Conexões
6 Capítulo V
Notas iniciais
Amy e eu segurávamos firmemente Francis, já que ele próprio não podia manter-se solido. A coloração de suas sardas tornava-se a cada segundo mais claras, suas pálpebras continuava fechadas, e respirava rapidamente como se necessitasse de oxigênio imediatamente, e isso me deixou extremamente preocupada. Olhei de soslaio para Amy, ela tentava mantê-lo fixo no lugar, mas devido a seu porte pequeno era difícil, então distribui o peso de Francis mais em meu ombro, assim o peso diminuiria, e ficaríamos quase equilibrados.
Meus ouvidos zuniam incessantemente por causa do vento lá fora, não conseguia ouvir o que os outros jovens diziam ou faziam, mas tinha a sensação de que provavelmente se refugiavam, como haviam feito antes. No entanto desta vez não se tratava de uma simulação, mas de um teste. Desde que pusemos nossos pés nesta nave ficamos em posse da OGE. E eles estão tentando extrair o máximo de conhecimento que podem ter de nós. Somos analisados, avaliados e agora testados.
Tirei o paraquedas do ombro, virando-o a procura de alguma instrução, nada. Repassei tudo que sabia sobre quedas livres, nenhuma informação vinha à mente. Voltei à mochila nas costas.
— Selena? — clamou Amy.
Fitei o céu pela grande abertura da nave.
— Temos que tentar! — disse, sem me dirigir para ninguém realmente.
—Aí é que está o problema — respondeu ela, pegando Francis rapidamente quando o garoto começou a se inclinar para frente, mole. — Não haverá mais de uma tentativa Selena. É dar certo ou errado, e eu sabiamente quero acertar.
Exatamente uma única chance. Encarei Amy com os pensamentos mais claros.
— Só vamos descobrir se tentarmos.
Ela analisou-me por alguns segundos, dizendo por fim:
— Eu devo é estar louca para concordar com isso.
Checamos os paraquedas uma última vez, respiramos fundos nos entre olhamos e mentalmente contamos até três. A partir então, corremos com todas as forças que pudemos, arrastando Francis, pois ele não conseguia acompanhar nossos passos, e quando estávamos na beira do portal, tomamos impulso e apenas nos jogamos para o infinito céu azul.
Parecia estar em um sonho, aquilo não parecia ser real. Não sentia que estava caindo, mas planando e deixando os ventos ricochetearem meus cabelos. Os olhos doíam por causa da rajada de ar contra eles, e sentia que meu corpo girava em pleno ar. Precisava manter-me reta, abri os braços com os cotovelos dobrados fazendo com que eles ficassem em forma de “V” ao lado do corpo, juntei minhas pernas e as levantei, mantendo os dos pés colados uns no outro, senti que tinha conquistado alguma estabilidade.
Olhei para os lados a procura de Amy e Francis. Amy estava a poucos metros de distancia, na mesma posição que eu. Estendi a mão para frente para que conseguíssemos nos aproximar, ela captou a idéia, e fez o mesmo gesto. Não demorou muito para estarmos frente a frente.
Fitei ao redor novamente, desta vez a procura de Francis. Diferente de nós duas, Francis estava metros abaixo, rodopiando isoladamente no ar, ouvi um apito baixo, porém audível, e um numero começou a piscar no paraquedas de Amy, aquilo deveria ser a contagem regressiva para que o paraquedas abrisse. Observei Francis ainda embaixo, e percebi que sua mochila não mostrava os números no marcador. O paraquedas de Francis não se abriria!
Meu coração se acelerou ainda mais. Francis continuava cair muito mais rápido do que deveria, e nossa distancia aumentava a cada bip da mochila. Encarei Amy a minha frente, pensando que iria encontrar olhos alarmados, mas para a minha surpresa o que encontrei foram olhos selvagens em tom verde iluminado como suas roupas. Não se parecia com a garota que agarrara meu braço na simulação, era uma Amy diferente, mais decidida. Ela estendeu a mão para mim, eu a peguei, Amy e eu nos arrastamos uma para outra e perto do meu ouvido ela gritou:
— Temos que chegar até o Francis!
Confirmei com a cabeça, tínhamos apenas trinta segundos ates que nossos paraquedas se abrissem e nos levassem para cima, enquanto Francis caia para um fim já previsto. Amy apontou para sua mochila, e depois para Francis, ela queria que o peso de nossos corpos unidos ajudasse para que chegássemos próximo a ele.
O vento não ajudava, e meus cabelos rodopiando como tentáculos me cegavam em alguns momentos. Segurei a mochila de Amy, nossos corpos formavam um projétil, esticamos os braços e nossa força foi direcionada para baixo. Francis que continuava a girar como cata-vento foi se aproximando, mais perto, e mais perto, até a mão de Amy alcançar a alça de sua mochila. Ela apertou um pequeno botão, quase invisível ao lado das alças, onde estava escrito “paraquedas reserva”, no mesmo instante um paraquedas se abriu majestosamente, levando Francis de volta para o alto, depois planando suavemente, ao mesmo tempo nossos paraquedas se abriram, fazendo com que a queda fosse mais lenta e muita mais agradável, o vento não era mais tão agressivo e pela primeira vez ao dia me senti mais segura.
