Conexões Improváveis

3 Capítulo 2 - UMA QUESTÃO DE HONRA


Notas iniciais
Aí está o capítulo 2 galera!!! por favor comentem ok?? boa leitura!

– Eu sei que é um péssimo momento... E que apesar de não estar demonstrando, você está sofrendo... – Walker murmura cheio de ressalvas.

– Mas... – me antecipo a suas palavras e ele sorri em uma mistura de pesar e vergonha.

– Mas há algo que precisamos tratar com você! – ele conclui.

– Eu já imaginava! – murmuro em uma mistura de desgosto e curiosidade.

– Me acompanhe! – ele diz simplesmente enquanto começa a caminhar em direção a porta do necrotério.

Sem muitas opções, eu o sigo. Adentramos o corredor novamente, mas ao invés de prosseguirmos para o elevador paramos a alguns metros deste. Walker toma impulso e da um salto em direção ao teto, nele há o que parece um duto de ventilação. Ele se dependura na grade que após alguns estalos acaba por ceder em suas mãos.

– Não será um trajeto exatamente confortável... – ele diz sorrindo enquanto deposita a grade no chão. Em seguida ele dobra o joelho esquerdo e posiciona as mãos em forma de concha para me dar impulso em direção ao duto – Primeiro as damas! – diz brincalhão, não consigo evitar um sorriso de deboche, ele realmente acredita que preciso de sua ajuda.

Dou cinco passos para trás e então inicio uma curta corrida, quando estou a centímetros dele me impulsiono com a perna direita na parede e dou um salto em direção a entrada. Agarro firmemente a lateral do duto e iço meu corpo para cima. O local é apertado e abafado, enquanto a minha esquerda o duto se estende em um corredor interminável cheio de passagens, a minha direita, após alguns metros há outra grade. Deito-me a esquerda do duto e aguardo Walker.

– De nada... – ouço-o murmurar sarcasticamente abaixo de mim. Ele passa a grade pela entrada para em seguida se içar para dentro do duto. Ele se deita a minha frente e sela a passagem com a grade. Após alguns movimentos curtos e desajeitados vira os pés para mim e começa a rastejar em direção a grade da direita.

Ao chegar a ela, ele a empurra para baixo e esta cede emitindo um ruído estrondoso ao se chocar com o chão abaixo de nós. Walker desce pela passagem e eu faço o mesmo. Ao adentrar o novo ambiente o observo rapidamente, trata-se de uma pequena sala de boa iluminação cujas paredes são de um branco envelhecido. A parede a minha frente está repleta de monitores e sentado de frente para eles há um homem que aparenta ter pouco mais de 40 anos.

Ao perceber nossa presença ele se vira para nós e sorri, um sorriso muito parecido com o de Walker. Consigo distinguir alguns traços em comum entre os dois, possuem os mesmos olhos azuis cintilantes, o mesmo porte e nariz, mas enquanto o homem a minha frente possui uma face desgastada pelo tempo e evidenciada pela coloração loira de seus cabelos curtos, Walker possui a face de um jovem de cerca de 25 anos que se alinha perfeitamente com um cabelo negro e bagunçado.

– Irmãos ou pai e filho? – pergunto encarando os dois.

O homem sorri satisfeito.

– Pai e filho! Você parece ser tão perspicaz quanto seu irmão! – ele diz, sua voz grossa e um tanto imponente.

Segundos de silencio se estendem entre nós três, tempo suficiente para eu ligar os pontos.

– Você é Walker! – deduzo.

– Exatamente! – ele afirma exultante, pareço ter superado suas expectativas – Entenda, por eu ser membro do conselho seria mais difícil de despistar qualquer um que pudesse cruzar o nosso caminho... – ele se explica.

Encaro-o indiferente.

– Eu sou Ryan, na verdade! – o falso Walker se pronuncia a minha direita.

– Uhum... – deixo minha impaciência transparecer por meio do murmuro.

– Deve estar, interessada em saber por que a trouxemos aqui, certo? – Walker fala o óbvio.

Apesar de um comentário ácido estar engasgado em minha garganta, ponho meus maus modos de lado e simplesmente balanço a cabeça afirmativamente.

– Faça as honras filho! – ele diz.

– Precisamos de sua ajuda para descobrir quem assassinou seu irmão! – Ryan esclarece.

– Por quê? – pergunto curiosa pelo interesse dos dois em meu irmão.

– Circunstâncias duvidosas cercaram sua morte, acreditamos que ele foi o primeiro de uma onda de assassinatos! – ele explica.

– Circunstâncias duvidosas?

– Aqueles que trabalhavam com ele no laboratório disseram que ele estava um tanto paranoico nos dias que antecederam sua morte, como se soubesse que algo estava por vir! – Walker diz.

– E por que uma onda de assassinatos? – pergunto ainda confusa.

