Boa noite! – ele responde e eu a fecho entre nós.

∞ ∞ ∞

Por mais inacreditável que possa parecer, após o curto dialogo que tive com Logan, acabei conseguindo desacelerar minha mente o suficiente para adormecer. Felizmente, foi um sono pacífico, sem pesadelos ou desconfortos, algo que eu não vivenciava a muito tempo.

Eram dez horas da manhã quando Tessa bateu a minha porta fazendo-me retornar a consciência. Minha mente ainda envolta na névoa do sono demorou a perceber de onde provinham as insistentes e frenéticas batidas que inundavam o quarto, entretanto, quando finalmente percebi que havia alguém a minha porta, levantei-me rapidamente da cama e me movi em direção a esta. Na fração de segundos em que levei para girar a maçaneta assimilei os fatos da noite passada e uma ansiedade retumbante me inundou, a festa. O evento que ira sediar meu encontro com Ryan, para que as revelações necessárias sejam feitas e eu finalmente possa trilhar o caminho que me levará em direção ao assassino de meu irmão. O caminho que me levara à vingança.

Tentei manter minha mente focada na interpretação de Rachel Hale, porém tal tarefa se demonstrou árdua com o passar das horas. Tive de enterrar minha sede por informações no local mais profundo de minha mente, e ainda assim, isto não foi suficiente. Em diversas ocasiões percebi-me perdida em meus pensamentos ignorando completamente as falas empolgadas de Tessa enquanto esta me preparava para a festa. Ela movia seus lábios freneticamente e gesticulava com animação enquanto caminhava ao redor do quarto trazendo-me sapatos e vestidos, esperando por minha aprovação. O máximo que fui capaz de fazer foi retribuir sua animação com sorrisos inundados de falsa gratidão enquanto concordava com suas opiniões sobre vestuário sem ao menos prestar atenção em que elas consistiam.

No decorrer do dia fui me sentindo cada vez mais culpada por não conseguir me importar com o que ocorria a meu redor. Mas, como eu poderia fazer isso sabendo que em questão de poucas horas o que venho esperando dias para fazer se tornará possível? Como me importar com coisas tão fúteis como a preparação para uma festa enquanto eu estou prestes a tomar posse de informações de extrema importância?

Para meu deleite o tempo finalmente resolveu contribuir a meu favor e transcorrer de forma relativamente acelerada, quando me dei conta já estava no luxuoso salão de festas da mansão portando minha melhor expressão de serenidade enquanto recebia os cumprimentos da elite de ARGOS. O ambiente é desconfortável e sofisticado, garçons movem-se apressadamente em meio a multidão de pessoas que se alastra pelo salão. A maior parte delas se encontra na pista de dança, as restantes se dividem entre permanecerem em pé presas a algum dialogo vazio, ou se sentarem ás mesas e manterem as feições de solenidade.

Após seguir as instruções de Tessa e transitar em meio ao salão dando a devida atenção aos convidados e exibindo minha expressão de falsa polidez pelo trajeto, resolvo me sentar em uma das diversas mesas dispostas ao redor da pista de dança. Permaneço presa a meu papel, mantendo a pose de Rachel Hale e sorrindo educadamente para todos que cruzam seu olhar com o meu, mas por dentro, apenas observo com indiferença o comportamento das pessoas que certamente também estão interpretando seus respectivos papéis, agindo de forma simpática e elegante para formar alianças e se aproveitarem umas das outras.

Enquanto me distraio absorvendo cada detalhe do ambiente que me cerca procuro avidamente por Ryan, mas não há sinal de sua presença. O assombroso temor da possibilidade de algo ter dado errado sonda minha mente, mas este é rapidamente afugentado quando avisto Tessa vindo em minha direção.

Ela caminha elegantemente e mantém a compostura, mas há algo no fundo de seus olhos verdes musgo que destoa de sua atitude. Algo a está incomodando, e estranhamente, isso desperta em mim uma espécie de preocupação.

– Se divertindo? – Tessa pergunta enquanto se senta a meu lado.

– Sim! Mas você não parece estar bem! O que houve? – questiono-a. Uma pergunta sincera feita por mim, e não por meu personagem.

– Não é nada... – ela diz vagamente enquanto observa o salão com olhar distante.

– Sabe que pode me contar... – instigo-a a falar enquanto meu intimo se enche de compaixão.

Ela inspira profundamente e vejo algumas lágrimas se acumularem em seus olhos, mas ela luta avidamente para não derrama-las.

– Uma pessoa muito importante para mim... – ela pausa e fixa seus olhos nos meus, eles emitem ondas de tristeza. É um olhar similar ao que eu vi quando me fitei no espelho. – Ele morreu alguns dias atrás... Desde então eu venho me iludindo, esperando que ele apareça a minha porta com seu sorriso radiante e me abrace de um jeito que só ele sabe... – seguro sua mão delicadamente e mantenho nossos olhares conectados. Eu entendo bem esta sensação – Mas agora, eu percebo que ele realmente se foi! E o pior de tudo é que eu nem sei o porquê...

– Não sabe o porquê? – pergunto enquanto conexões se formam em minha mente.

Tessa Forbs. Não é possível. Como eu não percebi antes?

– Ninguém sabe como ele morreu... Ouvi dizer que suspeitam de assassinato, mas quem iria querer mata-lo? – ela murmura enquanto minha mente se abre.

– Qual era o nome dele? – pergunto já sabendo a resposta.

– Jason... – ela sussurra como se fosse um nome proibido – Jason Lane...

Notas finais
Ate o próximo capítulo gente! Obrigada por estarem lendo!