Conforme as nuvens iam se dissipando, um pequeno ponto de terra foi surgindo, no principio pensei que se tratava de uma praia, e era, mas bem maior do que isso. Na verdade é uma ilha, rodeada por uma imensidão de água, apenas uma única longa ponte branca abre caminho até ela. Quanto mais perto nos aproximávamos, mais impressionada ficava. Na ilha havia grandes prédios brancos em formatos diversos, algumas casas cápsulas espelhadas e naves flutuantes. No entanto o que mais chamava a atenção era um enorme castelo, uma mistura de estrutura de era medieval e tecnologia, nele grandes letras destacavam-no “OGE”. Deveria ser a academia onde se fazem pesquisas, treinos, simulações, e onde são fabricados a maioria das tecnologias do mundo, e a partir de agora onde irei permanecer nos próximos meses. Uma bile sumiu pela garganta.
“Não se destaque Selena” foi o último conselho que minha mãe me deu antes de vir para cá, um conselho que eu avidamente não estou seguindo. Pular de uma nave, mas que ideia foi essa? Caminhar por dutos de ar, tentar entrar em contato com Francis por ondas cerebrais, bancar a heroína... Contudo, o que descobri nessas ultimas horas é que não prezo tanto assim por minha vida, ou a prezo tanto que acabo cometendo loucuras, nenhuma das opções parece boa.
Olhei para o lado, Amy acompanhava Francis mantendo-o por perto, ainda estávamos todos próximos, mas sentia que o vento iria nos levar em direções opostas. Amy balançou a mão indicando a água, senti meu sangue ser drenado, íamos pousar no oceano. Havia tido algumas aulas de natação com o meu pai, mas só a sensação de não poder respirar era desesperadora para mim, então parei.
Fechei os olhos, preparando para o iminente, eu sabia que se caísse com o paraquedas na água ele criaria uma barreira e eu não poderia submergir de volta a superfície, então me preparei para me separar dele quando a hora chegasse, tirei os braços pelas alças. Sente a agua me engolir.
Afundei como uma ancora, meu nariz ardia, e bolhas saiam da minha boca, puxei a água com os braços e voltei à superfície. Inspirei com força, necessitando por oxigênio, o sal do mar irritou meus olhos, e não pude saber se os dois pontos ao longe eram Amy e Francis. Avistei a margem da praia. Pensei no que aprendera. A primeira coisa que meu pai me ensinara sobre nadar foi boiar. Inclinei o corpo para trás, como se estivesse pronta para dormir, e relaxei. Para minha surpresa estava boiando! Suspirei aliviada, comecei a mover as pernas devagar, meu corpo se deslocando em direção a praia.
A Ilha ainda estava a poucos metros de distancia, minhas pernas tremiam, meus pulmões pareciam pesados demais, e minha respiração estava descompassada, mesmo assim o instinto de sobrevivência fez-me continuar. Encarei o enorme céu. E pensar que há poucos minutos eu estava caindo dele... a única coisa que gostaria é poder pisar em terra firme, e saber que meus amigos estariam bem.
Minhas preocupações foram jogadas de lado, quando uma enorme onda me cobriu, jogando-me para baixo, tentei subir novamente, mas outras ondas vieram, e me empurraram cada vez mais fundo, fazendo-me girar no fundo do mar. Senti as forças se esvaindo, me debati interminavelmente, tentando respirar, percebi que engolira água, e minha visão obscureceu pouco a pouco.
Acho que estou sonhando, ou será morrer é como se sentir em um sonho?
Sinto o corpo quente de alguém, mãos firmes em minha cintura. Escuto uma respiração cansada, e uma voz aveludada dizendo para que eu aguente firme. Imagino que meus dedos estão tocando areia, e uma imagem clara entra em foco sobre mim, é um garoto, aproximadamente dois anos mais velho que eu. Ele não é exatamente bonito, mas têm um charme que faz você querer olhá-lo de novo e de novo. Maxilar reto, olhos escuros e um cabelo extremamente branco, lábios firmes e rosados. Estes mesmos lábios estão vindo em minha direção, não sei se a morte é trazida por um beijo, mas sei que meus reflexos ainda continuam vivos, pois a única coisa que vejo a frente é minha mão indo em direção ao rosto próximo, ele segura meu soco com uma surpresa iminente no olhar, e esboça um pequeno sorriso que esconde no mesmo instante em que algumas pessoas se aproximam. Minha visão ofusca novamente.
***
— Ela está bem? — perguntou uma menina de cabelos curtinhos, que vinha correndo desvairadamente pela praia.
— E claro que ela está bem Amy, não percebe o movimento do tórax dela, está se movendo — respondeu um garoto de cabelos laranja que veio ao lado da menina.
— Não vou ficar olhando o tórax de ninguém, enquanto minha amiga pode estar morta Francis! — rebate a baixinha irritada.
— Temos que levá-la para enfermaria — eu aviso.
— Sim, devemos — concorda a menina que aparentemente se chama Amy.
Eu pego a garota ainda inconsciente no colo. O menino chamado Francis me olha com certo desdém, o ignoro como de costume.
— Vamos — oriento. — A enfermaria não fica muito distante daqui.
Enquanto carrego a menina, seus amigos me seguem nos calcanhares.
Repasso em minha mente toda aquela ação. Estava à procura de bambu para as novas zarabatanas das aulas de armas clássicas, quando ouvi o barulho do mar. Pensei que fosse mais um dos novatos infligindo as normas — afinal as regras são claras, é proibido nadar -, mas o barulho cessou de repente, corri para averiguar, e o que vi foi uma pequena mão submergindo, não pensei muito antes de agir, resgatei-a, e levei para a praia, ela possuí um rosto doce, nariz pequeno, cabelos castanhos avermelhados como os de uma raposa, mas foram seus olhos que me chamaram a atenção, eles eram de um verde marinho intenso, ela bela.. até que tentei salvá-la e quase recebi um soco.
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