– Por que seis horas depois de sua morte, outro cientista do departamento NP também foi assassinado! – Ryan responde, sua expressão e a de Walker demonstram uma pontada de dor, eles provavelmente também conheciam este outro cientista.

– Por que os investigadores daqui não cuidam do caso? – pergunto já imaginando a resposta.

– Eles já estão cuidando, mas o assassino pode ser qualquer um, pode até ser um investigador! – ele responde.

– Certo, mas como vou investigar tais crimes se eu supostamente nem deveria estar aqui? – questiono-os.

– Você vai assumir a identidade de uma jovem que faleceu poucas horas atrás! Ela veio para ARGOS ainda criança, e estava em coma desde então, seus pais morreram alguns anos atrás e não deixaram descendentes, portanto, o disfarce é perfeito! Não há como contestar sua identidade já que ninguém a conheceu! – Walker explica.

– Sabem que se eu encontrar o culpado, ele não ira permanecer vivo por muito tempo...

– E é por isso que só poderá sair daqui caso nos entregue o assassino vivo! – Ryan ameaça incomodado com a possibilidade de eu não seguir seu plano.

– Por que eu iria querer sair daqui? – enfrento-o.

– Porque se não sair, você morre! – ele diz duramente um tanto irritado. Walker observa o conflito pacientemente.

– Ah... E quem vai me matar? Você? – digo sarcástica menosprezando-o.

– Eu não preciso sujar minhas mãos, posso arranjar outra pessoa que o faça! – ele diz rispidamente.

– Certo, vamos fingir que eu realmente acredito que você mandaria alguém me matar! – digo e faço uma breve pausa, então continuo – Nenhum de vocês parece ser do tipo assassino, então por que não param o teatro e pensam em uma outra forma de resolver esse impasse?

– Eu não vejo nenhum impasse aqui! – Ryan da um passo em minha direção tentando impor respeito.

Antes que eu possa prolongar nossa discussão ou encerra-la apagando Ryan, Walker interfere.

– E qual seria a outra forma de resolver o impasse? – ele pergunta segurando firmemente o braço de seu filho.

– Eu o entrego a vocês, e depois do provável interrogatório que irão fazer, vocês me deixam mata-lo! E não se preocupem, vou deixar ARGOS, não tenho interesse em conviver com um bando de arrogantes narcisistas! – digo e ele sorri suavemente.

– Me parece uma boa proposta! – Walker ignora as ofensas que fiz e impõe a diplomacia.

Ryan balança a cabeça parecendo um pouco constrangido com a recente discussão que tivemos.

– Como iremos saber se vai honrar os termos do acordo? – ele me questiona mais calmo, porém um tanto relutante.

– Por que assim como meu irmão, eu honro minha palavra!

∞ ∞ ∞

– Podem se virar! – anuncio, Ryan e Walker que encontravam-se de costas se viram de frente para mim.

– Terá de cortar! – Walker diz fazendo menção a meu cabelo.

– Certo... – murmuro enquanto ele vai até uma espécie de armário no outro canto da sala e de lá tira uma tesoura.

Ele a entrega para mim e eu faço o melhor que posso para deixar meu cabelo curto e uniforme, corto-o até restarem somente cerca de três dedos dele a partir do couro cabeludo.

– Então? – pergunto enquanto entrego a Walker a tesoura.

– Perfeito! – Ryan diz com satisfação — Lembre-se, vai caminhar pelos corredores de cabeça baixa com as mãos no rosto, como se estivesse com uma alergia ou algo do gênero! Se nos pararem, você é uma paciente minha!

– Sim Doutor! – digo sorrindo suavemente, ambos fazem o mesmo.

– Boa sorte! – Walker se pronuncia – Encontre o culpado Aya!

– Eu irei! – digo simplesmente enquanto observo Ryan ir até uma das paredes, esta após alguns estalos se abre.

– Vamos? – ele me chama e eu vou em sua direção.

Adentramos a passagem, esta está envolta em uma leve penumbra por conta da iluminação da sala. Ryan a fecha e a escuridão nos envolve por um breve instante até que ele acende uma pequena lanterna para iluminar nosso trajeto. Começamos a caminhar e o único som é o de nossos passos. Após alguns minutos chegamos a uma parede, Ryan move suas mãos sobre ela e esta se abre revelando o que parece ser um armário de faxineiro. Ele fecha a passagem atrás de nós e abre a porta a nossa frente.

– Este é o museu de história humana! – Ryan diz com olhar fascinado.

Pessoas caminham tranquilamente pelo recinto admirando os artefatos ali expostos. Tanto crianças quanto adultos parecem demonstrar uma reverencia velada para com os objetos. Tenho de admitir que sinto o mesmo borbulhar em meu intimo.

– Temos que ir! – Ryan diz e faz sinal para que eu cubra o rosto. Eu o faço deixando apenas parte dos olhos expostos.

Saímos do armário e começamos a caminhar apressadamente pelo lugar. Andamos por corredores repletos de quadros e esculturas antigas até que chegamos a um grandioso saguão, nós o atravessamos rapidamente em direção a porta principal. Saímos do museu.

Um céu azul e límpido se estende sobre nós, nele há um sol radiante como nunca havia visto antes. Provavelmente se trata de uma mera projeção para dar ao lugar um toque mais aconchegante. Há pessoas caminhando tranquilamente pelas ruas, as quais parecem tiradas diretamente de um livro de história do século XXI. Diversos prédios deslumbrantes se estendem a partir do lado direito do museu até se perderem de vista, este deve ser um centro comercial ou algo do gênero. A esquerda do museu há edifícios mais simplórios, certamente habitacionais e não comerciais como os outros.

Provavelmente para reduzir a produção de Gás Carbônico não há carros nas ruas, há apenas o que parecem ser vagões de trens circulando em duas direções com velocidade acelerada, em suas latarias lê-se “Transporter”. Caminhamos pela calçada até uma passarela para atravessarmos a rua. Uma escada rolante nos leva alguns metros acima do nível da rua até estarmos sobre os Transporters. Andamos em direção a outra escada rolante, esta nos leva ao nível da rua novamente.

Após alguns minutos chegamos a uma área sem Transporters e percebo que eu estava errada, há sim carros nas ruas, mas de um modelo um tanto peculiar. São pequenos e brancos, comportam apenas dois passageiros, todos parecem se locomover a mesma velocidade, rápida, porém não tanto quanto a dos Transporters.

Caminhamos até uma esquina e esperamos em frente a faixas vermelhas reluzentes no chão, quando estas mudam para a cor verde os carros param e nós pedestres podemos passar. Tudo aqui parece estar envolto na maior e mais perfeita ordem.

– Já estamos chegando! – Ryan alerta.

Minutos depois nos deparamos a poucos metros de um edifício branco com aproximadamente cinco andares, pequeno se comparado com os outros edifícios que vi a pouco. Em sua fachada, num letreiro de luzes led vermelhas lê-se “Ala Médica”. Um gramado verdejante repleto de árvores o cerca, andamos sobre ele e contornamos o edifico até os fundos onde há um pequeno estacionamento repleto de carros e com o que parecem ser cinco Transporters brancos com faixas vermelhas e a palavra ambulância pintada a sua frente.

Caminhamos até uma pequena porta, Ryan pousa sua mão sobre um painel que se encontra ao lado desta, ela se abre instantaneamente assim como aconteceu no necrotério. O ambiente é branco e aparenta limpeza, um cheiro estéril predomina no local. Andamos pelos corredores até chegarmos a um elevador, entramos neste e Ryan pressiona o indicador sobre um painel, em seguida números de 1 a 5 surgem, ele aperta o 5 e as letras AC/NP surgem na tela.

O elevador começa a se mover, mas ao invés de atingir o quinto andar, para no primeiro. As portas se abrem e revelam um homem com aproximadamente a mesma idade de Ryan, este tem cabelos castanhos e olhos negros.

– Oi Ryan! – o homem se pronuncia enquanto entra no elevador. Apesar de ele parecer um tanto a vontade e descontraído, uma pontada de nervosismo me atinge.

– Oi Davis! – Ryan parece tranquilo.

Vejo o olhar inquisidor de Davis pousar sobre mim. As portas do elevador se fecham.

– Uma irritação de pele! – Ryan responde a pergunta silenciosa e sorri com desprezo.

– Uhm... – Davis murmura pensativo – Mas por que está indo ao quinto andar? – ele pergunta e eu sinto que o plano todo está prestes a ir por água a baixo.

Um silêncio de meio segundo pousa sobre nós, mas este parece perdurar por séculos. Sinto Ryan tenso a meu lado e meu coração para por um instante antes que ele comece a falar.

– Ela quer que o NP faça um exame... É um pouco paranoica com doenças! – ele deixa o nervosismo transparecer entre suas palavras.

– Isso não faz o menor sentido... – Davis murmura e sua expressão se transforma — O que estão indo fazer lá em cima? – pergunta sério.

Segundos infernais de silencio se estendem no ambiente.

– Agora seria um ótimo momento pra você apaga-lo Aya! – Ryan diz rápida e exaltadamente.

Meus músculos se contraem com surpresa, mas eu me recupero a tempo de impedir que Davis pressione o painel para parar o elevador. Dou um pontapé para afasta-lo deste e então enrosco meus braços em seu pescoço apertando-os fortemente até que ele para de se debater e cede a inconsciência.

Ryan me ajuda a sustentar o corpo inconsciente de Davis pegando um de seus braços e segurando-o pela cintura.

– O que fazemos agora? – pergunto um tanto apavorada.

– Torcemos pra que esse elevador não pare! – ele responde com os olhos em pânico.